domingo, 26 de dezembro de 2010

Kioskerman



O contrário do fracasso pode ser um simples abraço.

Feliz 2011!

(Imagem: http://www.kioskerman.com.ar/aca.htm)

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Final de ano MESMO.

2010 acabando.
Já já um ano novinho em folha. Como todo mundo sabe, tudo muda às 0h00 do dia primeiro.
Há tempos que não escrevo um post decente - supondo que alguns deles foram - e o último foi quase um tweed - e eu não uso Twitter, graças a Deus.

Ontem assisti "A Rede Social" e diferentemente de pessoas que resolveram sair do Facebook escandalizadas com a podridão e o jogo de interesses, me deu vontade é de trabalhar lá. Tem um tapetinho azul escrito "Facebook", o chefe promove festas e você fica bilionário com um investimento inicial de U$S 1.000,00. Pulando a parte de sacanear o melhor amigo, o resto é genial. Mas como não tenho amigos lá, acho que pegar a "firma" já pronta me protege da falha ética.

Falando em amigos, encontrei meu grande amigo Kahn que passou o almoço neste domingo argumentando sobre o caso dos artistas de rua na Paulista. O Kahn tem argumentos ótimos para um advogado do diabo. Em meia hora de discussão ou você concorda com ele e sai prendendo esses biltres artistas que devem ser devidamente catalogados pelo IBAMA ou muda de assunto. E o pH do leite, em alguns casos, vira ácido. O Kahn é o meu sofista preferido.

Os teatros estão mudando seus horários aos domingos, por isso é bom ficar precavido e pensar em 19h ao invés de 20h.

Como 2011 é o último ano da humanidade segundo o povo Maia - que estranhamente, apesar de tão desenvolvido, foi dizimado pelos espanhóis - é bom aproveitar.

Beijos!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

2011 já já.

Estive sem ter o que dizer, ou sem paciência para entrar aqui e dizer algo.
Um ano vai se acabando com algumas conquistas, novas perguntas, novas metas que se abrem. 2010 foi bom. Um daqueles anos que valem por dois.
Há um mês ele já poderia ter-se acabado que estaria tudo bem.

Depois de quatro linhas com informações super pertinentes e criativas, até breve.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Os Limites entre a Vida e a Arte



Chego do meu feriado regado à surfe e sol e descubro que o ator de "A Porta", Beto, simplesmente pirou. Segundo Vina, diretor do espetáculo, ele saiu de um ensaio, com figuro e tudo e sumiu. Chegou a ser fotografado pelas ruas de São Paulo mas sempre que alguém se aproximava dele recusava-se a "voltar".

Já tinha ouvido falar dessa história de confundir Arte e Vida, ainda mais em se tratando de Kafka, que costuma cozinhar miolos, mas algo assim nunca tinha visto na realidade. Espero que as coisas melhorem e eles possam estrear "A Porta" no dia 28 de outubro.

Força Beto.
Força Vina.

domingo, 3 de outubro de 2010

Tarzan e Cia.

Sim, ele esteve por aqui.
Veio de cipó em cipó para a eleição, já que não quis mudar seu endereço eleitoral. Na intimidade da urna, procurou Jane nas opções para o senado mas estranhamente, quando digitou o número da sua colinha, deu "voto nulo", como se a candidata não existisse.
Chamou o mesário que realmente confirmou a inexistência de Jane entre as opções.
Ele bradou em alto e bom som sua indignação mas de nada adiantou.

Em outra parte da cidade, o Mico fugira das grades do IBAMA. Disfarçou-se de cão e conseguiu que sua foto fosse divulgada no Facebook como um filhote de pequinês precisando de um dono. Até o nome "Caquito" lhe foi atribuído. Nada mal para um foragido.

Por fim, Jane resolveu entrar para o mundo corporativo enquanto suas pendências com o IBAMA impediam sua guinada na vida política. Arranjou um trabalho em uma multinacional da área agrícola e passa os dias arquitetando sua volta às urnas e o valor da soja no mercado mundial.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

NIKLASSTRASSE, 36 - O Ensaio Aberto



Neste final de semana fizemos três apresentações do ensaio aberto do "NIKLASSTRASSE, 36", espetáculo baseado no conto "A Metamorfe", de Kafka.
A peça mesmo deve estrear só no primeiro semestre de 2011, mas foi uma experiência muito boa abrir essa etapa do trabalho para público, mesmo que pequeno, ali no Teatro Escola Macunaíma, onde o elenco todo, em épocas diversas, se formou.

Desde "Quixote", esta é a primeira produção "pronta" da Cia. dos Imaginários... Fizemos o "Hamlet Zero" em 2007 mas o projeto não teve sequência, foram apenas três dias de peça que, no futuro, renderão material para um "Hamlet" - projeto que está guardadinho na gaveta... Depois de ensaiarmos um Strindberg que se revelou um pouco distante do perfil da Companhia, agora fechamos a primeira etapa.

Obrigado a todos que estiveram lá!



Na foto:
"NIKLASSTRASSE, 36" nas lentes de Mariana Noguera, fotógrafa tradicional dos Imaginários. (Em breve mais fotos de Carolina Costa e Renata Laurentino!)

O mico leão dourado preso pelo IBAMA

Quando Jane foi denunciada, seu mico leão foi para o IBAMA. Sim, atrás das grades. O que deveria libertá-lo na realidade era uma prisão. Ele voltaria para a selva, para alguma reserva ecológica e nunca mais veria Jane. Seria isso melhor? Talvez um dia, se sua curta vida de primata permitisse, ainda poderia assistir, em algum televisor ligado em um horário político porvir, Jane candidata ao Senado Federal.

Pensou nas decisões humanas acertadas e preferiu, naquele momento, passear no ombro de Jane do que divertir-se nos cipós e nas árvores do Mato Grosso. Fez questão de morder o dedo do Tarzan, quando ele veio buscá-lo na gaiola com as promessas de liberdade e retorno à natureza.

Dizem que o mico leão está sendo readaptado, neste momento, ao seu habitat natural. Sobre Jane não temos informações, mas em breve nosso repórter trará notícias quentinhas de uma das três personagens.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

As aventuras de Jane

A Fantástica Jane sai de casa no início do dia, munida de seu escafandro, um colete à prova de balas e patins que a fazem andar mais rápido. É uma moça precavida. Sabe de muitas coisas, especialmente no que diz respeito à vida em geral. Jane tem o mapa. O manual de instruções. E um vestido à prova de vômitos que veste por cima do colete à prova de balas. Jane não tem ilusões. É uma pessoa esclarecida e que domina plenamente seu intelecto, seus sentimentos e suas vontades. Revolucionária e existencialista. Vê o mundo de uma visão panorâmica, sábia e distanciada. Jane pensa secretamente em se candidatar ao Senado nas próximas eleições. Já tem uma plataforma política rascunhada e um projeto do que pretende fazer. Sempre a frente de seu tempo.

Na sexta-feira Jane compra um mico leão dourado clandestino e leva para casa. Invejosos de plantão denunciam o ocorrido e em pleno domingo de fórmula 1 ela é levada de casa, junto com o pequeno animalzinho e fichada pelo IBAMA. Agora Jane não poderá nunca mais ser Senadora, com seu passado manchado por uma situação banal.
E o animalzinho jaz numa cela, esperando o próximo vôo para Manaus.

Faltou um Tarzan nessa história, mas é melhor assim.

domingo, 22 de agosto de 2010

Equação do segundo grau.

