
"Gregor rastejou um pouco mais e colocou a cabeça o mais perto possível da porta, para que seus olhares se encontrassem. Será que ele não passava de um animal, embora a música o emocionasse tanto? Parecia que ela lhe abria um caminho rumo a um alimento desconhecido pelo qual ele tanto ansiava."
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
Feliz Natal

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Depois de segurar o pires
Como Ofélias e anônimos disseram sobre narcisismo e etc., talvez ter um blog já seja, pelo menos em parte, auto-promoção. Não sei. Gosto de pensar nesse aqui como um exercício de escrever para ninguém, ou para um alguém incerto, que talvez goste, talvez não do que leia. Mas isso é outra história.
Enfim, estava lá eu, de pires na mão, prestando o concurso na Poli. Passaram-se etapas, por fim meu nome surge na lista final. Por sorte, em uma posição que me dá o direito de optar por São Paulo e a quase ceterza de não passar e as longíncuas Piracicaba, Ribeirão e Bauru ficam para trás... Um misto de surpresa, alegria e incertezas - mas positivas - se abre.
Segunda feira tudo deve ficar mais claro. Até lá... A vida segue ser curso!
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
Mercedes Benz

"Oh Lord, won’t you buy me a Mercedes Benz?
My friends all drive Porsches, I must make amends.
Worked hard all my lifetime, no help from my friends,
So Lord, won’t you buy me a Mercedes Benz?"
Eles se conheceram no trabalho dela. Ela perguntou o que ele faria depois, ele disse que não tinha compromisso e ela falou que sairia com um grupo de amigos mais tarde, depois do expediente.
Ele aceitou. Foram à uma boate. Saíram de lá com o dia quase amanhecendo.
Ela tinha um Mercedes branco. Deixou que ele dirigisse.
Com os passarinhos cantado foram até o Morumbi, em uma praça próxima do estádio.
Viram o dia nascer ali, sentados lado a lado, na praça.
Talvez eles jamais tenham conhecido a música.
Letra: Janis Joplin
Foto: Mercedes branco, talvez parecido com o que minha mãe tinha na década de sessenta, antes de eu ter nascido e que as vezes meu pai guiava.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Quase-evangélico

quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Samsara

terça-feira, 25 de novembro de 2008
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Feriado, Bienal, Fuvest e etc.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
Jogos na hora da sesta

quinta-feira, 13 de novembro de 2008
Eco e Narciso

Outro dia conversava com uma amiga e surgiu essa história. Eco e Narciso - e como algumas relações reproduzem o mito. Não basta o narciso, às vezes há um eco que cumpre também sua função - a de ecoar o narcisismo alheio.
Demora um pouco para perceber que nem um nem outro é saudável.
Deixemos esse povo afogado, sob as águas.
Como a Ofélia.
Mas essa é outra história.
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
"A Balada do Soldado Morto" ou lendo "Nada de Novo no Front"
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
Valeu McCain, abraço, me liga...

