terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Feliz Natal


Contrariando o pessimismo geral que assola nossa intelectualidade de baixo clero, vamos ao resumo do ano de 2008. Sim amiguinhos, ele acaba melhor que começou, abrindo perspectivas novas para 2009. Hoje ainda é 16, mas não vou aparecer mais por aqui até no mínimo janeiro de 2009. O importante é seguir o exemplo do Johnnie, e keep walking.
1 - Sim, existem pessoas maravihosas perdidas por aí. Você é que estava meio cegueta.
2 - Dane-se se você está meio velho para vestibulares. O simples fato de prestar FUVEST é quase um regresso à infância, e passando ou não, ir para a segunda fase já é no mínimo aventura. Quase como ler "As Aventuras de Xisto" de novo. E se der um azar e passar, você pensa em como encaixar um curso de graduação no seu dia de 24h.
3 - As vezes você queima a língua achando que nunca passará em um concurso com 168 pessoas, com o agravante de que apenas as duas primeiras vagas dão direito a opção "São Paulo". E aí passa.
4 - Re-estrear a sua peça no Centro Cultural São Paulo em janeiro dá um fôlego inicial muito bacana para sua vida teatral.
Pois é.
Um pouquinho menos Kafka e mais Caco.
(piadinha infame, mas ok.)
Até 2009.
Feliz Natal!

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Depois de segurar o pires

Em resposta ao meu post de semanas atrás, quando do concurso de Orientador de Arte Dramática do TUSP... Esqueci de comentar aqui que passei. Às vezes fica parecendo auto-promoção falar das coisas que a gente conquista... Mas escrever só contando as mazelas da vida e afins também é, no mínimo, um porre.
Como Ofélias e anônimos disseram sobre narcisismo e etc., talvez ter um blog já seja, pelo menos em parte, auto-promoção. Não sei. Gosto de pensar nesse aqui como um exercício de escrever para ninguém, ou para um alguém incerto, que talvez goste, talvez não do que leia. Mas isso é outra história.
Enfim, estava lá eu, de pires na mão, prestando o concurso na Poli. Passaram-se etapas, por fim meu nome surge na lista final. Por sorte, em uma posição que me dá o direito de optar por São Paulo e a quase ceterza de não passar e as longíncuas Piracicaba, Ribeirão e Bauru ficam para trás... Um misto de surpresa, alegria e incertezas - mas positivas - se abre.
Segunda feira tudo deve ficar mais claro. Até lá... A vida segue ser curso!

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Mercedes Benz


"Oh Lord, won’t you buy me a Mercedes Benz?
My friends all drive Porsches, I must make amends.
Worked hard all my lifetime, no help from my friends,
So Lord, won’t you buy me a Mercedes Benz?
"

Eles se conheceram no trabalho dela. Ela perguntou o que ele faria depois, ele disse que não tinha compromisso e ela falou que sairia com um grupo de amigos mais tarde, depois do expediente.
Ele aceitou. Foram à uma boate. Saíram de lá com o dia quase amanhecendo.
Ela tinha um Mercedes branco. Deixou que ele dirigisse.
Com os passarinhos cantado foram até o Morumbi, em uma praça próxima do estádio.
Viram o dia nascer ali, sentados lado a lado, na praça.

Talvez eles jamais tenham conhecido a música.

Letra: Janis Joplin
Foto: Mercedes branco, talvez parecido com o que minha mãe tinha na década de sessenta, antes de eu ter nascido e que as vezes meu pai guiava.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Quase-evangélico


Outro dia eu andava pela rua e ouvi a seguinte pérola, à frente um bar, 9 da manhã:

- Beber? Eu não, não bebo! Sou quase evangélico.

Pensei o que seria um "quase evangélico". Porque o "católico não-praticante" é conhecido, mas o "quase evangélico" para mim é novidade.

Não contente com a pérola, o sujeito ainda completa, sem me dar tempo para chegar à alguma conclusão com sua primeira frase:

- Sabe por causa de quem? Por causa dessa, aí - e aponta uma mulher ao lado dele, que sorri orgulhosa de ser o motivo da "quase conversão".


Apesar de um sorriso matreiro de "quase convertido", certamente o camarada modificou alguma coisa de sua pregressa - que deveria ser bem mais mundada, ao menos pelo teor alcoólico e tomou jeito, ou "quase tomou jeito" (supondo que ser evangélico seja tomar jeito) por causa da mulher. Na verdade ele deve ser um mentiroso contumaz que no seu "quase" tem na verdade esperança de aos poucos, com bom humor e uma pitadinha de cafajestada converter, ele sim, a tal evangélica. Mas mesmo essa opção, se realmente acontecer, serve aos propósitos deste texto.


Os individualistas de plantão que me perdoem, mas sim, muitas vezes mudamos, não pelas pessoas, mas por causa das pessoas. Achar que o ser humano é cristalizado aos 20, 30, 40 ou 50 anos, que já "temos nossa personalidade acabada", que "não podemos mudar", etc... é uma grande besteira. Só os prepotentes acreditam que não tem nunca algo à transformar, ou os imbecis egoístas que levantam a bandeira do "querem gostar de mim, vão ter que gostar do jeito que eu sou". O que é "do jeito que eu sou, meu Deus"?


Certo, existem determinados valores, crenças, particularidades que são complicadas de serem transformadas. Mas o ser humano pode se reinventar e se desenvolver, e muitas vezes a tal defesa da "personalidade" nada mais é que ego. Muito ego. Muito individualismo e vaidade camuflados sob a máscara da "personalidade forte", da "individualidade", do relativismo - é certo "para mim", eu te amo "hoje", etc. O "universo-umbigo". Insegurança de se abrir para o novo. As relações humanas nos contaminam para bem e para mal, ninguém é uma ilha ou vive em uma torre de marfim - mesmo que a internet possa dar essa ilusão, de que o mundo virtual substitui a relação concreta, material, viva.


Se o camarada gosta mesmo da moça, bonito o esforço de deixar a pinga de lado - ao menos do lado dela - e agradar um pouco a bonita. Mas na via de mão dupla das relações, fica a torcida de que o batuta converta a evangélica e que ela sim, de vem em quando pelo menos, tome uma cervejinha.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Samsara


Samsara em sânscrito quer dizer peregrinação, literalmente. Palavra de suma importância na filosofia budista, essa peregrinação diz respeito ao ciclo de morte e renascimento que a alma cumpre até a atingir sua libertação. Guardadas as devidas proporções, esse ciclo de morte-renascimento acontece em vida, o tempo todo. Desprender-se de muitas coisas, ligar-se à muitas coisas. Nascer e morrer todos os dias, reinventar-se, redescobrir-se.
Sabe qual o problema? É que a gente sofre. Sofre muito.
Às vezes por besteira, mimo ou frescura. Outras não. Mas não adianta relativizar o sofrimento e pensar que sempre tem alguém pior, como se eu precisasse estar morando na rua e passando fome ou fumando crack para disfarçar a dor para ter direito a me sentir mal. Da mesma forma com que os "filhinhos de papai" agigantam problemas idiotas, tem um monte de gente que cultiva quase que um orgulho por ter "direito" de reclamar da vida, já que são menos favorecidos. Eu respeito a sua favela amigo, mas quando um parente meu morre a minha dor é igual à sua, quando uma pessoa que eu considero me trai minha decepção não é menor do que a sua, quando eu sou mandado embora do emprego meu sentimento de humilhação é parecido com o seu, se descobrem um câncer sem tratamento tanto faz morar no Horto Florestal ou em Capão Redondo, o corpo só vai definhar no meio de uma paisagem mais bonita ou mais feia.
Claro que excetuando os extremos tem muita frescura. Mas mais do que pensar que eu posso ser feliz porque tem gente pior - isso é filosofia de livro de menina da pior espécie - eu prefiro pensar que as coisas passam, e se transformam. Eu não tenho que me comparar com ninguém para me resgatar do meu próprio sofrimento... É monstruoso ter que ler uma notícia de assassinato na periferia, de criança molestada pelo pai, de grávida viciada em cocaína ou de traficante trocando tiros com a polícia no meio de um pátio de escola para achar que a minha vida é boa. Ele precisa ser boa tendo ela mesmo como referência. Eu preciso ultrapassar o meu sofrimento e a minha dor sem precisar que me lembrem que tem gente em estado pior que o meu. Isso, com um mínimo de bom senso, eu já deveria saber.
Mas por que a "frescura"? Porque estamos no meio de tanto consumismo, de tanto culto à imagem, de tanta superficialidade que a competição e a necessidade de aceitação aumenta, a ponto de criar um contexto onde temos que entrar em um "padrão", temos que ser "aceitos", já que o mundo é dos lindos, bem sucedidos, dos consumidores ativos, dos "globalizados", dos "contemporâneos". E a gente quer se encaixar, sem perceber. Ou se revolta. Entre um lado e outro, o que há? Ou estereótipo de "estou dentro do sistema" ou estereótipo do "revoltado". Fazer discurso contra o "sistema" é fácil, como transformar em ação? Falar das mazelas do mundo é bacana, mas como transformar isso em uma causa?
Mas mesmo isso passa. A roda completa mais um giro e mesmo em uma sala de piso preto a gente se lembra da importância de voltar a sonhar.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Só um adendo:
alguém me explica por que o adsense resolveu colocar aqui do lado um anúncio de cemitério?
será que estou mórbido demais sem perceber?

