quarta-feira, 31 de março de 2010

Ato Cinco.



"(...) Dizendo que o senhor não está preparado."

"(...) Existe uma previdência especial até na queda de um pássaro.
Se é agora, não vai ser depois; se não for depois, será agora; se não for agora, será a qualquer hora. Estar preparado é tudo. Se ninguém é dono de nada do que deixa, que importa a hora de deixá-lo? Seja lá o que for!"

terça-feira, 30 de março de 2010

Considerações soltas ou últimas notícias...

Morreu Armando Nogueira.
E eu, que ainda nem tinha deixado passar o orgulho do Corinthians 4 x 3 São Paulo, com direito a gol contra aos 46 do segundo, me envergonho de nem saber que ele estava doente. Um mestre mesmo. Inteligente, bem humorado, nascido no Acre (é, existe o Acre mesmo!), digno representante da geração de Nelson Rodrigues. Se foi.
Pena. Mesmo. Tem gente que leva junto uma visão de mundo, parece.

"A Paixão Segundo GH" sempre volta. É um livro fantástico. Lembro que um estudioso acusou a Clarice de ter plagiado, em sua obra, a Virgínia Woolf. Como, "Orlando" incluso, nunca li Virgínia Woolf (não, "Quem tem medo de Virgínia Woolf" não conta!), para mim não faz muita diferença. Estaríamos voltando ao módulo "caçadores do pelo em ovo perdido" e como diria o Tchebutkin nas "Três Irmãs", "tanto faz, tanto faz!"...
O livro da Clarice é daqueles que dá vontade de comprar e presentear as pessoas. Do mesmo jeito que dá vontade de obrigar todo mundo a assistir o "Policarpo Quaresma" dirigido pelo Antunes, ou comer temaki de salmão até aprender a gostar. Um desejo de partilhar aquilo que se encontrou pelo caminho e que se considera necessário. Sem nenhum tipo de vaidade no estilo "se eu gosto é porque é bom". Algo que se acredita "para além do gosto pessoal" mesmo.

Acho que existem experiências que nos fazem pessoas melhores. Um bom livro, que nos lembra da capacidade humana de construir beleza só com a palavra. Uma peça de teatro que nos mostra essa beleza ao vivo - se possível num palco nu, onde o ator toca nossa imaginação (o Lee Taylor deve ser o segundo melhor ator dessa geração, só perde, por pouca coisa, do Danilo Grangeia, outro monstro).

E por que não uma comidinha japonesa?

Comentário solto: o Ricky Martin assumiu sua homossexualidade. Bom para ele, deve ter tirado um peso das costas (não, não foi com intenção de duplo sentido tosco, juro). Engraçado como essas questões animam a mídia. Mas como fica agora a sua imagem de sex simbol perante o público feminino? George Michael já enfrentou isso antes.

Sem preconceito, antes com inveja: Deus dá asa para cobra! Justo um cara que poderia ter a mulher que quisesse abandona o barco? Do jeito que as coisas andam, logo logo as pessoas vão ter que assumir a heterossexualidade. Aí sim vai ser notícia bombástica! Eu assumo a minha!

segunda-feira, 29 de março de 2010

Policarpo Quaresma



Você que gosta de teatro tem duas opções, sem exagero.
Primeira: fazer um favor a si mesmo e assistir à montagem de Antunes de "Policarpo Quaresma". É o Antunes dos tempos de "Macunaíma", redivivo, alegre, pulsante. Em sua melhor forma.
Segunda: caso não goste, faça um favor ao teatro e desista dele. É muita falta de sensibilidade ou ranhetice não assumir o brilhantismo da encenação de Antunes, com direito ao Lee Taylor sendo aplaudido em cena aberta.
Genial.
Genial.
Genial.

Alegria em ver um espetáculo fantástico.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Artaud


“Senhores Reitores,

Na estreita cisterna que os Srs. chamam de “Pensamento”, os raios espirituais apodrecem como palha.

Chega de jogos da linguagem, de artifícios da sintaxe, de prestidigitações com fórmulas, agora é preciso encontrar a grande Lei do coração, a Lei que não seja uma lei, uma prisão, mas um guia para o Espírito perdido no seu próprio labirinto. Além daquilo que a ciência jamais conseguirá alcançar, lá onde os feixes da razão se partem contra as nuvens, existe esse labirinto, núcleo central para o qual convergem todas as forças do ser, as nervuras últimas do Espírito. Nesse dédalo de muralhas móveis e sempre removidas, fora de todas as formas conhecidas do pensamento, nosso Espírito se agita, espreitando seus movimentos mais secretos e espontâneos, aqueles com um caráter de revelação, essa ária vinda de longe, caída do céu.

