sábado, 24 de dezembro de 2011

Feliz Natal


"A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar".

Eduardo Galeano

"Escrevo à noite. Vem na aragem noturna um cheiro de estrelas. E, súbito, eu descubro que estou fazendo a vigília dos pastores. Aí está o grande mistério. A vida do homem é essa vigília e nós somos eternamente os pastores. Não importa que o mundo esteja adormecido. O sonho faz quarto ao sono. E esse diáfano velório é toda a nossa vida. O homem vive e sobrevive porque espera o Messias. Neste momento, por toda a parte, onde quer que exista uma noite, lá estarão os pastores – na vigília docemente infinita. Uma noite, Ele virá. Com suas sandálias de silêncio entrará no quarto da nossa agonia. Entenderá nossa última lágrima de vida."

Nelson Rodrigues (crônica natalina publicada em O Globo)


Eu sempre gostei de pensar o Natal para além da crítica do consumismo ou da tacação de pedra generalizada no Cristianismo.
Não estou preocupado com a sociedade de consumo. Ela está aí e é evidente. Chover no molhado no Natal é que nem convidar um amigo vegetariano xiita pra ceia e deixar ele ficar lastimando o destino do peru.
Não estou preocupado também em fazer a crítica da Igreja Católica e tal. Deixo o nascimento do menino Jesus em seu plano mítico de um deus que se faz homem e nasce em meio aos outros homens para que nos lembremos da nossa parcela divina. E para que o deus talvez se lembre de sua parcela humana. Para mim a metáfora basta. E me parece tão bela quando as mitologias "politicamente corretas" da Grécia, da África ou dos nossos índios. Crer ou não crer não é o ponto.

Quando eu era mais novo lembro de uma amiga que perdeu o pai e me disse: "ou Deus não existe ou ele é mau". Me pareceu injusto contrariá-la naquele momento mas hoje, depois de ter perdido a minha mãe eu digo: depois de tantas guerras, fome, doença, miséria, morte e o escambau, não porque minha mãe morreu que eu passo a acreditar ou desacreditar em Deus. O ser humano já sofria - e muito - antes de pisarem no meu calo.

Hoje, dia 24 de dezembro, minha mãe faria 82 anos. Por isso minha avó teve a brilhante idéia de colocar o nome de Natalina nela. Dona Maria Natalina estaria preparando as coisas para a noite, com certeza.

A melhor forma de lembrá-la é resistir à tristeza e lembrar que mesmo com toda a dor do mundo o Natal pode ser uma ocasião para nos lembrarmos de que, como toda a utopia, esta data pode ser uma maneira de nos fazer caminhar. Se possível para uma direção com mais tolerância e compreensão entre as pessoas, para além dos lugares comuns sobre sociedade de consumo, política, religião e etc.

E os vegetarianos que me perdoem também, mas que a morte de todos os chesters, perus, porcos e afins não tenha sido em vão e que eles possam alimentar muitas orgias alimentares.

Feliz Natal e um ano de 2012 digno do fim do mundo Maia.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Belas Artes



Eu ainda passo ali pela Consolação e não me acostumo com o Belas Artes fechado.
O fechamento do Riviera Bar ali em frente já foi um golpe.
Também não me acostumei ainda.

A cidade vai mudando e a gente nem se dá conta. Teatros virando igrejas, casarões antigos virando bancos, cinemas virando bingos, bingos fechados virando sei lá o que, e por aí vai...

Antes que as usinas hidrelétricas virem grandes bolsões de cata-ventos gigantes, os atores da Globo poderiam se empenhar mais nas questões culturais e deixar a Ecologia para quem entende do assunto - nem eu, nem eles. Uma coisa aparentemente não tem relação com a outra, mas acho um absurdo o descaso com a cultura. Além daqueles que estão de olho em salvar o próprio aluguel, quem se importa com Leis de Incentivo, Fomento, Formação de Público e o escambau? Sim, eles SÃO formadores de opinião. Se ninguém fizer essa ponte - entre a classe artística e a sociedade - vamos continuar uma ilhazinha, uma pequena cidade do interior com vinte mil habitantes de DRT e pires na mão.

Uma cidade de artistas e teatros fechados, cinemas fechados e um monte de igrejas, bingos e bancos. Que supostamente apóiam a cultura.

Vai lá com a sua Rouanet debaixo do braço, vai.

Ah é... Esqueci que falar de ecologia é mais legal (mesmo não entendendo do assunto)...

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Alice



... e então ela olhou para os lados e viu a velha casa com os móveis cobertos por panos brancos e o barulho que mais se ouvia era o do plástico bolha estourando com as passadas despreocupadas dos homens que carregavam coisas com o cuidado medido na proporção exata de quem não quer quebrar nada mas ao mesmo tempo não tem nenhum amor por aquilo que carrega. E tudo foi se esvaziando, esvaziando, esvaziando até não sobras coisa alguma e ela chorou em um canto perto de uma janela sem cortinas e na sua imaginação as lágrimas formaram uma poça d´água onde ela boiou sem destino por muito, muito tempo. No fim, uma mão pousou no seu ombro e a tirou desses pensamentos. E tudo estava seco e vazio. E ela saiu de lá. Quase conseguiu ver um coelho passando pelas escadas, mas ele foi rápido demais para que isso acontecesse.

sábado, 10 de setembro de 2011

Vovó Mafalda Coletivo Teatral - Primeiro Manifesto



Primeiro Manifesto

O Vovó Mafalda Coletivo Teatral propõe o retorno da Arte ao seu estado único de ação agregadora de estímulos, símbolos e leituras do real que por si só pretende recriar a sensação primeira do homem primitivo ao sair de sua caverna e gritar: "salve o dia", mesmo antes de haver uma linguagem articulada;