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Feriado, Bienal, Fuvest e etc.


E vem um feriado para quebrar a rotina.

Vamos por partes.


Em primeiro lugar, tive a brilhante idéia de ir à Bienal, já que inclusive comentei sobre ela antes de tê-la visitado, sobre a polêmica do andar vazio. Pois agora posso expressar minha opinião com conhecimento de causa mesmo, estive lá.


Andar vazio? Na realidade, parece que todos os andares estão vazios. Uma sensação de "vazio" no pior sentido, não da reflexão, mas como se estivéssemos sendo enganados. Poucas obras, sem a menor preocupação em indicar para você, público, o sentido delas estarem ali, sem acolher o visitante. Vazio no pior sentido - nem didatismo, nem choque, nem conservadorismo, nem abstração, nada mesmo. Uma impressão de que aquilo tudo é um trote, que as obras foram retiradas dali e que o Pavilhão ficou aberto apenas para dizer que algo acontece.

De tão mal-humorado, me recusei a descer pelo "escorregador". Não queria correr o risco de guardar uma lembrança boa sequer daquilo tudo.


Depois: Fuvest.

Ok, para quem não estudou nada literalmente acertar 50% da prova já está de bom tamanho. Vamos ver se a nota de corte sobe - o que eu acho bem provável, já que todos estão dizendo que a prova estava mais fácil que a do ano passado.


"Romance" com o Wagner Moura é um filme despretensioso, bem no jeitão das minisséries e especiais que o Guel Arraes dirige na Globo. A Letícia Sabatella é um pouco forçada no papel, o enredo não tem nada de especial e o Nanini e o Wilker foram chamados especialmente para fazerem Nanini e Wilker... Mas é bonito em alguns momentos sim. E o Wagner é um grande ator, o que já faz qualquer coisa valer a pena - raro ver um bom ator MESMO no cinema, sem se repetir, sem cair no naturalismo puro e simples... E para quem faz teatro, esse tipo de trama envolvendo os bastidores e a vida "real" em paralelo com as produções, ensaios, etc. em algum ponto toca. Por identificação, por crítica aos estereótipos as vezes, por negação. E ele nos faz entrar na história, uma história que talvez outro ator não nos convenceria e faria o lado negativo - da obviedade, do deja vu, etc - falar mais alto.
Parece que mais do que uma "boa história", estamos sentido falta de bons "contadores de história".

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Aniversário


Ontem completei mais um.
E não é que foi bem melhor que o do ano passado?
:-)

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Jogos na hora da sesta


E lá estavam todos eles. Ou quase todos.
Depois de um ano praticamente, reunidos em um mesmo palco, agora mais claro, talvez menos soturno, aparentemente menos soturno pelo menos.
"Jogos na hora da sesta" - com João, Socleson, Rita, Marcella, Paula, Paulinha, Natália, Rodrigo, Nadia, Stefânia, Rose.
Personagens que são trajetórias. Atores usando os próprios nomes e jogando, como crianças, revelando e camuflando a crueldade.
Fecha-se um ciclo. De agora em diante, eles completam sua passagem pela Universidade. Jamais ela será a mesma para eles - por mais que continuem seu contato com aquela estrutura, será agora como alunos formados. Concluíam sua graduação.
E de agora em diante, meu último vínculo afetivo com a Universidade também se conclui.
Parabéns, merda e obrigado por terem subido, mais uma vez, no aparelho. E de lembrarem que eu fui um dos operários em San Diego.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Eco e Narciso


Outro dia conversava com uma amiga e surgiu essa história. Eco e Narciso - e como algumas relações reproduzem o mito. Não basta o narciso, às vezes há um eco que cumpre também sua função - a de ecoar o narcisismo alheio.

Demora um pouco para perceber que nem um nem outro é saudável.
Deixemos esse povo afogado, sob as águas.
Como a Ofélia.
Mas essa é outra história.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

"A Balada do Soldado Morto" ou lendo "Nada de Novo no Front"


A Balada do Soldado Morto
(tradução e adaptação por Antonio Cestari)
Já era a quarta primavera em guerra
E a paz não apareceu
O soldado decidido espera
E como um herói morreu.
Mas como a guerra não terminou
O rei vendo morto o soldado
Ficou muito triste e pensou:
Morreu antes do fim o coitado.
O verão esquentava a sepultura
E o soldado jazia sem reclamar
Até que uma noite muito escura
Chegou ali um médico militar.
A comissão médica aguardada
Pelo cemitério adentrou
E com uma pá santa e sagrada
O soldado exumou.
O médico com precisão o soldado olhou
Ou pelo menos o que deste sobrava
O médico, o soldado por apto achou
E que este do perigo se esquivava.
Saíram e levaram consigo o soldado
Azul e linda a noite por ser
Podia-se, sem o capacete armado
Da pátria, as estrelas ver.
Sobre ele aguardente derramaram
Pois já apodrecia
Rezavam em seus braços duas freiras
E uma puta vadia.
E como o soldado a defunto cheirava
Um padre ia em frende ao andor
Pela cidade nuvens de incenso espalhava
Para encobrir o fedor.
Fazia um bumbum tralalá
A banda na frente da procissão
Para que o soldado marchasse
Como aprendera no batalhão.
Fraternalmente pelos braços, então
Dois enfermeiros o soldado erguia
Para que não caísse no chão
Pois isto, acontecer não podia.
Sobre o seu terno mortuário
De preto, branco e vermelho pintado
Assim carregando-o, não se via
Entre tantas cores; o defecado.
Um homem de fraque marchava na frente
Com sua cabeça toda empinada
E como um bom alemão decente
Seguro de seu dever pela pátria amada.
E assim marchavam com seu bumbum tralalá
Pelo escuro caminho alarde
E o soldado marchava cambaleando
Como floco de neve na tempestade.
Gritam os gatos e os cachorros por vezes
Assoviam no campo os ratos de contra:
Não queremos ser franceses
Porque isto é uma desonra.
E quando pelas cidades passavam
Todas as mulheres estavam lá
Brilhava a lua cheia, as árvores se curvavam
E todos gritavam hurra.
Com bumbum tralalá e até adeus
A mulher, o cão e o prelado
E entre eles o soldado morto
Como um macaco embebedado.
E quando as cidades percorriam
Não se via mais o morto lá
Eram tantos ao seu redor, o escondiam
Com seu bumbum e hurra.
Tantos dançavam e gritavam em rima
De forma que já não o viam
Podia-se vê-lo somente de cima
Mas em cima só estrelas haviam
Não estão lá sempre as estrelas
Pois vem certa uma aurora
Mas o soldado, como aprendera
Atira-se à morte heróica de outrora.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Valeu McCain, abraço, me liga...


Tá aí o Obama.
Despachadão, pé na mesa, sorrisão do tipo "valeu, moçada".
Se vai mudar algo na realidade, não sei. Talvez na prática, não.
Mas ao menos existe algo de significativo na eleição de um presidente negro nos Estados Unidos e ao mesmo tempo da derrota daquilo que seria a continuação dos Republicanos no poder.
Assim como a eleição do Lula (ao menos a primeira).
Ainda que não haja uma mudança qualitativa, realmente transformadora das duas opiniões públicas (do Brasil e dos Estados Unidos que sim, continuam preconceituosas, racistas e elitistas), a possibilidade de existência de um impulso que faça acontecer uma ação inovadora (mesmo não sendo fruto de consciência e racionalização) já é algo a se comemorar.
Os gays ainda não podem se casar na Califórnia.
Mas os operários e os negros já podem ser presidentes.
Por que não tiram os direitos políticos dos toscos, ao invés de questionar os homossexuais, as minorias raciais, as diferenças religiosas?
Espero que o senhor continue com motivos para sorrir, seu Obama.
"I have a dream that my four little children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin, but by the content of their character. I have a dream today."
Se o dia não chegou, está perto, Reverendo...

terça-feira, 4 de novembro de 2008

ensaio sobre a cegueira


Ensaio sobre a cegueira.
À parte o livro do Saramago, à parte o filme.

Cegueira.
Que pode ser negra ou branca.

Nas condições mais adversas, o ser humano pode se tornar o mais perverso possível.
Ninguém é "bom" só porque "ainda não cometeu seus crimes".

Da civilização à barbárie, basta um empurrãozinho.
Resta apenas a esperança na humanidade, que pode ser um simples renovar de gentilezas.



"Minhas juras eram tantas quanto minhas palavras e as descumpria todas à luz clara do céu.
Eu era alguém que dormia pensando em projetos de luxúria e acordava para realizá-los.
Amava profundamente o vinho e com ternura os dados; quanto às mulheres eu superava um
turco. Falso de coração, fácil de ouvido, mão sanguinária; porco pela preguiça, raposa pela
astúcia, leão na pilhagem, voraz como um lobo, um cão raivoso. Não deixes que o ranger de uns
sapatos ou o sussurrar de sedas entreguem teu pobre coração a uma mulher: não põe teu pé
nos bordéis, tuas mãos nas saias, teu nome em livro de usurários; e poderás desafiar o demônio
impuro. O vento gelado continua a soprar pelos ramos do espinheiro; e diz, zuuum, zuum,
munn, num. Delfim, meu rapaz, meu rapaz, cessa! Deixa o vento trotar!
(A tempestade continua.)

