terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Flávio Rangel


"O Flávio não era o intelectual sonhador que fica imaginando coisas, mas era nitidamente um executor que criava. E você via a obra executada com muita velocidade e muita perfeição. A maior parte não eram peças. Eram romances. Livros que nós já tínhamos em casa e, muitas vezes, lamentavelmente, eram livros meus. O estêncil, nessa ocasião, soltava muita tinta azul. Então a máquina ficava suja e os meus livros ficavam imundos. Sempre nesse sistema louco, deixava para o último dia. Ele pegava uma mesinha de cozinha e levava para a sala de visitas. Colocava o cinzeiro ao lado, três maços de cigarro. Colocava o disco e um peso na vitrola automática, para enganar a vitrola, de tal maneira que, quando o braço da vitrola chegava ao fim, começava de novo. Passava a noite ouvindo o mesmo disco, sem parar. Era sempre o tema básico da peça que ia ser ensaiada no dia seguinte. Sentava-se à máquina e batia o estêncil direto. Ele não fazia rascunho de coisa nenhuma. Ia relendo e datilografando, em forma final, no estêncil. Fumando. Até as sete da manhã, dez, doze horas seguidas. Mamãe deixava uma garrafa de café. Ele tomava durante a noite, fumava os três maços de cigarro. De manhã, você entrava na sala e dava para cortar o ar com uma faca. E tinha um envelope sobre a mesa. Por volta das oito horas da manhã chegava o menino da televisão, levava para a televisão. E o Flávio desmaiava até o meio-dia."

(depoimento de Mário Rangel para José Rubens Siqueira em "Viver de Teatro", biografia de Flávio Rangel)

Estava eu mexendo esses dias no texto de Cyrano de Bergerac para uma futura montagem quando me lembrei que o Flávio Rangel dirigiu essa peça - uma das últimas da sua carreira, interrompida precocemente aos cincoenta e poucos anos - com o Antônio Fagundes no papel principal. Fui reler uns trechos da biografia dele escrita pelo Zé Rubens e me lembrei desse trecho. E percebi que guardadas as devidas proporções, cá estou eu repetindo a vigília do Flávio. Não temos os três maços de cigarro, a vitrola da lugar ao Windows Media Player e o trabalho é sobre a peça mesmo, sem a pressão de um outro dever a ser cumprido de véspera. O café está aqui, infelizmente não é minha mãe quem deixa também.
Tenho dormido as 8h, 9h da manhã. Sem sono. Fuso horário de Atenas, só pode ser.
Mas trabalhar sobre esse texto tem sido bom. Muito bom. Sabe-se lá se será montado semestre que vem, espero que sim, mesmo no contexto de uma escola de formação é sempre bom buscar as coisas que fazem sentido para si mesmo. E acredito que também fará, para muita gente.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Natal com Franz Kafka

"ANDRÉ
Acabou de ler “A Metamorfose” pela décima vez?

BETO
Não enche.

ANDRÉ
Sabe que eu acho que isso te faz mal?

BETO
Você me faz mal, André.

ANDRÉ
Daqui a pouco você reza para o Kafka.

BETO
Por que está falando isso?

ANDRÉ
Você reza já? Putz. Está pior do que eu pensava.

BETO
Eu te falei da vela?

ANDRÉ
Vela?

BETO
É. Toda vez que alguém me diz que vai para Praga eu peço para acender uma vela no
túmulo do Kafka.

ANDRÉ
Mas ele não era judeu?

BETO
Era. E daí?

ANDRÉ
Deixam acender velas em cemitérios ju-deus?

BETO
Não sei.

ANDRÉ
Acho que não.

BETO
Mas a Heloísa me disse que acendeu uma vela para mim quando ela foi lá.

ANDRÉ
Para ele.

BETO
É, para ele. Quer dizer, para mim, eu que pedi. Você entendeu.

ANDRÉ
E ela acendeu.