Equações algébricas são equações nas quais a incógnita x está sujeita a operações algébricas como: adição, subtração, multiplicação, divisão e radiciação.

Exemplos:

a x + b = 0

a x² + bx + c = 0

a x4 + b x² + c = 0

Uma equação algébrica está em sua forma canônica, quando ela pode ser escrita como:
a0 xn + a1 xn-1 + ... + an-1 x1 + an = 0

onde n é um número inteiro positivo (número natural). O maior expoente da incógnita em uma equação algébrica é denominado o grau da equação e o coeficiente do termo de mais alto grau é denominado coeficiente do termo dominante.

Exemplo: A equação 4x²+3x+2=0 tem o grau 2 e o coeficiente do termo dominante é 4. Neste caso, dizemos que esta é uma equação do segundo grau.

O google me lembra daquilo que eu nunca aprendi ao certo e me tira a dúvida que estava na cabeça: não, em nenhum momento há referências de que nem a Arte, nem a vida, nem o Teatro tem nada a ver com uma equação do segundo grau.
Por que algumas pessoas têm mania de confundir a vida e Arte com fórmulas?
Para quem gosta das Exatas, vamos para a física quântica, pelo menos?

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Sobre leões marinhos



O leão-marinho é um animal sobre o qual quase nunca ouvimos falar por aqui. É como o Canadá, você sabe que ele existe mas deve ser um lugar maravilhoso de se viver, porque é raro alguma nota sobre ele na mídia. Vazamentos de óleo, guerras, crises internacionais, oscilações da bolsa pelo mundo, Olimpíadas, Copas e o Canadá lá. Sem novidades.

Para os interessados nesse belo espécime de mamífero, a Wikipedia tem um verbete emocionante: http://pt.wikipedia.org/wiki/Le%C3%A3o-marinho

Mas ficaremos aqui com o semblante do casal leonino-marinho da foto. Parece que a vida deles está boa, pelo sorrisinho. Um bom banho de sol de conchinha, salmões frescos (literalmente) a disposição, um laisser-faire contínuo, os corpos bronzeados. O leão-marinho é o sonho de todo mamífero.
Pelo menos no Ushuaia.

Alguém pergunta: "precisava ser tão longe"?
Ora! a felicidade precisa estar na sua esquina? E os nossos antepassados das Grandes Navegações, deixaram seus genes de aventura à toa?

"Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas foi nele que espelhou o céu."

Vou discutir com o Fernando Pessoa? Eu não!

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

"...é a vida, mais que a morte, a que não tem limites"



"O comandante olhou Fermina Daza e viu em suas pestanas os primeiros lampejos de um orvalho de inverno. Depois olhou Florentino Ariza, seu domínio invencível, seu amor impávido, e se assustou com a suspeita tardia de que é a vida, mais que a morte, a que não tem limites." Gabriel Garcia Marquez, O Amor nos Tempos do Cólera

Estava me lembrando do final do Cyrano de Bergerac, quando ele, já morrendo, tem uma alucinação e acha que está enfrentando novamente todos os inimigos que teve em vida. Ele sabe que vai morrer e ainda assim quer lutar de pé, pois "não se luta só para vencer". Fiquei me lembrando disso. "Não se luta só para vencer". E aí me veio o Gabriel com o trecho do livro sobre o qual montei "O Cheiro das Amêndoas Amargas" e a descoberta de que "é a vida, mais que a morte, a que não tem limites"...
Se pensarmos que vamos todos morrer um dia - até o Roberto Marinho que dizia "...se um dia eu vier a morrer" morreu - essa luta é inglória, pois perdemos no final... Mas tem alguma coisa irônica na vida que nos convence a cada dia que passa que a luta vale a pena, ainda que seja uma luta de Cyrano. São as pessoas que encontramos pelo caminho e as coisas das quais passamos a fazer parte e que são maiores do que nós.
Elas enganam a morte. E mesmo ela, a vitoriosa no final, é trapaceada.

Eu trapaceei a morte com o "Dzi Croquettes". Com este quadro que não sei porque chama "Serpentes Marinhas", já que o mais bonito são as costas nuas da figura, que dão vontade de iluminar com a projeção de alguma imagem. Com os amigos queridos que estiveram próximos no melhor estilo "uma dor repartida é uma meia dor, uma alegria repartida é uma alegria em dobro". Com os alunos em início de semestre ávidos pelo novo. Com os Imaginários e o Kafka.

Obrigado Paulinho, Marina, Andréa, André, Natália. Obrigado Denise. Obrigado Baba, Nardoni, Litto, Lucas, Japa. Obrigado aos Meninos Perdidos das terças e quintas à noite. Obrigado Carol e Lu.

Obrigado Renata.

domingo, 1 de agosto de 2010

Cyro del Nero ou A Falha Trágica



Quando minha mãe morreu, lembro-me do Cyro dizer: "a melhor vingança é viver bem". Não sabíamos se haveria um padre no velório e ele sugeriu, na ausência de um sacerdote, que alguém lesse a Carta de Paulo aos Coríntios. O padre veio e em meio à dor pensei que no final das contas a leitura da Carta seria melhor.

Cyro me enganou. Passou por uma cirurgia delicada, aos 78 anos. Teve que voltar para a sala de cirurgia meia hora depois de ir para o quarto. Ficou por lá mais não sei quantas horas. Uma terça-feira tensa. Achei que não fosse suportar. Suportou. Nos primeiros dias de UTI, sedado ou semi-sedado, com alucinações vindas da anestesia (duas em um único dia), foi melhorando aos poucos. Uma semana após a operação, ele em seu último dia de UTI (no dia seguinte foi para o quarto) e apesar do cansaço e abatimento naturais, me parecia bem.

Cyro fênix. Refazendo-se. Como escrevi no livro que lhe dei, El Libro de los Seres Imaginarios, do Borges. Ele era o ser imaginário da página 37, "El ave Fenix".

Na sexta faleceu, de madrugada. Me enganou. Como o Lawrence Olivier de quem ele gostava tanto, me convenceu de que estava bem.

Todo herói grego tem sua "falha trágica". O excesso que ao final das contas humaniza. O herói sabendo ou não disso trai a si mesmo e revela seu lado mais frágil.

O que mais me comove no Cyro não é sua erudição, a admiração pela sua experiência e pela sua vida, sua obra ou sua força criadora. É a falha trágica. A emoção que sempre esteve escondida na sua pinta de lorde inglês. Mais Brás e menos Alemanha. Inúmeros exemplos me vêm à cabeça, mas fico com a frase de cima: "a melhor vingança é viver bem."

Vinguei-me da vida que me levou o Cyro, depois de voltar da cerimônia no Cemitério Primaveras em Guarulhos, vendo o "Dzi Croquettes" no Reserva Cultural.

Ele teria dado uma gargalhada.

Um grande beijo mestre querido.

sábado, 31 de julho de 2010

árido

a coisa mais árida da vida é a morte, a secura que ela traz em tudo.
deve ser por isso que a gente chora, para pelo menos uma gota d´água lembrar que ainda tem vida por aí.

terça-feira, 27 de julho de 2010

O coração



O coração é um órgão muscular oco que bombeia o sangue de forma que circule pelo corpo. Apesar de não fazer parte do cérebro, ele muitas vezes rouba para si as funções que deveriam ser próprias daquele e geralmente as executa de maneira menos competente, em especial quando associadas com os órgãos da visão e sexuais. Entretanto, nem sempre esta conjunção é maléfica já que o oposto - o domínio exclusivo do cérebro - costuma conferir uma vida vegetativa ao indivíduo.