Estarias melhor na sepultura do que expondo teu corpo nu a tais extremos do céu.
O homem é apenas isto? Observem-no bem. Não deve a seda ao verme, a pele ao animal, a lã à
ovelha, nem seu odor ao almiscareiro.
Ah! aqui estamos nós três, tão adulterados.
Tu não, tu és a própria coisa.
O homem, sem os artifícios da civilização, é só um pobre animal como tu, nu e bifurcado.
(Começa a despir-se.)
Fora, fora com estes trapos emprestados. Desabotoa aqui.
(Começa a arrancar as roupas.)"

Shakespeare, Rei Lear

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Vazio


Que me desculpem os críticos de arte que defendem a iniciativa do curador desta Bienal em deixar um andar do prédio vazio. Que me desculpem os blogueiros que já falaram sobre esse tema (a foto acima foi tirada de um blog que discute exatemente a mesma coisa, aliás dou crédito: http://www.lucianotrigo.blogspot.com), pode não haver nada de novo em falar sobre isso.
O Luciano - autor do blog citado aí em cima - defende a idéia do andar vazio na Bienal. Defende com argumentos, está bem informado, reflete a questão. Quem quiser dá uma passada pelo blog dele, vale a pena. Ele parece estar realmente próximo da discussão e coloca o fato sob um ponto de vista bem elaborado.
Queria falar sobre o vazio aqui na posição de leigo, ou quase leigo. Minha arte é o Teatro. Fui poucas vezes à Bienal. Minhas referências de arte contemporânea geralmente se dilatam na medida em que um projeto teatral pede novas referências. Uma arte alimentando a outra. Por isso não posso dizer que minha opinião é embasada no contexto de artistas, curadores, críticos - mas sim de público, mesmo. E público quase leigo.
Entendo a crítica de manter um andar vazio na Bienal. Mas acho uma pena. Ainda mais em se tratando de um país tão carente de arte e cultura, me parece quase um esnobismo, uma ação voltada para o próprio umbigo que vira as costas - e deixa o vazio - para o público e a sociedade. Sim, talvez a arte produzida já não comunique mais ou não esteja sintonizada com os valores desta sociedade, mas que ela possa ao menos criticar isso, questionar a referência apresentada, confrontar suas espectativas e valores com as representações.
Não consigo conceber uma mostra de literatura com livros em branco. Nem um festival de teatro onde os atores não entrem em cena, deixando o palco vazio. Ou uma mostra de cinema que exiba películas em branco. Mesmo no contexto de crítica ou denúncia.
Não consigo conceber uma Bienal - mesmo no contexto da crítica ou denúncia - que deixe um andar vazio. Que fizessem um catálogo mostrando o que gostariam de fazer e o que foi realizado. Com espaços vazios onde deveriam estar artistas e obras.
Acho essa iniciativa mais uma forma de afastar o público da arte. Mais uma forma de fazer com que o leigo acredite que a arte contemporânea é qualquer coisa mesmo. Mais uma maneira de demonstrar que no quesito formação de público, aproximação da arte e do cidadão ou mesmo de uma "ação pedagógica" (longe de ser paternalista ou algo assim) dane-se o visitante.
A "Bravo" enalteceu o aspecto positivo da Bienal, justamente tentando apontar característas contrárias ao que citei acima ("Uma Bienal para Você" - no link da bravo online, a matéria:
Mas se Arte exige coerência e é a etapa final de um processo filosófico e político, no que diz respeito à uma visão de mundo e de realidade, como lidar com essa incoerência?
"Uma Bienal para mim". Meio-vazia. Eu mereço meia-bienal.
Não dá para fazer uma visita monitorada ao prédio em outro momento, e ter uma bienal inteira para mim?

terça-feira, 28 de outubro de 2008

O teatro. E o Teatro.


Aí está ele. Nossa melhor definição de "palco italiano".
Fugimos dele. Queremos a arena, o espaço alternativo, os galpões, a proximidade não estratificada socialmente com o público.
Fugimos dele porque achamos que é velho, ultrapassado talvez.
Porque cheira a Ibsen e Tchekov, porque cheira a ópera do final do século XIX.
Porque é habitado por fantasmas que cantam à noite, porque tem lugares mais baratos porque a visão é prejudicada, porque ao invés de campanhia tem como sinais as luzes que enfraquecem e voltam, em resistência.

O teatro municipal e o Teatro. O edifício e a Arte.
Mas tem um momento onde tudo se encontra. O palco italiano não é a única forma de dizer o que se quer dizer. Mas pode ser uma das formas, ainda hoje. E não precisamos fugir.

Teatro é bom quando se tem amigos. É possível fazer amigos no Teatro, mas é perigoso querer fazer Teatro com amigos, no sentido de inverter a ordem das coisas. Tenho excelentes amigos que fiz no Teatro e que hoje não trabalham mais comigo. Porque percebemos que nossa praia era outra e, longe de desconsiderar o trabalho de um ou de outro, descobrimos que o melhor lugar para desenvolver nossa amizade não era no palco.

Tenho excelentes pessoas a minha volta que trabalham muito bem comigo em cena. Mas que não saímos para tomar cerveja. E a parceria é boa. Talvez nossa amizade flua mais em sala de ensaio que fora dela. Tudo bem também. Melhor, talvez - pensando no Teatro. Como se o Teatro fosse uma família. Tem irmãos, primos, tios, pais, mães, etc. Naquele almoço de família, nem sempre é com a sua mãe ou com seu irmão que o assunto corre melhor. E a conversa é mais interessante as vezes com os primos distantes que com aqueles que você vê todo dia.

O problema não é o palco italiano. Ele foi usado tanto por Stanislavski quanto por Brecht. Por Copeau e por Bob Wilson. O problema é que pensamos e o que queremos fazer com ele. Não necessariamente ele guarda uma visão de mundo. Não é o processo colaborativo nem o espaço alternativo que farão do trabalho algo renovador. É em como encaramos o Teatro.

Para que estamos ali?
O Teatro é necessário?
Eu sou necessário para ele?

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

parte dois, primeiro ato

Sexta-feira, primeira parte da segunda etapa da prova - concurso para Orientador de Arte Dramática.

Lá estamos nós. Dos cento e poucos inscritos, restam trinta e oito. E desses, oito não aparecem e quatro - pelo que consta - chegam atrasados e não podem entrar. Pelo vidro da porta vemos colegas esbaforidos chegando menos de cinco minutos atrasados e serem barrados. Não sei o quanto cada um ali apostou nisso, pôs suas fichas na possibilidade de uma nova carreira, mas é frustrante. No mínimo. E apesar das justificativas todas, da necessidade de não abrir precedentes, etc, fica aquele gostinho das "pequenas autoridades" no ar...
Entre o "jeitinho" e a exceção possível e humana, deve haver um caminho... Um meio termo possível.

Não, minha voz não se levantou. Menos por covardia que pela certeza da inutilidade do gesto. Traria apenas a sensação de que quis cometer um ato de heroísmo. Exibição.
Mas ficou ecoando aqui.

Prova interessante - um tanto subjetiva, não dá para saber se se foi bem ou não.
Perfil? Que perfil, se não se sabe ao certo as atribuições e o que se espera desse cargo?
Sabe-se lá. Tomara que não esperem gritos. Esse falhou.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Uma questão metafísica - o sentido da vida

("eu acho que algumas vezes eu busco o sentido nos lugares errados...")

Enfim, estava eu numa aula falando sobre Dialética e para explicar, busquei seu contraponto, a metafísica. Uma prega que não existem  valores ou coisas imutáveis e que a essência do universo e da realidade é a transformação. A outra diz que existem coisas perenes, que sempre foram e sempre serão - Deus, por exemplo.

As implicações políticas são claras: assumir valores perenes pode servir para a estagnação, para justificar diferenças sociais e econômicas, preconceitos, rótulos e interesses de um determinado grupo, classe ou pessoa. Por isso a birra dos marxistas com a religião. Até aí, tudo certo. A religião - não é de hoje - sempre foi usada como forma de dominação. Pena.

Mas a questão que se coloca é a seguinte.
Vamos assumir que as coisas não possuem um sentido. Que a realidade não precisa e não tem um sentido maior mesmo, e que tudo isso aqui é obra do acaso. Possível? Sim, cientificamente falando é possível, ou pelo menos, para alguém que possui informações científicas que ficam no plano do leigo, parece até provável. Um olhar racional sobre a vida, dialético, desprovido de metafísica.

O problema não é lógico, é ontológico.
O que chamamos de "vida", em suas diversas formas, possui por definição o desejo de se perpetuar e o desejo de sobrevivência. A barata corre. O fungo se multiplica. O vírus hiberna na tumba do faraó para mil anos depois ajudar a difundir a idéia de "maldição". Sobrevivência. O instinto sexual se associa ao prazer para estimular a espécie a copular. Insetos não deixam de fazer sexo mesmo sabendo que a fêmea matará o macho depois - se não "sabem", devem desconfiar pelo menos... E por aí vai. 

