segunda-feira, 29 de setembro de 2008

"O resto é silêncio"


Citando Shakespeare e o "Lembranças daquele futuro imaginado" de outro dia.

Não, não é de silêncios que se vive. A vida pede a palavra. Mesmo quando dizemos que "calar é ouro", não é completamente verdade. Porque ele esconde a palavra. A palavra não dita ecoa para dentro e para fora, de forma desmedida. Às vezes simplesmente tola. Às vezes cruel.

Não negue a palavra. Mesmo quando não se sabe o que dizer. Desenvolva o não saber.
Mesmo quando é dura.  Eu odeio o silêncio. É uma forma unilateral de olhar o mundo. Muitas vezes pelo menos.

Uma vez minha mãe me disse, quando contei de uma briga com um coleguinha: "o desprezo dói mais". Não é que ela tinha razão? Hoje não consigo "desprezar" as pessoas. Mesmo quando gasto muitas palavras. Até que chegue alguém que mereça o silêncio. Mas o que esse pobre mortal haveria de fazer para isso? Não sei. A gente tem milhares de palavrões, de filosofia e de termos agradáveis também para honrar nossa espécie e nossa linguagem desenvolvida por milhares de anos. Tem escova de dentes e listerine contra o mal hálito.

Ficar de boca fechada é um desperdício e um desrespeito com nossos ancestrais.  

Use a boca e língua. Inclusive considerando o duplo sentido da frase.
Aí sim não precisamos de palavras.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

...

Eu queria achar uma citação muito boa, mas não encontro.
Um trecho de música, uma frase de um livro, as últimas palavras de um grande homem, uma citação de efeito, um poema desconhecido e genial. Algo que resumisse o que se passa aqui.
Uma vez alguém me disse, resumindo uma determinada sensação: "não temos mais para onde voltar." Acho que é isso. Não se ter para onde voltar. Outro dia me bateu isso, andando de volta para casa. Não confundir o "de volta para casa", no sentido literal, com esse "ter para onde voltar".

"Ter para onde voltar" pode ser sua família. A idéia de um lar não apenas como quatro paredes, mas como um pequeno núcleo de pessoas que estão intimamente ligadas a você. Para as quais você é prioridade. O colo da mãe, mesmo quando distante, é sempre o colo da mãe. O abraço do pai ou o ombro do irmão. Estão ali. Mesmo distantes.

"Ter para onde voltar" pode ser sua namorada, esposa, etc. Alguém que se ligou intimamente a você mesmo que um dia possa acabar, mas que na eternidade do "enquanto dure" está ali - supondo que você tenha a sorte de encontrar uma solidão para acompanhar a sua solidão. E no conceito de eternidade relativa, está ali.

"Ter para onde voltar" podem ser seus amigos. Os mais próximos, que estão ali quando você precisa. A vida une e separa as pessoas, mas mesmo assim existem os que perduram. Ou mesmo os que naquele momento compõe essa segunda família. Eles estão ali quando você precisa deles.

"Ter para onde voltar" pode ser seu trabalho, sua criação. A centelha de criatividade que te alimenta e que faz com que a vida pareça um pouco menos sem sentido. Mesmo que esse sentido seja inventado, criado. E você pode voltar, ou voltar-se para isso.

"Ter para onde voltar" pode ser você mesmo. Mas isso talvez seja o mais difícil. Em tempos de heroísmo exaltado e auto-suficiência como marca de estar no mundo, faz falta colo e ombro às vezes. Faz falta quem está ali mesmo quando você não precisa. E aí vem a sensação de não se ter para onde voltar.

Sem querer a piedade alheia, voltei para casa.
Literalmente, digo.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

A Bao a Qu

O A Bao A Qu é um ser que vive na Torre da Vitória, em Chitor.
Esta torre consiste em vários degraus espiralados, e no topo pode-se ver a paisagem mais linda do mundo.
O A Bao A Qu espera, no primeiro degrau, o visitante corajoso o suficiente para subir. Neste ponto, ele permanece meio letárgico, translúcido, até que alguém chegue. Então, quando alguém começa a escalada, ele acorda e segue o visitante. Conforme a subida progride, ele fica com a forma mais definida e ganha mais cor. Na metade do caminho, ele ganha uma luz azulada e seus membros tornam-se visíveis. Mas só atinge a perfeição quando chega no topo, quando chega ao Nirvana.
Mas quase sempre o visitante não vai até o final da escalada, pois não possui o coração puro.
Quando A Bao A Qu percebe isso, ele vira de volta, perdendo sua cor e visibilidade, e rola as escadas até atingir o primeiro degrau, soltando um lamento baixo e sutil como o roçar da seda.
A Bao a Qu não tem olhos, mas pode enxergar com todo o corpo. Ao toque, lembra um pêssego.
Parece que apenas uma vez na vida ele conseguiu estar no topo da torre.