Mas a raça dos profetas extinguiu-se. A Europa cristaliza-se, mumifica-se lentamente sob as ataduras das suas fronteiras, das suas fábricas, dos seus tribunais, das suas universidades. O Espírito congelado racha entre lâminas minerais que se estreitam ao seu redor. A culpa é dos vossos sistemas embolorados, vossa lógica de 2 mais 2 fazem 4; a culpa é vossa, Reitores presos no laço dos silogismos. Os Srs. fabricam engenheiros, magistrados, médicos aos quais escapam os verdadeiros mistérios do corpo, as leis cósmicas do ser, falsos sábios, cegos para o além-terra, filósofos com a pretensão de reconstituir o Espírito. O menor ato de criação espontânea e um mundo mais complexo e revelador que qualquer metafísica.
Deixem-nos pois, os Senhores nada mais são que usurpadores. Com que direito pretendem canalizar a inteligência, dar diplomas ao Espírito?

Os Senhores nada sabem do Espírito, ignoram suas ramificações mais ocultas e essenciais, essas pegadas fósseis tão próximas das nossas próprias origens, rastros que às vezes conseguimos reconstituir sobre as mais obscuras jazidas dos nossos cérebros.

Em nome da vossa própria lógica, voz dizemos: a vida fede, Senhores. Olhem para seus rostos, considerem seus produtos. Pelo crivo dos vossos diplomas passa uma juventude abatida, perdida. Os Senhores são a chaga do mundo e tanto melhor para o mundo, mas que ele se acredite um pouco menos à frente da humanidade.”

sexta-feira, 19 de março de 2010

O Rio de Janeiro...



... continua lindo?
Então ele não precisa ficar MAIS lindo.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Semestre Novo


Outro dia estava conversando com minha amiga Carolina Costa e perguntei se não deveríamos, nós que temos nossa vida tão alterada pela mudança de semestres, comemorar o "semestre novo", algo quase tão ou mais importante que o ano novo.
A cada semestre nós, professores e alunos, ficamos à mercê das mudanças: turmas e horários que mudam, rotinas que se alteram, pessoas que vêm e que vão.
Semestre novo: 365 dias, divididos por dois, dá 182 e meio. Ou seja, dia 02/07, ao meio dia, passamos para o novo semestre.

Fiquei imaginando um grande almoço de sexta-feira, com champagne, folga no trabalho para todos os envolvidos com aulas, escolas, faculdades, etc do meio dia em diante. Abraços comovidos de final de semestre. Desejos de paz, prosperidade, nas praias aquela comoção de professores e alunos mandando oferendas para Iemanjá, rojões e fogos de artifício inúteis em pleno dia, gente de branco, nas ruas o cantarolar de "adeus, semestre velho..." e tudo mais.

No Jornal Hoje as reportagens cobrindo o evento com grande gala, interrompendo a programação normal, o Evaristo Costa se sentindo o próprio Cid Moreira, Roberto Carlos e Xuxa invadindo as telas, o Faustão na contagem regressiva. Tudo isso antes da Retrospectiva do Semestre, com os principais fatos que ocorreram na metade de 2010. Uma beleza.

A moda pega. Com o passar do tempo, as pessoas adotam o calendário semestral. Agendas são vendidas inteiras ou pela metade, conforme o gosto do freguês. As pessoas começam a contar a idade por semestres: a maioridade penal agora é aos quarenta e dois semestres. Tudo o que antes era semestral passa a ser trimestral.

E como as aulas passam a acontecer em módulos de quatro trimestres anuais, logo o trimestre ganha status. E começa tudo de novo.

Pensando bem, deixa como está.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Pensamento do dia

É impressão minha ou as pessoas têm uma tendência em levarem tudo muito a sério? Que os comentários em blogs, facebooks e afins sempre colocam as coisas em um grau de importância e urgência extremos? Que as relações são sempre drasticamente fundamentais, "como se não houvesse amanhã"? Que o amor é sempre eterno ou terrivelmente findo? Será que o mundo está virando psicótico de vez e o próximo dilúvio será o alagamento mundial pelo sangue de milhões de pessoas cortando os pulsos ao mesmo tempo?