Se a "vida" não faz sentido, porquê esse instindo em preservá-la? Os seres vivos, mero acaso da natureza, poderiam apenas surgir e desaparecer, sem luta ou desejo de seguir adiante, sem colocar um valor especial à consciência, deixando-se voltar ao nada, simplesmente. Que o Homem tenha medo da morte e não deseje, ok. Mas a barata aqui na cozinha sair correndo quando eu acendo a luz e o fungo que um dia cresceu na madeira debaixo da pia por causa do vazamento querer se espalhar pela casa é um pouco estranho.

Pensando nas baratas, eu gostaria mesmo que a vida não tivesse sentido e que elas não ligassem quando a gente pisa ou aplica detefon. Mas esse instinto de sobrevivência que faz a vida lutar a todo custo para prosseguir - não apenas o indivíduo, mas a espécie - me parece as vezes muito incoerente com a simples ausência de sentido...

Mas tudo bem. Deixemos a metafísica associada às baratas com o Kafka.
Boa quarta-feira. 

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Sobrenatural parte 2

Não, esta imagem não suscita nada de sobrenatural mesmo.
Mas olhe com atenção. A velhinha à esquerda, não parece com aquela que te pediu para ajudá-la a atravessar a rua porque não enxergava direito?
O policial que segura o cacetete, com tantos outros que direcionam o seu olhar justamente para quem não parece oferecer risco - no caso, o camarada lendo - ao invés de inibir o delito iminente?
O sujeito de mala que cruza com a mulher boazuda - com certeza olhará para trás depois que ela passar por ele. Até a campanha "Vá ao Teatro" aparece aí. A diferença é que o homem de chapeu parece interessado.

Mas existe um componente interessante nisso tudo, o quanto não damos mais bola para o cotidiano. Os pequenos momentos que passam por nós, que de tão naturais não são dignos de atenção. Os pequenos encontros, especialmente os possíveis que não saem do universo do "quase", pela falta de atenção que damos. A falta de atenção.

Já se falou muito sobre "efeito borboleta" e coisas assim. E acho que esses dias eu mesmo citei o Garcia Márquez aqui, com o "é a vida, mais do que a morte, a que não tem limites". Pois esse é componente sobrenatural. Acho que foi Santo Agostinho que disse que o "sobrenatural não é o que é contra a natureza, mas sim contra o que conhecemos da natureza", ou algo assim.

E os fantasmas e espíritos e alienígenas e energias e deuses se transformam na brisa e no movimento do vento e das borboletas que não paramos para enxergar mas que nos tocam, de alguma forma.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Piazentin e o sobrenatural


Dentre as coisas que mais me chamavam a atenção na aurora da minha vida, na minha infância querida que os anos não trazem mais está tudo o que pode ser ligado ao sobrenatural. Eu achava o máximo as histórias de fantasmas, civilizações perdidas, mistérios do além e afins.
Eu lia "Kripta", colecionei "As Ciências Proibidas", lia tudo do Papus, tive uns três baralhos de tarot diferentes, fiz a "brincadeira do copo" (oui-ja, e deu certo!), tive sonhos premunitórios e no quesito esquisitices só não vi fantasmas nem seres extra-terrestres.
Ficava pensando se há algo depois da morte, no sentido da vida e nas possibilidades de contato com o além. Aos doze anos mais ou menos escrevia em um bloco considerações sobre as pirâmides do Egito, a reencarnação e a possibilidade quase certa dos ETs. terem feito os moais da ilha de Páscoa e o Stonehenge. Fui em um Centro Espírita, frequentei a Igreja Presbiteriana e vi gente receber santo.
Bom, depois de um tempo dá uma certa preguiça. Por um lado porque a vida cotidiana e pé no chão começa a exigir outras coisas de você. Por outro, porque existe uma certa humildade, acho, numa postura um pouco agnóstica - se existe algo "sobrenatural", por definição você não compreende mesmo, já que nem a natureza a gente consegue compreender, quanto mais o que está acima dela... Então, cuidemos daquilo que podemos tentar entender e vamos torcer para que o que está acima de nós tenha paciência com a nossa humana ignorância.
Outra coisa que dá preguiça é aquela aura de misticismo que cerca quase tudo o que poderia ser estudado e discutido com mais seriedade. Ou a suposta seriedade de pensamentos que partem de uma lógica até razoável mas resumem tudo a um ponto de vista superficial e tolo, no estilo "O Segredo" (quero uma Ferrari... quero uma Ferrari... quero uma Ferrari... Opa, olha ela na minha porta!)... Uma roupagem holística para um tipo de preocupação capitalista e consumista ao extremo. Parece que o velho xamã que fazia truques para encantar sua tribo ainda está escondidinho, pronto para saltar e dar um show em troca do assombro e se possível de doações dos fiéis, palestras pagas a peso de ouro, prestígio, etc...
Depois escrevo mais sobre isso.
Não, não vi fantasma essa noite.
Por que resolvi falar sobre isso? Sei lá.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Tango e afins


... aí eu chego no restaurante: o começo de uma noite boa, e bem engraçada pela situação inusitada...


no meio da conversa, que termina no assunto Filosofia, voltam as lembranças da FFLCH e dos três semestres em que teimei, com 18 anos, a fazer o curso que deveria ser proibido a qualquer um com menos de 40 anos.


Aos 18, aos vinte e poucos anos, você finge que tem idéias pronfundas sobre a vida, o mundo, etc... Você pode ter bom senso, sim, mas desculpe-me, ainda está na fase do "ouvi o galo cantar e achei razoável repetir". Isso não é uma acusação às tantas pessoas inteligentes e sensíveis que conheço dessa faixa etária, mas bancar uma faculdade de Filosofia na adolescência - ou recém saído dela - é no mínimo um desperdício.

Da mesma forma quando entrei em Artes Cênicas, aos 24 anos, percebi que naquele momento estaria aproveitando bem mais o curso do que com 17, 18... Que dirá Filosofia.

Há exceções, claro que há... Mas fica mais fácil o equilíbrio entre o ideal e o possível, a utopia e o concretizável, entre o sonho e a realidade, quando se viveu um pouco mais, quando se passou por um punhado a mais de problemas, quando se teve que pagar as próprias contas no final do mês, quando se vivenciou perdas e conquistas na prática mesmo. E quando os arroubos juvenis de genialidade e crença de que se vai "fazer a diferença" vão sendo substituídos pelo simples prazer de querer fazer seu trabalho bem feito, o melhor possível, tendo a noção de que o mundo é vasto, é grande, de que tem muita gente dentro dele e de que ser "o melhor", "o mais isso", "o mais aquilo" é preocupação ingênua. E aquele chavão de que devemos querer superar a nós a mesmos é bem próximo da realidade sim...


Outra coisa: é muito estimulante conhecer pessoas que voltaram à faculdade aos 40, 50 anos... Essa disposição de se re-inventar, de aproveitar esse momento da vida adulta para voltar a estudar, como um investimento em si próprio, não como a busca - muitas vezes precoce - de definir uma carreira, uma profissão para "a vida toda". Quem sabe, aos 35, eu não engrosso a fileira dos "tiozinhos"?


"Beeeeeeeeeeeeem capaz", como diriam no Sul.

domingo, 12 de outubro de 2008

y cuando me pierdo en la ciudad

Te vi... contabas margaritas del mantel
Ya se que te trate bastante mal,
no se si eras un angel o un rubi
O simplemente te vi.

Te vi, saliste entre la gente a saludar
Los astros salieron otra vez,
la llave de mandala se quebro
O simplemente te vi.

Todo lo que diga esta de mas,
las luces siempre encienden en el alma
y cuando me pierdo en la ciudad,
tu ya sabras comprender
Solo un rato no mas, tendria que llorar o salir a matar.
Te vi, te vi, te vi... yo no buscaba nadie y te vi.

Te vi... fumabas unos chinos en Madrid
Yo se que hay cosas que te ayudan a vivir
no hacias otra cosa que escribir
Y yo simplemente te vi.
Me fui... me voy, de vez en cuando a algun lugar
A nadie le hace gracia este pais...
Tenias un vestido y un amor... yo simplemente te vi.

Todo lo que diga esta de mas,
las luces siempre encienden en el alma
y cuando me pierdo en la ciudad,
tu ya sabes comprender... solo un rato no mas,
tendria que llorar o salir a matar...
Te vi, te vi, te vi... Yo no buscaba nadie y te vi.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Lear


Lendo o Digitando hoje relembro o quanto podemos passar por cima de trabalhos feitos em âmbito escolar só porque precisamos fazer as considerações de sempre: atores em formação, tempo escasso, limitações na criação artística pela estrutura, tempo, etc... Ao mesmo tempo, nos esquecemos - se não tomamos cuidado - dos aspectos positivos, que muitas vezes pesam mais na balança do que o lado ruim.
Desde que entrei no Teatro Escola Macunaíma (2003, contando a primeira turma de montagem) foram 23. Com erros e acertos, mas se contar, sendo bem exigente, pelo menos metade dessas foram muito legais de ter feito.
Esse semestre tem o Lear. Faz tempo que queria trabalhar com esse texto. E encontrei uma turma que comprou a idéia, bastante empenhada. Claro que para ajudar estreamos logo no começo da Mostra. Mas nada pode ser perfeito. O jeito é encarar ué. E fazer com prazer.
E sim, apesar dos pesares, dá prazer trabalhar.
Pelo menos na maior parte do tempo.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Ontem, hoje, sempre


Caminhei à noite, depois do meu compromisso com o príncipe da Dinamarca, no frio, em direção à vida que continua passeando pelo mundo. Não, o mundo não parou de dar suas voltas, nem a primavera deixou de vir - ainda que com ares de inverno - pelo contrário: nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.

