terça-feira, 26 de agosto de 2008

Os limites da escrita

Eu queria que tudo o que fosse escrito pudesse ser lido de forma transparente e clara.
Mas digitando não temos rubricas nem mostramos nosso rosto, e a escrita torna-se perigosa.
Um náufrago numa ilha deserta não precisa se preocupar com isso: quando encontram a garrafa, ele já está no lucro.
Mas nesse mundo de msns, blogs, orkuts, e-mails e afins, a palavra vira um manancial de mal-entendidos.

Se você não vê meu rosto quando escrevo, imagine. Se não vê as intenções por detrás de uma palavra, pense nas possibilidades e incline-as para o bem - esta deveria ser a frase de abertura de qualquer texto escrito por essas vias tão pouco "humanas" que se encarregam de levar, através de fios, cabos e afins que as vezes estão nos limites da Telefônica, sensações e estados de alma que variam.

Me lembro de alguns casos em que um e-mail despretensioso estragou amizades.
A gente lê o que quer, ou acha que lê o que não quer. Já fiz isso muitas vezes.
Como um personagem, a fala escrita está distante de sua resolução ao vivo.
Pensei sobre isso esses dias.

E a net nos deixa com a ilusão ainda de que relações aconteçam por aqui. De que o email, o msn, o orkut, os blogs e afins substituem a palavra real, concreta, vivida, substituem o olho no olho, o som da voz, o cheiro, o toque.

Falando nisso, estou sem net em casa. Por isso aqui só vão palavras, sem imagens.
Talvez seja bom, para deixar claro quão incompletas elas são.
Esses dias me fizeram pensar sobre a utilidade de tudo o que é escrito aqui. Sobre a possibilidade real de traduzir em palavras amor, esperança, solidão, felicidade, prazer, arte, tristeza, ansiedade, alegria... em palavras. Não. Só passamos uma aproximação disso tudo.

No "Poder do Mito" o Campbell fala algo sobre as idéias e sensações que realmente valem a pena. Não podem ser traduzidas. Delas podemos ter uma tentativa de aproximação, já de segunda ordem. E quando falamos sobre, já estamos traduzindo em palavras essa segunda instância. Ou seja, tudo o que está aqui é algo de terceira classe, mais ou menos.
A Clarice escreveu algo como estar buscando a palavra que seria tão perfeita que não precisaria ser escrita.

Talvez fosse um silêncio preenchido, compartilhado.

Sem internet em casa, direto de uma lan-house e sem foto nenhuma ou imagem, deixo um silêncio bom.
Aqui.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Cinema Paradiso - continuação


Nossa vida vale assistir à cena dos beijos cortados depois de anos passados?
Mas cadê o Alfredo colecionando os momentos censurados para nos deixar de herança a lata de filme?

Não assistiu ainda o "Cinema Paradiso"?
Dá uma olhada: http://www.youtube.com/watch?v=8zDNqBZPhpc
(ATENÇÃO A PARTIR DE 2´52...)

Assista, mas não a "nova versão", com cenas extras. A versão que foi exibida originalmente, em 1989...

"A felicidade está em pedacinhos de descuido" (Guimarães Rosa)

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Cinema Paradiso


Alfredo

Era uma vez, um rei que deu uma festa para as princesas mais belas do reino.

Então…um soldado que estava de guarda viu passar a filha do rei.

Era a mais bela de todas e apaixonou-se logo por ela.

Mas o que pode fazer um soldado diante da filha de um rei?

Finalmente, um dia conseguiu encontrar-se com ela e disse-lhe que não conseguia viver sem ela. A princesa ficou tão impressionada com aquele sentimento tão forte que disse ao soldado:

“Se puder esperar 100 dias e 100 noites debaixo da minha varanda, no final, serei tua!”

O soldado foi para lá e esperou um dia, dois dias…e dez e depois vinte dias.

Todas as noites a princesa olhava pela janela e ele não se movia.

Debaixo da chuva, ao vento, na neve, lá continuava ele.

Os pássaros cagavam em cima, as abelhas comiam ele vivo, mas ele não se movia.

Ao fim de…90 noites, tinha ficado…magro e pálido. As lágrimas corriam dos olhos sem parar.

Não tinha forças para dormir. Entretanto, a princesa não o perdia de vista.

Chegou a noite do 99º dia.

