domingo, 29 de junho de 2008

Witkin e afins


Uma foto do Joel-Peter Witkin.
A arte um tanto bizarra deste fotógrafo têm sido inspiração para alguns trabalhos. Sem querer tornar o macabro em fetiche, o diálogo entre sagrado e profano que ele constrói é no mínimo intrigante. Como se só depois de encarar o que existe de podre e imperfeito fosse possível alguma transcendência. Ou como se ela estivesse já embutida no seu extremo oposto.
Para olhar sem preconceitos, com calma e reflexão, antes de negar.
A imagem dele que mais me chamou a atenção foi "Woman Once a Bird". No google é um dos primeiros resultados quando se coloca o nome do autor. Maiores explicações sobre ela não darei aqui, os curiosos façam isso, como uma provocação e surpresa para exemplificar o que disse no primeiro parágrafo. Leiam sobre ela. Sobre o processo de criação e a referência à História da Arte. Vale a pena. Mesmo que seja para negar, depois. Em um segundo momento.

Chocar por chocar é bobagem. Mas quando há um discurso, quando existe algo consciente e propositado, é muito melhor uma obra que nos incomoda do que aquela que simplesmente serve a um entendimento de "Belo" como "bonito". Quando eu escuto comentários do tipo "não gostei de tal peça, de tal filme" e a pessoa, ao ser indagada sobre o porquê, diz "porque me fez mal" ou algo do tipo, traduzo imediatamente como algo extremamente positivo... Se concordamos com Brecht, ao dizer que inaugurar um novo olhar sobre as coisas - que tire a nossa visão de mundo do "cômodo" - é a tarefa mais importante da Arte, a verdadeira noção de "política", então os preconceitos devem ser extirpados.
"Olhos Recém-Nascidos", talvez.
Não ingênuos, mas desprovidos de preconceitos.
Tudo isso por causa do Witkin?
Não, acho que por causa de tudo.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Aqui jaz... niguém


PEER
Será que não há ninguém, ninguém na terra inteira, ninguém na escuridão, ninguém no céu?

Ah, acho que morri muito antes do que o meu corpo!

Quero subir até os picos mais altos e escarpados, quero olhar uma vez mais para o sol nascente e contemplar a terra prometida!

E então, que a neve caia e se amontoe sobre mim, e que se escreva por cima:

“Aqui jaz – ninguém.” E depois... depois, venha lá o que tiver que vir!


"Peer Gynt", V ato.



O herói nunca morre no meio do V ato. E estamos chegando ao final dele. Passamos do meio. As pessoas têm mania de acusarem umas as outras de "carentes". Como se o oposto disso fosse a capacidade de se virar bem sozinho, sem ajuda nem suporte dos outros, como se o heroísmo solitário do sacrifício tivesse que ser louvado o tempo todo.

Temos que ser fortes. E forte é aquele que aprendeu a sofrer sozinho, que aprendeu a abrir mão, a não necessitar das coisas, que aprendeu a prescindir de toda a humanidade. Os outros são "carentes". Aqueles que infelizmente fizeram um pacto com o desejo de compartilhar qualquer coisa que seja externa a eles mesmos.

"Peer Gynt" de Ibsen. Uma aventura, com alunos. Mas sempre uma aventura.
"Basta-te a ti mesmo"; "Sê tu mesmo" - os lemas de Peer e dos Trolls.
Que o levaram, ao final do V ato, à fala aí de cima.
Dias 04, 05 e 06 de julho completa-se um encontro.
Com o egoísta, individualista, bruto, bêbado e arrogante - e amoroso, carente, solitário e humano Peer Gynt.