BETO
Disse que sim.

ANDRÉ
Acho que ela mentiu.

BETO
Você acha?

ANDRÉ
Vela em cemitério judeu? Acho que isso não existe.

BETO
Você é judeu?

ANDRÉ
Não.

BETO
Então você está supondo.

ANDRÉ
Tudo bem, não vem ao caso mesmo. Va-mos acreditar que a sua vela estava lá."

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

alguma coisa está errada ou de como evitar lugares perigosos



Segunda-feira, cerca de 14h e lá estava eu entrando na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Ainda pensei em dar uma espiada nos livros da parte de baixo, mas acabei decidindo subir logo para o mezanino e ver a parte de teatro. Mais uns quinze segundos e começa uma confusão ali dentro: primeiro a senhora chorando, depois a mulher pedindo pelo resgate e a frase "ele está com um traumatismo craniano" até a entrada dos policiais. Do meu ângulo, não conseguia ver o outro lado, escondido pelas prateleiras. Apenas imaginava o rapaz caído, imaginava o agressor sendo convencido a entregar sua arma (um facão? um taco de golfe? um taco de beisebol?), imaginava.
Só depois descobri, pela Folha Online, que o sujeito não conhecia o rapaz, que não havia motivação pessoal alguma: ele simplesmente entrou na loja com um taco de beisebol (sim, era isso mesmo) e escolheu aleatoriamente uma pessoa olhando os livros e pronto. Se eu tivesse mais tempo sobrando, certamente começaria olhando os livros de baixo. E poderia não estar escrevendo isso agora.

Alguém disse que a Praça Roosevelt é perigosa, depois do que aconteceu com o Bortolotto. A versão mais crível é a de que ele tentou reagir ao assalto. O rapaz da Livraria Cultura nem viu de onde partiu a pancada. Talvez um lugar onde ao menos temos a chance de não reagir seja mais seguro. De repente, uma livraria no centro da Paulista às 14h vira palco de uma situação mais bizarra que um bar às 5h30. Tudo isso no eixo Paulista-Consolação, muito, muito longe de outros lugares onde o bicho pega mesmo... Onde estamos seguros? Que idiotice pensar em "segurança" como uma garantia da nossa classe média em poder andar por aí. O que espanta é a loucura. A gratuidade.

Por via das dúvidas:

- Nunca entre em uma livraria desacompanhado às 14h;
- Desconfie de quem andar portando tacos de beisebol fora de um estádio destinado a esse esporte;
- Comece sua vida a qualquer loja sempre do andar mais alto para o mais baixo, jamais o oposto;
- Cuidado com metáforas e citações, como "Atire no Dramaturgo": as pessoas levam ao pé da letra;
- Sempre que ouvir alguém chorando corra no sentido oposto;

A outra opção é continuar vivendo com a aceitação do acaso. Nada é certo, nada é lógico necessariamente, nada é definitivo. Dizer sim à vida, com tudo o que ela tem de horrível e de Belo, é o único jeito.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Levando Ibsen para passear...



Vamos dar uma volta por aí nos próximos 4 anos?

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Sentindo-se velho

"Nossa! Você tem o Em Busca de um Teatro Pobre do Grotowski? Como você conseguiu?"
"Comprei, ué."
"Num sebo?"
"Não, na época."

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O semestre se encaminha para o final...

...levando o ano junto e nem por isso aprendemos a evitar alguns erros.
Nessas horas percebemos como as promessas de ano novo - que todo mundo faz, mesmo que não explicite nem assuma - são ilusórias...

Mas tudo bem. Mais uns dias e teremos um ano novinho em folha, tudo recomeça, seremos pessoas diferentes e o mundo será melhor.

Obviamente foi irônico, só para não restar dúvidas.