O coração é um músculo ímpar no organismo humano, pois tem a agressividade de quem bate durante toda a existência. Porém, é engano pensar que quantidade e intensidade sejam proporcionais, uma vez que os golpes que ele sofre, mesmo em menor número, não são menos destrutivos que suas batidas diárias.

O coração sofre obstruções de todos os tipos, entupimentos, arritmias, paradas momentâneas, sopros, fraquezas, sangramentos, dores agudas, apertos. Mas ele é feito para sobreviver.

Estava eu com meu coração moído que nem conta no banco Itaú tem quando chega a notícia de outro coração que logo sairá da cama do hospital. E ele reage.

O coração é um órgão muscular oco, que bombeia o sangue para o corpo e que mesmo cheio de cicatrizes e pancadas sobrevive. Talvez baqueado mas ali. Como um Escort velho que nos leva ainda.

Ele nos leva ainda. Nos leva ainda. Nos leva ainda.

"A melhor vingança é viver bem." (Cyro del Nero)

P.S.: Na imagem do Klimt, um coração visto por dentro

domingo, 18 de julho de 2010

Da Cama do Hospital

Ele estava lá, do alto dos seus oitenta anos.
Me pareceu bem, para alguém que espera uma cirurgia de ponte de safena na terça-feira. E me pareceu que depois de tudo, os mal entendidos não valem muita coisa. E pela primeira vez em muito tempo realmente me pareceu que a vida filtra tudo e o que importa mesmo persiste. Não, não se iluda: as pessoas são a única coisa que importa, realmente.

Penso que um leito de hospital é o altar da reflexão forçada. Quanto mais longa a vida mais densa fica essa reflexão, especialmente quando ela corre risco. Não um acidente. Não o inesperado. Mas a consciência de que alguma coisa começa a falhar. O coração certamente não foi pensado para aguentar tanto, de tantos lados. Como músculo, ele sobrevive, o que não o mata o torna mais forte talvez, o exercita, mas nesse exercício de sobre-vida alguns escolhem que ele bata mais, outros, menos. Não sei.

A vida é grande demais. Nossa humanidade deveria constituir-se em não disfarçar nossa incapacidade de viver com uma vida que pulsa de fora para dentro; nosso desamor com desapego; nossa fragilidade com palavras bonitas e racionalidade. Odeio as palavras. Elas não resistem a um abraço, a um aperto de mão, nem à troca de calor entre dois corpos calados. Mas nossa vida insiste em fazer esse tipo de substituição.

Força velho amigo. Volto terça para usar as palavras, espero, para escrever sobre a sua cirurgia bem sucedida, já que sua recuperação deve demorar um pouco para meu abraço e meus cumprimentos por uma vida nova.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

21 motivos para deixar a cidade grande


As 21 coisas que mais fazem você pensar em desistir de morar em uma cidade grande:

1 - A violência que consegue parecer relativa de tanto que nos acostumamos com ela.

2 - A miséria social que consegue parecer relativa de tanto que nos acostumamos com ela.

3 - O trânsito que parece normal de tanto que nos acostumamos a ele.

4 - A poluição que parece normal de tanto que nos acostumamos a ela.

5 - O custo de vida que parece normal de tanto que nos acostumamos a ele.

6 - A falta de tempo para as pessoas que gostamos de tanto que nos acostumamos a trocar relações reais por intermediadas pelo celular e a internet.

7 - A existência de cinemas, teatro, bares e restaurantes que você acaba nem frequentando por falta de dinheiro ou tempo mas que evoca como motivo para querer ficar numa cidade grande.

8 - A chuva que quando cai para tudo, mesmo não sendo Manaus.

9 - As obras públicas que andam na correria ou param de repente, ao sabor das eleições.

10 - O stress que emana das pessoas.

11 - A competividade que emana de qualquer atividade profissional.

12 - A perda de qualquer noção de tradição.

13 - O consumismo que emana em qualquer esquina.

14 - As leis de fundo moralista que servem para agradar as classes "formadoras de opinião": lei anti-fumo, psiu, etc., que não levam em conta as opções individuais nem a realidade específica de cada região ou estabelecimento.

15 - A corrupção da máquina pública.

16 - A truculência da polícia.

17 - A perda cada vez maior das relações mais próximas nos bairros, como a falência dos mercadinhos engolidos pelas grandes redes de supermercados.

18 - A falência do sistema de saúde.

19 - A superlotação dos transportes públicos.

20 - O acesso à arte e cultura cada vez mais restrito aos guetos de quem produz.

21 - As políticas de acesso à arte e à cultura assistencialistas ou manipuladas.

Quem aumenta a lista?

terça-feira, 6 de julho de 2010

"Você gosta dos heróis tortos, não?"



Ontem terminaram as apresentações do "Cyrano de Bergerac" no Macunaíma.
Com todas as ressalvas de uma montagem de um curso técnico, fica uma sensação de gratidão por ter trabalhado um universo que na minha opinião vale a pena ser discutido. Esses tais "heróis tortos", como alguém comentou após a sessão comigo.
Não vou me estender sobre isso porque quando comentei do "Quixote" (que Cyrano, no texto, chama de "meu irmão")já falei do anti-herói e sua humanidade, nada muito original mesmo.

Mas em época de Copa do Mundo, vale lembrar que não é a simples derrota que faz um anti-herói que se preze. Se fosse assim, o Dunga seria um exemplo. E não é que brigaram comigo por causa do Dunga esses dias? Tenha santa paciência. Tem coisas que não vão para frente só porque nos convenceram de que apesar de tudo deve-se sempre estar de acordo. Qualquer idéia que não contenha em si uma auto-crítica (religião, política, pátria, time, o que for) só nos mantém na ignorância. Pelo amor do Cristo!

Será que vivemos em um tempo onde a noção de "nobreza" se perdeu? "Nobreza" não no sentido elitista do termo, mas de grandeza de aspirações, de idéias, de sonhos... Coisa que o Dunga não tem, certamente. Ele é só turrão, como o nome tirado dos sete anões sugere - na verdade um misto de Zangado com Soneca. Mas falar do Dunga também não vale a pena. Que ingenuidade nossa engolir qualquer coisa que nos é colocada no prato!

Hoje foi um dia triste, a Copa deu seu último suspiro para mim com o Uruguai saindo. Mas foi um jogo de Copa do Mundo mesmo. Coisa que o Brasil só teve nos primeiros 45 minutos do jogo derradeiro. O Dunga não é anti-herói. É pastiche de protagonista. E o Felipe Mello é vilão de quermesse. E não adianta viver de glória do passado. Não somos melhores que ninguém antes que o jogo acabe.

Anti-herói foi o Suárez do Uruguai, que tirou a bola do gol, consciente da expulsão, sem ser desleal - pagou o preço e deu ao seu time a última chance. E deu certo. Esse sim é o Cyrano uruguaio, o Quixote uruguaio. Melhor que nossos heróis por excelência - Kaká, principalmente - que tem como álibi o currículo e não o que produzem aqui e agora em campo.

Ops, aqui e agora não, já devem estar vendo o final da Copa pela televisão.
Acho que para eles a Copa nem acabou, devem estar rindo e comendo pipoca enquanto as pessoas ingênuas brigam por causa desse bando de milionários...

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Crisis? What Crisis?


Esses dias tocou Supertramp no rádio.
Esse disco aí é um que eu costumava ouvir. Hoje confesso que os falsetes me soam estranhos, mas mesmo assim fica uma relação afetiva com ele. Tinha um LP duplo (disco mesmo) do Paris, gravado ao vivo, muito bom também.
E fica o título: Crisis? What Crisis?