Até o final do V ato.

terça-feira, 24 de junho de 2008

anotações sobre Jeff


Há muito tenho mania de anotar as coisas.
Não por obrigação. Talvez por uma compulsão. Talvez por acreditar que as coisas se fixam melhor quando não dependem só da escuta, ou só da visão. Talvez por achar que escrever ou rabiscar gera uma postura ativa que dialoga com o que estamos apreendendo.
Acho que escrever aqui agora é um pouco isso - anotações, no caso a esmo.
Esta imagem é de uma moleskine - um dos meus objetos de desejo - com anotações da letra de "Lilac Wine" supostamente feitas pelo Jeff Buckley.
A música foi interpretada pela primeira vez até onde sei pela Nina Simone. E Jeff costumava agregar o repertório da Nina ao seu.
Já nem me lembro se postei sobre "Lilac Wine" aqui. Acho que sim. Mas estou com preguiça de verificar. Aí está a letra:
I lost myself on a cool damp night
Gave myself in that misty light
Was hypnotized by a strange delight
Under a lilac treeI made wine from the lilac tree
Put my heart in its recipeIt makes me see what I want to see…
And be what I want to be
When I think more than
I want to think
Do things much
I never should DO
I drink much more than
I ought to drink
Because it brings me back you...
Lilac wine is sweet and heady, like my love
Lilac wine,
I feel unsteady, like my love
Listen to me…
I cannot see clearly
Isn't that she coming to me nearly here?
Lilac wine is sweet and heady, where's my love?
Lilac wine I feel unsteady,where's my love?
Listen to me, why is everything so hazy?
Isn't that she, or am I just going crazy, dear?
Lilac wine,
I feel unready for my love...
Não entendeu, ok, está em inglês. Sem desculpa. A tradução está aqui: http://letras.terra.com.br/jeff-buckley/683714/
Baixem "Lilac Wine" na versão do Jeff. Vale a pena. Quem não gostar dessa música é um insensível ou um mal caráter.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

O Grito


Queria ter o poder de um grito.

Um grito que ecoasse realmente para além - para além da incomunicabilidade, para além das incompreensões, para além da distância e da dificuldade.

Queria ter o poder de um grito que cruzasse a cidade.

Que cruzasse ruas, que entrasse pelas janelas, que passasse por debaixo das portas.

Que fosse tão concreto em sua potência que próprio ato de gritar fosse auto-explicativo, que não precisasse de palavras, de teorias ou filosofias. Um grito em estado puro, que purificasse à um só tempo aquele que grita e aquele que ouve.

O que grita e o que ouve unidos por segundo - na tênue mas sagrada união de uma manifestação de ser, de estar no mundo - simplesmente por uma expressão pura.

Um grito que substituísse o pensamento, que substituísse a ação e a inação pensadas. Que transformasse o segundo anterior a ele e o segundo posterior a ele em um silêncio abissal, de Terra desabitada.


Eu queria ter o poder de um grito que fosse como a tradução de tigre aprisionado, de dor aprisionada, de saudade aprisionada, de vitória aprisionada.

Um grito que não fosse violência, mas ruptura. Que devolvesse a quem grita e a quem escuta o grito a capacidade simples da escuta humana.

Grito de Munch. Grito de Mãe Coragem, ensurdecedor na sua mudez.


Mas eu não grito. Ou grito para dentro por saber que para fora ele não sai. E ele ecoa dentro de mim, e se multiplica, e se perde, ricocheteando o som em camadas de alma, de sangue e de pele.


E o resto é silêncio.

domingo, 22 de junho de 2008

terça-feira, 17 de junho de 2008

Dia 17 de junho


Reflexões. Deixando as coisas se assentarem aqui dentro.
Gosto de pensar no Quixote como um presente para um público ideal.
Como se esse público ideal estivesse sentado na platéia - tanto faz pensá-lo no coletivo ou como uma única pessoa - e para ele fosse dedicado tudo o que acontecerá nessa hora de peça.
Pensemos o público ideal como uma única pessoa.
Que essa pessoa sente-se e olhe para o espetáculo como quem olha dentro de nós, que o fazemos.
Que entenda que cada segundo ali possui um sentido maior, possui uma história que tentamos traduzir em imagens, como um filtro que tirasse aquele momento do nível do "depoimento pessoal" e tentasse universalizá-lo mais. E que saiba conversar com a peça como quem conversa com um amigo.
Que você, público ideal, receba esse presente como quem recebe uma flor - ela é efêmera e morre logo, mas em toda a sua plenitude dos poucos instantes de vida lhe está sendo oferecida. Cuide dela com os olhos. Cuide dela aspirando até não poder mais seu aroma. Quando ele tiver se dissipado, ainda sobrará a memória.
Sente-se confortavelmente. Não tenha pressa. Desligue o celular. Observe o espetáculo como quem senta de frente a um amigo para falar da vida. Deixe que os pensamentos fluam como resposta às coisas que a cena estimular em você. Faça do seu silêncio não apenas uma convenção de respeito, mas um ato de cumplicidade, um silêncio preenchido.
Abra o seu presente com os olhos do coração. Não pense se serve, se a cor lhe agrada, se o estilo é o seu. Viva o momento simples de receber. A gratidão por ser especial. Receba. Deixe a análise crítica para depois.
Está aqui o seu presente. Sempre.
A cada dia que ele é apresentado, você existe ali, o público ideal.
Que faz com que o desejo de oferecer tudo isso transborde para o público real.
E oferecemos o seu presente, mesmo que você não esteja presente para recebê-lo.
(Foto: Quixote observa a roda girar. É só uma roda, mas ele vê um moinho. É só uma roda, roda de bicicleta. Mas é um moinho.)