Nosso bom selvagem hoje é o homem da metrópole, o homem coisificado, que deve despertar de seu estado de insônia sonambulesca urbana e rever o rosto do palhaço-travestido no espelho - o pancake branco, sua verdadeira face escondida pelo falso glamour das cidades;

A Arte do Teatro só reencontrará sua chama original pela desconstrução até daquilo que já se desconstruiu; nem o pós dramático nos serve - ele precisa ser desfigurado: só com uma torta na cara Lehmann reencontra seu estar-no-mundo;

O palco é a Vida, e a Vida precisa ser resignificada para que de novo faça sentido entre os quatro lados do picadeiro-peça-manifesto-show da Pólis moderna. Nosso nariz vermelho não é do clown folhetinesco, açucarado, bestializado em sua ingenuidade imbecil, mas da comicidade do grotesco animal, das víceras do riso original artaudiano, do silêncio tribal pós banquete antropofágico onde os inimigos eram devorados - suas qualidades digeridas e seus defeitos defecados.

Só Vovó Mafalda nos une. A vovomafaldificação da Arte é urgente, necessária e plural.

Trabalhadores da Cultura, Mafaldifiquem-vos!

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O Ministério da Saúde adverte: você é maior que apenas um militante de carteirinha (de qualquer coisa)...

Às vezes me pergunto se determinadas escolhas que fazemos não nos engolem e acabam resumindo nossa identidade - que deveria por definição ser algo mais complexo - a uma determinada faceta da nossa personalidade.
Fulano começa a fazer curso de teatro e um mês depois tatua as máscaras da comédia e da tragédia no corpo. Outro resolve virar vegetariano e passa a mandar e-mails e postar fotos na internet sobre a crueldade com que os animais são mortos para saciar a indústria alimentícia. A menina ou o cara se descobrem gays e de repente parecem viver para provar para todo hetero que o bissexualismo é a orientação sexual do futuro. Feministas que dedicam sua existência questionando a sociedade machista. Homens que querem provar diariamente a superioridade masculina e como biologicamente a mulher deve ser submissa e aceitar o papel "polinizador" do macho. Petistas que votariam até no Maluf se ele passasse a ser do PT, Malufistas que continuariam a votar nele se fosse para o PT. Radicalismos, seja à esquerda ou à direita. Eu só "sou" alguma coisa se estiver carregando uma bandeira.

A discussão da hora é o politicamente correto. Para banir os preconceitos de toda a espécie, de repente, nadamos até a margem oposta e ficamos em uma torre de vigilância para acusar o primeiro ato que soe preconceituoso. Ao invés de focar as preocupações em coibir e punir o estupro, por exemplo, gastamos nossa energia condenando a piada sobre o assunto. Uma linha tênue e complicada, essa do politicamente correto...
Longe de querer pregar o desrespeito ou o preconceito, como prever, nos dias de hoje, o limite entre uma piada e uma ofensa?

Existe gente que acredita nesses estereótipos? Claro que sim. Mas em contextos específicos brincar com eles revela justamente que as pessoas não os levam a sério. Tenho amigo gay que faz piada de gay, amigo negro que faz piada de negro, amigo evangélico que faz piada de evangélico, amigo gordo que faz piada de gordo, amigo corintiano que faz piada com corintiano e por aí vai. Quando todos eles fazem piadas com os outros de uma forma tranquila, me parece que o "preconceito" se esvazia e todos se igualam no que o ser humano tem de comum: somos todos ridículos. Justamente porque precisamos dessas "bandeiras"...

Me parece que nos levamos, muitas vezes, à sério demais. Como se o juiz de futebol fosse parar o jogo e abrir um processo contra uma arquibancada inteira que xinga sua mãe.



quinta-feira, 28 de julho de 2011

FUNARTE

Eu vivi a vida toda ensaiando em espaços onde outros grupos trabalhavam. Escolas, espaços públicos, locados, onde muitas vezes havia conflitos de agendas, grupos em horários e espaços trocados e tudo mais...

Eu sempre odiei entrar em uma sala e interromper o ensaio de alguém. Mesmo quando quem estava ali estava equivocadamente. Acho agressivo interromper uma ação criativa. Acho invasivo entrar em um espaço de criação e de intimidade.

Lutar pelos interesses da classe teatral é legítimo. Mas ocupar um espaço onde pessoas estão ali FAZENDO ARTE e impedí-las disso me parece injusto, abusivo e invasivo. É um contra senso lutar pela Arte impedindo-a, em qualquer instância.

Quem acha que o teatro é importante além de quem FAZ teatro? A culpa é da FUNARTE ou um pouco nossa, que olhamos apenas para nosso umbigo e nossos pares?

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Giles



Em uma aula, certa vez, meu amigo Cyro Del Nero disse:
"O Egito me dá preguiça."
O comentário politicamente incorreto deixou a turma em suspenso por alguns instantes, até ele explicar. A civilização egípcia era tão grandiosa e sua importância na História e na Arte tão grande que seria preciso uma vida dedicada só a ela, para lhe fazer justiça. E ele preferia se dedicar à Grécia. E a Grécia para o Cyro não admitia concorrência.

Hoje em dia tenho visto muitos espetáculos e/ou projetos que sempre citam Deleuze. Acho que o teatro, antes do Deleuze, não existia. Ou pelo menos não existia em sua forma ideal, que é a do "teatro contemporâneo"... Li coisas dele como comentador do Artaud, mas me incomoda o fato de que tudo hoje em dia parece ter que possuir a "chancela" do Deleuze - ao menos uma citaçãozinha, vai - para constituir-se como pensamento.

