segunda-feira, 21 de abril de 2008

A Paixão Segundo GH


Tive um professor em 1990 que um belo dia, antes das férias do meio do ano, disse: "Eu sei que ninguém vai ler nada em julho, mas de qualquer forma fica uma indicação: leiam A Paixão Segundo GH da Clarice Lispector e o Ulisses do James Joyce. E aí vocês não precisam ler mais nada para o resto da vida." Óbvio que em uma turma de exatas do segundo colegial (é meninos, o ensino médio já se chamou "colegial") ninguém leu. E eu sai de Exatas depois, juro. Isso é outra história.

Eu li trechos do livro nesses anos que se passaram (estou falando da Paixão Segundo GH, o Ulisses confesso que tentei, mas acho que ele precisa esperar um pouco por mim... ou eu por ele...). E peguei ele inteiro no ano passado. E a sensação que tive foi: "li com 17 anos de atraso." Hoje eu precisava colocar um trecho aqui. Não, não é o lindo final sobre a desistência. Às vezes a escolha mais sagrada de uma vida pode ser a desistência da desistência. É a página 117 mesmo.

"Mas há alguma coisa que é preciso ser dita, é preciso ser dita.
- Vou te dizer o que eu nunca te disse antes, talvez seja isso o que está faltando: ter dito. Se eu não disse, não foi por avareza de dizer, nem por minha mudez de barata que tem mais olhos que boca. Se eu não disse é porque não sabia que sabia - mas agora sei. Vou te dizer que eu te amo. Sei que te disse isso antes, e que também era verdade quando te disse, mas é que só agora estou realmente dizendo. "

Vira e mexe eu volto à Clarice. Quem me conhece já está de saco cheio de mim, quando eu começo a falar nela. Me desculpem. Mas às vezes ela volta. "Às vezes a vida volta." Às vezes ela nem chega a ir.

5 comentários:

Rosana Cristina Oliveira disse...

"...É curioso como não sei dizer quem sou.
Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer.
Sobretudo tenho medo de dizer porque no
momento em que tento falar não só não exprimo
o que sinto como o que sinto se transforma
lentamente no que eu digo."

(Clarice Lispector)

Lélia Campos disse...

"E de novo então me vens e me chegas e me invades e me tomas e pedes e me perdes e te derramas sobre com seus olhos sempre fugitivos..." (A beira do mar aberto, Caio Fernando Abreu)

Aline Baba disse...

A vida arrasa com a nossa existência.

Lélia Campos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lélia Campos disse...

Hoje a noite estava conversando com um amigo, e Clarice naturalmente apareceu na pauta. Disse a ele que um dia ainda a carregaria comigo pro palco, num monólogo, mas que só conseguia pensar em uma pessoa que eu gostaria que me dirigisse. Teria que ser alguém que fosse tão obsecado por ela como eu, alguém que eu soubesse que cuidaria bem dela, pra dirigir e adaptar, alguém que fosse muito sensível, ao ponto de chorar relendo trechos de um de seus livros, numa mesa de bar. Sim, pois é, só consegui pensar em você. Um dia ainda faço o convite, pode esperar...