sábado, 24 de dezembro de 2011

Feliz Natal


"A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar".

Eduardo Galeano

"Escrevo à noite. Vem na aragem noturna um cheiro de estrelas. E, súbito, eu descubro que estou fazendo a vigília dos pastores. Aí está o grande mistério. A vida do homem é essa vigília e nós somos eternamente os pastores. Não importa que o mundo esteja adormecido. O sonho faz quarto ao sono. E esse diáfano velório é toda a nossa vida. O homem vive e sobrevive porque espera o Messias. Neste momento, por toda a parte, onde quer que exista uma noite, lá estarão os pastores – na vigília docemente infinita. Uma noite, Ele virá. Com suas sandálias de silêncio entrará no quarto da nossa agonia. Entenderá nossa última lágrima de vida."

Nelson Rodrigues (crônica natalina publicada em O Globo)


Eu sempre gostei de pensar o Natal para além da crítica do consumismo ou da tacação de pedra generalizada no Cristianismo.
Não estou preocupado com a sociedade de consumo. Ela está aí e é evidente. Chover no molhado no Natal é que nem convidar um amigo vegetariano xiita pra ceia e deixar ele ficar lastimando o destino do peru.
Não estou preocupado também em fazer a crítica da Igreja Católica e tal. Deixo o nascimento do menino Jesus em seu plano mítico de um deus que se faz homem e nasce em meio aos outros homens para que nos lembremos da nossa parcela divina. E para que o deus talvez se lembre de sua parcela humana. Para mim a metáfora basta. E me parece tão bela quando as mitologias "politicamente corretas" da Grécia, da África ou dos nossos índios. Crer ou não crer não é o ponto.

Quando eu era mais novo lembro de uma amiga que perdeu o pai e me disse: "ou Deus não existe ou ele é mau". Me pareceu injusto contrariá-la naquele momento mas hoje, depois de ter perdido a minha mãe eu digo: depois de tantas guerras, fome, doença, miséria, morte e o escambau, não porque minha mãe morreu que eu passo a acreditar ou desacreditar em Deus. O ser humano já sofria - e muito - antes de pisarem no meu calo.

Hoje, dia 24 de dezembro, minha mãe faria 82 anos. Por isso minha avó teve a brilhante idéia de colocar o nome de Natalina nela. Dona Maria Natalina estaria preparando as coisas para a noite, com certeza.

A melhor forma de lembrá-la é resistir à tristeza e lembrar que mesmo com toda a dor do mundo o Natal pode ser uma ocasião para nos lembrarmos de que, como toda a utopia, esta data pode ser uma maneira de nos fazer caminhar. Se possível para uma direção com mais tolerância e compreensão entre as pessoas, para além dos lugares comuns sobre sociedade de consumo, política, religião e etc.

E os vegetarianos que me perdoem também, mas que a morte de todos os chesters, perus, porcos e afins não tenha sido em vão e que eles possam alimentar muitas orgias alimentares.

Feliz Natal e um ano de 2012 digno do fim do mundo Maia.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Belas Artes



Eu ainda passo ali pela Consolação e não me acostumo com o Belas Artes fechado.
O fechamento do Riviera Bar ali em frente já foi um golpe.
Também não me acostumei ainda.

A cidade vai mudando e a gente nem se dá conta. Teatros virando igrejas, casarões antigos virando bancos, cinemas virando bingos, bingos fechados virando sei lá o que, e por aí vai...

Antes que as usinas hidrelétricas virem grandes bolsões de cata-ventos gigantes, os atores da Globo poderiam se empenhar mais nas questões culturais e deixar a Ecologia para quem entende do assunto - nem eu, nem eles. Uma coisa aparentemente não tem relação com a outra, mas acho um absurdo o descaso com a cultura. Além daqueles que estão de olho em salvar o próprio aluguel, quem se importa com Leis de Incentivo, Fomento, Formação de Público e o escambau? Sim, eles SÃO formadores de opinião. Se ninguém fizer essa ponte - entre a classe artística e a sociedade - vamos continuar uma ilhazinha, uma pequena cidade do interior com vinte mil habitantes de DRT e pires na mão.

Uma cidade de artistas e teatros fechados, cinemas fechados e um monte de igrejas, bingos e bancos. Que supostamente apóiam a cultura.

Vai lá com a sua Rouanet debaixo do braço, vai.

Ah é... Esqueci que falar de ecologia é mais legal (mesmo não entendendo do assunto)...