sexta-feira, 27 de março de 2009

à sombra de Godot

"Esperando Godot" só não é a peça mais importante do século XX se alguém escreveu algo melhor e deixou escondido. Eu ia começar esse texto dizendo "eu acho que..." mas resolvi mudar porque eu não acho, é certeza mesmo.
Lembro de uma entrevista do Gerald Thomas em que ele contava sobre um importante crítico de teatro do New York Times que na estréia americana da peça destruiu a encenação em sua coluna, dizendo que em resumo era uma obra onde "nada acontece em dois atos". Esse mesmo crítico, anos depois, em sua última coluna antes de aposentar-se, dizia que "Esperando Godot é a obra de arte mais importante do século XX. Estou me despedindo da crítica hoje porque se eu não consegui perceber isso há (x) anos atrás, certamente não serei capaz de avaliar o que acontece hoje."
Bom, depois que você tiver lido o Godot (direito, não como o crítico do New York Times) você vai ver que sua vida nunca mais será a mesma. Ok, você pode ler superficialmente até se divertir com a peça, vendo dois palhacinhos fazendo jogos divertidos enquanto o tempo passa. Pode rir de encenações idiotas onde o Godot aparece, onde muda-se o texto para Dagô, Gordinho ou coisa que o valha, onde cortam sem dó o Pozzo e o Lucky (para não falar do Menino, por que esquecem dele sempre?) e outras ações de "liberdade" com o texto...
O que o Beckett fez foi simplesmente genial. Pode-se ler de várias formas. Com desesperança, com esperança (afinal de contas há um Menino que traz uma mensagem de ALGUM lugar), com graça, com solidão, com distanciamento, com humor, com pessimismo.
E você sempre fica à sombra de Godot.
Mais do que NUNCA vir, ele SEMPRE volta.

quarta-feira, 25 de março de 2009

...vou comer um peixe em sua homenagem,

porque dizem que peixe faz bem para a mente, deixa as pessoas mais inteligentes. Quando eu fazia faculdade uma professora usava o eufemismo "você tem comido peixe?" quando algum de nós parecia meio lerdo... Então eu devo estar precisando de mais fosfato ou algo do gênero, não me lembro qual o elemento químico, vitamina ou afim que o peixe possui - talvez o esquecimento seja mais um indício da necessidade do peixe - e então hoje minha meta é almoçar um desses bichos.
Talvez eu faça como a menina do Les Ephemeres, que dormiu com o peixinho na mão. Não sei. Meu objetivo não é criar um deles, mas comê-los. E absorver o fosfato, vitamina ou sei lá o quê que o bicho me dará. Ou pelo menos que eu espero que dê.
Talvez eu fique menos lerdo em tirar um peixe das águas e passar para o bucho. Não sei. Talvez não resolva nada. Talvez não resolva, talvez nade.
Só sei que mesmo se engasgar não vou xingar o espinho hoje.
Deixa que ele sai, naturalmente.

segunda-feira, 23 de março de 2009

sem virgula nem ponto só umas linhas sem maior pretensão para falar do show de ontem

e então eu estava no show do radiohead e nem sabia que teria uma abertura do los hermanos como convidados e eu que sempre tive birra dos caras pela religião que montaram em cima de uma banda me prestei a ouvir e ver o show de coração aberto mas a impressão de que eles não estavam muito a fim pegou forte e depois teve o kraftwerk que ok tem o seu valor mas me parece extremamente datado e com uma proposta de show tão excitante quanto jogar video game em público num telão de oito metros e quando o radiohead começou já eram dez da noite e o cansaço tirou uns trinta porcento do prazer de estar lá mas valeu e não eu não sei o porquê de escrever assim sem virgulas em um texto sem nenhuma reflexão que lembre nem de longe o saramago por exemplo deve ser a preguiça de hoje compensando as horas de pé espremido no meio de tanta gente

sexta-feira, 20 de março de 2009

Labirinto

Então, o que eu queria era poder explicar o que é um labirinto, da mesma forma que ele foi entendido há tempos atrás. A gente se blinda com a escrita nesses lugares, e ninguém pode entender ao certo onde está a inspiração por detrás do que aparece. Ao menos nem todo mundo, talvez algumas pessoas possam. Quando nosso amigo teve que ir atrás do Minotauro ao menos a Ariadne deixou um fio para que ele pudesse achar o caminho de volta, mas quando a Ariadne foi embora, ou não existe, como achar a saída? Nem sempre seguir as próprias pegadas dá certo, tem momentos em que a poeira cobre ou elas simplesmente não se fixam no chão. E para os que entendem de labirintos pode-se fazer compreender que o chamado que encanta faz com que nos movamos para a frente, mesmo que perder-se faça parte do jogo. Ou da vida.

"Só consegue se achar quem se perde", dizia o Janô, dez anos atrás.

"Ó minha amada, os olhos teus", dizia o Vinícius, há muitos mais anos atrás.

"Saltar no abismo da fé", dizia o Kierkegaard, muitos mais anos atrás.

E hoje eu digo: ...

"... e só há um caminho para a vida, que é a própria vida" - Fernando Pessoa