terça-feira, 4 de novembro de 2008
ensaio sobre a cegueira

Ensaio sobre a cegueira.
À parte o livro do Saramago, à parte o filme.
Cegueira.
Que pode ser negra ou branca.
Nas condições mais adversas, o ser humano pode se tornar o mais perverso possível.
Ninguém é "bom" só porque "ainda não cometeu seus crimes".
Da civilização à barbárie, basta um empurrãozinho.
Resta apenas a esperança na humanidade, que pode ser um simples renovar de gentilezas.
"Minhas juras eram tantas quanto minhas palavras e as descumpria todas à luz clara do céu.
Eu era alguém que dormia pensando em projetos de luxúria e acordava para realizá-los.
Amava profundamente o vinho e com ternura os dados; quanto às mulheres eu superava um
turco. Falso de coração, fácil de ouvido, mão sanguinária; porco pela preguiça, raposa pela
astúcia, leão na pilhagem, voraz como um lobo, um cão raivoso. Não deixes que o ranger de uns
sapatos ou o sussurrar de sedas entreguem teu pobre coração a uma mulher: não põe teu pé
nos bordéis, tuas mãos nas saias, teu nome em livro de usurários; e poderás desafiar o demônio
impuro. O vento gelado continua a soprar pelos ramos do espinheiro; e diz, zuuum, zuum,
munn, num. Delfim, meu rapaz, meu rapaz, cessa! Deixa o vento trotar!
(A tempestade continua.)
Estarias melhor na sepultura do que expondo teu corpo nu a tais extremos do céu.
O homem é apenas isto? Observem-no bem. Não deve a seda ao verme, a pele ao animal, a lã à
ovelha, nem seu odor ao almiscareiro.
Ah! aqui estamos nós três, tão adulterados.
Tu não, tu és a própria coisa.
O homem, sem os artifícios da civilização, é só um pobre animal como tu, nu e bifurcado.
(Começa a despir-se.)
Fora, fora com estes trapos emprestados. Desabotoa aqui.
(Começa a arrancar as roupas.)"
Shakespeare, Rei Lear
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Vazio

terça-feira, 28 de outubro de 2008
O teatro. E o Teatro.

Aí está ele. Nossa melhor definição de "palco italiano".
Fugimos dele. Queremos a arena, o espaço alternativo, os galpões, a proximidade não estratificada socialmente com o público.
Fugimos dele porque achamos que é velho, ultrapassado talvez.
Porque cheira a Ibsen e Tchekov, porque cheira a ópera do final do século XIX.
Porque é habitado por fantasmas que cantam à noite, porque tem lugares mais baratos porque a visão é prejudicada, porque ao invés de campanhia tem como sinais as luzes que enfraquecem e voltam, em resistência.
O teatro municipal e o Teatro. O edifício e a Arte.
Mas tem um momento onde tudo se encontra. O palco italiano não é a única forma de dizer o que se quer dizer. Mas pode ser uma das formas, ainda hoje. E não precisamos fugir.
Teatro é bom quando se tem amigos. É possível fazer amigos no Teatro, mas é perigoso querer fazer Teatro com amigos, no sentido de inverter a ordem das coisas. Tenho excelentes amigos que fiz no Teatro e que hoje não trabalham mais comigo. Porque percebemos que nossa praia era outra e, longe de desconsiderar o trabalho de um ou de outro, descobrimos que o melhor lugar para desenvolver nossa amizade não era no palco.
Tenho excelentes pessoas a minha volta que trabalham muito bem comigo em cena. Mas que não saímos para tomar cerveja. E a parceria é boa. Talvez nossa amizade flua mais em sala de ensaio que fora dela. Tudo bem também. Melhor, talvez - pensando no Teatro. Como se o Teatro fosse uma família. Tem irmãos, primos, tios, pais, mães, etc. Naquele almoço de família, nem sempre é com a sua mãe ou com seu irmão que o assunto corre melhor. E a conversa é mais interessante as vezes com os primos distantes que com aqueles que você vê todo dia.
O problema não é o palco italiano. Ele foi usado tanto por Stanislavski quanto por Brecht. Por Copeau e por Bob Wilson. O problema é que pensamos e o que queremos fazer com ele. Não necessariamente ele guarda uma visão de mundo. Não é o processo colaborativo nem o espaço alternativo que farão do trabalho algo renovador. É em como encaramos o Teatro.
Para que estamos ali?
O Teatro é necessário?
Eu sou necessário para ele?
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
parte dois, primeiro ato
Lá estamos nós. Dos cento e poucos inscritos, restam trinta e oito. E desses, oito não aparecem e quatro - pelo que consta - chegam atrasados e não podem entrar. Pelo vidro da porta vemos colegas esbaforidos chegando menos de cinco minutos atrasados e serem barrados. Não sei o quanto cada um ali apostou nisso, pôs suas fichas na possibilidade de uma nova carreira, mas é frustrante. No mínimo. E apesar das justificativas todas, da necessidade de não abrir precedentes, etc, fica aquele gostinho das "pequenas autoridades" no ar...
Entre o "jeitinho" e a exceção possível e humana, deve haver um caminho... Um meio termo possível.
Não, minha voz não se levantou. Menos por covardia que pela certeza da inutilidade do gesto. Traria apenas a sensação de que quis cometer um ato de heroísmo. Exibição.
Mas ficou ecoando aqui.
Prova interessante - um tanto subjetiva, não dá para saber se se foi bem ou não.
Perfil? Que perfil, se não se sabe ao certo as atribuições e o que se espera desse cargo?
Sabe-se lá. Tomara que não esperem gritos. Esse falhou.
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
Uma questão metafísica - o sentido da vida
("eu acho que algumas vezes eu busco o sentido nos lugares errados...")terça-feira, 21 de outubro de 2008
Sobrenatural parte 2
Não, esta imagem não suscita nada de sobrenatural mesmo.Mas olhe com atenção. A velhinha à esquerda, não parece com aquela que te pediu para ajudá-la a atravessar a rua porque não enxergava direito?
O policial que segura o cacetete, com tantos outros que direcionam o seu olhar justamente para quem não parece oferecer risco - no caso, o camarada lendo - ao invés de inibir o delito iminente?
O sujeito de mala que cruza com a mulher boazuda - com certeza olhará para trás depois que ela passar por ele. Até a campanha "Vá ao Teatro" aparece aí. A diferença é que o homem de chapeu parece interessado.
Mas existe um componente interessante nisso tudo, o quanto não damos mais bola para o cotidiano. Os pequenos momentos que passam por nós, que de tão naturais não são dignos de atenção. Os pequenos encontros, especialmente os possíveis que não saem do universo do "quase", pela falta de atenção que damos. A falta de atenção.
Já se falou muito sobre "efeito borboleta" e coisas assim. E acho que esses dias eu mesmo citei o Garcia Márquez aqui, com o "é a vida, mais do que a morte, a que não tem limites". Pois esse é componente sobrenatural. Acho que foi Santo Agostinho que disse que o "sobrenatural não é o que é contra a natureza, mas sim contra o que conhecemos da natureza", ou algo assim.
E os fantasmas e espíritos e alienígenas e energias e deuses se transformam na brisa e no movimento do vento e das borboletas que não paramos para enxergar mas que nos tocam, de alguma forma.
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
Piazentin e o sobrenatural

quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Tango e afins

domingo, 12 de outubro de 2008
y cuando me pierdo en la ciudad
Te vi... contabas margaritas del mantel
Ya se que te trate bastante mal,
no se si eras un angel o un rubi
O simplemente te vi.
Te vi, saliste entre la gente a saludar
Los astros salieron otra vez,
la llave de mandala se quebro
O simplemente te vi.
Todo lo que diga esta de mas,
las luces siempre encienden en el alma
y cuando me pierdo en la ciudad,
tu ya sabras comprender
Solo un rato no mas, tendria que llorar o salir a matar.
Te vi, te vi, te vi... yo no buscaba nadie y te vi.
Te vi... fumabas unos chinos en Madrid
Yo se que hay cosas que te ayudan a vivir
no hacias otra cosa que escribir
Y yo simplemente te vi.
Me fui... me voy, de vez en cuando a algun lugar
A nadie le hace gracia este pais...
Tenias un vestido y un amor... yo simplemente te vi.
Todo lo que diga esta de mas,
las luces siempre encienden en el alma
y cuando me pierdo en la ciudad,
tu ya sabes comprender... solo un rato no mas,
tendria que llorar o salir a matar...
Te vi, te vi, te vi... Yo no buscaba nadie y te vi.
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
Lear

quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Ontem, hoje, sempre

terça-feira, 7 de outubro de 2008
Keep Walking

segunda-feira, 6 de outubro de 2008
Você sabia que uns 70% dos brinquedos agora são à pilha?