Prefiro ler o Artaud do que o comentário do Deleuze sobre o Artaud. Mesmo que declarar isso seja um pecado...

E tem MUITA coisa que funciona em teses, projetos, programas de peça... Mas não se configuram na prática. A questão é que nossas leituras constroem nosso pensamento e interferem diretamente o nosso fazer - mas não RESOLVEM nosso fazer.

Não duvido da importância do Deleuze mas sinceramente acho que não estou a fim de dedicar minha vida a ele. Deleuze para mim é como o Egito. Dá uma certa preguiça...

quinta-feira, 16 de junho de 2011

São Paulo, 16 de Junho de 2011

Pois é, meio ano foi embora e a correria continua.
Já adiantando um balanço de semestre, foi positivo sim...
Mas fica a sensação de que o tempo ou soa demasiado ocioso ou intenso demais.
Ou sobra ou falta, e não necessariamente para as coisas que realmente importam a balança do "sobra" pesa... Na verdade, é quase sempre o oposto...

Acho que devo fazer umas "resoluções de semestre novo" ainda a tempo de começar agosto diferente...

segunda-feira, 13 de junho de 2011

segunda-feira, 6 de junho de 2011

NIKLASSTRASSE, 36


Baseado na obra A Metamorfose, de Franz Kafka, o espetáculo Niklasstrasse, 36 mostra uma manhã que deveria ser como outra qualquer, mas que marca, definitivamente, a vida de Gregor Samsa. A metamorfose já aconteceu. O que o espectador vê, ao longo da fábula kafkiana, é a transformação do entorno, das pessoas que convivem com Gregor - a clareza cada vez mais nítida sobre a perversidade das relações familiares, das estruturas de dominação e submissão e da alienação humana. Com Aline Baba, Camila Nardoni, Luana Frez, Lucas Almeida e Mariana Viana. Direção René Piazentin.



Teatro Cacilda Becker - Rua Tito, 295, Lapa

de 03 a 26 de junho de 2011

Sextas e sábados as 21h e domingos 19h

Ingressos: R$10,00 (meia R$5,00)

terça-feira, 3 de maio de 2011

BL

Oito horas da manhã. O interfone toca. Acordo, assustado, e atendo. Não tenho o costume de receber visitas nesse horário, em dias normais ainda não levantei sequer. Caminho até a cozinha e atendo.
"Tem um senhor aqui embaixo querendo subir."
"Quem é?"
O porteiro pergunta para a pessoa e não consigo ouvir a resposta. Ele pergunta de novo, como quem não entendeu o nome. Ouço ele repetir a pergunta umas três vezes.
"Deixa eu falar com ele."
"Alô?", falo ao interfone, já consciente da mania dos porteiros em transformar Gláucia em Cássia, Thiago em Danilo, Luís em Juarez.
"Bom dia. Estou incomodando?"
"Quem é?"
"O Osama. Posso subir?"
"Osama?"
"Podemos conversar aí em cima?"
"Eu não conheço nenhum Osama."
"Eu preferia não conversar na presença do seu porteiro."
O porteiro parece tomar o interfone das mãos do visitante, pelos ruídos. É ele quem retoma a conversa.
"O senhor conhece?"
"Não que eu me lembre."
"Ele quer subir."
"Espera. Eu vou descer."
O tempo do elevador me deixa tirar duas ramelas do olho e só. Nem sei por que não ignoro simplesmente e volto a dormir, mas desço. Quando chego na portaria vejo um senhor de uns sessenta anos, pela barba já grisalha, magro e usando um turbante branco. Tem uma grande mochila nas gostas e uma AK-47 a tiracolo.
"Quem é você?" pergunto. Ele apenas faz um sinal de silêncio com o indicador entre os lábios e me pede para subir com um levantar de olhos. O porteiro, sem entender nada, levanta-se da sua cadeira e parece começar a ir ao encontro do estranho visitante, de forma automática, sem saber ao certo o que irá fazer.
"Tudo bem", digo olhando o porteiro, e caminho até o elevador, abrindo a porta e indicando ao visitante que entre.
Subimos. Os vinte segundos que o elevador demora parecem uma eternidade. Durante a "viagem" o visitante não fala nada, apenas conserva um sorriso enigmático nos lábios.
"Entre", digo a ele, abrindo a porta do apartamento.
"Você tem café?" são as primeiras palavras do visitante, em português castiço.
"Posso fazer."
"Bem forte, por favor", ele diz, completando: "não durmo há dias."

Maio, junho...



domingo, 24 de abril de 2011

Páscoa!



Questões sobre a Páscoa:

- Segundo a Wikipedia, "para entender o significado da Páscoa cristã atual, é necessário voltar para a Idade Média e lembrar os antigos povos pagãos europeus que, nesta época do ano, homenageavam Ostera (...), a deusa da Primavera, que segura um ovo em sua mão e observa um coelho, símbolo da fertilidade, pulando alegremente em redor de seus pés nus. A deusa e o ovo que carrega são símbolos da chegada de uma nova vida. Ostara equivale, na mitologia grega, a Deméter. Na mitologia romana, é Ceres". E o chocolate, onde entra?

- Se a meta era misturar mamíferos e ovos, não deveríamos ter ornitorrincos de chocolate?

- Depois da invenção do ovo trufado, os demais não parecem sempre uma versão antiquada do modelo definitivo? É injusto, mas é uma sensação real.

- Por que alguns ovos tem bomboms dentro e outros não? Como saber se ele é "bom o suficiente" ou "vagabundo demais" para estar oco?

- De uma vez por todas: chocolate branco é chocolate mesmo ou uma massa doce genérica que se aproxima da idéia?