O soldado levantou, pegou a cadeira e foi embora.


Toto

Como? No último dia?


Alfredo

No último dia e não me pergunte o significado que eu não sei.

Se você souber, me conta.

Bonecos

"Eu não sou boneco..."
"Eu sou de verdade..."
"Uaaaaaaa..."

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

"Eu estava dormindo, enquanto os outros sofriam? Estarei dormindo agora? Amanhã, quando estiver pensando que acordei, o que direi do dia de hoje?"


A citação aí do título é do Esperando Godot.

Tudo porque, de tão enfiado em sala de ensaio, aulas e apresentação no final de semana, descubro meio envergonhado, chegando em casa ontem, que o Caymmi morreu e que o Cultura Artística pegou fogo.


Pulemos o Caymmi. Não, nunca fui muito fã dele, apesar de respeitar sua importância na nossa música. Mas do Caymmi tive sempre a mesma imagem desde criança: um velhinho baiano deitado em uma rede, que já havia nascido muito, muito velhinho, no estilo Roberto Marinho e Dercy Gonçalves. Gente que você vê numa foto da década de 50 já grisalha. "Deus esqueceu o Caymmi aqui, ele não morre mais" - era o pensamento que tinha, assim como o Marinho e a Dercy. Mas Deus não esquece não.

Cultura Artística. Terrível ver um teatro incendiado. Ano passado eu estava em cartaz no Julia Bergman, quando pegou fogo. A sala onde estávamos apresentando não foi afetada. Sorte nossa, mas o resto do prédio ficou bem danificado. Triste. E de novo, assim como no ano passado, suspeita recai sobre os balões.
A última vez que eu estive no Cultura foi para assistir "O Avarento", com o Paulo Autran.
Por isso ele aí na imagem. Infelizmente, Deus também não esqueceu o Autran aqui.
Enfim, eu fui ver a peça. E passei uma vergonha considerável ali.
Me lembro que cheguei, sentei no meu lugar e ao ouvir a tradicional gravação do "desliguem os celulares", comentei com a moça sentada ao meu lado: "eu não entendo como ainda precisam lembrar as pessoas de desligarem os celulares antes da peça!"

Minutos depois eu, que nem me lembro do toque do meu, eu, que sempre deixo no padrão vibratório, eu, que acabara de fazer um comentário desses para a moça sentada ao lado - e que concordou comigo, olha só - eu OUÇO O MEU CELULAR TOCAR.
Tosco. Eu esquecera o bicho no sonoro porque estava com ele em casa e não mudei o toque depois.

Justo na última peça do Autran.
Hoje eu olho essa foto e penso que era o que ele gostaria de ter feito comigo no dia.
Desculpa, Paulo...
Enfim... Que o Cultura renasça das cinzas, o mais rápido possível.
A gente pode criticar o repertório como "teatro comercial" muitas vezes, ou o preço dos ingressos. Mas é um teatro.
Mirem seus balões nos bancos, nas igrejas que profanam o espaço sagrado dos antigos teatros ou cinemas, mirem seus balões para a Câmara ou para a Assembléia Legislativa.
Ou mirem para a puta que os pariu. Melhor, não mirem para lugar nenhum.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Existe mesmo Pequim?

Pela primeira vez em anos, esta Olimpíada parece que não existe.
Não é pelo fuso horário, eu costumo dormir tarde. Mas algo de estranho acontece, como se Pequim não existisse. De vez em quando, pela televisão ou jornais ou pela internet, sou lembrado de que tem jogos acontecendo e que fulano ganhou uma medalha, o Ronaldinho marcou um gol às 5h da manhã, e por aí vai.

Será que eu posso ter pego uma antipatia pela China? Não pelos chineses. Nem pela cultura da China. Nem pelas tradições de lá. Mas de tanto falarem nas frescuras com a imprensa, na política um tanto fechada de lá, de tanto transmitirem essa imagem, às vezes me pego acreditando nisso. Será que é assim mesmo? Como julgar com tanta Globo, Jack Bauer e afins influenciando?

Mas o programa nuclear americano ninguém discute que deveria parar. A política externa deles nem precisamos comentar. E os chineses são os vilões? Devo excluir esta opção.

Será que é porque voltando de aula ou de ensaio meu ritmo está menos propenso a ver esportes olímpicos que só lembro que existem a cada quatro anos, tipo equitação, salto ornamental e 110 metros com barreiras? Pode ser.