A crise veio. E com a simplicidade da resolução no seu âmago. Paixão. Tem que se estar apaixonado, porque só viver não basta para se sentir vivo. Mas eu sigo a caminho dela, isso eu sei. Pode ser divagando sobre uma idéia, pode ser lendo, escrevendo, conversando sobre. As conversas são fundamentais. E sim, elas me fazem crer que há um caminho.

Porque de repente vem um medo de deixar passar a possibilidade de ser mais vivo, de estar mais vivo. E isso é difícil de medir: o que é uma preparação, o que é uma omissão. Quero estar me preparando, não me omitindo. Muita coisa mudou. Olhando para trás isso me parece claro. E é impensável fazer menos, hoje, do que há dez anos atrás. Guardo a minha ansiedade por saber que ela não me ajudou até agora. E procuro encarar essa espera de realização como a ante-sala de dias mais verdadeiros.

Há que se por em prática.
Talvez seja realmente fazer aquilo que mais se teme. Sem frases feitas não, só a constatação de que "a selva é escura, mas está cheia de diamantes".

Crise? Que crise?

Você acha que o Teseu, quando teve que entrar na porcaria do labirinto para matar o Minotauro, não estava com medo? Claro que estava! "Entra aí, é um labirinto e tem um monstro para você matar." Bem bacana o passeio.

Mas se ele fosse vivo hoje renderia uma propaganda da Johnnie Walker ou da Adidas. "Keep Walking" ou "Impossible is Nothing".

Lembrando a Ju falando sobre a terapia: "a função do terapeuta é devolver de maneira serena a consciência ao analisado de que ele é o responsável pela sua vida." Ou seja, nossa vida é o labirinto que temos que enfrentar, o Minotauro talvez seja nós mesmos. Há que se matar os medos, inseguranças e ansiedades. Há que se lançar no abismo da fé.

Ou ficamos olhando a vida de fora.
Crise? Que crise? Vou é matar esse bicho metido a besta com cabeça de touro logo de uma vez.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

103 anos


Não se iluda. A beleza é efêmera.
Mesmo se durar 103 anos.
Há que se preservar os instantes onde ela impera.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Olá

Tudo bem por aí?
Faz tempo que eu não escrevo para você, então esse é um "resgate" ou algo do tipo. Me disseram uma vez que usamos essa palavra - resgate - no sentido errado. Resgatamos algo quando há uma troca. Por exemplo, quando alguém seqüestra uma pessoa e pede um resgate, ele recebe algo para devolver algo (no caso, a pessoa em questão). Aí me pergunto: se é unilateral, é um "resgate"?
Talvez sim, mas sem pensar em receber algo, dou algo. Um "resgate unilateral". Ou então apenas esteja dando alguma coisa para receber, de mim mesmo, outra. Resgatando a mim mesmo, quem sabe - no sentido de mover-se para a direção correta.
Voltando. Faz tempo que não escrevo para você. Espero que esteja tudo bem por aí. Aqui, deste lado do globo terrestre que circunscreve minha pessoa, as coisas caminham bem. Tive um contratempo com o dedão do pé e um acúmulo de trabalho até o final do semestre, além de uma viagem frustrada que chegou e se foi de surpresa. De resto, tudo bem.
E você? Como está tudo por aí? Espero que tenha resolvido aquelas questões antigas e que tenha achado aquelas coisas que perdeu. Da última vez que nos vimos eu não comentei, mas tinha uma espinha perto do queixo - agora fico mais à vontade para falar - espero que ela tenha sumido. Tomou os remédios direitinho? Eu tive vários aqui de seis em seis, oito em oito, doze em doze horas. Segui à risca as indicações.
Não se renda ao esquecimento ou distração. Faz seu tratamento certinho.
Bom, depois escrevo mais. Tem um inseto monstruoso esperando.
Grande beijo

P.S.: Qualquer problema, quebre o vidro. Mas quebra com vontade sem medo dos cacos.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Lukánikos


Esta semana fiquei impressionado com o Lukánikos, o "cahorro anti-sistema" grego, que acompanha os manifestantes nas passeatas desde 2008. Puxa, minha gata perto do Lukánikos é de uma alienação política espantosa. Ela deitaria no colo do Maluf ou da Heloísa Helena, sem distinção. Ou ignoraria ambos. Com aquele jeito felino de estar acima do bem e do mal.
Quase fui à Grécia por esses tempos. Já estava imaginando meu encontro glorioso com o Lukánikos, ele deitadão, de barriga para cima, e eu afagando seu dorso até que alguém tirasse a foto histórica com meu ídolo. Lukánikos é mais que um cão, é uma instituição, uma bandeira que se estende mundo afora.
Toda a nossa política, nossa noção de cidadania, de ética, treme ao menor latido do Lukánikos. Do alto de suas quatro patas que perambulam pelo berço da democracia, ele urina galante sobre nossa pífia idéia de civismo. Lukánikos, o garboso vira-latas ateniense que pertence à estirpe de Argos, o cão mítico de Ulisses.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Mad As Hell! Kinetic Typography



I don't have to tell you things are bad. Everybody knows things are bad. It's a depression. Everybody's out of work or scared of losing their job. The dollar buys a nickel's work, banks are going bust, shopkeepers keep a gun under the counter. Punks are running wild in the street and there's nobody anywhere who seems to know what to do, and there's no end to it. We know the air is unfit to breathe and our food is unfit to eat, and we sit watching our TV's while some local newscaster tells us that today we had fifteen homicides and sixty-three violent crimes, as if that's the way it's supposed to be. We know things are bad - worse than bad. They're crazy. It's like everything everywhere is going crazy, so we don't go out anymore. We sit in the house, and slowly the world we are living in is getting smaller, and all we say is, 'Please, at least leave us alone in our living rooms. Let me have my toaster and my TV and my steel-belted radials and I won't say anything. Just leave us alone.' Well, I'm not gonna leave you alone. I want you to get mad! I don't want you to protest. I don't want you to riot - I don't want you to write to your congressman because I wouldn't know what to tell you to write. I don't know what to do about the depression and the inflation and the Russians and the crime in the street. All I know is that first you've got to get mad.
You've got to say, 'I'm a HUMAN BEING, Goddamnit! My life has VALUE!' So I want you to get up now. I want all of you to get up out of your chairs. I want you to get up right now and go to the window. Open it, and stick your head out, and yell,

'I'M AS MAD AS HELL, AND I'M NOT GOING TO TAKE THIS ANYMORE!'

quarta-feira, 31 de março de 2010

Ato Cinco.



"(...) Dizendo que o senhor não está preparado."

"(...) Existe uma previdência especial até na queda de um pássaro.
Se é agora, não vai ser depois; se não for depois, será agora; se não for agora, será a qualquer hora. Estar preparado é tudo. Se ninguém é dono de nada do que deixa, que importa a hora de deixá-lo? Seja lá o que for!"

terça-feira, 30 de março de 2010

Considerações soltas ou últimas notícias...

Morreu Armando Nogueira.
E eu, que ainda nem tinha deixado passar o orgulho do Corinthians 4 x 3 São Paulo, com direito a gol contra aos 46 do segundo, me envergonho de nem saber que ele estava doente. Um mestre mesmo. Inteligente, bem humorado, nascido no Acre (é, existe o Acre mesmo!), digno representante da geração de Nelson Rodrigues. Se foi.
Pena. Mesmo. Tem gente que leva junto uma visão de mundo, parece.