- Se a maioria das pessoas faz promessa de regime Pós-Páscoa, para onde vão os ovos e chocolates que sobram após o domingo? Seria justo um Instituto Pós-Páscoa que os recolhesse para as crianças famintas da África Central?

- Algum estudo poderia comprovar que os casos de diabetes aumentam logo após a Páscoa?

- Aliás: Ovo Diet é enganação ou o Ministério da Saúde endossa seu consumo?

- Se algumas mulheres dizem que o chocolate substitui o sexo, no caso da Páscoa as pessoas poderiam dar sexo ao invés de ovos? Como seria a logística disso?

- Qualquer personagem de ficção ou realidade pode ser "tema" de ovo de Páscoa? Quais os critérios? Pucca, Hello Kitty e Ben10 não ficariam melhor em buffet infantil oriental? E a Polly Poket, no melhor estilo mini Barbie anoréxica, não parece induzir inconscientemente as crianças a vomitarem escondidas seus ovos depois de se entupirem deles?

- Existe mensagem subliminar nos Ovos de Páscoa? Sua família ama você de acordo com o tamanho do ovo? Sua namorada escolhe cores e temas de acordo com o que acha de você? Devo ficar preocupado se o ovo não for azul?

- Se o real sentido da Páscoa é ressurreição, não seria mais adequado uma lagartixa de chocolate?

- Aliás, onde entrou o chocolate na história?

- Para recuperar o sentido religioso, imagens ou cruzes de chocolate ficariam muito de mau gosto?

- As missas de Páscoa poderiam ter hóstias de chocolate, tipo "mentinha"?

Enfim...

Espero que a Páscoa de todos os eventuais leitores deste post tenha sido muito boa e que besteiras à parte o sentido de "renovação" tenha superado chocolates, bebedeiras de feriado, etc, etc, etc...

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Pina Bausch



Ano passado eu estava no trabalho pela manhã justamente vendo como conseguir ingressos para o espetáculo da Pina Bausch ("nossa, vai ter Café Muller, genial!") quando vi a notícia que ela tinha morrido... Fiquei tão passado quando soube que acabei nem vendo. Acho que no meu imaginário ela própria dançaria no "Café Muller" - coisa que até hoje eu não sei se foi fato ou apenas Vida Imaginada minha - e depois dela morta me deu uma sensação de que iria assistir algo com o pé quebrado, ou mesmo um evento que pela força das circunstâncias ganhava tons bem mórbidos. E não fui. Burrice minha. Porque quem viu gostou muito e ainda por cima disse que "A Sagração da Primavera" era ainda melhor que o "Café".

Hoje, às vésperas de voltar a ver a Pina (quer dizer, sua companhia), me sinto de coração leve, sem expectativas, apenas com a sensação boa de que será um prazer ter de novo contato com sua obra. Porque ela estará ali, de uma forma ou de outra. Como também estaria, de uma forma ou de outra, no "Café Muller" no ano passado.
Talvez, no final das contas, quem não estivesse seria eu, não ela, por esperar que ela me atendesse todas as expectativas...

Feliz 19 de abril, Pina. Esteja onde estiver, eu estarei ali com um pouco de você que ficou por essas bandas.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Rio de Janeiro, 7 de abril de 2011



Não há muito a dizer quando o absurdo dá as caras.

‎"Quando uma árvore é cortada ela renasce em outro lugar. Quando eu morrer quero ir para esse lugar, onde as árvores vivem em paz."

(Tom Jobim)

segunda-feira, 4 de abril de 2011



É, Snoopy... Nem a camiseta tá na cor certa.

terça-feira, 29 de março de 2011

EstudoHamlet.Com

Parabéns pelo esforço, dedicação, pelas 8h diárias de ensaio, sem sábado, domingo, feriado e vida social. Finalmente chegou! Depois dos dois meses mais longos da história!

Muita merda para Fê, Fran, Bia, Leo, André, Paola, Brunos, Diego, Gessica, Letícia e Val. E para aquele rapaz... Como é mesmo o nome dele? Tatá... Dadá...?

http://www.artistaseartes.com.br/sub_paginas.php?pagina=31513&menu=113

quarta-feira, 23 de março de 2011

Hola!



Quase 25.
Quase 28.
Kioskerman.

quarta-feira, 16 de março de 2011



É, talvez a resolução esteja em procurar mais.
Em sair do marasmo e abrir portas e janelas.
E deixar a inquietude sair, me parece.
Mas 37 não é "o" bastante, mas é bastante, por outro lado.

Então chega, né?

segunda-feira, 14 de março de 2011

UNINVITED



Like anyone would be
I am flattered by your fascination with me
Like any hotblooded woman
I have simply wanted an object to crave
But you, you're not allowed
You're uninvited
An unfortunate slight

Must be strangely exciting
To watch the stoic squirm
Must be somewhat heartening
To watch shepherd meet shepherd
But you, you're not allowed
You're uninvited
An unfortunate slight

Like any uncharted territory
I must seem greatly intriguing
You speak of my love like
You have experienced love like mine before
But this is not allowed
You're uninvited
An unfortunate slight

I don't think you unworthy
I need a moment to deliberate

quinta-feira, 10 de março de 2011

Do anonimato

Queridos anônimos: sem palhaçada.
Ou assina ou nem vai poder postar.
E pronto!

