sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Neurônios às vezes dão preguiça

Uma vez eu li um texto do Umberto Eco que falava sobre a "superinterpretação" da obra. Escrevo colocando aspas porque em tempos de reforma ortográfica para mim abre-se um novo mundo, inclusive de desprendimento: como viver sem o acento diferencial em "vôo", por exemplo? "O Vôo Sobre o Oceano" do Brecht agora é só "O Voo Sobre o Oceano". Sem acento. E o trema? Nada de trema. Linguiça, não lingüiça. Essa linha vermelha sobre a versão sem trema, do corretor, em breve desaparecerá. "Superinterpretação" ou "Super-interpretação"? Não sei, deixa pra lá. Seria super-interpretar (ou superinterpretar) o tema.

Vamos a ele. Diversas vezes nesta semana me deparei com a sensação de que idealizamos tanto as coisas que antes de cuidarmos do essencial, já estamos preocupados com o devir. Exemplo: este é um blog. Tendência: olhar para ele, querer mexer na estrutura, torná-lo mais dinâmico, esteticamente interessante ou agressivo, com hiperlinks, talvez um formato de "wikipedia" onde as pessoas pudessem alterar ou colaborar com as postagens, etc, etc, etc... Pergunta: do que adianta tudo isso se não houver leitores? É como se eu me arrumasse para um encontro com ninguém, ou pior: como se me arrumasse e nem sequer saísse de casa... Ou seja, já me preocupo lá na frente com tudo antes de resolver o fundamental. Ou então elaboro tanto uma discussão, tecendo tantas conexões e paralelos que acabo fugindo do que é essencial ao tema ou a obra.
Talvez traído pelo prazer "professoral" de fazer uma espécie de esgrima intelectual ao analisar as coisas, esquecendo da simplicidade e o olhar as vezes positivamente ingênuo frente ao mundo, os neurônios e a biblioteca pessoal tenham que ficar sempre de plantão, transformando tudo em teses e dissertações a serem defendidas...

E a poesia da coisa? O acaso? O simples? O sensorial?
O mundo é feito só de grandes cabeças que se mexem?
Preguiça!

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Roubado do Facebook da Érika Coracini

“Nessa noite sonhei com um cão. Um cão amarelo, muito magro e sujo. Eu sabia que estava a sonhar. Sabia que o cão não era autêntico. Contudo sentia medo. O cão talvez fosse fantasia, mas o meu medo era real. O sonho avançava e eu pensava: em como os sentimentos são autênticos, mesmo quando todo o resto é inteiramente falso. Nunca saberemos se existe quem amamos. Mas sabemos que o amor existe.” José Eduardo Agualusa

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Teatro: Guia de Sobrevivência na Selva das Cidades - volume 2

Questões para serem resolvidas - para uma boa sobrevivência:

1 - Como lidar com um momento da sua carreira onde as funções administrativas começam a ocupar um espaço maior que as de criação?

2 - Como resguardar a criação?

3 - Como manter um núcleo de colaboração artística ao longo dos anos e da penúria que é o mercado de trabalho?

4 - O teatro é necessário?

5 - Supondo que sim, como convencer os outros disso?

6 - Como dormir 8 horas por noite?

7 - Como convencer-se diariamente de que vale a pena?

8 - Supondo que valha a pena, como manter-se menos estressado e mais criativo?

9 - Como lembrar sempre do Brecht, quando diz que "Belo é resolver problemas"?

10 - Como escrever coisas mais interessantes em um blog do que uma lista de questões?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Teatro: Guia de Sobrevivência na Selva das Cidades - volume I



Há algum tempo atrás alguém usou o seguinte termo para definir o teatro, discorrendo sobre a idéia de o quanto ele consome uma pessoa em relação à vida pessoal, dedicação, etc.: "o teatro é uma amante muito ciumenta, ele exige exclusividade". Na época eu concordei, porque parecia óbvio demais o quanto é necessária essa dedicação. Só havia me esquecido de um ponto: pouco mais que um adolescente, ainda sem ter que pagar contas e outros bichos, era muito fácil elencar o teatro como principal - e talvez única - fonte de preocupações.

A próxima fase é a da relativização. As contas aparecem, os colegas fazem trabalhos comerciais e você já não crucifica ninguém por querer fazer televisão, por ter que largar um ensaio por causa de um trabalho remunerado ou por chegar atrasado / faltar por causa de um teste. Houve de alguns amigos mais radicais que "quanto menos ensaio melhor", que "em dois meses a gente monta uma peça" e recebe umas duas ou três propostas para montar um infantil. "Mas eu nunca me interessei por teatro infantil!"... "Tudo bem, a gente escreve um texto falando de meio-ambiente, ensaia na casa de alguém e depois vende pro SESC..." Nesse ponto você começa a olhar para trás e pensar se não era melhor a postura grotowiskiana do passado...

Depois vem o meio-termo. Existe - ou deve existir - uma postura de coerência sobre o porquê fazer teatro e uma ética pessoal sobre a que vincular sua imagem, seu tempo, etc. Sinceramente o "pagando bem que mal tem" não tem cabimento mesmo... Você lembra da atriz que fez campanha política para um cidadão que certamente não era seu candidato, além de ser um renomado canalha; do provocador que fez campanha para os discípulos de Omar Cardoso; do ator politizado fazendo Sandy e Júnior na Globo, e se pergunta se um MÍNIMO de coerência não é VITAL... Mesmo com as contas. Isso mesmo, MESMO COM AS CONTAS...

Aí você começa a viver a realidade. O tempo todo a vida é um jogo onde as regras são voláteis, as vezes, mas que tem princípios que não mudam. Fazer teatro é uma escolha e não me venham com a demagogia de dizer que é uma profissão como qualquer outra. Pelo contrário: no momento em que se tornar uma profissão como qualquer outra ele perde justamente o que tem de mais bonito - a capacidade de ser uma das poucas atividades que lidam com o subjetivo, com o sonho, com o "ser outro"... Não há mística nenhuma nisso. Mas um comprometimento com o lado menos pragmático da vida. Alguém quem tem que acalentar esse universo.