Em meio às transformações o frio e uma garoa fininha cobriam os passos. Fiz uso de um taxi e me deparei com uma personagem: sujeito de olhos esbugalhados e jeito de sapo, falando gratuitamente sobre sua vida pregressa - com ênfase na parte sexual, digamos. Fingindo interesse sobre as peripécias de alcova do meu condutor-sapo, fui observando o caminho até chegar no destino. Uma festa de aniversário quase secreta.

E no meio de uma mistura de comemoração, frio e comédia stand-up, entra uma luz em forma de dragão rascunhado, reduzido a apenas uma linha.


O problema da frase da Clarice: "somos moços ainda, podemos perder algum tempo sem perder a vida inteira" é o risco de repeti-la até tornar-se velho mesmo. A vida não pára, o mundo não pára, o tempo não pára. Mesmo para os moços.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Keep Walking


Uma das coisas meio bobas que eu gosto é colecionar cartões da Johnnie Walker. E olha que eu nem gosto muito de destilados. Se eu tomasse uma dose da citada bebida para cada cartão guardado, estaria com cirrose. Ou pelo menos com muitas ressacas a mais que o normal. Até hoje não entendo como a campanha de uma bebida é "keep walking". Será algo do tipo "deu duro, tome um Dreyer"? Porque o que eu mais imagino é o camarada aí de cima não conseguir mais andar em linha reta, uma vez que a toda vicissitude da vida ele sente-se convidado a mais uma dose. Tem frases memoráveis, mesmo que a gente não se atenha ao fato contraditório do bonequinho caindo de bêbado tentando ir à frente. Enfim, aceitemos o desejo do produto e tomemos a sério a mensagem do Keep Walking.
Nesses dias de Elmo não tenho pensado muito nas tais vicissitudes até porque aos poucos elas vão perdendo o sentido. Mas claro que elas existem. Agora, sinceramente existem problemas que simplesmente dão no saco. Eles te enchem tanto que chega uma hora que a vontade é mandar a merda. E pronto. Ok, as contas continuam aí para ser pagas, não é isso que vai fazer algo mudar, mas existem coisas que a gente cria. E pode, sim, mudar.
Uma vez escrevi no espelho: "eu preciso mesmo passar por isso?", como uma lembrança de que existem coisas que podemos transformar na nossa vida. Meu momento auto-ajuda foi presenteado com um bilhete da Jucilene, que limpa a casa uma vez por semana, tentando "responder" à minha pergunta. Achei engraçado e ridículo da minha parte ter deixado o papel lá no espelho e não ter escondido da Jucilene a tempo.
Tá, não precisamos deixar no espelho. Mas podemos nos perguntar - só a nós mesmos, sem testemunhas: "precisamos mesmo passar por isso?" Medos, inseguranças, decepções, covardias... Tudo em prol de mantermos uma boa "capa" de pessoas inteligentes, razoáveis e equilibradas?
Cuidado com o quê? O único cuidado que não deveria nunca ser descuidado é o cuidado com os outros. Quando isso derrapa, aí podemos ser tragados pelo nosso egoísmo. E achar legítimo. Fora isso, "se não somos donos de nada que deixamos, que importância tem o momento de deixar?"
É isso aí. Mesmo sem Johnnie Walker, temos que tocar o barco. Ir adiante.
"... é a vida, mais do que a morte, a que não tem limites"
G.G.Marquez, O Amor nos Tempos do Cólera

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Você sabia que uns 70% dos brinquedos agora são à pilha?


A maioria esmagadora dos brinquedos agora é à pilha.
Bonecas que choram, fazem "cocô de verdade", cachorros que gemem quando você faz carinho, robôs que acompanham sua vida, etc. Dá-lhe Energizer, Duracell e afins.
Crianças, não comam as pilhas, por favor.

Já imagino a filha falando: "Pai, me dá a boneca que faz cocô?" (R$ 500,00)
"Brinca com a sua irmãzinha querida, ela também faz e é de graça."

Esse aí em cima é o Elmo.
Ele é um boneco (by Vila Sésamo) que ri. Só isso.
Você acha bobo. Mas depois de uns segundos vendo ele se estropiar no chão, batendo as pernas e rolando, você começa a rir também.

E é bom rir.
Parafraseando o Beckett: "A gente ri, com vontade, e aos poucos vai ficando feliz de verdade." Algo como um "Anti-Fim de Partida".
Porque ter um blog não é só querer postar textos inteligentes mostrando como a humanidade é podre e a vida não vale a pena.

Vale a pena sim. Vale a pena olhar para os outros e tratá-los de forma com que a gente gosta de ser tratado. E falar bobagem. E se divertir. E ter o melhor final de semana em muito tempo e dizer isso. Ser um pouco Elmo.

Ah, passei na primeira fase do concurso... Quem sabe não largo tudo, compro um boneco Elmo e vou pra Bauru?

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

USP, TUSP, POLI e afins

A classe artística vive com pires na mão. Uma pena.

Hoje prestei o concurso na USP para "Orientador de Arte Dramática". Trabalho vinculado ao TUSP, não necessariamente em São Paulo. Vagas em Bauru e Piracicaba também.

Chego lá e encontro todo mundo, quase literalmente: ex-colegas de ECA, colegas do Macunaíma, ex-alunos do Macunaíma e da São Judas, amigos, amigos de amigos, etc. A classe artística é uma pequena cidade do interior. A diferença é que é uma cidade de desempregados ou semi-desempregados ("autônomo" no meio teatral é meio isso, no final das contas).

Toda vez que aparece um edital, um concurso ou uma lei de incentivo vamos todos. Querendo uma luz no fim do túnel. Gente com competência, adaptando-se, mutando-se, buscando dignidade e condições de trabalho, sempre. Auto-produzindo-se.

É bom e triste o encontro. Ao mesmo tempo.

E vamos lá, prova de 50 questões de múltipla escolha, quatro horas de duração, na Poli.

Tem algo menos teatral que a Poli? Acho que muitos ali - incluindo eu - nunca haviam pisado na Politécnica.

Antes, um café. E passam graduandos de camiseta da seleção brasileira, bermudão, chinelo.

Meu Deus. Se eu passar em Letras, vou ter paciência? Vamos lá, vamos lá.

Terminadas as múltiplas escolhas, saio logo. Não tenho paciência de ficar considerando mil possibilidades, chego até a usar a lei das probalidades nas duas últimas dúvidas que restavam - se deu muito "E" e "D", com certeza essa é "B" - questões sobre leis... Termino a prova e entrego no prazo mínimo de uma hora. Assino a lista de presença e me vou. Fico esperando Laura e Renata, companheiras de Macunaíma e de carona saírem.



Ontem me rendi ao "Shakespeare Apaixonado" e revi o filme. Bom. Deixando de lado o purismo e a chatice, longe de conferir a ele o Oscar - tá, como se o Oscar fosse alguma coisa séria... - é um divertimento gostoso. A reconstituição do teatro elizabetano, o lado ficcional da figura de Shakespeare como personagem e o clima do filme são muito bons... Se eu não fosse um sujeito muito truculento diria que é quase emocionante o voto de fé no teatro e na arte que em muitos momentos exala da produção. Mas como sou um sujeito duro e frio, vou dizer que é piegas e superficial. Mas no todo, um filme bem feito sim.


(meu computador agora desliga sozinho. hoje é domingo e posto o rascunho salvo de sexta)

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

"Fazendo as sinapses"

... aí você ouve uma coisa um dia. Percebe outra, dias depois. Vai tendo, aos poucos, uma visão clara do que acontece em algum âmbito da sua vida, vai juntando os pedaços. Você percebe algo que poderia estar na sua frente mas que não se dava conta dele antes. E a sinapse se faz.

A realidade não precisa ser um quebra-cabeça onde só a percebemos depois de juntarmos as peças. Ela é, está aí, as vezes quem olha para o mundo como um quebra cabeças o faz porque quer montar um quadro diferente do que é, na esperança de novas peças surgirem ou das mesmas se modificarem, revelando novos encaixes. Mas a realidade está aí. Anterior à nossa vontade de desomntá-la em pedaços para juntar na esperança de que voltem diferentes.

E depois do quadro montado, olhamos a figura. É a mesma, é a mesma. Não adianta o nosso esforço em querer ver algo diferente. Se nos dá montanhas, nuvens, mar é isso: montanhas, nuvem, mar. Podemos apenas olhá-lo de forma diferente, mas é ele.

Não mudamos o que vemos. Podemos olhar de forma diferente.
E podemos virar a cabeça e aproveitar os 360º que o mundo oferece.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

"O resto é silêncio"


Citando Shakespeare e o "Lembranças daquele futuro imaginado" de outro dia.