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Segunda-feira


Todas as vezes que volto de viagem depois de uma apresentação é como voltar à realidade.

Chegada em Mogi Guaçu.
Você marca com o técnico do teatro às 14h. Ele não está lá, aparentemente.
De repente ele aparece, mas não é o mesmo que havia falado com você pelo telefone.
A montagem será feita com andaime, não com escada. Pé direito alto. Você explica tudo o que precisa, e depois ele diz: "Alguém aí afina luz? Porque eu não subo no andaime."
Pergunta em monólogo interno: ele não sobe porque não é trabalho dele (como, se é técnico de luz?) ou porque tem medo?

Dá-lhe subir andaime. Na truculência.
Dia dos namorados, jogos de futebol, morte do Jamelão, tudo passa em branco.
Com mais coisa na cabeça para se preocupar.

A gente ganha pouco mas se diverte. Muito. Faz da dificuldade motivo de risada.
Falta de tradição, de profissionalismo, que merecia quebrar o pau? Pode ser, mas entre engrossar o coro dos insatisfeitos ou interromper a ação, é necessário fazer. Fazer.
É preciso passar por cima das dificuldades sim. E estou plenamente convencido de que esta peça tem alguma coisa. Mesmo com todos os revezes, na hora que acontece (e olha que até o som desta vez estava com problemas, as caixas chiavam) comunica algo.
Comunica sim. Ao menos aos dispostos a captarem.

Volto para São Paulo, retomo a vida cotidiana.

(Foto: despedida de Mogi Guaçu, domingo)

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Desisto


"A insistência é o nosso esforço, a desistência é o prêmio.
A este só se chega quando se experimentou o poder de construir e,
apesar do gosto de poder,
prefere-se a desistência.
A desistência tem que ser uma escolha.
Desistir é a escolha mais sagrada de uma vida.
Desistir é o verdadeiro instante humano.
E só esta, é a glória própria de minha condição.
A desistência é uma revelação"

Clarice Lispector, "A Paixão Segundo GH"
"(...)
Pausa.
Não resta nada a dizer.
Pausa.
Ele quer fechar o livro. Batida. Livro ainda entreaberto.
Não resta nada a dizer.
Pausa.
Ele fecha o livro.
Batida.
Silêncio.
Cinco segundos.
Juntos eles põem a mão direita sobre a mesa, levantam a cabeça e se olham.
Fixamente. Sem expressão.
Dez segundos.
Apagar lentamente a iluminação."
Samuel Beckett, "Improviso de Ohio"

terça-feira, 10 de junho de 2008

A medida da felicidade



Eu já nem lembro se coloquei essa imagem aqui no blog em algum post anterior.

Ela esteve em um antigo fotolog e é uma imagem recorrente, mas estou sem a menor intenção de verificar dia a dia se já usei. Se usei, uso de novo.

"O Beijo", do Klimt. A imagem de um casal de amantes que se inclina para um beijo, em uma posição de entrega e união. Em complementaridade. Onde a unidade é formada por dois, que mantém suas peculiaridades e posições masculino/feminino sem dominação de um dos lados. Sem predomínio, mas em harmonia.

Uma imagem do passado.

Pode ser uma imagem já batida. Tanto faz. Não precisamos ser escravos do novo. O novo é um acréscimo que não precisa derrubar o que já havia antes. E não necessariamente é melhor. Ele é só uma soma. E pronto.