"A Paixão Segundo GH" sempre volta. É um livro fantástico. Lembro que um estudioso acusou a Clarice de ter plagiado, em sua obra, a Virgínia Woolf. Como, "Orlando" incluso, nunca li Virgínia Woolf (não, "Quem tem medo de Virgínia Woolf" não conta!), para mim não faz muita diferença. Estaríamos voltando ao módulo "caçadores do pelo em ovo perdido" e como diria o Tchebutkin nas "Três Irmãs", "tanto faz, tanto faz!"...
O livro da Clarice é daqueles que dá vontade de comprar e presentear as pessoas. Do mesmo jeito que dá vontade de obrigar todo mundo a assistir o "Policarpo Quaresma" dirigido pelo Antunes, ou comer temaki de salmão até aprender a gostar. Um desejo de partilhar aquilo que se encontrou pelo caminho e que se considera necessário. Sem nenhum tipo de vaidade no estilo "se eu gosto é porque é bom". Algo que se acredita "para além do gosto pessoal" mesmo.

Acho que existem experiências que nos fazem pessoas melhores. Um bom livro, que nos lembra da capacidade humana de construir beleza só com a palavra. Uma peça de teatro que nos mostra essa beleza ao vivo - se possível num palco nu, onde o ator toca nossa imaginação (o Lee Taylor deve ser o segundo melhor ator dessa geração, só perde, por pouca coisa, do Danilo Grangeia, outro monstro).

E por que não uma comidinha japonesa?

Comentário solto: o Ricky Martin assumiu sua homossexualidade. Bom para ele, deve ter tirado um peso das costas (não, não foi com intenção de duplo sentido tosco, juro). Engraçado como essas questões animam a mídia. Mas como fica agora a sua imagem de sex simbol perante o público feminino? George Michael já enfrentou isso antes.

Sem preconceito, antes com inveja: Deus dá asa para cobra! Justo um cara que poderia ter a mulher que quisesse abandona o barco? Do jeito que as coisas andam, logo logo as pessoas vão ter que assumir a heterossexualidade. Aí sim vai ser notícia bombástica! Eu assumo a minha!

segunda-feira, 29 de março de 2010

Policarpo Quaresma



Você que gosta de teatro tem duas opções, sem exagero.
Primeira: fazer um favor a si mesmo e assistir à montagem de Antunes de "Policarpo Quaresma". É o Antunes dos tempos de "Macunaíma", redivivo, alegre, pulsante. Em sua melhor forma.
Segunda: caso não goste, faça um favor ao teatro e desista dele. É muita falta de sensibilidade ou ranhetice não assumir o brilhantismo da encenação de Antunes, com direito ao Lee Taylor sendo aplaudido em cena aberta.
Genial.
Genial.
Genial.

Alegria em ver um espetáculo fantástico.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Artaud


“Senhores Reitores,

Na estreita cisterna que os Srs. chamam de “Pensamento”, os raios espirituais apodrecem como palha.

Chega de jogos da linguagem, de artifícios da sintaxe, de prestidigitações com fórmulas, agora é preciso encontrar a grande Lei do coração, a Lei que não seja uma lei, uma prisão, mas um guia para o Espírito perdido no seu próprio labirinto. Além daquilo que a ciência jamais conseguirá alcançar, lá onde os feixes da razão se partem contra as nuvens, existe esse labirinto, núcleo central para o qual convergem todas as forças do ser, as nervuras últimas do Espírito. Nesse dédalo de muralhas móveis e sempre removidas, fora de todas as formas conhecidas do pensamento, nosso Espírito se agita, espreitando seus movimentos mais secretos e espontâneos, aqueles com um caráter de revelação, essa ária vinda de longe, caída do céu.

Mas a raça dos profetas extinguiu-se. A Europa cristaliza-se, mumifica-se lentamente sob as ataduras das suas fronteiras, das suas fábricas, dos seus tribunais, das suas universidades. O Espírito congelado racha entre lâminas minerais que se estreitam ao seu redor. A culpa é dos vossos sistemas embolorados, vossa lógica de 2 mais 2 fazem 4; a culpa é vossa, Reitores presos no laço dos silogismos. Os Srs. fabricam engenheiros, magistrados, médicos aos quais escapam os verdadeiros mistérios do corpo, as leis cósmicas do ser, falsos sábios, cegos para o além-terra, filósofos com a pretensão de reconstituir o Espírito. O menor ato de criação espontânea e um mundo mais complexo e revelador que qualquer metafísica.
Deixem-nos pois, os Senhores nada mais são que usurpadores. Com que direito pretendem canalizar a inteligência, dar diplomas ao Espírito?

Os Senhores nada sabem do Espírito, ignoram suas ramificações mais ocultas e essenciais, essas pegadas fósseis tão próximas das nossas próprias origens, rastros que às vezes conseguimos reconstituir sobre as mais obscuras jazidas dos nossos cérebros.

Em nome da vossa própria lógica, voz dizemos: a vida fede, Senhores. Olhem para seus rostos, considerem seus produtos. Pelo crivo dos vossos diplomas passa uma juventude abatida, perdida. Os Senhores são a chaga do mundo e tanto melhor para o mundo, mas que ele se acredite um pouco menos à frente da humanidade.”

sexta-feira, 19 de março de 2010

O Rio de Janeiro...



... continua lindo?
Então ele não precisa ficar MAIS lindo.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Semestre Novo


Outro dia estava conversando com minha amiga Carolina Costa e perguntei se não deveríamos, nós que temos nossa vida tão alterada pela mudança de semestres, comemorar o "semestre novo", algo quase tão ou mais importante que o ano novo.
A cada semestre nós, professores e alunos, ficamos à mercê das mudanças: turmas e horários que mudam, rotinas que se alteram, pessoas que vêm e que vão.
Semestre novo: 365 dias, divididos por dois, dá 182 e meio. Ou seja, dia 02/07, ao meio dia, passamos para o novo semestre.

Fiquei imaginando um grande almoço de sexta-feira, com champagne, folga no trabalho para todos os envolvidos com aulas, escolas, faculdades, etc do meio dia em diante. Abraços comovidos de final de semestre. Desejos de paz, prosperidade, nas praias aquela comoção de professores e alunos mandando oferendas para Iemanjá, rojões e fogos de artifício inúteis em pleno dia, gente de branco, nas ruas o cantarolar de "adeus, semestre velho..." e tudo mais.

No Jornal Hoje as reportagens cobrindo o evento com grande gala, interrompendo a programação normal, o Evaristo Costa se sentindo o próprio Cid Moreira, Roberto Carlos e Xuxa invadindo as telas, o Faustão na contagem regressiva. Tudo isso antes da Retrospectiva do Semestre, com os principais fatos que ocorreram na metade de 2010. Uma beleza.

A moda pega. Com o passar do tempo, as pessoas adotam o calendário semestral. Agendas são vendidas inteiras ou pela metade, conforme o gosto do freguês. As pessoas começam a contar a idade por semestres: a maioridade penal agora é aos quarenta e dois semestres. Tudo o que antes era semestral passa a ser trimestral.

E como as aulas passam a acontecer em módulos de quatro trimestres anuais, logo o trimestre ganha status. E começa tudo de novo.