A maioria esmagadora dos brinquedos agora é à pilha.
Bonecas que choram, fazem "cocô de verdade", cachorros que gemem quando você faz carinho, robôs que acompanham sua vida, etc. Dá-lhe Energizer, Duracell e afins.
Crianças, não comam as pilhas, por favor.
Já imagino a filha falando: "Pai, me dá a boneca que faz cocô?" (R$ 500,00)
"Brinca com a sua irmãzinha querida, ela também faz e é de graça."
Esse aí em cima é o Elmo.
Ele é um boneco (by Vila Sésamo) que ri. Só isso.
Você acha bobo. Mas depois de uns segundos vendo ele se estropiar no chão, batendo as pernas e rolando, você começa a rir também.
E é bom rir.
Parafraseando o Beckett: "A gente ri, com vontade, e aos poucos vai ficando feliz de verdade." Algo como um "Anti-Fim de Partida".
Porque ter um blog não é só querer postar textos inteligentes mostrando como a humanidade é podre e a vida não vale a pena.
Vale a pena sim. Vale a pena olhar para os outros e tratá-los de forma com que a gente gosta de ser tratado. E falar bobagem. E se divertir. E ter o melhor final de semana em muito tempo e dizer isso. Ser um pouco Elmo.
Ah, passei na primeira fase do concurso... Quem sabe não largo tudo, compro um boneco Elmo e vou pra Bauru?
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
USP, TUSP, POLI e afins
Hoje prestei o concurso na USP para "Orientador de Arte Dramática". Trabalho vinculado ao TUSP, não necessariamente em São Paulo. Vagas em Bauru e Piracicaba também.
Chego lá e encontro todo mundo, quase literalmente: ex-colegas de ECA, colegas do Macunaíma, ex-alunos do Macunaíma e da São Judas, amigos, amigos de amigos, etc. A classe artística é uma pequena cidade do interior. A diferença é que é uma cidade de desempregados ou semi-desempregados ("autônomo" no meio teatral é meio isso, no final das contas).
Toda vez que aparece um edital, um concurso ou uma lei de incentivo vamos todos. Querendo uma luz no fim do túnel. Gente com competência, adaptando-se, mutando-se, buscando dignidade e condições de trabalho, sempre. Auto-produzindo-se.
É bom e triste o encontro. Ao mesmo tempo.
E vamos lá, prova de 50 questões de múltipla escolha, quatro horas de duração, na Poli.
Tem algo menos teatral que a Poli? Acho que muitos ali - incluindo eu - nunca haviam pisado na Politécnica.
Antes, um café. E passam graduandos de camiseta da seleção brasileira, bermudão, chinelo.
Meu Deus. Se eu passar em Letras, vou ter paciência? Vamos lá, vamos lá.
Terminadas as múltiplas escolhas, saio logo. Não tenho paciência de ficar considerando mil possibilidades, chego até a usar a lei das probalidades nas duas últimas dúvidas que restavam - se deu muito "E" e "D", com certeza essa é "B" - questões sobre leis... Termino a prova e entrego no prazo mínimo de uma hora. Assino a lista de presença e me vou. Fico esperando Laura e Renata, companheiras de Macunaíma e de carona saírem.
Ontem me rendi ao "Shakespeare Apaixonado" e revi o filme. Bom. Deixando de lado o purismo e a chatice, longe de conferir a ele o Oscar - tá, como se o Oscar fosse alguma coisa séria... - é um divertimento gostoso. A reconstituição do teatro elizabetano, o lado ficcional da figura de Shakespeare como personagem e o clima do filme são muito bons... Se eu não fosse um sujeito muito truculento diria que é quase emocionante o voto de fé no teatro e na arte que em muitos momentos exala da produção. Mas como sou um sujeito duro e frio, vou dizer que é piegas e superficial. Mas no todo, um filme bem feito sim.
(meu computador agora desliga sozinho. hoje é domingo e posto o rascunho salvo de sexta)
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
"Fazendo as sinapses"
A realidade não precisa ser um quebra-cabeça onde só a percebemos depois de juntarmos as peças. Ela é, está aí, as vezes quem olha para o mundo como um quebra cabeças o faz porque quer montar um quadro diferente do que é, na esperança de novas peças surgirem ou das mesmas se modificarem, revelando novos encaixes. Mas a realidade está aí. Anterior à nossa vontade de desomntá-la em pedaços para juntar na esperança de que voltem diferentes.