Mas não deveria ser uma opção melhor em uma madrugada de insônia do que "Fala que eu te escuto" ou coisas do gênero? Excluída esta também.

Será que é porque eu simplesmente ache essa disputa pelo quadro de medalhas algo besta, considerando que para o Brasil competir com esses gigantes do esporte é complicado, e que no final das contas se o único ouro for o futebol já valeu mais que tudo? Que os pobres coitados dos atletas ralam feito uns animais para serem reconhecidos brevemente quando ganham uma medalha e depois... Ninguém lembra mais deles?

Mas tudo bem, como poderia ser diferente? A tradição no esporte ou na cultura, no nosso país, é algo a ser construído. Sem discursinho político, vamos excluir esta.

Enfim, não sei. Só sei que não chego a conclusão nenhuma e parece que Pequim não existe.

Resultado: acho que na época, Atenas era muito mais atraente que Pequim. Eu estava indo para lá, estudando grego e comovido com a volta dos jogos "para casa".
E para mim parece que o interesse pelos jogos decaiu muito.
Ok, a culpa não é da China.

Mas não sei se Pequim existe mesmo.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Avenida Paulista


Eu sempre gosto de andar por lá. Parece lugar comum falar de um ponto da cidade tão óbvio, mas não dá para negar que eu gosto sim e que é um dos lugares de São Paulo que mais trazem lembranças e que ao mesmo tempo mais têm o gosto do novo.
Porque se você não tem uma recordação da Avenida Paulista, um dia vai ter. A não ser que não more em São Paulo ou que nunca pise aqui.
Quem nunca teve uma conversa com alguém na frente do MASP? Ou que viu uma exposição lá? Quem nunca foi em um dos duzentos Mc Donalds que tem por ali? Quem não teve que recorrer - contrariado ou não - ao Shopping Paulista para comprar algo? Ou que entrou no Parque Tenente Siqueira Campos - mais conhecido como Trianon - ao menos uma vez? Ou que visitou as feirinhas de domingo, ou que pelo menos entrou ou saiu de uma das estações da linha verde do metrô e parou um segundo para olhar em volta, quem nunca ficou com raiva da decoração do Banco de Boston? Ou comprou pelo menos um cigarro de noite na Banca do Beto? E a FNAC? O SESI? O Conjunto Nacional? Os cinemas da região?
Como eu parei de beber, nem comentei da "prainha paulista" e adjacências.
A Paulista é boa para andar no lusco-fusco. E a noite.

Trilha: Cold Play - "What If"

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Primeiro Final de semana


Bom ver tudo isso em cena outra vez.
Antes de tudo, é importante lembrar de onde viemos. Da estrada até aqui.
Quando a gente trabalha com teatro, na maioria das vezes é mais fácil encontrarmos motivos para parar do que para continuar. As pequenas questões pessoais, as dificuldades que minam nosso prazer, o próprio processo desgastante, nosso cansaço, nossa preguiça.
Os moinhos de sempre.
Estávamos lá, de novo. Concorrendo com a Achiropita. Concorrendo com a chuva. Concorrendo com o dia dos pais. Concorrendo com o frio.
"... e o bonito era que estava de olhos fechados, porque realmente dormia sonhando estar em batalha com um gigante."
A Aline fecha os olhos de verdade na cena do monstro.
E o bonito é que ela realmente sonha estar em batalha com um gigante.
E para poder sonhar também, deixo os meus abertos.
Que venham os moinhos, não tem problema.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Quixote - contagem regressiva


Contagem regressiva. Hoje muito trabalho arrumando a parte técnica - luz, som, adaptação no espaço novo... O que antes parecia um luxo (quatro ensaios no palco, com tudo montado) revelou-se uma necessidade. E como!
Fiquei feliz. É um projeto feito com o coração. E que vai ganhar uma temporada até final de agosto no Denoy de Oliveira... e do dia 13 de janeiro ao dia 19 de fevereiro no Centro Cultural São Paulo! Ok, aos milhares de leitores desse blog, não deixem para ir no ano que vem, prestigiem agora, combinado?
P.S.: Eu as vezes me esforço pensando que estou escrevendo algo interessante aqui e justamente quando falo de signos bato o recorde de posts! Não faltou nem um anônimo metendo o pau no meu recente ascendente!
Foto: Aline Baba como Sancho em lentes de Paulo Mancha