Pensando bem, deixa como está.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Pensamento do dia

É impressão minha ou as pessoas têm uma tendência em levarem tudo muito a sério? Que os comentários em blogs, facebooks e afins sempre colocam as coisas em um grau de importância e urgência extremos? Que as relações são sempre drasticamente fundamentais, "como se não houvesse amanhã"? Que o amor é sempre eterno ou terrivelmente findo? Será que o mundo está virando psicótico de vez e o próximo dilúvio será o alagamento mundial pelo sangue de milhões de pessoas cortando os pulsos ao mesmo tempo?

Dá um pouco de preguiça do clima "minha auto-biografia" aos 20 e poucos anos, "meu amor eterno" aos dezoito, "como minha vida perdeu o sentido" aos 30... A expectativa de vida voltou aos 35 do Egito Antigo e ninguém avisou? Dá pra ter mais paciência e viver mais leve, pelo amor de Deus?

sexta-feira, 12 de março de 2010

Glauco (1957 - 2010)



E o dia começou da seguinte forma assim:
Chego no trabalho e quando o msn abre vejo em um nick: "Caralho, o Glauco morreu".
Entro na página da UOL e lá está a notícia, ladrões entraram na casa do Glauco e mataram ele e seu filho, que ainda foi levado para o hospital mas morreu no trajeto.

Não li detalhes, não sei de mais nada. Só sei que o Glauco morreu. O cara que desenhava o "Los Tres Amigos" com o Angeli e Laerte, o Geraldão, Dona Marta e etc. Que eu lia nos quadrinhos no final de 80, começo dos 90. Que fazia a gente se divertir com um humor anárquico e leve ao mesmo tempo, quase ingênuo às vezes, ácido ao extremo em outras.

Morre gente todo dia, é um fato. Mas tem pessoas que fazem questão de nos lembrar como é absurda a morte. O Glauco é um deles.

Que ele esteja começando um novo "Los Tres Amigos" com o Henfil. Se possível "Los Dos Amigos". Pra que ninguém faça companhia a ele tão cedo.

Triste.

quinta-feira, 11 de março de 2010

"O Cachorro Morto"



Eu já havia visto o trabalho da companhia com a peça "Escuro", no TUSP. Achei que não fosse gostar. Gostei. Aquele preconceito inicial que as vezes nos acomete quando damos de cara com algum signo que parece trazer um "deja vu" ou algo parecido, mas que logo é vencido ou pela qualidade dos atores, ou pelos signos da encenação, ou pela fábula. No caso, pelas três coisas.

Fiquei curioso ao saber que o outro trabalho da companhia - anterior a esse - estava em cartaz no Espaço Vitrine do Teatro Imprensa. Lá fui eu. Achando que iria gostar. Com medo de já chegar com uma expectativa muito alta e depois me decepcionar. Gostei.

Não tenho um interesse específico em relação à pesquisa da companhia. Não é que ela me agrada por este ou aquele motivo - uma coincidência de interesse estético, de pesquisa de linguagem ou coisa assim. Me agrada porque para além do lado racional do teatro, um espetáculo tem que me levar para algum lugar - metaforicamente falando lógico - me sensibilizar, me mostrar que a arte é aquilo que nos torna capaz de dar um "salto criativo" para além das nossas vidas.

E foi isso que o "Cachorro Morto" fez.
Quem não viu, está bobeando.

quarta-feira, 3 de março de 2010

"O Capote" e outros bichos


Lá fui eu assistir "O Capote", da companhia inglesa Gecko, adaptação do conto de Gógol. Já havia recebido a "intimação" que o Beto mandou para os professores, recomendando como "imperdível". Fui. SESI da Paulista, gratuito, plena terça à noite em São Paulo, com cara de terça à noite na Paulista em São Paulo.
No elenco, um ator convidado brasileiro (Rodrigo Matheus) que fala em português enquanto o resto do elenco nas línguas originais (tem um janonês, alguns falam francês e pouco inglês pôde ser percebido). O efeito é quase de uma peça sem texto, já que ele é pouco e quase incompreensível - o eixo da história, em termos verbais, fica com o "ator convidado" (parece uma estrutura que eles seguem em viagens). E o público, em sua maioria de "não iniciados", ficou preso ao Gógol pelas imagens potentes que a companhia constrói.

Talvez seja "perdível", mas vale bem à pena. É que pessoalmente chega um ponto que tantos efeitos me cansam um pouco. Só um pouco. Mas é um espetáculo belo sim. Tecnicamente surpreendente, lembrando a estrutura dos musicais, no que diz respeito às possibilidades cênicas.

Detalhe: Paulista, terça à noite, com cara de São Paulo mesmo. Friozinho, quase uma chuvinha. Que saudade de São Paulo assim... Se fosse para morar em Manaus eu iria para lá, afinal de contas.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Neurônios às vezes dão preguiça

Uma vez eu li um texto do Umberto Eco que falava sobre a "superinterpretação" da obra. Escrevo colocando aspas porque em tempos de reforma ortográfica para mim abre-se um novo mundo, inclusive de desprendimento: como viver sem o acento diferencial em "vôo", por exemplo? "O Vôo Sobre o Oceano" do Brecht agora é só "O Voo Sobre o Oceano". Sem acento. E o trema? Nada de trema. Linguiça, não lingüiça. Essa linha vermelha sobre a versão sem trema, do corretor, em breve desaparecerá. "Superinterpretação" ou "Super-interpretação"? Não sei, deixa pra lá. Seria super-interpretar (ou superinterpretar) o tema.

Vamos a ele. Diversas vezes nesta semana me deparei com a sensação de que idealizamos tanto as coisas que antes de cuidarmos do essencial, já estamos preocupados com o devir. Exemplo: este é um blog. Tendência: olhar para ele, querer mexer na estrutura, torná-lo mais dinâmico, esteticamente interessante ou agressivo, com hiperlinks, talvez um formato de "wikipedia" onde as pessoas pudessem alterar ou colaborar com as postagens, etc, etc, etc... Pergunta: do que adianta tudo isso se não houver leitores? É como se eu me arrumasse para um encontro com ninguém, ou pior: como se me arrumasse e nem sequer saísse de casa... Ou seja, já me preocupo lá na frente com tudo antes de resolver o fundamental. Ou então elaboro tanto uma discussão, tecendo tantas conexões e paralelos que acabo fugindo do que é essencial ao tema ou a obra.
Talvez traído pelo prazer "professoral" de fazer uma espécie de esgrima intelectual ao analisar as coisas, esquecendo da simplicidade e o olhar as vezes positivamente ingênuo frente ao mundo, os neurônios e a biblioteca pessoal tenham que ficar sempre de plantão, transformando tudo em teses e dissertações a serem defendidas...

E a poesia da coisa? O acaso? O simples? O sensorial?
O mundo é feito só de grandes cabeças que se mexem?
Preguiça!

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Roubado do Facebook da Érika Coracini

“Nessa noite sonhei com um cão. Um cão amarelo, muito magro e sujo. Eu sabia que estava a sonhar. Sabia que o cão não era autêntico. Contudo sentia medo. O cão talvez fosse fantasia, mas o meu medo era real. O sonho avançava e eu pensava: em como os sentimentos são autênticos, mesmo quando todo o resto é inteiramente falso. Nunca saberemos se existe quem amamos. Mas sabemos que o amor existe.” José Eduardo Agualusa

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Teatro: Guia de Sobrevivência na Selva das Cidades - volume 2

Questões para serem resolvidas - para uma boa sobrevivência:

1 - Como lidar com um momento da sua carreira onde as funções administrativas começam a ocupar um espaço maior que as de criação?

2 - Como resguardar a criação?