E depois do quadro montado, olhamos a figura. É a mesma, é a mesma. Não adianta o nosso esforço em querer ver algo diferente. Se nos dá montanhas, nuvens, mar é isso: montanhas, nuvem, mar. Podemos apenas olhá-lo de forma diferente, mas é ele.
Não mudamos o que vemos. Podemos olhar de forma diferente.
E podemos virar a cabeça e aproveitar os 360º que o mundo oferece.
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
"O resto é silêncio"
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
...
Um trecho de música, uma frase de um livro, as últimas palavras de um grande homem, uma citação de efeito, um poema desconhecido e genial. Algo que resumisse o que se passa aqui.
Uma vez alguém me disse, resumindo uma determinada sensação: "não temos mais para onde voltar." Acho que é isso. Não se ter para onde voltar. Outro dia me bateu isso, andando de volta para casa. Não confundir o "de volta para casa", no sentido literal, com esse "ter para onde voltar".
"Ter para onde voltar" pode ser sua família. A idéia de um lar não apenas como quatro paredes, mas como um pequeno núcleo de pessoas que estão intimamente ligadas a você. Para as quais você é prioridade. O colo da mãe, mesmo quando distante, é sempre o colo da mãe. O abraço do pai ou o ombro do irmão. Estão ali. Mesmo distantes.
"Ter para onde voltar" pode ser sua namorada, esposa, etc. Alguém que se ligou intimamente a você mesmo que um dia possa acabar, mas que na eternidade do "enquanto dure" está ali - supondo que você tenha a sorte de encontrar uma solidão para acompanhar a sua solidão. E no conceito de eternidade relativa, está ali.
"Ter para onde voltar" podem ser seus amigos. Os mais próximos, que estão ali quando você precisa. A vida une e separa as pessoas, mas mesmo assim existem os que perduram. Ou mesmo os que naquele momento compõe essa segunda família. Eles estão ali quando você precisa deles.
"Ter para onde voltar" pode ser seu trabalho, sua criação. A centelha de criatividade que te alimenta e que faz com que a vida pareça um pouco menos sem sentido. Mesmo que esse sentido seja inventado, criado. E você pode voltar, ou voltar-se para isso.
"Ter para onde voltar" pode ser você mesmo. Mas isso talvez seja o mais difícil. Em tempos de heroísmo exaltado e auto-suficiência como marca de estar no mundo, faz falta colo e ombro às vezes. Faz falta quem está ali mesmo quando você não precisa. E aí vem a sensação de não se ter para onde voltar.
Sem querer a piedade alheia, voltei para casa.
Literalmente, digo.
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
A Bao a Qu
Esta torre consiste em vários degraus espiralados, e no topo pode-se ver a paisagem mais linda do mundo.
O A Bao A Qu espera, no primeiro degrau, o visitante corajoso o suficiente para subir. Neste ponto, ele permanece meio letárgico, translúcido, até que alguém chegue. Então, quando alguém começa a escalada, ele acorda e segue o visitante. Conforme a subida progride, ele fica com a forma mais definida e ganha mais cor. Na metade do caminho, ele ganha uma luz azulada e seus membros tornam-se visíveis. Mas só atinge a perfeição quando chega no topo, quando chega ao Nirvana.
Mas quase sempre o visitante não vai até o final da escalada, pois não possui o coração puro.
Quando A Bao A Qu percebe isso, ele vira de volta, perdendo sua cor e visibilidade, e rola as escadas até atingir o primeiro degrau, soltando um lamento baixo e sutil como o roçar da seda.
A Bao a Qu não tem olhos, mas pode enxergar com todo o corpo. Ao toque, lembra um pêssego.
Parece que apenas uma vez na vida ele conseguiu estar no topo da torre.
(Segundo conta Jorge Luís Borges no "Livro dos Seres Imaginários")
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
5 Abraços e um Heiner Müller