(Segundo conta Jorge Luís Borges no "Livro dos Seres Imaginários")

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

5 Abraços e um Heiner Müller


Cena 1


Rapaz e moça discutindo enquanto esperam o metrô.

Metrô vem chegando.

Eles discutem enquanto o metrô desacelera aos poucos.

Portas se abrem.

Moça entra, rapaz fica fora.

Um segundo.

Dois segundos.

Três segundos.

Rapaz entra no vagão.

Conduz a moça para fora.

Portas se fecham.

De dentro do metrô, vê-se que os dois se abraçam.

Metrô vai embora.


Cena 2


Multidão passando.

Pessoas se cruzam sem olhar uma para as outras.

Casal se encontra no meio disso tudo.

Se abraçam.

Ficam abraçados.

Pessoas continuam passando.


Cena 3


Casal discutindo na rua.

Pessoas passam.

Os dois parados, frente a frente.

Pessoas passam.

Ele vai embora.

Ela chama o nome dele - o nome não importa.

Pessoas passam.

Ela chama de novo, parada.

Ele pára mas não se vira.

Ela vai até ele.

Se abraçam.

Pessoas passam.


Cena 4


Elevador abre as portas.

Casal abraçado.

Em silêncio.

Pessoas entram.

Elevador fecha a porta.

O elevador pára.

Pessoas saem.

Casal continua abraçado, em silêncio.

Elevador fecha as portas.


Cena 5


Estou sentindo o seu coração.

Eu também.

Está perto.

Está.

Deixa ele aí.


Cena 6


"Mas é um tijolo. Seu coração é um tijolo."

"Mas ele bate por você."




segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Andares

Aí eu estava andando pela rua e uma taxista parada no sinal me chamou perguntando se eu era ator. Meu primeiro impulso foi dizer: "não, eu sou diretor na verdade..." mas logo ele foi substituído por um simples "não, não..." Ela me confundiu com alguém "da novela".
Deve ser a barba. Já tomei providências.
Em seguida, por duas vezes, me param para perguntar o itinerário de algum lugar. Eu devo ter cara de alguém que dá informações confiáveis, isso sempre acontece. Acho engraçado, já que o meu forte nunca foi decorar caminhos. Especialmente quando a pessoa que pergunta está de carro, a maior parte das vezes eu até sei - a pé.

Tento me acostumar a ver as pessoas dormindo pelas ruas, mas isso não deveria ser normal. De vez em quando me pego achando que é brutal da nossa parte não fazer nada, mas o que fazer? Votar na Marta? Sei lá. Dou um cigarro e na falta de coisa melhor, continuo andando.
No frio, achar normal fica mais difícil ainda.

Conversas pela metade que captamos andando. Frases de efeito ou fora de contexto que podem querer dizer tanta coisa.

"Fulana, casa comigo?"
"Vai comprando as coisas."

"Ítalo! Vem almoçar!"
(silêncio)
"Traz ele junto!"

Etc., etc., etc...

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

"Ah que saudades eu tenho da aurora da minha vida..."


Aí eu descubro por acaso e com atraso que agora teremos a Turma da Mônica Jovem... As personagens agora adolescentes, em estilo mangá. Alguém já havia me dito isso, mas eu esqueci ou não levei a sério. Lendo a UOL, vejo uma declaração do Maurício de Souza de que "o Bidu não morreu apesar de estar com uns noventa anos pelas contas dele" e no restante da matéria me deparo com isso.

Eu nunca fui fã - ou muito fã - da Mônica e sua turma. Um Almanacão de Férias por ano e estava tudo bem. Mas confesso que esse mangá me pegou desprevinido. Como se tivesse ido lá na minha infância e mexido em alguma coisa. A mesma sensação que tive quando a MTV relançou o Speed Racer e eu pude perceber, anos depois, o quanto minha impressão antiga estava errada - o desenho do qual eu guardava uma lembrança extraordinária revelou-se tosco, bem tosco... ao menos no que diz respeito à animação. A mesma sensação que eu tive quando a Simony, aquela menina meio sem sal do Balão Mágico, assexuada como uma Barbie pelada, posou para a Playboy... Depois para a Sexy, ainda por cima! Não, eu também não era fã do Balão Mágico - aliás será que era Balão Mágico mesmo ou era Trem da Alegria? Tanto faz...