Dá um pouco de preguiça do clima "minha auto-biografia" aos 20 e poucos anos, "meu amor eterno" aos dezoito, "como minha vida perdeu o sentido" aos 30... A expectativa de vida voltou aos 35 do Egito Antigo e ninguém avisou? Dá pra ter mais paciência e viver mais leve, pelo amor de Deus?

sexta-feira, 12 de março de 2010

Glauco (1957 - 2010)



E o dia começou da seguinte forma assim:
Chego no trabalho e quando o msn abre vejo em um nick: "Caralho, o Glauco morreu".
Entro na página da UOL e lá está a notícia, ladrões entraram na casa do Glauco e mataram ele e seu filho, que ainda foi levado para o hospital mas morreu no trajeto.

Não li detalhes, não sei de mais nada. Só sei que o Glauco morreu. O cara que desenhava o "Los Tres Amigos" com o Angeli e Laerte, o Geraldão, Dona Marta e etc. Que eu lia nos quadrinhos no final de 80, começo dos 90. Que fazia a gente se divertir com um humor anárquico e leve ao mesmo tempo, quase ingênuo às vezes, ácido ao extremo em outras.

Morre gente todo dia, é um fato. Mas tem pessoas que fazem questão de nos lembrar como é absurda a morte. O Glauco é um deles.

Que ele esteja começando um novo "Los Tres Amigos" com o Henfil. Se possível "Los Dos Amigos". Pra que ninguém faça companhia a ele tão cedo.

Triste.

quinta-feira, 11 de março de 2010

"O Cachorro Morto"



Eu já havia visto o trabalho da companhia com a peça "Escuro", no TUSP. Achei que não fosse gostar. Gostei. Aquele preconceito inicial que as vezes nos acomete quando damos de cara com algum signo que parece trazer um "deja vu" ou algo parecido, mas que logo é vencido ou pela qualidade dos atores, ou pelos signos da encenação, ou pela fábula. No caso, pelas três coisas.

Fiquei curioso ao saber que o outro trabalho da companhia - anterior a esse - estava em cartaz no Espaço Vitrine do Teatro Imprensa. Lá fui eu. Achando que iria gostar. Com medo de já chegar com uma expectativa muito alta e depois me decepcionar. Gostei.

Não tenho um interesse específico em relação à pesquisa da companhia. Não é que ela me agrada por este ou aquele motivo - uma coincidência de interesse estético, de pesquisa de linguagem ou coisa assim. Me agrada porque para além do lado racional do teatro, um espetáculo tem que me levar para algum lugar - metaforicamente falando lógico - me sensibilizar, me mostrar que a arte é aquilo que nos torna capaz de dar um "salto criativo" para além das nossas vidas.

E foi isso que o "Cachorro Morto" fez.
Quem não viu, está bobeando.

quarta-feira, 3 de março de 2010

"O Capote" e outros bichos


Lá fui eu assistir "O Capote", da companhia inglesa Gecko, adaptação do conto de Gógol. Já havia recebido a "intimação" que o Beto mandou para os professores, recomendando como "imperdível". Fui. SESI da Paulista, gratuito, plena terça à noite em São Paulo, com cara de terça à noite na Paulista em São Paulo.
No elenco, um ator convidado brasileiro (Rodrigo Matheus) que fala em português enquanto o resto do elenco nas línguas originais (tem um janonês, alguns falam francês e pouco inglês pôde ser percebido). O efeito é quase de uma peça sem texto, já que ele é pouco e quase incompreensível - o eixo da história, em termos verbais, fica com o "ator convidado" (parece uma estrutura que eles seguem em viagens). E o público, em sua maioria de "não iniciados", ficou preso ao Gógol pelas imagens potentes que a companhia constrói.

Talvez seja "perdível", mas vale bem à pena. É que pessoalmente chega um ponto que tantos efeitos me cansam um pouco. Só um pouco. Mas é um espetáculo belo sim. Tecnicamente surpreendente, lembrando a estrutura dos musicais, no que diz respeito às possibilidades cênicas.

Detalhe: Paulista, terça à noite, com cara de São Paulo mesmo. Friozinho, quase uma chuvinha. Que saudade de São Paulo assim... Se fosse para morar em Manaus eu iria para lá, afinal de contas.