segunda-feira, 15 de setembro de 2008
Andares
Deve ser a barba. Já tomei providências.
Em seguida, por duas vezes, me param para perguntar o itinerário de algum lugar. Eu devo ter cara de alguém que dá informações confiáveis, isso sempre acontece. Acho engraçado, já que o meu forte nunca foi decorar caminhos. Especialmente quando a pessoa que pergunta está de carro, a maior parte das vezes eu até sei - a pé.
Tento me acostumar a ver as pessoas dormindo pelas ruas, mas isso não deveria ser normal. De vez em quando me pego achando que é brutal da nossa parte não fazer nada, mas o que fazer? Votar na Marta? Sei lá. Dou um cigarro e na falta de coisa melhor, continuo andando.
No frio, achar normal fica mais difícil ainda.
Conversas pela metade que captamos andando. Frases de efeito ou fora de contexto que podem querer dizer tanta coisa.
"Fulana, casa comigo?"
"Vai comprando as coisas."
"Ítalo! Vem almoçar!"
(silêncio)
"Traz ele junto!"
Etc., etc., etc...
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
"Ah que saudades eu tenho da aurora da minha vida..."

quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Allan Watts e afins

“Vemo-nos presos à contradição de encontrar a vida em meio a um quebra-cabeça muito desconcertante, capaz de nos causar muitos sofrimentos; ao mesmo tempo, temos uma vaga consciência da natureza ilimitada, infinita da vida. Desta maneira, começamos a procurar uma resposta a esse enigma.
A primeira forma de procurar é buscar soluções fora de nós mesmos... Por trás de nossas fachadas agradáveis e amistosas ferve um constrangimento considerável. Se eu pudesse raspar o verniz e ir um pouco mais fundo do que a superfície de qualquer pessoa, encontraria medo, dor e uma profunda ansiedade desvairada. Todos temos métodos para encobrir tais sentimentos. Comemos demais, bebemos demais, trabalhamos demais, assistimos à TV demais. Estamos sempre fazendo algo para encobrir nossa ansiedade existencial básica.
O que de fato queremos é uma vida natural. Nossas vidas são tão artificiais que realizar uma prática como a do zen, no começo é bastante difícil. Porém, assim que começamos a vislumbrar que o problema da vida não é algo externo a nós, teremos começado a percorrer o caminho."
Ontem comecei a limpar as dúvidas e transformá-las em ações. Arriscar.
Pode ser uma conversa com o chefe, um manual da FUVEST, um encontro adiado para resolver problemas do inventário, um mergulhar no processo de ensaio.
Nesse sentido, não é buscar "fora de si", mas traduzir essas encruzilhadas em ações, mesmo que não seja garantia de sucesso.
Tem uma passagem na Odisséia em que o Ulisses deve abandonar tudo e jogar-se ao mar. Algo como o "salto no abismo da fé".
A "vida natural" deve ser acreditar na vida. O "jogo da vida maior" da Clarice.
Então não é fácil, mas vale o esforço.
terça-feira, 9 de setembro de 2008
Hamlet

segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Segunda-feira

Segunda-feira.
Mais cedo do que de costume começa o dia. E a semana.
Cabeça um pouco cheia com as coisas que estão por vir, com ensaios, aulas, projetos e rumos à serem dados na vida. Mudar de casa? O carro do Adail? FUVEST aos 34 anos? Doutorado?
Sim, as coisas são importantes. Cada uma delas, cada qual com seu espaço próprio e urgência própria. Viver cada momento cuidando para que ele seja especial, e se solucione em sua dimensão própria. Descobrir o valor de cada coisa e dar a cada uma delas o devido valor.
O tempo. Adequar. Redimensionar. Ter mais de si para o que vale a pena. Dosar-se nos momentos.
A solidão não é culpa nossa, nem de ninguém. É o estado natural do Homem. O que se pode fazer é arranjar boa companhia para repartir a solidão de cada um. E preencher os espaços que podem ser preenchidos, sabendo que sempre existirá uma lacuna.
Respeitar a lacuna.
Quando você mergulha na piscina, precisa chegar até o fundo para dar o impulso e subir de novo.
E depois, o sol seca as gotas da descida silenciosa.
Subindo.
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
Fernando Torres
terça-feira, 2 de setembro de 2008
Em qual desses tipos você se encaixa?

segunda-feira, 1 de setembro de 2008
"Não estamos indo embora não! Vamos descer na estação Vergueiro do Metrô."

Depois de uma semana, o computador dá os primeiros sinais de vida. Mas não é essa a questão principal dos últimos dias. Ficar sem internet em casa faz você voltar a fazer um uso mais racional dessas coisas. Sobrevivi sem o msn, falando diretamente ou por telefone com quem mais precisava. Abri meus e-mails e vi meus recados do orkut em passagens rápidas por lan houses - umas três, em uma semana - e sobrevivi.
Ontem foi o final da temporada do "Quixote". Assisti a peça sem o compromisso de operar a luz, já que a Dezoti já cuida disso com desenvoltura. Se ela estiver lendo isso, deve estar pensando "óbvio, no último dia..." Mas enfim, pude observar a peça com o foco só nela, sem maiores obrigações técnicas. E o teatro cheio. Diferencial fundamental. Uma apresentação boa, talvez a melhor da temporada, que fecha dignamente uma trajetória de disputa com frio, chuva, Achiropita, trânsito.
Ao final eu não queria precisar falar nada. Nem encontrar ninguém.
Queria ir para casa, curtir de verdade a tal "glória do anonimato" do diretor, queria curtir o sentido e os sentidos que o espetáculo carrega, para mim e para algumas pessoas. Queria só ficar com essas sensações. Sem verbalizar. Como o próprio espetáculo faz.
Dizer "sim" à vida. Em tudo o que ela possui de bom e de ruim. Como a catarse nos gregos: não podemos selecionar só os bons momentos, as qualidades das pessoas, o segundo que nos interessa, o dia que reúne as características que gostamos. A vida não é maniqueísta. Ela oferece os dois lados. Precisamos comprar o pacote. Dizer "sim" à ela, se a amamos.
(C.L., "Perdoando Deus")
terça-feira, 26 de agosto de 2008
Os limites da escrita
Mas digitando não temos rubricas nem mostramos nosso rosto, e a escrita torna-se perigosa.
Um náufrago numa ilha deserta não precisa se preocupar com isso: quando encontram a garrafa, ele já está no lucro.
Mas nesse mundo de msns, blogs, orkuts, e-mails e afins, a palavra vira um manancial de mal-entendidos.
Se você não vê meu rosto quando escrevo, imagine. Se não vê as intenções por detrás de uma palavra, pense nas possibilidades e incline-as para o bem - esta deveria ser a frase de abertura de qualquer texto escrito por essas vias tão pouco "humanas" que se encarregam de levar, através de fios, cabos e afins que as vezes estão nos limites da Telefônica, sensações e estados de alma que variam.
Me lembro de alguns casos em que um e-mail despretensioso estragou amizades.
A gente lê o que quer, ou acha que lê o que não quer. Já fiz isso muitas vezes.
Como um personagem, a fala escrita está distante de sua resolução ao vivo.
Pensei sobre isso esses dias.
E a net nos deixa com a ilusão ainda de que relações aconteçam por aqui. De que o email, o msn, o orkut, os blogs e afins substituem a palavra real, concreta, vivida, substituem o olho no olho, o som da voz, o cheiro, o toque.
Falando nisso, estou sem net em casa. Por isso aqui só vão palavras, sem imagens.
Talvez seja bom, para deixar claro quão incompletas elas são.
Esses dias me fizeram pensar sobre a utilidade de tudo o que é escrito aqui. Sobre a possibilidade real de traduzir em palavras amor, esperança, solidão, felicidade, prazer, arte, tristeza, ansiedade, alegria... em palavras. Não. Só passamos uma aproximação disso tudo.
No "Poder do Mito" o Campbell fala algo sobre as idéias e sensações que realmente valem a pena. Não podem ser traduzidas. Delas podemos ter uma tentativa de aproximação, já de segunda ordem. E quando falamos sobre, já estamos traduzindo em palavras essa segunda instância. Ou seja, tudo o que está aqui é algo de terceira classe, mais ou menos.
A Clarice escreveu algo como estar buscando a palavra que seria tão perfeita que não precisaria ser escrita.
Talvez fosse um silêncio preenchido, compartilhado.
Sem internet em casa, direto de uma lan-house e sem foto nenhuma ou imagem, deixo um silêncio bom.
Aqui.
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
Cinema Paradiso - continuação