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Ascendente

Estava eu cá com os meus botões pensando em tomar vergonha na cara e levar meus documentos que faltavam para a pós da ECA e poder finalmente pedir o meu diploma do mestrado, para poder pelo menos pensar a sério em fazer a prova para o doutorado.
Não, não penso seriamente em seguir a carreira acadêmica para o resto da vida, mas nesse momento voltar a estudar seria bom. Outra opção seria tentar outra graduação, tipo Letras. Mas não sei se encaro FUVEST de novo. Me parece um tanto duvidoso.
Enfim. Diploma de Graduação e certidão de nascimento. O que faltava.
Parênteses rápido: eu não creio nem descreio em zodíaco. As vezes leio o email que a Personare me manda (novo trânsito astrológico) e de vez em quando bate. Até ontem.
Calculei há tempos meu mapa, nascimento as 11h45, dia tal, ano tal, pronto. Minha mãe dizia que nasci nesse horário (agora estou na dúvida se era por ali ou exatamente isso) acrescentando: "Chegou para o almoço". Enfim. Ascendente, Aquário. E aos 34 anos já estava feliz e conformado sendo Aquário e deixando Escorpião.

Chego em casa ontem. Depois do ensaio. Pego os documentos que faltam - sim, achei o diploma que andou sumido. Olho a certidão. Hora do nascimento: 12h45. 12h45! De repente, meu ascendente deixa de ser Aquário e passa a ser... Peixes! Olha que beleza! Eu ganhei um ascendente novo. Mesmo para quem crê descrendo, foi um baque. Agora sou de Peixes. Nem sei exatamente no que isso implica, mas senti que uma nova vida se abriu. Eu sempre fui algo que não sabia, Peixes!

Momento de auto-conhecimento. Me deram um ascendente novo.
Daqui a pouco descubro que nasci em outro ano. Ou cidade. Ou país.
Só não quero virar leonino. Nem geminiano. Nem capricorniano.
Me perdoem os naturais desses signos, mas para mim não daria certo.

Bem, o novo pisciano deseja boa noite.

Ah, e deu certo. Deixei os documentos na pós.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Na Natureza Selvagem


Assisti ontem, finalmente, depois de ouvir falar muito no filme.
A idéia de "parem o mundo que eu quero descer" ou de largar tudo para ir ao encontro de si mesmo não é nova. E existem pessoas que sim, fazem isso. Chris não foi o primeiro.
Segundo nosso amigo Ícaro (de um post anterior) devemos apoiar aquele que escapa. Deixar de lado toda a estrutura social - e isso inclui não só as comodidades a que estamos acostumados como principalmente as relações - é quase impensável para a maioria.
Outro dia a luz estava cortada aqui em casa. O fato de simplesmente estar sem energia elétrica, sem computador, luz, telefone (o meu é daqueles sem fio que precisa ser carregado) e televisor já gera pânico. Mesmo que por algumas horas, ou por um dia. E é só um exemplo.
Enfim. O sujeito larga tudo e vai, sem destino. Bastando-se a si mesmo. Lendo, refletindo, como se a verdadeira "natureza selvagem" fosse uma viagem interna, mais do que uma escolha de viver próximo ao mundo intocado pelo homem - ou quase isso.
Cenas lindas da natureza, situações que mostram a adaptação humana frente à situações inóspitas, superação, resistência, sonho. Romântico e corajoso, não?
Queria ser como ele? Maravilha.
Mas vejamos a coisa sob outro ângulo.
Você pode fazer todos os sacrifícios do mundo, muito bem. Mas se começar a se julgar uma pessoa melhor que as outras, superior e sábia por causa disso, me desculpe: seus atos heróicos só servem para inflar o seu ego e jogar na cara dos outros quão especial você é. Buscando admiração ou pena. E principalmente julgando aqueles que vivem diferente de você.
Cada um escolhe viver como quer e não existe uma forma correta de viver. Existe sim a capacidade ou não de encontrar plenitude dentro das próprias escolhas. Viver no meio do mato não é mais "certo" que viver numa cidade. Pode-se ser alienado, prepotente ou solitário em qualquer um desses dois extremos e nas diversas opções entre um e outro. Não me venha com o papo de que você é especial porque virou eremita.
Sem querer contar o final do filme: um monte de gente bacana passa pela vida do cara, que só vira as costas para todo mundo, só abandona o tempo todo as pessoas que querem bem a ele. Para depois disso ele chegar à conclusão de que "a felicidade só existe quando é compartilhada".
Gênio!