quinta-feira, 3 de março de 2011

Destino



Aí o pobre filho de Deus morreu na cruz por nós e deixou uma marca indelevél nas nossas almas que é achar que tudo precisa ser sofrimento sacrifício e sempre tem que dar errado no final então se prepare porque tristeza não tem fim felicidade sim e ser feliz é se iludir porque o mundo é um lugar desprezível e só se conquista as coisas sofrendo e sofrendo e somos todos uns condenados a decepção angústia e o ser humano meu semelhante é um canalha lobo do próprio homem e então eu me armo desconfio dos outros desconfio de mim me preparo o tempo todo para a queda que será inevitável faço poupança ando olhando para todos os lados tenho medo do vizinho do ladrão da polícia do síndico do prédio do chuveiro que é o grande vilão penso na morte quinze minutos por dia me sacrifico para conseguir as coisas porque sem sacrifício nada vale e quem quer conseguir algo precisa sofrer e sofrer e sofrer senão não merece mas mesmo sofrendo não é garantia então na dúvida sofra e assim vai tristeza não tem fim felicidade sim

e aí, aparecem os sinais de pontuação.
vírgula, ponto, reticências.
respira-se.

meu Jesusinho, não quero ser ingrato. valeu mesmo, mas posso não querer ter uma cruz para mim? posso querer ter felicidade sem me culpar por isso?

menino africano anônimo que passa fome: vou tentar de tudo que estiver à minha altura para fazer desse mundo um lugar um pouco melhor, mas preciso começar acreditando que isso é possível e que o MEU deve ser assim. e não - desculpe - não vou me lembrar de você a cada refeição.

fama e fortuna: uma hora chega, senão, tudo bem também. tem mais coisa divertida no mundo que isso, ainda que uma conta bancária gorda não seja má idéia: iates! mansões! mulheres!

amor da minha vida: você não é conto de fadas não. existe. se eu não acreditar nisso que graça tem?

frustrações, mudanças de rota, decepções e etc estão no pacote. o que não faz dele um fracasso. olha a vida de forma positiva não é alienação não. é não se render ao pessimismo e à depressão. não vai adiantar nada mesmo!

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Quando eu tinha trinta centímetros



"Para Winnicott a sustentação ou holding protege contra a afronta fisiológica. O holding deve levar em consideração a sensibilidade epidérmica da criança – tato, temperatura, sensibilidade auditiva, sensibilidade visual, sensibilidade às quedas – assim como o fato de que a criança desconhece a existência de tudo o que não seja ela própria. Inclui toda a rotina de cuidados ao longo do dia e da noite. A sustentação compreende, em especial, o fato físico de sustentar a criança nos braços, e que constitui uma forma de amar. A mãe funciona como um ego auxiliar.

Winnicott propõe que, durante os últimos meses de gestação e primeiras semanas posteriores ao parto, produz-se na mãe um estado psicológico especial, ao qual chamou de “preocupação materna primaria”. A mãe adquire graças a esta sensibilização, uma capacidade particular para se identificar com as necessidades do bebê.

O holding feito pela mãe é o fator que decide a passagem do estado de não-integração, que caracteriza o recém-nascido, para a integração posterior. O vínculo entre a mãe e o bebê assentará as bases para o desenvolvimento saudável das capacidades inatas do indivíduo."

Eu tinha trinta centímetros na foto que meu pai me envia à tarde.
Um metro e meio depois, mais ou menos, parece que ainda dá para sentir o paninho verde me cobrindo.
E a vida segue.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Anotações numa sexta-feira de chuva sobre a morte e Rocky Balboa

"Rocky" nunca foi uma figura levada muito a sério. Pouca gente lembra que o primeiro filme da série ganhou um Oscar, vencendo inclusive o "Taxi Driver"... Mas ganhar um Oscar também não significa necessariamente qualidade...
Acho que o Stallone colaborou muito para isso. Entretanto, longe de ser um bom ator, para papéis de Stallone ele funciona bem. E aquele boxeador meio debilóide e fracassado não poderia ser interpretado por outro cara. Bom, tudo isso para citar uma cena específica, do Rocky V, em que ele lembra de alguns conselhos de Mickey, o treinador octagenário que está nas últimas desde o primeiro filme e morre no terceiro.

A morte. Por que seguimos adiante, se conforme vivemos tanta coisa nos é tirada?
Quando alguém morre parece que leva junto um pedaço nosso. Um braço, uma perna, um pedaço do coração às vezes. E na ausência de seres mitológicos no nosso dia a dia nós mesmos temos que ser fênix em vida e aprender a recomeçar. Ou uma lagartixa - para ser menos poético - que faz o braço, a perna ou o pedaço do coração nascer de novo.

Na sua truculência de mau ator Stallone é um pouco como nós. Nós também não sabemos como atuar direito na vida. Não ensaiamos o suficiente, o texto não nos é dado com antecedência e o diretor ninguém conhece - quando muito, com sorte, vivemos em um "processo colaborativo". Ficamos abobados, dando murros para todo o lado, com a boca torta e caindo na lona de quando em quando.

Quando você resolve fazer teatro, existem mil motivos para desistir, todos - ou muitos deles - bastante legítimos. Mas ainda acho que a insistência mostra novos caminhos. Com a vida é a mesma coisa.

Afinal o coração é um músculo.
E talvez o contrário de "morte" não seja "vida", mas "amor".

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O Balão do Borkman



- Só me lembro que, sozinho, naquelas noites insones, eu me sentia como que inflando um gigantesco balão para navegar por sobre os oceanos desconhecidos e perigosos. E não queria ter nem você nem o que pertencia a você comigo no balão.
- Por quê?
- Ninguém leva o que tem de mais precioso numa viagem como essa.
- Mas você levou a bordo o que você tinha de mais precioso: o seu futuro, a sua vida.
- Nem sempre a vida é o que se tem de mais precioso.

John Gabriel Borkman

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

"Invente menos problemas", diria o açúcar União...



"A melhor vingança é viver bem", diria o Cyro.