3 - Como manter um núcleo de colaboração artística ao longo dos anos e da penúria que é o mercado de trabalho?

4 - O teatro é necessário?

5 - Supondo que sim, como convencer os outros disso?

6 - Como dormir 8 horas por noite?

7 - Como convencer-se diariamente de que vale a pena?

8 - Supondo que valha a pena, como manter-se menos estressado e mais criativo?

9 - Como lembrar sempre do Brecht, quando diz que "Belo é resolver problemas"?

10 - Como escrever coisas mais interessantes em um blog do que uma lista de questões?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Teatro: Guia de Sobrevivência na Selva das Cidades - volume I



Há algum tempo atrás alguém usou o seguinte termo para definir o teatro, discorrendo sobre a idéia de o quanto ele consome uma pessoa em relação à vida pessoal, dedicação, etc.: "o teatro é uma amante muito ciumenta, ele exige exclusividade". Na época eu concordei, porque parecia óbvio demais o quanto é necessária essa dedicação. Só havia me esquecido de um ponto: pouco mais que um adolescente, ainda sem ter que pagar contas e outros bichos, era muito fácil elencar o teatro como principal - e talvez única - fonte de preocupações.

A próxima fase é a da relativização. As contas aparecem, os colegas fazem trabalhos comerciais e você já não crucifica ninguém por querer fazer televisão, por ter que largar um ensaio por causa de um trabalho remunerado ou por chegar atrasado / faltar por causa de um teste. Houve de alguns amigos mais radicais que "quanto menos ensaio melhor", que "em dois meses a gente monta uma peça" e recebe umas duas ou três propostas para montar um infantil. "Mas eu nunca me interessei por teatro infantil!"... "Tudo bem, a gente escreve um texto falando de meio-ambiente, ensaia na casa de alguém e depois vende pro SESC..." Nesse ponto você começa a olhar para trás e pensar se não era melhor a postura grotowiskiana do passado...

Depois vem o meio-termo. Existe - ou deve existir - uma postura de coerência sobre o porquê fazer teatro e uma ética pessoal sobre a que vincular sua imagem, seu tempo, etc. Sinceramente o "pagando bem que mal tem" não tem cabimento mesmo... Você lembra da atriz que fez campanha política para um cidadão que certamente não era seu candidato, além de ser um renomado canalha; do provocador que fez campanha para os discípulos de Omar Cardoso; do ator politizado fazendo Sandy e Júnior na Globo, e se pergunta se um MÍNIMO de coerência não é VITAL... Mesmo com as contas. Isso mesmo, MESMO COM AS CONTAS...

Aí você começa a viver a realidade. O tempo todo a vida é um jogo onde as regras são voláteis, as vezes, mas que tem princípios que não mudam. Fazer teatro é uma escolha e não me venham com a demagogia de dizer que é uma profissão como qualquer outra. Pelo contrário: no momento em que se tornar uma profissão como qualquer outra ele perde justamente o que tem de mais bonito - a capacidade de ser uma das poucas atividades que lidam com o subjetivo, com o sonho, com o "ser outro"... Não há mística nenhuma nisso. Mas um comprometimento com o lado menos pragmático da vida. Alguém quem tem que acalentar esse universo.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Cibelle

Lay your head where my heart used to be
Hold the earth above me
Lay down in the green grass
Remember when you loved me
Come closer don't be shy
Stand beneath a rainy sky
The moon is over the rise
Think of me as a train goes by
Clear the thistles and brambles
Whistle 'Didn't He Ramble'
Now there's a bubble of me
And it's floating in thee
Stand in the shade of me
Things are now made of me
The weather vane will say
It smells like rain today
God took the stars and he tossed them
Can't tell the birds from the blossoms
You'll never be free of me
He'll make a tree from me
Don't say good bye to me
Describe the sky to me
And if the sky falls, mark my words
We'll catch mocking birds
Lay your head where my heart used to be
Hold the earth above me
Lay down in the green grass
Remember when you loved me
Remember when you loved me
Remember when you loved me


Cibelle chegou via msn, transferência de arquivos - meus arquivos recebidos: Green Grass- Cibelle. Você ouve a música e imagina os créditos subindo na tela preta do cinema...

A diferença entre a vida e os filmes do cinema é que, para bem ou para mal, mesmo nos dias em que a sensação é de créditos finais subindo na tela preta, há sempre outra sessão.

E é um pouco reconfortante ver a Michelle Pfeiffer com quase 52 naquela forma. Nada como uma musa da velha guarda para lembrar a todos que existem muitas mulheres lindas no cinema, mesmo que a mais sexy atualmente seja azul, tenha 3 metros e chame-se Neytiry.

Por falar em atrizes dos filmes que estão em cartaz, vamos ser sinceros: comentar que a Penélope Cruz é maravilhosa já é lugar comum. Alguém pode dar atenção à Kira Miró, a loira que aparece na primeira cena? Assim, só por justiça à moça...

E falando em cinema, pelo visto o Nine com o Daniel Day-Lewis vai fazer com que muita gente inveje a vida de diretor de cinema. Aliás, com direto à Penélope Cruz no elenco (a Kira Miró bem que merecia uma ponta...). E a Fergie. Ê Fergie... A prova viva de que mais do que ouvir (bem mais) devemos ASSISTIR os clips do Black Eyed Peas...

Enfim, um monte de besteiras para não discutir a letra da música da Cibelle. Mas tem tradução na net. Quem quiser, dá uma olhada. Ou melhor, ouve também.

domingo, 10 de janeiro de 2010

"Encontro de Casais" ou "Porque não assistir qualquer outra coisa quando seu foco inicial está com ingressos esgotados"



Eu já devia ter aprendido.
Há pouco tempo atrás fui assistir "Lamartine" no SESC Consolação. Era um sábado e descubro que a peça estava em cartaz apenas às quintas. Sempre fiel ao Antunes, tento a "Falecida Vapt-Vupt" e a moça da bilheteria me informa que estava esgotada até o final da temporada. Muito bem. Restou "Sonho de Outono", sobre o qual não sabia absolutamente nada. Peguei o programa e nem quis ler. "Vou entrar de coração aberto", pensei, "sem saber nada sobre a peça". Será que no meu íntimo esperava uma experiência reveladora, ingênua, onde algo iria se desvelar na minha frente como uma epifania? Não, talvez a decepção tenha sido simplesmente porque a peça era ruim mesmo. Quem gostou desse espetáculo tenha a bondade de não defendê-lo na minha frente. Foi a primeira vez que eu quase abandonei o teatro antes da peça acabar. Digo "primeira vez que quase abandonei" porque uma vez fiz isso, sai mesmo, no "Educação Sentimental do Vampiro", no SESI. Dessa vez foi quase. Devia ter saído.

Hoje fui disposto a ver o "Avatar". Meu irmão falou que é bom - dentro da proposta, claro - e me pareceu uma diversão despretensiosa para uma tarde de sábado de quase-férias-ainda. Ingenuidade de novo, por achar de saída que em um Shopping em pleno sábado de janeiro ninguém mais havia pensado nisso. Mesmo uma hora antes da sessão, a imensidão de pais, filhos, cachorros (é, eles frequentam, não sabia) e agregados prometia desilusões pelo caminho. Pensei em tomar um café. Fila. Cogitei outro, fila maior ainda. Resta subir ao Cinemark. Sessão esgotada. Qual opção ainda tem ingresso, já que vim até aqui? "Encontro de Casais". Como não estava no centro da cidade, excluí a possibilidade de ser um filme pornô. Não sabia nada sobre o dito cujo. Mas o cheiro de comédia romântica pairava no ar. Ok, o trabalhador brasileiro tem direito a um momento sessão da tarde.