E agora vem a Mônica adolescente. Em mangá.

De repente é legal, vai. Acho que eu que estou ficando velho.


Tomara que valha mais a pena que a Simony pelada.

Aquela sim, merecia ficar só na capa dos LPs da década de 80.

Ninguém merece.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Allan Watts e afins


“Vemo-nos presos à contradição de encontrar a vida em meio a um quebra-cabeça muito desconcertante, capaz de nos causar muitos sofrimentos; ao mesmo tempo, temos uma vaga consciência da natureza ilimitada, infinita da vida. Desta maneira, começamos a procurar uma resposta a esse enigma.

A primeira forma de procurar é buscar soluções fora de nós mesmos... Por trás de nossas fachadas agradáveis e amistosas ferve um constrangimento considerável. Se eu pudesse raspar o verniz e ir um pouco mais fundo do que a superfície de qualquer pessoa, encontraria medo, dor e uma profunda ansiedade desvairada. Todos temos métodos para encobrir tais sentimentos. Comemos demais, bebemos demais, trabalhamos demais, assistimos à TV demais. Estamos sempre fazendo algo para encobrir nossa ansiedade existencial básica.

O que de fato queremos é uma vida natural. Nossas vidas são tão artificiais que realizar uma prática como a do zen, no começo é bastante difícil. Porém, assim que começamos a vislumbrar que o problema da vida não é algo externo a nós, teremos começado a percorrer o caminho."

Charlotte Joko Beck

Se fosse simples dar um rumo a vida as coisas seriam bem diferentes. Mas a gente se arranja.
Ontem comecei a limpar as dúvidas e transformá-las em ações. Arriscar.
Pode ser uma conversa com o chefe, um manual da FUVEST, um encontro adiado para resolver problemas do inventário, um mergulhar no processo de ensaio.
Nesse sentido, não é buscar "fora de si", mas traduzir essas encruzilhadas em ações, mesmo que não seja garantia de sucesso.
Tem uma passagem na Odisséia em que o Ulisses deve abandonar tudo e jogar-se ao mar. Algo como o "salto no abismo da fé".

A "vida natural" deve ser acreditar na vida. O "jogo da vida maior" da Clarice.
Então não é fácil, mas vale o esforço.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Hamlet


É impressionante como existe uma coisa básica no teatro que de tão óbvia esquecemos de ser a principal: um coletivo que se transforme em um corpo único. Esse corpo único não é a sua tradução mais óbvia, um coro, mas um coletivo que fale a mesma língua, que esteja igualmente ciente das opções estéticas e filosóficas da montagem e que seja capaz de traduzir isso em cena, fisicamente.
Esta é a importância do processo. Da preparação. É com isso que as coisas se afinam. Com o tempo necessário não para "montar uma peça", mas para criar uma obra. Que pulse no coletivo, uno. A pergunta não é "como montar?", mas "por que montar?". E a partir da necessidade se descobre um caminho.
O teatro tem que ser necessário. Ou é melhor não ser.
Ser ou não ser?
Esta é a questão.
A arte não é um produto, o produto é a consequência dela. Ela é a nossa forma de dialogar com o mundo de uma maneira mais sutil onde o discurso não basta. É a nossa resposta à realidade que nos cerca. E isso não tem nada de utópico, tem de necessário.
Além de PAC´s, Fomentos e Rouanets.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Segunda-feira


Segunda-feira.
Mais cedo do que de costume começa o dia. E a semana.
Cabeça um pouco cheia com as coisas que estão por vir, com ensaios, aulas, projetos e rumos à serem dados na vida. Mudar de casa? O carro do Adail? FUVEST aos 34 anos? Doutorado?

Sim, as coisas são importantes. Cada uma delas, cada qual com seu espaço próprio e urgência própria. Viver cada momento cuidando para que ele seja especial, e se solucione em sua dimensão própria. Descobrir o valor de cada coisa e dar a cada uma delas o devido valor.

O tempo. Adequar. Redimensionar. Ter mais de si para o que vale a pena. Dosar-se nos momentos.

A solidão não é culpa nossa, nem de ninguém. É o estado natural do Homem. O que se pode fazer é arranjar boa companhia para repartir a solidão de cada um. E preencher os espaços que podem ser preenchidos, sabendo que sempre existirá uma lacuna.

Respeitar a lacuna.

Quando você mergulha na piscina, precisa chegar até o fundo para dar o impulso e subir de novo.
E depois, o sol seca as gotas da descida silenciosa.