A medida da felicidade: quando o seu presente é melhor que o passado.

Percebe que futuro não tem a ver com felicidade?

Só o presente.

Quando ele supera o passado.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

deus ex machina


"A expressão latina "deus ex machina" significa literalmente "deus surgido da máquina".
A expressão é uma tradução do grego "apó mechanés theós". Sua origem encontra-se no teatro grego e refere-se a uma inesperada, artificial ou improvável personagem, artefato ou evento introduzido repentinamente em um trabalho de ficção ou drama para resolver uma situação ou desemaranhar uma trama." (Wikipédia)
Inesperada, artificial ou improvavél personagem, artefato ou evento para resolver uma situação ou desemaranhar uma trama. O "deus ex machina" virou uma expressão para indicar uma solução tirada da cartola para resolver uma trama. No sentido pejorativo mesmo.
Aí eu vi o "Sonho de Cassandra" do Woody Allen.
Falei disso. Os filmes dele têm tido uma espécie de "satanas ex machina", se fosse possível usar essa expressão com uma piadinha tosca. Porque parece que do nada cai um piano na cabeça das pessoas ou alguém coloca merda no ventilador sem avisar.
Se o inesperado existe na vida, por que não crer que ele, pelo menos de vez em quando, jogue a favor?
Deve ter uma lei contrária à do Murphy.
Ou esse cara da foto está danado.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

"Eu só posso olhar, nem posso saber se água está boa"


Última carta de Van Gogh à Theo


"... nunca me preocupei em reproduzir exatamente aquilo que vejo e observo
a cor serve para me exprimir, Théo:

amarelo,
terra,
azul,
corvo,
lilás,
sol,
branco,
pomar,
vermelho,
Arles,

e sulfurosas cores cintilando sob o mistério das estrelas
na profunda noite afundadas
onde me alimento de café, absinto, tabaco, visões
e um pedaço de pão, Théo, que o padeiro teve a bondade de fiar.
O mistral sopra mesmo quando não sopra
Os pomares estão em florindo
O mistral torna-se róseo nas copas das ameixeiras
Arles continuou a arder quando tentei matar aquele
que viu a minha paleta tornar-se límpida
mas acabei por desferir um golpe contra mim mesmo Théo

Cortei-me uma orelha e o mistral sopra agora só de um lado do meu corpo
Os pomares estão em flor e Arles, Théo, continua a arder sob a orelha cortada
por fim Théo
em Auvers voltei a cara para o sol
apontando o revólver ao peito
senti o corpo como um torrão de lama em fogo

regressar ao início num movimento de incendiado girassol..."


Olhando para o mar.
Como quem aguça a vista tentando enxergar a costa da África, ou a Espanha.
E você fica ali, apenas olhando o mar, sem poder entrar para saber se água está boa.
Com tintas, atos ou palavras, exprimindo um estado que não é concreto nem vago, ele é.
Apenas é. E a imensidão do mar à frente faz lembrar a imensidão da vida, que às vezes se apequena justamente por ser sem fim.

"... é a vida, mais do que a morte, a que não tem limites."
(Gabriel Garcia Marquez)

"não sei se o amor é grande ou se sou eu que sou pequena demais."
(Arístides Vargas)

"mar adentro, mar adentro..."
(Ramón Sampedro)

"Eu só posso olhar, nem posso saber se água está boa."
(Eu, no sonho)

Movimento de incendiado girassol.

"Amar alguém
é uma longa viagem –
penhascos, quedas de água e momentos escuros
inesperados, dilatados
perímetro de florestas,
relâmpagos por vezes
sobre o silêncio tão vasto do mar
e estradas sobrelevadas,
gritos, avenidas subitamente mergulhadas
numa luz desconhecida.

Amar um, mil, todos
é como segurar um mapa contra o vento.
Nunca se consegue
mas o coração me puseram no centro do peito
para este elevado, maravilhoso fracasso.