Filme água com açúcar. Até que bem feito. E não é que tem uma cena que pega? Filhos da puta. Eu já me achando meio nórdico com Strindberg e Ibsen, acima da carne seca desse romantismo enlatado e barato e pronto: os caras me pegam em um detalhe miserável. Não aguento ver cena de casal discutindo onde um cala a boca do outro se beijando, de repente. Coisa que o imaginário hollywoodiano colocou na nossa cabeça mas que, confesso, me tira as defesas. O ápice desse imaginário é aquela cena do "Cinema Paradiso", no final. Mas aí é cinema bem feito. Hoje tive contato com uma versão bem tosquinha desse mesmo naipe, sem comparação. Mas os caras me pegaram.

O pior é que mesmo um filme meia boca pode ter a capacidade - dependendo das condições anormais de temperatura e pressão - de fazer com que você teça elocubrações que vão muito além. E veio a epifania tardia que o "Sonho de Outono" ficou me devendo.

Mas não vou escrever sobre isso hoje. Se você leu tanta bobajada até aqui, não merece uma tentativa de coisa séria no final. Vai decepcionar. Outra hora.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Chuva



Wild is the Wind

Love me, love me, say you do
Let me fly away with you
We´re creatures of the wind,
And wild is the wind
Wild is the wind
Give me more than one caress,
Satisfy this hungriness
We´re creatures of the wind,
And wild is the wind

You touch me,
I hear the sound of mandolins
You kiss me
With your kiss my life begins

Like the leaf clings to a tree,
Baby please, cling to me
We're creatures of the wind,
Wild is the wind

You touch me,
I hear the sound of mandolins
You kiss me
With your kiss my life begins


Love me, love me, say you do
Let me fly away with you

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Cyrano


(...)

ROXANE
Oh! Você nunca havia falado assim antes!

CYRANO
É que é hora de abrir o coração!
Não de usar de palavras delicadas, mas de deixar que jorrem, livres, as incontidas águas da paixão! Sejamos simples, sob essas estrelas que pairam sobre nós, perenemente. As palavras mais simples são mais belas, porque transmitem o que a pessoa sente no mais fundo de si, mas mesmo elas não servem para dizer inteiramente deste amor que nasceu timidamente, mas com a força do vento e das tempestades!
Este amor que fugiu da claridade, escondeu-se de todos, nas vielas, escondeu-se nos becos, nas tavernas, e oculto te seguiu pela cidade!
Teu nome está em meu coração como um sino e assim como eu tremo pensando em ti, a cada vez que ele balança, lembro do teu nome! Roxanne! Roxanne! Roxanne! Estou tão habituado a tomar sua presença pela luz do dia que assim como ao olharmos o sol vemos um borrão vermelho, quando você surge minha visão ofuscada vê sobre todas as coisas apenas a sua luz impressa.

ROXANNE
Oh, isso é amor de fato!...

CYRANO
Pela sua alegria eu de boa vontade abriria mão da minha - mesmo que você jamais fosse saber - jamais! Se eu pudesse ouvir - longe de você e solitário - algum eco alegre de felicidade eu dou a você! Agora você me entende? Sente minha alma, aqui, em meio à escuridão crescente?

(...)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Feliz Ano Novo ou como recomeçar



Na foto minha amiga Ana com uma amiga dela e a Sofia (nome provisório) dentro da barriga. A Sofia nasceu dia 17 agora. E hoje vai ganhar o nome definitivo. Eu espero que não seja Sofia... Mas mesmo assim ela inaugura as boas novas de 2010!

Feliz Ano Novo! Como diria um amigo que me mandou um sms na virada, "temos novamente 365 oportunidades de dizer sim à vida". E eu, sem muita criatividade, encaminhei o sms para outros contatos. Que ele entenda como um "sim" da minha parte à sua mensagem, e não simplesmente preguiça em pensar em algo melhor. E no exercício do plágio, para os que receberam meu sms encaminhado, que pensem que fui eu que escrevi, sem problemas.

Volto ao trabalho hoje sem muito o que fazer. São Paulo insiste em ser Manaus - muito calor e chuvas com hora marcada. Tempestades súbitas. Fui vítima de uma delas no sábado. Questão: será esperar muito dos motoristas de ônibus, em casos de enxurradas monstro, cuidar para não darem um banho cruel nas pessoas que tentam se abrigar nas marquises e toldos contíguos aos pontos?

A noite do domingo não passava. Será simples retomada do horário normal ou insônia mesmo? Por que questões existenciais, profissionais e estéticas têm mania de aparecerem justamente quando a gente quer que o cérebro descanse? Se "mente vazia é oficina do diabo", será justamente quando queremos esvaziar a mente que ele começa a trabalhar nela, ignorando o nosso sono necessário? Depois de Natal com Franz Kafka e Ano Novo com Ibsen, com quem serão os próximos feriados? Carnaval com Gordon Craig e Páscoa com Artaud (Carnaval com Artaud seria muito, "muito roots"...)? Pessoas vivas, apareçam, sim?

O que me atormentava ontem era a necessidade de um único projeto que conseguisse me alimentar. Mas parece que cada vez mais meu organismo estético almoça em restaurantes por quilo: o prato único deu lugar à variedade... Carne, peixe, frango e macarrão em um mesmo prato. Dá-lhe digestão. Até quando? Até porque "passarinho que come pedra..."

xxx

Existem formas de pensamento um tanto compartimentadas que nos são herdadas e guiam nossas escolhas. Não sei se forte demais pensar em "cânones" de ação, de opção, de conduta, de estética. Como se não fosse possível criar parâmetros. Estava lendo a tradução do Ferreira Gullar do "Cyrano" e ele comenta que Edmund de Rostand escreve uma peça de "romantismo tardio" e que na tradução ele tentou suavizar um pouco o clima exageradamente romântico. Ok, percebe-se isso na tradução sim, em contraponto com outras versões traduzidas mais "ao pé da letra". Mas uma questão que se colocaria logo de início ao trabalhar com este texto não seria: como correr o risco de adentrar nesse clima para talvez transcendê-lo? Até porque Cyrano é um herói romântico, bipartido (como o texto mostra na idealização da soma Cyrano - Christian) mas romântico.
Eu não gosto especialmente de Renato Russo, aliás nunca engrossei o coro dos que o consideravam gênio, poeta de uma geração, etc... Mas me lembro de uma entrevista que ele deu, já bastante comprometido pela doença, onde comentava sobre um disco solo que lançou só com músicas em italiano. Renato dizia que queria fazer um disco "brega mesmo" e que ao final nem tinha achado tão brega assim. O que me chamou a atenção foi o fato dele ter ido atrás de algo que queria fazer e realmente realizar isso, a despeito da crítica ou dos riscos de sentimentalismos, etc... Foi lá e fez. Até porque sabia que o tempo estava contra ele. E nós, jovens (ou pelo menos relativamente jovens) e sadios (ou pelo menos relativamente sadios, sem uma doença terrível nos lembrando do nosso prazo de validade à toda hora) o que fazemos?
Outro dia conversei com um colega que lembrava de suas realizações há dez, quinze anos atrás. Eu parei e disse: "não é um absurdo fazermos menos agora, que temos melhores condições, que há dez, quinze anos atrás?". Ele concordou.

Urgência de realizar. Mesmo correndo riscos.