Não, não é de silêncios que se vive. A vida pede a palavra. Mesmo quando dizemos que "calar é ouro", não é completamente verdade. Porque ele esconde a palavra. A palavra não dita ecoa para dentro e para fora, de forma desmedida. Às vezes simplesmente tola. Às vezes cruel.

Não negue a palavra. Mesmo quando não se sabe o que dizer. Desenvolva o não saber.
Mesmo quando é dura.  Eu odeio o silêncio. É uma forma unilateral de olhar o mundo. Muitas vezes pelo menos.

Uma vez minha mãe me disse, quando contei de uma briga com um coleguinha: "o desprezo dói mais". Não é que ela tinha razão? Hoje não consigo "desprezar" as pessoas. Mesmo quando gasto muitas palavras. Até que chegue alguém que mereça o silêncio. Mas o que esse pobre mortal haveria de fazer para isso? Não sei. A gente tem milhares de palavrões, de filosofia e de termos agradáveis também para honrar nossa espécie e nossa linguagem desenvolvida por milhares de anos. Tem escova de dentes e listerine contra o mal hálito.

Ficar de boca fechada é um desperdício e um desrespeito com nossos ancestrais.  

Use a boca e língua. Inclusive considerando o duplo sentido da frase.
Aí sim não precisamos de palavras.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

...

Eu queria achar uma citação muito boa, mas não encontro.
Um trecho de música, uma frase de um livro, as últimas palavras de um grande homem, uma citação de efeito, um poema desconhecido e genial. Algo que resumisse o que se passa aqui.
Uma vez alguém me disse, resumindo uma determinada sensação: "não temos mais para onde voltar." Acho que é isso. Não se ter para onde voltar. Outro dia me bateu isso, andando de volta para casa. Não confundir o "de volta para casa", no sentido literal, com esse "ter para onde voltar".

"Ter para onde voltar" pode ser sua família. A idéia de um lar não apenas como quatro paredes, mas como um pequeno núcleo de pessoas que estão intimamente ligadas a você. Para as quais você é prioridade. O colo da mãe, mesmo quando distante, é sempre o colo da mãe. O abraço do pai ou o ombro do irmão. Estão ali. Mesmo distantes.

"Ter para onde voltar" pode ser sua namorada, esposa, etc. Alguém que se ligou intimamente a você mesmo que um dia possa acabar, mas que na eternidade do "enquanto dure" está ali - supondo que você tenha a sorte de encontrar uma solidão para acompanhar a sua solidão. E no conceito de eternidade relativa, está ali.

"Ter para onde voltar" podem ser seus amigos. Os mais próximos, que estão ali quando você precisa. A vida une e separa as pessoas, mas mesmo assim existem os que perduram. Ou mesmo os que naquele momento compõe essa segunda família. Eles estão ali quando você precisa deles.

"Ter para onde voltar" pode ser seu trabalho, sua criação. A centelha de criatividade que te alimenta e que faz com que a vida pareça um pouco menos sem sentido. Mesmo que esse sentido seja inventado, criado. E você pode voltar, ou voltar-se para isso.

"Ter para onde voltar" pode ser você mesmo. Mas isso talvez seja o mais difícil. Em tempos de heroísmo exaltado e auto-suficiência como marca de estar no mundo, faz falta colo e ombro às vezes. Faz falta quem está ali mesmo quando você não precisa. E aí vem a sensação de não se ter para onde voltar.

Sem querer a piedade alheia, voltei para casa.
Literalmente, digo.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

A Bao a Qu

O A Bao A Qu é um ser que vive na Torre da Vitória, em Chitor.
Esta torre consiste em vários degraus espiralados, e no topo pode-se ver a paisagem mais linda do mundo.
O A Bao A Qu espera, no primeiro degrau, o visitante corajoso o suficiente para subir. Neste ponto, ele permanece meio letárgico, translúcido, até que alguém chegue. Então, quando alguém começa a escalada, ele acorda e segue o visitante. Conforme a subida progride, ele fica com a forma mais definida e ganha mais cor. Na metade do caminho, ele ganha uma luz azulada e seus membros tornam-se visíveis. Mas só atinge a perfeição quando chega no topo, quando chega ao Nirvana.
Mas quase sempre o visitante não vai até o final da escalada, pois não possui o coração puro.
Quando A Bao A Qu percebe isso, ele vira de volta, perdendo sua cor e visibilidade, e rola as escadas até atingir o primeiro degrau, soltando um lamento baixo e sutil como o roçar da seda.
A Bao a Qu não tem olhos, mas pode enxergar com todo o corpo. Ao toque, lembra um pêssego.
Parece que apenas uma vez na vida ele conseguiu estar no topo da torre.

(Segundo conta Jorge Luís Borges no "Livro dos Seres Imaginários")

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

5 Abraços e um Heiner Müller


Cena 1


Rapaz e moça discutindo enquanto esperam o metrô.

Metrô vem chegando.

Eles discutem enquanto o metrô desacelera aos poucos.

Portas se abrem.

Moça entra, rapaz fica fora.

Um segundo.

Dois segundos.

Três segundos.

Rapaz entra no vagão.

Conduz a moça para fora.

Portas se fecham.

De dentro do metrô, vê-se que os dois se abraçam.

Metrô vai embora.


Cena 2


Multidão passando.

Pessoas se cruzam sem olhar uma para as outras.

Casal se encontra no meio disso tudo.

Se abraçam.

Ficam abraçados.

Pessoas continuam passando.


Cena 3


Casal discutindo na rua.

Pessoas passam.

Os dois parados, frente a frente.

Pessoas passam.

Ele vai embora.

Ela chama o nome dele - o nome não importa.

Pessoas passam.

Ela chama de novo, parada.

Ele pára mas não se vira.

Ela vai até ele.

Se abraçam.

Pessoas passam.


Cena 4


Elevador abre as portas.

Casal abraçado.

Em silêncio.

Pessoas entram.

Elevador fecha a porta.

O elevador pára.

Pessoas saem.

Casal continua abraçado, em silêncio.

Elevador fecha as portas.


Cena 5


Estou sentindo o seu coração.

Eu também.

Está perto.

Está.

Deixa ele aí.


Cena 6


"Mas é um tijolo. Seu coração é um tijolo."

"Mas ele bate por você."




segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Andares

Aí eu estava andando pela rua e uma taxista parada no sinal me chamou perguntando se eu era ator. Meu primeiro impulso foi dizer: "não, eu sou diretor na verdade..." mas logo ele foi substituído por um simples "não, não..." Ela me confundiu com alguém "da novela".
Deve ser a barba. Já tomei providências.
Em seguida, por duas vezes, me param para perguntar o itinerário de algum lugar. Eu devo ter cara de alguém que dá informações confiáveis, isso sempre acontece. Acho engraçado, já que o meu forte nunca foi decorar caminhos. Especialmente quando a pessoa que pergunta está de carro, a maior parte das vezes eu até sei - a pé.

Tento me acostumar a ver as pessoas dormindo pelas ruas, mas isso não deveria ser normal. De vez em quando me pego achando que é brutal da nossa parte não fazer nada, mas o que fazer? Votar na Marta? Sei lá. Dou um cigarro e na falta de coisa melhor, continuo andando.
No frio, achar normal fica mais difícil ainda.

Conversas pela metade que captamos andando. Frases de efeito ou fora de contexto que podem querer dizer tanta coisa.

"Fulana, casa comigo?"
"Vai comprando as coisas."

"Ítalo! Vem almoçar!"
(silêncio)
"Traz ele junto!"

Etc., etc., etc...

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

"Ah que saudades eu tenho da aurora da minha vida..."


Aí eu descubro por acaso e com atraso que agora teremos a Turma da Mônica Jovem... As personagens agora adolescentes, em estilo mangá. Alguém já havia me dito isso, mas eu esqueci ou não levei a sério. Lendo a UOL, vejo uma declaração do Maurício de Souza de que "o Bidu não morreu apesar de estar com uns noventa anos pelas contas dele" e no restante da matéria me deparo com isso.

Eu nunca fui fã - ou muito fã - da Mônica e sua turma. Um Almanacão de Férias por ano e estava tudo bem. Mas confesso que esse mangá me pegou desprevinido. Como se tivesse ido lá na minha infância e mexido em alguma coisa. A mesma sensação que tive quando a MTV relançou o Speed Racer e eu pude perceber, anos depois, o quanto minha impressão antiga estava errada - o desenho do qual eu guardava uma lembrança extraordinária revelou-se tosco, bem tosco... ao menos no que diz respeito à animação. A mesma sensação que eu tive quando a Simony, aquela menina meio sem sal do Balão Mágico, assexuada como uma Barbie pelada, posou para a Playboy... Depois para a Sexy, ainda por cima! Não, eu também não era fã do Balão Mágico - aliás será que era Balão Mágico mesmo ou era Trem da Alegria? Tanto faz...

E agora vem a Mônica adolescente. Em mangá.

De repente é legal, vai. Acho que eu que estou ficando velho.


Tomara que valha mais a pena que a Simony pelada.