Em tempo:

Mário Bortolotto está respirando sem ajuda de aparelhos. Um alívio. Uma vida que fica fora de perigo e um dramaturgo razoável (não, não é genial, duvido que ele mesmo ache isso) que se salva de ser heroicizado... Com todo respeito, 2010 com toda a obra do Bortolotto em cartaz pela cidade, homenagens, etc seria terrível... Deixa o cara vivo, na dele, fazendo o teatro dele, que tudo bem. Sem matar ninguém nem colocar no altar, por favor.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

OZ



Último dia de "OZ", hoje.
Trabalhar livremente a partir do material de "O Mágico de Oz", sem a preocupação em ser fiel à história nem a contá-la em detalhes foi muito prazeiroso. E a trilha resgata um pouco da adolescência - não da Dorothy, minha, afinal ela não ouvia Pink Floyd - e dá um sabor de "volta para a casa" no sentido de um reencontro com o próprio passado...
Afinal, "não há lugar como o nosso lar"...

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Atiraram no Dramaturgo

É no mínimo irônico lembrar que o blog do Mário Bortolotto chama-se "Atire no Dramaturgo". Teria algum psicopata de plantão acessado o site e levado a sério o "convite" ao ato? Não. Longe de um roteiro B de filme americano de ação (apesar de assim ter sido descrita a tentativa de assalto ao Parlapatões, por uma das atrizes presentes) o que aconteceu foi apenas mais uma página da vida em São Paulo.
Na periferia e mesmo no centro coisas assim acontecem todos os dias. Piores. Virou manchete por ser o Bortolotto. Por ser a Prça Roosevelt, por ser Parlapatões. Mas o que assusta nisso tudo?

Primeiro porque talvez exista um lado romântico - meu pelo menos - em achar que o teatro só seja "palco" para a violência no sentido literal, dela debatida e discutida em cena. Gente sendo baleada dentro de um teatro - ainda que seja no bar do teatro, mesmo assim - é algo estranho. Quererem assaltar um teatro é algo estranho.

É triste ver a Praça Roosevelt, tão cantada pelo seu renascimento de uns dez ou quinze anos para cá, com a chegada dos teatros e da revitalização, ser palco - de novo o palco - para coisas assim.

Mário Bortolotto tem jeito truculento. Às 5h30 devia estar nada sóbrio. Parece que enfrentou os assaltantes com frases como "Vocês não vão assaltar ninguém" e "Vai atirar? Atira!"... Para falar a verdade nunca fui muito fã dele.

Mas respeito seu trabalho. Pelo menos é coerente. Persiste. Traça um caminho próprio. A total escassez de dramaturgos faz com que muita gente passe a mão na cabeça do primeiro que escreve uma peça e conhece um jornalista. Ele certamente não estava nesse grupo.

Mário, fique bem, logo.
E por via das dúvidas, muda o nome do blog.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Eu não vou discutir com o Vinícius



1 - É melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe, é assim como a luz no coração;

2 - Para fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza senão não se faz um samba não;

3 - Uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza, qualquer coisa que sofre, qualquer coisa que chora, qualquer coisa que sente saudade, um molejo de amor machucado;

4 - Beleza de se saber mulher: feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor e para ser só perdão;

5 - Fazer samba não é contar piada, um bom samba é uma forma de oração;

6 - O samba é a tristeza que balança;

7 - A tristeza tem sempre uma esperança de um dia não ser mais triste não;

8 - A vida é pra valer e não se engane não, tem uma só: duas mesmo que é bom ninguém vai me dizer que tem sem provar muito bem provado com certidão passada em cartório do céu e assinado em baixo:"Deus" e com firma reconhecida;

9 - A vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida;

10 - Há sempre uma mulher à sua espera com os olhos cheios de carinho e as mãos cheias de perdão;

11 - Ninguém no mundo vence a beleza que tem um samba não;

12 - O samba nasceu lá na Bahia e se hoje ele é branco na poesia ele é negro demais no coração.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Do direito sagrado de dar minha opinião à responsabilidade em só abrir a boca quando tiver algo que valha a pena dizer...