Não existe nada que possa tirar a maravilha de fazer da própria vida algo prazeiroso. Não, não estou falando em virar hippie ou beatnik, apenas extrair dos momentos algo que faça a gente lembrar que está vivo: pode ser um ensaio ou um processo criativo que ambicione algo maior, pode ser um simples sorvete com lascas de chocolate. E até resolver problemas pode ser uma maravilha também.

Foto:
No "ensaio do doutorado", em pose de "o que fazer?", por Carolina Loureiro

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A Mulher, o Bebê e o Cachorro

Uma mulher passa com um carrinho de bebê.
Um cachorrinho a segue. Com uma bolinha azul na boca.
De tempos em tempos, ele estende com a boca a bolinha na direção da mulher, ela pega - sem parar de empurrar o carrinho - e joga a bolinha.
O cachorro corre atrás da bolinha, leva de novo até a mulher, e assim os três seguem seu passeio vespertino...

Gostei da cena.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Tempos Modernos

Cena mais engraçada do dia é conversar com um gerente de atendimento à pessoa física sobre uma aplicação vinculada a uma conta simplesmente sumiu tendo como pano de fundo um cartaz com os dizeres: "fundo de investimento: aqui seu dinheiro sempre cresce."

E eu sempre ouvi dizer que eram as pessoas que assaltavam os bancos, não o contrário...

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A Bússola

"Quando você sabe o que quer, você tem todo o tempo do mundo", dizia o grego.
Existem momentos em que você se desvia do caminho sem perceber.
E existem momentos em que, mesmo que ainda fora do rumo, você se percebe e começa a buscá-lo. Estar perdido não é ruim. O ruim é não saber disso.
Como diria o Janô, "só se encontra quem se perde".
Sem fantasias, sem a crença de que a vida será ideal, sem a falsa esperança de que não haverá problemas. Mas sim, buscando reencontrar o caminho.

São Paulo, 3 de fevereiro de 2011: buscando o rumo.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Quando meu pai começou a sumir

Na mesma época em que minha avó começou a encolher, percebi que meu pai sempre se mantinha distanciado do assunto, tanto quanto minha mãe.
Quando ela já estava tão pequena que tivemos que trocar a cama do quarto de visitas por uma caixa de sapatos, ele simplesmente não aparecia. Como se se escondesse pela casa. Uma noite em que a avó estava conosco, dei boa noite à ela, fechando a tampa da caixa listrada da Adidas e sai do quarto para chorar. A avó não comentava nada sobre o fato de estar do tamanho de um filhote de boxer (seu rosto lembrava um boxer, por isso sempre imaginava que ela era um filhote especificamente dessa raça). A mãe havia me pedido - na verdade não havia me pedido, mas eu percebi desde a sopa que não se devia tocar no assunto - para jamais comentar algo a respeito com ela. Então eu chorava no corredor de casa, sem saber exatamente o porquê de me sentir triste, mas achava que havia um motivo. E chorava sentada no corredor, com a porta do quarto de hóspedes e a tampa da caixa fechados para ela não ouvir. Acho que meu medo era o dela ficar tão pequena que desaparecesse, ou ficasse microscópica, o que daria no mesmo.
De repente eu senti alguma coisa batendo em mim. E ouvi um "desculpe" vindo do nada. Aí a porta do quarto do pai se abriu sozinha e se fechou em seguida.
Minha avó encolhendo e meu pai invisível. Aí eu percebi que ele não estava "se ausentando", ele estava lá, só que não conseguia ver mais meu pai!
Corri até a estante de livros e achei uma história em quadrinhos do meu irmão: "O Homem Invisível". Folheei e compreendi o mais grave: ele estava andando nu pela casa. É, porque as roupas não ficam invisíveis. Só a pessoa. Então ele estava nu, ou seja: ele QUERIA estar invisível, senão podia ter se vestido da cabeça aos pés, com luvas, cachecol e chapéu, e óculos escuros. Seria estranho, mas seria visível.
Comecei a chorar mais forte. Se a avó estava encolhendo, o pai invisível, o que aconteceria depois? A mãe começar a levitar? Eu começar a ficar gigante? Meu irmão ganhar asas de pássaro - ou pior ainda, de morcego?
Deitei na cama e solucei baixinho. Acho que ouvi uma voz dizendo "calma, está tudo bem", mas nunca soube se era meu pai invisível ou um sonho. Só acordei no outro dia e fiquei dentro do quarto com medo da caixa da Adidas e da voz sem corpo do pai.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Janeirão



Janeiro é aquele mês que parece a emenda do Ano Novo. A gente finge que trabalha, o país finge que está a plenos pulmões, quem está em São Paulo parece querer esconder que ainda se sente de férias e quem está de férias finge que ainda está na véspera do Natal... Posso estar sendo injusto com uma parcela da população para quem efetivamente janeiro é janeiro mesmo, não esse mês perdido entre o Natal e o Carnaval, mas mesmo essas pessoas concordarão que o clima é esse... Felizmente ou infelizmente...

Eu só tenho uma coisa a dizer: nunca amei tanto o meu janeirinho querido! Trabalhando em ritmo "2010" mas de forma produtiva, assistindo peças - logo logo isso vai ser bem mais complicado - vendo Cinema - com direito a um "Noitão" extra no Belas Artes com "Alta Fidelidade" de filme surpresa - entre outros programas "GÊNIO"!

Janeiro com gosto de Dostoiévski e Cibele Forjaz, de Clint Eastwood e Beckett, de "Mágico" e de Ponto Chic, de café e vinho, de sorvete na sorveteria de lixo de palhaço, de brisa da Paulista depois de perder a Denise Stoklos no CCSP, de queijo, de "azedinha", de pipoca média, de chuva, de vida, de CUTZUCAPUDUQUIM!

Que 2011 continue GÊNIO!