Nos planaltos de cada noite
eis-me com as explicações e as mãos viradas
ao contrárioda poesia:
não lhes faças mal, são teus, não os mandes embora."
(Davide Rondoni)

O coronel Aureliano Buendía promoveu 32 revoluções armadas e perdeu todas


"Em vez de se dirigir ao castanheiro,
o Coronel Aureliano Buendía foi também para a porta da rua
e se misturou com os curiosos que contemplavam o desfile.
Viu uma mulher vestida de ouro no cangote de um elefante.
Viu um dromedário triste.
Viu um urso vestido de holandesa
que marcava o compasso da música
com uma concha e uma caçarola.
Viu os palhaços virando cambalhotas no final do desfile
e viu outra vez a cara da sua solidão miserável,
quando tudo acabou de passar
e não ficou senão o luminoso espaço na rua
e o ar cheio de tanajuras
e um quantos curiosos próximos
ao precipício da incerteza.
Então foi para o castanheiro,
pensando no circo
e enquanto urinava
tentou continuar
pensando no circo,
mas já não
encontrou
a lembrança.
Meteu a cabeça
entre os ombros,
como um frango,
e ficou imóvel
com a testa
apoiada
no tronco
do castanheiro.

A família não soube de nada até o dia seguinte,
às onze da manhã,
quando Santa Sofia
de La Piedad
foi jogar o lixo
no quintal
e lhe chamou a atenção
o fato
de estarem
baixando
os urubus."

(Gabriel Garcia Márquez, Cem Anos de Solidão)

O Coronel Aureliano Buendía promoveu trinta e duas revoluções armadas e perdeu todas. Escapou de um pelotão de fuzilamento e de emboscadas, para morrer urinando com a testa apoiada em um castanheiro.

Assisti "O Sonho de Cassandra" do Woody Allen. Também a mesma sensação: os ritmos da vida não acompanham os nossos planos. Não se está nunca pronto para a vida - que em seus dois extremos, o Amor e a Morte, sempre nos surpreendem. Aliás são esses os extremos: o contrário da Morte não é a Vida, mas o Amor, que é a Vida em estado pleno de vida. Para eles não há a menor preparação.

"O sujeito se aborrece tanto para depois ser fuzilado por meia dúzia de maricas sem poder fazer nada." Este poderia ser o fim irônico do Coronel. Não. Foi mais irônico ainda. Mijando em um castanheiro. Morreu de pé, urinando.

Woody Allen faz algo parecido. A ironia que nos mostra despreparados. Que nos pega despreparados.

32 Revoluções Armadas. Perdeu todas. De novo o anti-herói.
Falei de morte, me desobrigo de falar de amor - a ironia aí é maior porque o sujeito sobrevive para ruminá-la. Pelo menos na maior parte das vezes.

Enfim, "O Sonho de Cassandra" vale a pena.
Fica a sensação de que o Woody Allen mesmo quando não está em seus melhores dias é sempre acima da média. Dos últimos, ainda prefiro o "Match Point".
Mas fica a sugestão.

Assim como fica a sugestão de leitura do "Cem Anos de Solidão" - olha que hoje em dia na internet você encontra a árvore genealógica dos Buendía, coisa que há um tempo atrás tinha que ser feita à mão para o sujeito não se confundir com tantos Aurelianos e Arcádios e Remédios e Amarantas e por aí vai... Hoje você coloca no google "arvore genealogica cem anos de solidão" pronto. Maravilhas da tecnologia.

Questão de gosto e de qualidade. Melhor livro do Garcia Márquez, sem dúvida.
É o que eu mais gosto? Não. Ainda prefiro "O Amor nos Tempos do Cólera".

Qual a relação entre tudo o que eu escrevi? Não sei, acho que uma relação meio forçada para falar sobre o destino - aquela parte do livre arbítrio, ok, de novo esse papo - que tentamos traçar e as leis desconhecidas da natureza e do mundo. Ou seja, filosofia meio barata à 1h30 só para movimentar um pouco o blog que estava falando há dois dias do "Jardim de Polvos".

Então falo de "Macondo", peça que estréia sexta e fica até domingo no Macunaíma, com alunos do PA3 da tarde. Uma tentativa de tocar, ainda que de leve, no universo de "Cem Anos de Solidão".