Subindo.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Fernando Torres


"... nós somos feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos. E nossa curta vida está encerrada entre dois sonos."

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Em qual desses tipos você se encaixa?


Estava lendo a BRAVO e eis que surge a matéria que fala dos "tipos" de pessoas criados pelo Jayme Ovalle. Como qualquer mortal, eu também páro as vezes em testes, em comparações de perfil, em classificações. Uma perda de tempo divertida em dias de menos inspiração ou coisas melhores para se fazer. Esse aí achei interessante, até. Não vai acrescentar muito à sua formação cultural, mas tomemos como uma bobagem divertida. No melhor estilo horóscopo, "faça o teste e dependendo da pontuação você é isso ou aquilo", etc...


Cinco classificações para o ser humano: Parás, Dantas, Onésimos, Mozarlescos e Kernianos.

Vamos às características...


PARÁS - o "exército do Pará" é formado por esses homenzinhos terríveis que vêm do Norte para vencer na capital da República; são habilíssimos, audaciosos, dinâmicos e visam primeiro que tudo o sucesso material, ou a glória literária, ou o domínio político.


DANTAS - Os Dantas são os bons (toda a gente quer ser Dantas), os homens de ânimo puro, nobres e desprendidos, indiferentes ao sucesso da vida, cordatos e modestos, ainda quando tenham consciência do próprio valor.


ONÉSIMOS - O Onésimo onde aparece é assim: duvida, sorri, desaponta; diante dele ninguém tem coragem de chorar. Não é que o faça por maldade: os Onésimos não são maus. O drama íntimo dos Onésimos é não sentirem entusiasmo por nada, não encontrarem nunca uma finalidade na vida. Não obstante, se as circunstâncias os colocam inesperadamente num posto de responsabilidade, podem atuar (não todos, é verdade) com o mais inflexível senso do dever.


MOZARLESCOS - Difíceis de definir, sem magoar toda a classe, esses caracteres tão interessantes que são os Mozarlescos. São pessoas que se exprimem ou obram de molde a fornecer aos que os observam uma impressão de coisas consideráveis, ao que todavia não corresponde o conteúdo das suas palavras ou das suas ações. São homens de bem. Acreditam no sufrágio universal. Manifestam decidido pendor pela pedagogia.


KERNIANOS - Os Kernianos são os impulsivos por excelência. Indivíduos de bom coração, capazes de grande sacrifício pelos outros, deixam-se no entanto arrastar às vezes à prática dos atos mais condenáveis, não por maldade, mas por um impulso irresistível de cólera.


Eu fiquei na dúvida. Na verdade teríamos traços de mais de um, mesmo que uma dessas categorias seja predominante.


Enfim...
Imagem: capa do livro "O Santo Sujo", biografia do Ovalle.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

"Não estamos indo embora não! Vamos descer na estação Vergueiro do Metrô."


Depois de uma semana, o computador dá os primeiros sinais de vida. Mas não é essa a questão principal dos últimos dias. Ficar sem internet em casa faz você voltar a fazer um uso mais racional dessas coisas. Sobrevivi sem o msn, falando diretamente ou por telefone com quem mais precisava. Abri meus e-mails e vi meus recados do orkut em passagens rápidas por lan houses - umas três, em uma semana - e sobrevivi.

Ontem foi o final da temporada do "Quixote". Assisti a peça sem o compromisso de operar a luz, já que a Dezoti já cuida disso com desenvoltura. Se ela estiver lendo isso, deve estar pensando "óbvio, no último dia..." Mas enfim, pude observar a peça com o foco só nela, sem maiores obrigações técnicas. E o teatro cheio. Diferencial fundamental. Uma apresentação boa, talvez a melhor da temporada, que fecha dignamente uma trajetória de disputa com frio, chuva, Achiropita, trânsito.
Ao final eu não queria precisar falar nada. Nem encontrar ninguém.
Queria ir para casa, curtir de verdade a tal "glória do anonimato" do diretor, queria curtir o sentido e os sentidos que o espetáculo carrega, para mim e para algumas pessoas. Queria só ficar com essas sensações. Sem verbalizar. Como o próprio espetáculo faz.

Dizer "sim" à vida. Em tudo o que ela possui de bom e de ruim. Como a catarse nos gregos: não podemos selecionar só os bons momentos, as qualidades das pessoas, o segundo que nos interessa, o dia que reúne as características que gostamos. A vida não é maniqueísta. Ela oferece os dois lados. Precisamos comprar o pacote. Dizer "sim" à ela, se a amamos.

"Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado. Pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil."
(C.L., "Perdoando Deus")