Aquela sim, merecia ficar só na capa dos LPs da década de 80.

Ninguém merece.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Allan Watts e afins


“Vemo-nos presos à contradição de encontrar a vida em meio a um quebra-cabeça muito desconcertante, capaz de nos causar muitos sofrimentos; ao mesmo tempo, temos uma vaga consciência da natureza ilimitada, infinita da vida. Desta maneira, começamos a procurar uma resposta a esse enigma.

A primeira forma de procurar é buscar soluções fora de nós mesmos... Por trás de nossas fachadas agradáveis e amistosas ferve um constrangimento considerável. Se eu pudesse raspar o verniz e ir um pouco mais fundo do que a superfície de qualquer pessoa, encontraria medo, dor e uma profunda ansiedade desvairada. Todos temos métodos para encobrir tais sentimentos. Comemos demais, bebemos demais, trabalhamos demais, assistimos à TV demais. Estamos sempre fazendo algo para encobrir nossa ansiedade existencial básica.

O que de fato queremos é uma vida natural. Nossas vidas são tão artificiais que realizar uma prática como a do zen, no começo é bastante difícil. Porém, assim que começamos a vislumbrar que o problema da vida não é algo externo a nós, teremos começado a percorrer o caminho."

Charlotte Joko Beck

Se fosse simples dar um rumo a vida as coisas seriam bem diferentes. Mas a gente se arranja.
Ontem comecei a limpar as dúvidas e transformá-las em ações. Arriscar.
Pode ser uma conversa com o chefe, um manual da FUVEST, um encontro adiado para resolver problemas do inventário, um mergulhar no processo de ensaio.
Nesse sentido, não é buscar "fora de si", mas traduzir essas encruzilhadas em ações, mesmo que não seja garantia de sucesso.
Tem uma passagem na Odisséia em que o Ulisses deve abandonar tudo e jogar-se ao mar. Algo como o "salto no abismo da fé".

A "vida natural" deve ser acreditar na vida. O "jogo da vida maior" da Clarice.
Então não é fácil, mas vale o esforço.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Hamlet


É impressionante como existe uma coisa básica no teatro que de tão óbvia esquecemos de ser a principal: um coletivo que se transforme em um corpo único. Esse corpo único não é a sua tradução mais óbvia, um coro, mas um coletivo que fale a mesma língua, que esteja igualmente ciente das opções estéticas e filosóficas da montagem e que seja capaz de traduzir isso em cena, fisicamente.
Esta é a importância do processo. Da preparação. É com isso que as coisas se afinam. Com o tempo necessário não para "montar uma peça", mas para criar uma obra. Que pulse no coletivo, uno. A pergunta não é "como montar?", mas "por que montar?". E a partir da necessidade se descobre um caminho.
O teatro tem que ser necessário. Ou é melhor não ser.
Ser ou não ser?
Esta é a questão.
A arte não é um produto, o produto é a consequência dela. Ela é a nossa forma de dialogar com o mundo de uma maneira mais sutil onde o discurso não basta. É a nossa resposta à realidade que nos cerca. E isso não tem nada de utópico, tem de necessário.
Além de PAC´s, Fomentos e Rouanets.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Segunda-feira


Segunda-feira.
Mais cedo do que de costume começa o dia. E a semana.
Cabeça um pouco cheia com as coisas que estão por vir, com ensaios, aulas, projetos e rumos à serem dados na vida. Mudar de casa? O carro do Adail? FUVEST aos 34 anos? Doutorado?

Sim, as coisas são importantes. Cada uma delas, cada qual com seu espaço próprio e urgência própria. Viver cada momento cuidando para que ele seja especial, e se solucione em sua dimensão própria. Descobrir o valor de cada coisa e dar a cada uma delas o devido valor.

O tempo. Adequar. Redimensionar. Ter mais de si para o que vale a pena. Dosar-se nos momentos.

A solidão não é culpa nossa, nem de ninguém. É o estado natural do Homem. O que se pode fazer é arranjar boa companhia para repartir a solidão de cada um. E preencher os espaços que podem ser preenchidos, sabendo que sempre existirá uma lacuna.

Respeitar a lacuna.

Quando você mergulha na piscina, precisa chegar até o fundo para dar o impulso e subir de novo.
E depois, o sol seca as gotas da descida silenciosa.

Subindo.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Fernando Torres


"... nós somos feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos. E nossa curta vida está encerrada entre dois sonos."

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Em qual desses tipos você se encaixa?


Estava lendo a BRAVO e eis que surge a matéria que fala dos "tipos" de pessoas criados pelo Jayme Ovalle. Como qualquer mortal, eu também páro as vezes em testes, em comparações de perfil, em classificações. Uma perda de tempo divertida em dias de menos inspiração ou coisas melhores para se fazer. Esse aí achei interessante, até. Não vai acrescentar muito à sua formação cultural, mas tomemos como uma bobagem divertida. No melhor estilo horóscopo, "faça o teste e dependendo da pontuação você é isso ou aquilo", etc...


Cinco classificações para o ser humano: Parás, Dantas, Onésimos, Mozarlescos e Kernianos.

Vamos às características...


PARÁS - o "exército do Pará" é formado por esses homenzinhos terríveis que vêm do Norte para vencer na capital da República; são habilíssimos, audaciosos, dinâmicos e visam primeiro que tudo o sucesso material, ou a glória literária, ou o domínio político.


DANTAS - Os Dantas são os bons (toda a gente quer ser Dantas), os homens de ânimo puro, nobres e desprendidos, indiferentes ao sucesso da vida, cordatos e modestos, ainda quando tenham consciência do próprio valor.


ONÉSIMOS - O Onésimo onde aparece é assim: duvida, sorri, desaponta; diante dele ninguém tem coragem de chorar. Não é que o faça por maldade: os Onésimos não são maus. O drama íntimo dos Onésimos é não sentirem entusiasmo por nada, não encontrarem nunca uma finalidade na vida. Não obstante, se as circunstâncias os colocam inesperadamente num posto de responsabilidade, podem atuar (não todos, é verdade) com o mais inflexível senso do dever.


MOZARLESCOS - Difíceis de definir, sem magoar toda a classe, esses caracteres tão interessantes que são os Mozarlescos. São pessoas que se exprimem ou obram de molde a fornecer aos que os observam uma impressão de coisas consideráveis, ao que todavia não corresponde o conteúdo das suas palavras ou das suas ações. São homens de bem. Acreditam no sufrágio universal. Manifestam decidido pendor pela pedagogia.


KERNIANOS - Os Kernianos são os impulsivos por excelência. Indivíduos de bom coração, capazes de grande sacrifício pelos outros, deixam-se no entanto arrastar às vezes à prática dos atos mais condenáveis, não por maldade, mas por um impulso irresistível de cólera.


Eu fiquei na dúvida. Na verdade teríamos traços de mais de um, mesmo que uma dessas categorias seja predominante.


Enfim...
Imagem: capa do livro "O Santo Sujo", biografia do Ovalle.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

"Não estamos indo embora não! Vamos descer na estação Vergueiro do Metrô."


Depois de uma semana, o computador dá os primeiros sinais de vida. Mas não é essa a questão principal dos últimos dias. Ficar sem internet em casa faz você voltar a fazer um uso mais racional dessas coisas. Sobrevivi sem o msn, falando diretamente ou por telefone com quem mais precisava. Abri meus e-mails e vi meus recados do orkut em passagens rápidas por lan houses - umas três, em uma semana - e sobrevivi.

Ontem foi o final da temporada do "Quixote". Assisti a peça sem o compromisso de operar a luz, já que a Dezoti já cuida disso com desenvoltura. Se ela estiver lendo isso, deve estar pensando "óbvio, no último dia..." Mas enfim, pude observar a peça com o foco só nela, sem maiores obrigações técnicas. E o teatro cheio. Diferencial fundamental. Uma apresentação boa, talvez a melhor da temporada, que fecha dignamente uma trajetória de disputa com frio, chuva, Achiropita, trânsito.
Ao final eu não queria precisar falar nada. Nem encontrar ninguém.
Queria ir para casa, curtir de verdade a tal "glória do anonimato" do diretor, queria curtir o sentido e os sentidos que o espetáculo carrega, para mim e para algumas pessoas. Queria só ficar com essas sensações. Sem verbalizar. Como o próprio espetáculo faz.

Dizer "sim" à vida. Em tudo o que ela possui de bom e de ruim. Como a catarse nos gregos: não podemos selecionar só os bons momentos, as qualidades das pessoas, o segundo que nos interessa, o dia que reúne as características que gostamos. A vida não é maniqueísta. Ela oferece os dois lados. Precisamos comprar o pacote. Dizer "sim" à ela, se a amamos.

"Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado. Pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil."
(C.L., "Perdoando Deus")

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Os limites da escrita

Eu queria que tudo o que fosse escrito pudesse ser lido de forma transparente e clara.
Mas digitando não temos rubricas nem mostramos nosso rosto, e a escrita torna-se perigosa.
Um náufrago numa ilha deserta não precisa se preocupar com isso: quando encontram a garrafa, ele já está no lucro.
Mas nesse mundo de msns, blogs, orkuts, e-mails e afins, a palavra vira um manancial de mal-entendidos.