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Abraço do Macanudo



"O abraço é quando duas ou mais pessoas – geralmente duas – ficam parcial ou completamente entre os braços da outra. É usado, dependendo da cultura local, como forma de demonstração de afeto de uma pessoa para outra. Através dele podemos cumprimentar ou expressar sentimentos como carinho, amor, compaixão, saudade, congratulação etc. Um abraço em alguém pode demonstrar também proteção instintiva."
Wikipedia

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Fábio Jr.

- Você sabia que o Fábio Júnior vem sempre nesse bar?
- Como assim?
- É, toda vez que ele fica deprimido ele vem pra cá, carregando uma pilha de discos que ele gravou e fica sentado ali naquele cato, abraçado com os discos.
- Mas ele gravou disco suficiente para fazer uma pilha?
- Acho que sim. Se bem que podem ter uns repetidos.
- Vai ver que encalhou.
- Ele é mesmo pai da Cléo Perez?
- Cléo Pires.
- Não era com a Glória Perez que ele foi casado?
- Glória Pires.
- Ah. Mas a Cléo Pires é filha dele mesmo?
- Claro que é! Quem você queria que fosse filha dele?
- Sei lá. A Sandy Júnior.
- É sério que ele vem sempre aqui?
- Quase sempre.
- Melhor a gente ir embora.
- Então vamos.
- Vamos.

(Eles não se movem. Entra um homem com uma pilha de discos embaixo do braço.)

- Boa noite, seu Fábio.

(O homem não responde.)

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Texto, discurso, futebol e vôlei.

Voltar a ensaiar depois de uma pausa de um mês é sempre uma redescoberta. E um reencontro com vários problemas que vem e vão.
O texto. Mesmo quando ele é um elemento fundamental, ele é "um" elemento fundamental. Não é ele que justifica - sozinho - o meu "estar em cena". Senão é apenas um discurso, com o ator se escondendo por detrás dele, quando talvez o ideal fosse o oposto: deixe o texto ficar atrás de você.
Às vezes tenho a impressão de que montar um espetáculo é inventar um jogo onde todos estão, antes de qualquer coisa, criando juntos as regras, para depois conseguirem jogar bem. Entender as regras do jogo é o fundamental, o resto é "treino".

O complicado é entrar em um campo de futebol querendo jogar vôlei...

Mas nem tudo está perdido: as bolas são redondas, em ambos os casos. Lembrar sempre: "pé" diferente de "mão", "pé" diferente de "mão"...

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Marcha para Zenturo no CCSP



Que coisa boa uma noite de estréia lotada!
Estava todo mundo lá. Se procurasse com calma, acho que o Bin Laden e o Belquior deviam estar também. Só não sei se eles pagam meia ou se tinham convites.
O resultado da parceria do XIX com o Espanca é belo.
Questões? Algumas, mas nada que tire o mérito da montagem. E sempre emocionante ver o trabalho do Lubi - mesma geração né - indo para frente.
Uma montagem de "sucesso" pode ser um acaso de sorte.
Mas depois do Hysteria o XIX mais que provou que está aí pra ficar.

Muita merda sempre!

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Quando a avó começou a encolher

Quando eu tinha nove anos comecei a perceber que a minha avó estava encolhendo. Foi numa tarde de abril. Acho que era abril porque era sempre em abril que ela passava férias conosco, desde que o meu avô morreu. Ela sempre aparecia uma semana antes da data e ficava lá até o final do mês. Na tarde da minha memória minha avó voltou do cemitério e parou do lado da porta do meu quarto. Acho que ela já não estava triste. Só me olhou e deu um sorriso. No batente dessa porta ela marcava a minha altura, para ver se eu tinha crescido na vez seguinte em que fosse em casa. O que ela não sabia é que eu também media a altura dela, reparando na diferença entre a marca que ela fazia no batente e o topo da sua cabeça.
No começo eu achei que era porque o cabelo estivesse ficando branco, o que poderia dificultar uma análise que era completamente visual. Mas depois percebi que ela ia, aos poucos, se nivelando com as marcas que tinha feito para mim. Inclusive com as mais antigas.
Uma vez estava jantando com minha mãe na cozinha, dias depois da avó ter voltado para a casa dela. Comíamos em silêncio quando eu falei:
- A vó está diminuindo.
Minha mãe parou o movimento da colher até a boca no ar - a sopa ainda pingou lentamente no prato - me olhou e disse:
- Tome a sua sopa, Francine.
Minha mãe nunca me chamou de Francine antes que eu completasse quinze anos. Não assim, no dia a dia. Informalmente. Eu era sempre a Fran, só Fran. Não sei se eu gostava de ser chamada assim, porque na escola eu era a Framboesa, a “Fran” de chocolate, quando queriam me elogiar falavam que eu era “frantástica”. Mas o fato é que ela só me chamava de Francine quando estava brava comigo.
- Mas é verdade!
- Francine, chega.
“Francine chega” era algo bem rude. Ela me olhou, fixando os olhos em mim como quem dizia “não fale mais nada senão eu jogo esse prato de sopa na sua cara enquanto ele ainda está bem quente para além da humilhação você ter uma queimadura do segundo, terceiro grau se possível” e só desviou os olhos de mim quando eu já estava convencida de que era melhor ficar quieta, o que demorou uns sete segundos que pareceram a eternidade. Abaixamos as cabeças ao mesmo tempo e começamos a tomar nossas sopas com as colheres ritmadas. Alguém que entrasse na cozinha naquela hora iria achar que era uma cena combinada.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Posts em número decrescente

Quando eu criei esse blog eu tinha o projeto secreto de escrever um post por dia e para tentar chegar a 365 no ano, contando claro omissões que me faziam escrever mais de um por dia, às vezes. Hoje eu olho na página inicial e vejo que o número de vezes que publiquei alguma coisa só decaiu... Vamos refletir sobre isso?