Boa noite - ou bom dia?


quarta-feira, 4 de junho de 2008

"Os sonhos são o raio infinito da memória"


Estação de trem de Ribeirão Pires.
Aí começou a viagem de hoje. Uma viagem curta, município próximo, com carinha de cidade do interior. Montagem de luz, correria, o elenco se desdobrando para chegar em plena sexta, dia "útil". E pela primeira vez, este ano, "Jardim de Polvos", em versão palco italiano para o Festival.
Mais "desafio" que "dever cumprindo", sabíamos disso. Mas ficou o gosto de dever cumprido, ao menos de uma etapa que se cumpre.
A semana começa com "Jardim". Sexta, "Macondo" na Mostra do Macunaíma. Quinta que vem de mala e cuia para Mogi Guaçu com "Quixote". Diretor-caixeiro-viajante. Correria boa.
A pesquisa no teatro é tão instigante que às vezes nos esquecemos do prazer mais simples e óbvio: apresentar. Apresentar um espetáculo não é um exercício de egocentrismo, não é exibicionismo: é antes de tudo uma tentativa de comunicação. Lembro do Grotowski:
"Nunca monto um espetáculo para mostrar aos outros o que já sei. Só depois da peça estar pronta é que talvez terei aprendido algo"
Apresentar é dividir com outras pessoas o resultado de uma viagem interna. Não para ensinar-lhes alguma coisa, mas para repartir questões, impressões, para compartilhar seu espanto perante o mundo, na expectativa de que isso repercuta, preferencialmente de que gere outras questões, outras impressões, etc... etc...
Eu realmente acredito que em todo o espetáculo, potencialmente o espírito do teatro "baixe", ao menos em um momento, e que naquele instante volte a existir a comunhão original da época em que o mito e a arte andavam de mãos dadas. Em que o teatro realmente era o que qualquer cerimônia, missa, culto ou rito gostaria, hoje, de ser.
A cumplicidade silenciosa, a respiração conjunta, a emoção do humano que celebra o que tem de melhor ou aponta o que há de pior.
Teatro. Celebração do humano.
Vivemos em uma era da informação imediata, rápida, supercial - consequentemente. Prezamos pela variedade, não pela profundidade. O teatro é o contra-fluxo disso. Tem que ser. Com todo respeito às novas tecnologias, às experiências multimídias e afins, que podem certamente gerar novas possibilidades, esse contato humano direto, esse tempo REAL do ator em cena e do expectador na platéia, esse jogo do contador de histórias arquetípico que senta-se à luz da fogueira precisa continuar existindo, na pele de seus descendentes, os atores.
Com a mesma alegria do menino em seu primeiro dia de teatro eu digo: que delícia apresentar.
Sem ignorar a necessidade da pesquisa e dos meses de ensaio eu digo: que delícia apresentar.
Sem ter falsas ilusões de que o trabalho mostrado esteja pronto, sem nem de longe defender que os processos se atropelem eu digo: que delícia apresentar.

terça-feira, 3 de junho de 2008

"Se nos esquecermos de sonhar, o país dos sonhos será um enorme deserto, sem passado nem futuro"



Mãe
Não seja chato, José, baixa a voz!
Está bêbado ou o que te acontece?
Quer fazer que seu tio se levante da tumba?

José
Não, mãe, que não se levante!
Que termine de morrer e não volte.

Mãe
Silêncio, mal educado, silêncio!

José
O passado é uma muleta:
nos ajuda a andar,
mas certifica que somos uns aleijados.
(...)
José
Não quero continuar sonhando.

Antonia
Então nunca saberá por que perdeu a memória.

José
Para que fuçar num passado onde só há lamentos?
Antonia
O problema é que se esquecemos o que nos dói,
possivelmente nos esquecemos do que nos pode fazer feliz;
e mais, quem sabe já tenhamos esquecido,
mas se nos esquecermos de sonhar,
o país dos sonhos será um enorme deserto,
sem passado nem futuro.

Daqui a pouco (oficialmente, hoje já é terça): "Jardim de Polvos" em Ribeirão Pires,
no I Festival de Teatro Celso Ribeiro (http://www.metodista.br/rronline/cultura/ribeirao-pires-apresenta-i-festival-de-teatro/)

Hoje sentei e assisti o ensaio.