Provavelmente a frase mais conhecida de Dostoiévski seja “se Deus não existe, tudo é permitido”, de Os Irmãos Karamázov. Dizem que foi inspiração até para o Nelson Rodrigues e seu “o mineiro só é solidário no câncer”, em Bonitinha, mas Ordinária.
Vem o Sartre anos depois e manda uma bomba: “o Homem está condenado a ser livre”. Juntando as idéias todas, podemos pensar no seguinte: se não há um “legislador” acima de nós pesando nossas ações, nem uma “missão” ou “destino” pré-definido, cabe a nós mesmos legislar sobre a nossa vida e fazer nossas próprias escolhas. O sentido da vida é construído e mantido por nós. Sem prêmio nem castigo, a liberdade requer responsabilidade.
Liberdade exige responsabilidade. Ou seja, não é simplesmente um direito, é um dever também. Uma outra frase de traseira de caminhão, adesivo de janela, blog e site de auto-ajuda nos lembra: “A liberdade se conquista”.
Quis dizer tudo isso não para filosofar sobre a vida nem levantar a bandeira do Existencialismo. Não creio nem descreio na metafísica do mundo e não é sobre tema tão abragente que me deu vontade de escrever. Apenas relacionei tudo isso com o trabalho em teatro.
Das máximas do teatro do nosso tempo: processo colaborativo, criação coletiva, ator criador...
Eu por exemplo entendo criação coletiva e processo colaborativo como duas coisas distintas, ainda que relacionadas. “Criação Coletiva” me parece um modelo nascido na década de 1960, onde um coletivo de pessoas criavam um produto final fruto da colaboração de todos, sem muita distinção entre as funções. “Processo Colaborativo”, para mim, é um desenvolvimento desse modelo, onde ainda persistem as funções: existe um diretor, um dramaturgo, existem atores – e a palavra final sobre a criação, embora esta reflita sobre a interferência de todos, é daquele a quem compete sua especificidade: por exemplo, atores e diretor podem opiniar sobre o texto e sugerir coisas, mas existe uma versão definitiva a ser redigida e a conclusão deste é da competência do dramaturgo.
A questão das “competências” é fundamental. Diferentes olhares são positivos e bem vindos, mas existe alguém que realmente se interessa sobre aquela especificidade, que norteia seu olhar mais vertical, não generalizante, sobre aquele foco, que detém conhecimento técnico, histórico e prático naquela área, que é guiado não somente pelo “gosto pessoal”. Em resumo, que é mais competente naquele assunto. Não acredito que uma decisão, em arte, por ser “democrática”, é necessariamente a melhor. Não acredito em decidir “criação” por voto. Posso dar um norte como diretor a respeito da concepção de um trabalho, para definir uma linha estética, mas determinadas questões relacionadas à cenografia, figurinos, iluminação chegam a um nível em que é o cenógrafo, o figurinista e o iluminador que dão – e devem dar – a palavra final. Da mesma forma, posso pedir algo a um ator e ele me mostrar um caminho outro, vindo da sua própria idiossincrasia como pessoa, que me revele algo muito melhor do que eu havia concebido. E através da prática, do corpo vivo em cena, é ao ator que compete a palavra final sobre a composição do seu “estar-em-cena”.
A colaboração em um processo de criação não é somente um direito, é um dever, que envolve estudo, reflexão, muita prática. Dou minha opinião sobre algum ponto do trabalho a ser desenvolvido porque refleti sobre aquilo, não simplesmente porque “gosto”, porque “acho legal”, ou pior ainda, porque é “minha idéia”. Dou minha opinião porque acredito que é o mais coerente, o mais adequado, a escolha que dará maior contribuição ao trabalho. Dar uma opinião é responsabilidade, não exercício de um direito sagrado. Se eu não sou competente ou ignoro o assunto, a melhor contribuição é ficar calado.
Ator criador não é aquele que simplesmente quer fazer aquilo que mais lhe agrada. É aquele que se joga, que testa, que não coloca barreiras, que se doa muito para, retornando desse espaço árido e sofrido, propor algo que valha à pena.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Sobre o calor e outros bichos