(ATENÇÃO A PARTIR DE 2´52...)
"A felicidade está em pedacinhos de descuido" (Guimarães Rosa)
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
Cinema Paradiso

segunda-feira, 18 de agosto de 2008
"Eu estava dormindo, enquanto os outros sofriam? Estarei dormindo agora? Amanhã, quando estiver pensando que acordei, o que direi do dia de hoje?"

sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Existe mesmo Pequim?
Pela primeira vez em anos, esta Olimpíada parece que não existe.Não é pelo fuso horário, eu costumo dormir tarde. Mas algo de estranho acontece, como se Pequim não existisse. De vez em quando, pela televisão ou jornais ou pela internet, sou lembrado de que tem jogos acontecendo e que fulano ganhou uma medalha, o Ronaldinho marcou um gol às 5h da manhã, e por aí vai.
Será que eu posso ter pego uma antipatia pela China? Não pelos chineses. Nem pela cultura da China. Nem pelas tradições de lá. Mas de tanto falarem nas frescuras com a imprensa, na política um tanto fechada de lá, de tanto transmitirem essa imagem, às vezes me pego acreditando nisso. Será que é assim mesmo? Como julgar com tanta Globo, Jack Bauer e afins influenciando?
Mas o programa nuclear americano ninguém discute que deveria parar. A política externa deles nem precisamos comentar. E os chineses são os vilões? Devo excluir esta opção.
Será que é porque voltando de aula ou de ensaio meu ritmo está menos propenso a ver esportes olímpicos que só lembro que existem a cada quatro anos, tipo equitação, salto ornamental e 110 metros com barreiras? Pode ser.
Mas não deveria ser uma opção melhor em uma madrugada de insônia do que "Fala que eu te escuto" ou coisas do gênero? Excluída esta também.
Será que é porque eu simplesmente ache essa disputa pelo quadro de medalhas algo besta, considerando que para o Brasil competir com esses gigantes do esporte é complicado, e que no final das contas se o único ouro for o futebol já valeu mais que tudo? Que os pobres coitados dos atletas ralam feito uns animais para serem reconhecidos brevemente quando ganham uma medalha e depois... Ninguém lembra mais deles?
Mas tudo bem, como poderia ser diferente? A tradição no esporte ou na cultura, no nosso país, é algo a ser construído. Sem discursinho político, vamos excluir esta.
Enfim, não sei. Só sei que não chego a conclusão nenhuma e parece que Pequim não existe.
Resultado: acho que na época, Atenas era muito mais atraente que Pequim. Eu estava indo para lá, estudando grego e comovido com a volta dos jogos "para casa".
E para mim parece que o interesse pelos jogos decaiu muito.
Ok, a culpa não é da China.
Mas não sei se Pequim existe mesmo.