Se você não vê meu rosto quando escrevo, imagine. Se não vê as intenções por detrás de uma palavra, pense nas possibilidades e incline-as para o bem - esta deveria ser a frase de abertura de qualquer texto escrito por essas vias tão pouco "humanas" que se encarregam de levar, através de fios, cabos e afins que as vezes estão nos limites da Telefônica, sensações e estados de alma que variam.

Me lembro de alguns casos em que um e-mail despretensioso estragou amizades.
A gente lê o que quer, ou acha que lê o que não quer. Já fiz isso muitas vezes.
Como um personagem, a fala escrita está distante de sua resolução ao vivo.
Pensei sobre isso esses dias.

E a net nos deixa com a ilusão ainda de que relações aconteçam por aqui. De que o email, o msn, o orkut, os blogs e afins substituem a palavra real, concreta, vivida, substituem o olho no olho, o som da voz, o cheiro, o toque.

Falando nisso, estou sem net em casa. Por isso aqui só vão palavras, sem imagens.
Talvez seja bom, para deixar claro quão incompletas elas são.
Esses dias me fizeram pensar sobre a utilidade de tudo o que é escrito aqui. Sobre a possibilidade real de traduzir em palavras amor, esperança, solidão, felicidade, prazer, arte, tristeza, ansiedade, alegria... em palavras. Não. Só passamos uma aproximação disso tudo.

No "Poder do Mito" o Campbell fala algo sobre as idéias e sensações que realmente valem a pena. Não podem ser traduzidas. Delas podemos ter uma tentativa de aproximação, já de segunda ordem. E quando falamos sobre, já estamos traduzindo em palavras essa segunda instância. Ou seja, tudo o que está aqui é algo de terceira classe, mais ou menos.
A Clarice escreveu algo como estar buscando a palavra que seria tão perfeita que não precisaria ser escrita.

Talvez fosse um silêncio preenchido, compartilhado.

Sem internet em casa, direto de uma lan-house e sem foto nenhuma ou imagem, deixo um silêncio bom.
Aqui.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Cinema Paradiso - continuação


Nossa vida vale assistir à cena dos beijos cortados depois de anos passados?
Mas cadê o Alfredo colecionando os momentos censurados para nos deixar de herança a lata de filme?

Não assistiu ainda o "Cinema Paradiso"?
Dá uma olhada: http://www.youtube.com/watch?v=8zDNqBZPhpc
(ATENÇÃO A PARTIR DE 2´52...)

Assista, mas não a "nova versão", com cenas extras. A versão que foi exibida originalmente, em 1989...

"A felicidade está em pedacinhos de descuido" (Guimarães Rosa)

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Cinema Paradiso


Alfredo

Era uma vez, um rei que deu uma festa para as princesas mais belas do reino.

Então…um soldado que estava de guarda viu passar a filha do rei.

Era a mais bela de todas e apaixonou-se logo por ela.

Mas o que pode fazer um soldado diante da filha de um rei?

Finalmente, um dia conseguiu encontrar-se com ela e disse-lhe que não conseguia viver sem ela. A princesa ficou tão impressionada com aquele sentimento tão forte que disse ao soldado:

“Se puder esperar 100 dias e 100 noites debaixo da minha varanda, no final, serei tua!”

O soldado foi para lá e esperou um dia, dois dias…e dez e depois vinte dias.

Todas as noites a princesa olhava pela janela e ele não se movia.

Debaixo da chuva, ao vento, na neve, lá continuava ele.

Os pássaros cagavam em cima, as abelhas comiam ele vivo, mas ele não se movia.

Ao fim de…90 noites, tinha ficado…magro e pálido. As lágrimas corriam dos olhos sem parar.

Não tinha forças para dormir. Entretanto, a princesa não o perdia de vista.

Chegou a noite do 99º dia.

O soldado levantou, pegou a cadeira e foi embora.


Toto

Como? No último dia?


Alfredo

No último dia e não me pergunte o significado que eu não sei.

Se você souber, me conta.

Bonecos

"Eu não sou boneco..."
"Eu sou de verdade..."
"Uaaaaaaa..."

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

"Eu estava dormindo, enquanto os outros sofriam? Estarei dormindo agora? Amanhã, quando estiver pensando que acordei, o que direi do dia de hoje?"


A citação aí do título é do Esperando Godot.

Tudo porque, de tão enfiado em sala de ensaio, aulas e apresentação no final de semana, descubro meio envergonhado, chegando em casa ontem, que o Caymmi morreu e que o Cultura Artística pegou fogo.


Pulemos o Caymmi. Não, nunca fui muito fã dele, apesar de respeitar sua importância na nossa música. Mas do Caymmi tive sempre a mesma imagem desde criança: um velhinho baiano deitado em uma rede, que já havia nascido muito, muito velhinho, no estilo Roberto Marinho e Dercy Gonçalves. Gente que você vê numa foto da década de 50 já grisalha. "Deus esqueceu o Caymmi aqui, ele não morre mais" - era o pensamento que tinha, assim como o Marinho e a Dercy. Mas Deus não esquece não.

Cultura Artística. Terrível ver um teatro incendiado. Ano passado eu estava em cartaz no Julia Bergman, quando pegou fogo. A sala onde estávamos apresentando não foi afetada. Sorte nossa, mas o resto do prédio ficou bem danificado. Triste. E de novo, assim como no ano passado, suspeita recai sobre os balões.
A última vez que eu estive no Cultura foi para assistir "O Avarento", com o Paulo Autran.
Por isso ele aí na imagem. Infelizmente, Deus também não esqueceu o Autran aqui.
Enfim, eu fui ver a peça. E passei uma vergonha considerável ali.
Me lembro que cheguei, sentei no meu lugar e ao ouvir a tradicional gravação do "desliguem os celulares", comentei com a moça sentada ao meu lado: "eu não entendo como ainda precisam lembrar as pessoas de desligarem os celulares antes da peça!"

Minutos depois eu, que nem me lembro do toque do meu, eu, que sempre deixo no padrão vibratório, eu, que acabara de fazer um comentário desses para a moça sentada ao lado - e que concordou comigo, olha só - eu OUÇO O MEU CELULAR TOCAR.
Tosco. Eu esquecera o bicho no sonoro porque estava com ele em casa e não mudei o toque depois.

Justo na última peça do Autran.
Hoje eu olho essa foto e penso que era o que ele gostaria de ter feito comigo no dia.
Desculpa, Paulo...
Enfim... Que o Cultura renasça das cinzas, o mais rápido possível.
A gente pode criticar o repertório como "teatro comercial" muitas vezes, ou o preço dos ingressos. Mas é um teatro.
Mirem seus balões nos bancos, nas igrejas que profanam o espaço sagrado dos antigos teatros ou cinemas, mirem seus balões para a Câmara ou para a Assembléia Legislativa.
Ou mirem para a puta que os pariu. Melhor, não mirem para lugar nenhum.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Existe mesmo Pequim?

Pela primeira vez em anos, esta Olimpíada parece que não existe.
Não é pelo fuso horário, eu costumo dormir tarde. Mas algo de estranho acontece, como se Pequim não existisse. De vez em quando, pela televisão ou jornais ou pela internet, sou lembrado de que tem jogos acontecendo e que fulano ganhou uma medalha, o Ronaldinho marcou um gol às 5h da manhã, e por aí vai.

Será que eu posso ter pego uma antipatia pela China? Não pelos chineses. Nem pela cultura da China. Nem pelas tradições de lá. Mas de tanto falarem nas frescuras com a imprensa, na política um tanto fechada de lá, de tanto transmitirem essa imagem, às vezes me pego acreditando nisso. Será que é assim mesmo? Como julgar com tanta Globo, Jack Bauer e afins influenciando?

Mas o programa nuclear americano ninguém discute que deveria parar. A política externa deles nem precisamos comentar. E os chineses são os vilões? Devo excluir esta opção.

Será que é porque voltando de aula ou de ensaio meu ritmo está menos propenso a ver esportes olímpicos que só lembro que existem a cada quatro anos, tipo equitação, salto ornamental e 110 metros com barreiras? Pode ser.

Mas não deveria ser uma opção melhor em uma madrugada de insônia do que "Fala que eu te escuto" ou coisas do gênero? Excluída esta também.

Será que é porque eu simplesmente ache essa disputa pelo quadro de medalhas algo besta, considerando que para o Brasil competir com esses gigantes do esporte é complicado, e que no final das contas se o único ouro for o futebol já valeu mais que tudo? Que os pobres coitados dos atletas ralam feito uns animais para serem reconhecidos brevemente quando ganham uma medalha e depois... Ninguém lembra mais deles?

Mas tudo bem, como poderia ser diferente? A tradição no esporte ou na cultura, no nosso país, é algo a ser construído. Sem discursinho político, vamos excluir esta.

Enfim, não sei. Só sei que não chego a conclusão nenhuma e parece que Pequim não existe.

Resultado: acho que na época, Atenas era muito mais atraente que Pequim. Eu estava indo para lá, estudando grego e comovido com a volta dos jogos "para casa".
E para mim parece que o interesse pelos jogos decaiu muito.
Ok, a culpa não é da China.

Mas não sei se Pequim existe mesmo.