
Última carta de Van Gogh à Theo
"... nunca me preocupei em reproduzir exatamente aquilo que vejo e observo
a cor serve para me exprimir, Théo:
amarelo,
terra,
azul,
corvo,
lilás,
sol,
branco,
pomar,
vermelho,
Arles,
e sulfurosas cores cintilando sob o mistério das estrelas
na profunda noite afundadas
onde me alimento de café, absinto, tabaco, visões
e um pedaço de pão, Théo, que o padeiro teve a bondade de fiar.
O mistral sopra mesmo quando não sopra
Os pomares estão em florindo
O mistral torna-se róseo nas copas das ameixeiras
Arles continuou a arder quando tentei matar aquele
que viu a minha paleta tornar-se límpida
mas acabei por desferir um golpe contra mim mesmo Théo
Cortei-me uma orelha e o mistral sopra agora só de um lado do meu corpo
Os pomares estão em flor e Arles, Théo, continua a arder sob a orelha cortada
por fim Théo
em Auvers voltei a cara para o sol
apontando o revólver ao peito
senti o corpo como um torrão de lama em fogo
regressar ao início num movimento de incendiado girassol..."
Olhando para o mar.
Como quem aguça a vista tentando enxergar a costa da África, ou a Espanha.
E você fica ali, apenas olhando o mar, sem poder entrar para saber se água está boa.
Com tintas, atos ou palavras, exprimindo um estado que não é concreto nem vago, ele é.
Apenas é. E a imensidão do mar à frente faz lembrar a imensidão da vida, que às vezes se apequena justamente por ser sem fim.
"... é a vida, mais do que a morte, a que não tem limites."
(Gabriel Garcia Marquez)
"não sei se o amor é grande ou se sou eu que sou pequena demais."
(Arístides Vargas)
"mar adentro, mar adentro..."
(Ramón Sampedro)
"Eu só posso olhar, nem posso saber se água está boa."
(Eu, no sonho)
Movimento de incendiado girassol.
"Amar alguém
é uma longa viagem –
penhascos, quedas de água e momentos escuros
inesperados, dilatados
perímetro de florestas,
relâmpagos por vezes
sobre o silêncio tão vasto do mar
e estradas sobrelevadas,
gritos, avenidas subitamente mergulhadas
numa luz desconhecida.
Amar um, mil, todos
é como segurar um mapa contra o vento.
Nunca se consegue
mas o coração me puseram no centro do peito
para este elevado, maravilhoso fracasso.
Nos planaltos de cada noite
eis-me com as explicações e as mãos viradas
ao contrárioda poesia:
não lhes faças mal, são teus, não os mandes embora."
(Davide Rondoni)