domingo, 3 de agosto de 2008

Beleza Americana


“Foi num desses dias, quando está prestes a nevar e há uma eletricidade no ar.
Você quase pode ouvir, certo? E este plástico estava simplesmente dançando para mim como uma criança chamando para brincar... por quinze minutos.
Foi quando entendi que havia essa vida toda por trás das coisas e essa incrível força benevolente que dizia não haver razão para ter medo.
No vídeo, eu sei, não é a mesma coisa, mas ajuda a lembrar.
E eu preciso lembrar.
Às vezes, há tanta beleza no mundo!
Penso que não vou suportar e meu coração parece que vai sucumbir.”
Eu assisti de novo ontem, em DVD. E confirmei como a memória guarda cenas que certamente são achados, que foram feitas para serem registradas mesmo, apesar dos anos - já se vão 9 da estréia do filme por aqui - de dezenas de outras referências que se agregam a nossa mente, etc...
Com tantos atores maravilhosos, um roteiro excelente - apesar das críticas da época que preferiam o "Felicidade", que aborda temas semelhantes mas de forma mais rasgada - a cena mais memorável é um achado: a imagem de um saco plástico dançando ao vento.
Um saco plástico dançando ao vento. A nossa capacidade imensa em transferir humanidade até mesmo ao que é inanimado. Um saco plástico que parece criar vida ao ser levado pelo vento. E que ao mostrar essa humanidade na nossa cara é o estopim da reflexão acima.
"A vida se me é", diriam alguns. A vida basta-se a si mesma, e eu, inserido nela, a bebo, mesmo sem perceber. E o saco plástico te mostra que você está vivo. E isso é grande. "Não sei se o amor é grande ou eu que sou pequena demais", diria a Antônia do Jardim de Polvos. A vida está por detrás de tudo. A gente até pode sentir medo, mas não adianta. A vida segue, o mundo continua com ou sem nós, não adianta. Medo de quê?
Às vezes, há tanta beleza no mundo... Penso que não vou suportar e meu coração parece que vai sucumbir.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Kafka e a boneca

E eu pensando o que de significativo e interessante ocorreu nos últimos dias digno de postagem.

Li o livro ao lado. Correndo o risco de me deparar com um daqueles livros infanto-juvenis idiotas. Mas tudo bem: o título me pareceu estranhamente convidativo e li na orelha do que se tratava... Supostamente o velho Franz, em seu último ano de vida, resolveu escrever cartas para uma menina como se fossem de sua boneca desaparecida, passando-se por um "carteiro de bonecas". Arrisquei.

O fato acima é contado como real, as cartas imaginadas pelo autor e toda a trajetória do livro, ficção, já que nunca acharam a menina ou as cartas que ele teria escrito. Tudo pensado a partir do relato que sua última companheira fez deste episódio, quando ele já estava muito abatido pela tuberculose.

Não é uma grande obra. Mas tem uma delicadeza interessante ao nos colocar frente ao autor de "A Metamorfose", "O Processo" e outras obras densas - de cortar o ar com uma faca - preocupando-se e dedicando o seu tempo para entreter uma criança. Supor isso possível já vale suspender a incredulidade e aceitar o livro como um universo paralelo onde Kafka vira personagem e um lado do homem - ainda que imaginado - por detrás das sombras e pesadelos emerge doce, talvez em uma legítima - mesmo que imaginada, insisto - nostalgia da infância.

Você se lembra da sua infância? Qual a lembrança mais antiga que consegue evocar? Um cheiro? Um gosto? Uma pessoa? Uma música? Uma menina chorando em um parque? Uma boneca perdida? Uma barata?

No meio da discussão sobre a qualidade do livro ou sua relevância - no meio de tantos Ulisses e Clarices e etecéteras, por que ler isso - fica a vontade de ressuscitar a criança e pegar pela mão o menino que um dia fomos e dizer: você fez o melhor que pôde.

Boa noite, Franz.
Boa noite, boneca viajante.

Se o Homem se transforma em barata, um dia a barata pode acordar menino.