Quando isso acontece, quando você se vê de novo como público, mesmo dirigindo uma peça, é porque algo está no caminho certo. Mesmo quando ainda há muito o que fazer.
O caminho está certo. Caminho de sonhos, de passado, de lembranças.
Caminho de recordações. Na peça e na vida.
De outros dias, de sala de aula, de momentos engraçados, de momentos difíceis, de momentos de aprendizado - ensinando e aprendendo - de encontros, de desencontros, de se achar e de se perder. De descobrir juntos.

Em cena Edu, Mari Mazi, Sabrina, Priscila, Thais, Ju e Vinícius: alunos da minha primeira turma da São Judas. Companheiros de convívio, direto ou indireto, de dois anos por lá. Pessoas que marcaram uma época importante da minha vida. Em uma peça que não pude assistir no ano passado, formatura deles - no horário das aulas...
Mas quis o destino que essa peça entrasse no meu caminho como um trabalho do qual participo hoje.

"Jardim de Polvos", amanhã (hoje).
Agora com um "olhar de fora".

Desde já, meu carinho por vocês todos e o obrigado por ser esse "olhar de fora".



MERDA para todos nós.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Sobre o Tempo e o Kahn


Esta foto é do primeiro de maio em Berlim. Tirada pelo Kahn. Roubada diretamente do blog dele.
Entrem lá. Tem mais coisas boas. E o link está aqui. Kahn foi para a Alemanha. Ficou quase três meses lá. E acabou de voltar, na sexta feira.

Há um mês atrás era primeiro de maio aqui. Ok, hoje é dia 02. Então ontem, há exatamente um mês atrás, foi primeiro de maio. Na Alemanha da foto e aqui. E hoje, passado um mês, o mundo continua a girar e a vida continua, com primeiros de maio, junho, julho, agosto, etc... Um mês da foto. E quase três da viagem do Kahn.

Conversamos sobre a viagem, ele me contou sobre Berlim, sobre Dusseldorf, sobre as fotos que tirou, sobre os trabalhos que fez, sobre a japonesa louca que queria alugar um quarto para ele, sobre nossos amigos que estão morando lá, sobre os dias que passou por Paris e sobre o quanto os alemães bebem.

De repente, no meio da conversa, eu digo: "nossa, passou rápido não?"
O Kahn diz que não, que nas últimas semanas, principalmente o tempo que passou em uma cidade próxima a Berlim trabalhando como free-lancer em um jornal, os dias pareciam não passar...

Aí me lembrei do óbvio: a relatividade do tempo. Me lembrei de quando estive na Grécia por quase três meses também e do período em que, apesar de tudo de maravilhoso que o trabalho, o teatro e Atenas me proporcionavam a saudade de contato humano próximo e real com as pessoas que amava tornavam a data de retorno uma contagem regressiva. E de como para as pessoas que estavam aqui o tempo parecia muito mais rápido do que para mim.

Eu estive aqui o tempo todo, tocando a vida, a rotina, as quebras de rotina, mas dentro do "normal". O Kahn vivendo o oposto: a diversidade, o novo, o desconhecido. Outro país, outra língua, outros costumes, outra forma de se relacionar com as pessoas. Vida intensa, para bem e para mal. Intensidade onde cada dia parece enorme, tanto quando as coisas são boas quanto quanto o tédio aparece.

Você passeia por uma cidade européia, nossa, que máximo! Sozinho, sem compromissos nem horários (as vezes). Ninguém te conhece. Uma sensação de liberdade em poder gritar um palavrão em português alto (as vezes tem brasileiros ou portugueses por ali, cuidado) e outras besteiras do tipo. Legal. No primeiro dia. No segundo. Na primeira semana. No primeiro mês? Depois começa a ficar meio complicado. "Todo o mundo é uma província". Para quem ficou aqui, tudo parece lindo, e parece absurdo dizer que chega um ponto em que o que você mais queria era simplesmente estar deitado do lado de alguém que gosta aqui mesmo, vendo televisão ou tomando uma cerveja no bar da esquina. Ok, transportar alguém para lá poderia ser uma opção se fosse possível, como não é fiquemos com o colchão colocado na sala mesmo em frente à TV.

O tempo é relativo e não precisa o Einstein lembrar disso. Ele já comentou sobre e desde então a gente sabe.

Faz exatamente 10 anos desde o primeiro de maio de 2008.

(Foto: primeiro de maio em Berlim, 2008. Dez anos atrás. Por Marcelo Kahn)