Opção 1 - Tenho menos tempo.
Mentira.

Opção 2 - Tenho menos assunto.
Pode ser que sim. O que não significa que os assuntos postados antes eram de interesse geral da Nação.

Opção 3 - Passei a levar essa história de blog menos a sério.
Isso sim. Pelo menos não levo a sério o "desafio" de escrever 365 posts por ano.

Opção 4 - O Facebook dominou minha atenção.
Sem dúvida é um ponto a ser considerado.

Fazendo um apanhado das opções acima e considerando como elas se entrecruzam, resta analisar que o presente post é sobre a ausência crescente de posts. Mesmo com tempo, não levar tão a sério o próprio blog e ter menos assunto faz com que o Facebook seja mais atrativo, muitas vezes.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Resta pouco a dizer



E começou a temporada teatral 2011. Sesc Consolação, "Resta Pouco a Dizer".
Bem, janeiro é um mês meio ingrato, mas vamos lá. Beckett sempre traz um pouco de curiosidade, no mínimo... Mas ao final resta realmente pouco a dizer.
É louvável, na minha opinião, uma visão menos "tradicional" de Beckett. O espetáculo associou à linguagem árida do autor uma estética "clean", provavelmente influência das artes plásticas e "leu" Beckett na fronteira com a performance. Justo. Havia humor. Justo. Nada pior do que um Beckett extremamente levado a sério, sisudo.
Mas apesar dessa apropriação do autor, da liberdade em tentar "lê-lo" de forma pessoal, o tédio veio. Na corda bamba entre o silêncio e o tédio, ele acabou prevalecendo. E nada menos Beckettiano que o tédio. Aliás nada menos teatral.
A insistência na repetição das performances de autoria dos próprios diretores intermeando as peças já começa a dar sinais de alerta na primeira delas, logo no início do espetáculo. Idéias interessantes que se esgarçam, não têm mais para onde ir e só dilatam a sensação de tempo.
Não é uma "Catástrofe" (nome da primeira das peças de Beckett utilizadas pela montagem) total, vale como uma referência outra do que se faz tradicionalmente. ]
Mas longe de ser imperdível. Vá com paciência. Não vá sem culpa.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Desejos de ano novo



Nesses primeiros dias de ano estava me recordando de algumas coisas que aconteceram na minha vida nos últimos anos. Aquele balanço rápido que todo mundo faz (ou acho que faz) no ano novo...

Uma das passagens mais significativas foi minha viagem para a Grécia em 2004.
Tudo tinha sido planejado para estar lá no final daquele ano, o que me daria tempo para trabalhar, estudar o grego e guardar dinheiro até a viagem. De repente, um e-mail do Attis Theatre (onde iria estagiar) me pede para estar lá em setembro. E a vida adiantava os planos e me dava uma rasteira. Em meio à expectativa positiva, incertezas quanto à como me manteria lá (não, não tive nenhuma bolsa da USP, apoio de consulado ou "paitrocínio"), como me comunicaria (o grego moderno não é das línguas mais fáceis) e tudo mais...

Eis que encontro um e-mail antigo, que o Cyro me enviou nesse período.

"Querido René



Em 1957 fui para Santos com amigos para tomar o navio ANA C para Lisboa. Meu terninho marron era da Renner e eu paguei só a primeira parcela e estava indo para a Europa não sabia por quanto tempo.
Entrei no navio com um branco em meu futuro. Mas com uma imortalidade na cabeça.
No navio fiquei “noivo” de uma alemã, mãe de meus primeiros cinco filhos. Como você já sabe casamo-nos em Atenas depois de 3 meses.
No navio havia um balcão de café e eu não tinha uma moeda. Em Portugal o amigo grego diretor de teatro me perguntou para onde eu queria ir e eu respondi pra Grécia. Ele me convidou para sua casa em Tessalônica. Ele já tinha um convidado, o Bruno, ator de um espetáculo que havíamos feito: Anfitrião de Plauto.

Eu era imortal.

Contei isso para o Vendramini e chegamos a seguinte conclusão: eram outros tempos.
Mas não sei. São outros tempos, mas naqueles tempos poucos fizeram o que fiz, quase ninguém.
Ainda disse ao Vendramini que se há qualquer possibilidade de você não agarrar essa chance pelos cabelos (como com a estátua OPORTUNIDADE da velha Grécia, aquela que tinha cabelos na frente e as costas completamente lisas) ...eu te mato.
Um professor de grego moderno você não conseguiu. Está aprendendo grego de gravação em cassetes. Está querendo se calçar antes de ir: Salário, mestrado, bolsas, implicações acadêmicas etc... São outros tempos. Mas eu acho que ainda há gente neste mundo on the road. Eu acho que te falta uma loucura. Você se questiona demais, afinal é só entrar no avião. Com grego sem grego, com salário ou sem salário, com bolsa ou sem bolsa, mas imortal. Você acredita mesmo que vão te deixar morrer de fome? Você não consegue sonhar com a impossibilidade de morrer ou passar mal?

Quando perguntaram a ele – RINGO _ como é que tinham feito tudo, ele respondeu:

Sempre dissemos SIM.

...)

Acho que é isso. O resto ninguém sabe o que será, mas será tão milagroso como tudo o mais.
Eu te mato, italiano!!!

Abraço do Cyro."

Ele tinha razão.

Que em 2011 possamos ser mais imortais.
E acreditar no maravilhoso da vida, mesmo quando ela quebra com os nossos cronogramas. E que a nossa loucura seja fértil. Sempre.