- Já reparou como as pessoas hoje não usam mais relógio?
- Como assim?
- É, está virando obsoleto, quase todo mundo vê as horas no celular.
- Entendi. E aí toda a vez que quer consultar as horas tem que tirar do bolso, ou da mochila, da bolsa... Muito prático.
- Você que é um escravo do tempo.
- Ah sim. Será que a gente vive na mesma cidade?
- Além do mais, com esse calor, a gente sua embaixo da pulseira.
- Bom, a gente sua embaixo de muita coisa e nem por isso tira tudo.

(...)

- Aqui está parecendo o Sahara.
- Com a diferença de que no Sahara esfria à noite.

(...)

- Uma atriz amiga minha comentou sobre a peça que ela faz sublinhando a proeza que é usar um sobretudo em cena nesse calor.
- Uma atriz amiga minha comentou sobre uma peça que fazia em que ela se molhava inteira num frio desgraçado.
- Um ator que eu conheço reclamou que na peça que ele está ensaiando tem muito texto para decorar.
- Um aluno de uma das turmas que eu dou aula reclamou que tem pouco texto.
- Essa gente de teatro nunca está satisfeita ou é impressão?
- Dá tempo de prestar Medicina?

(...)

- Por que eu não posso trabalhar de bermuda se as mulheres aqui podem usar saia?
- Sua perna é peluda.
- Entendi. A outra saída é depilar, então?

(...)

- Seu banheiro fica pronto até sexta mais ou menos.
- Xi, mas sexta é feriado.
- Hum... É, no feriado a gente não trabalha.
- Então semana que vem. Segunda, mais ou menos?
- Xi... Tem um outro cano aqui que é da coluna do prédio, está podre, olha... Se deixar assim daqui a pouco você tem que quebrar tudo de novo.
- Entendi. Nesse meio tempo eu compro mais areia para o gato e uso eu mesmo uma caixinha. Maravilha.

(...)

- Está difícil dormir nesse calor.
- Deixa a janela aberta.
- Entra claridade.
- A porta.
- E o barulho da rua?
- Já pensou em se matar?

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

16/11/2009

São quase dez horas e portanto, tecnicamente, ainda tenho duas horas e quarenta e cinco minutos com minha idade atual antes de completar aniversário.
Não sei se o dia do aniversário realmente é diferente dos outros, acho que quem faz com que ele seja diferente são as pessoas se lembram disso, e/ou as que não se lembram disso.

Eu fico com o Vinícius, de novo.
E o Soneto de Aniversário:


Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.

Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.

E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A Vereda da Salvação



Fui ontem assistir o "Vereda da Salvação" na São Judas, TCC orientado pela Ju Jardim. Esta foto não tem nada a ver com o "Vereda"; é uma das tiradas pela Eli no ensaio da Sonata dos Espectros.
Stridberg e Jorge Andrade têm pouco a ver, claro. Mas fiquei pensando muito no porquê montar alguns textos, por que Vereda, por que Sonata. Aliás estou montando o "Vereda" no Macunaíma também e é sempre curioso perceber como outro grupo (ia escrever coletivo mas acho que essa palavra ficou muito "na moda", dá uma certa preguiça) leu o mesmo texto.
Existe uma saída?

Jorge Andrade faz um retrato da exclusão e do fanatismo. Da dor de quem já não tem mais nada a perder. De uma "Vereda da Salvação" que não leva à salvação mas ao aniquilamento. Mas há salvação? Salvação de quê?
Hoje relembrava uma frase sobre o processo de análise: "a função da terapia é devolver ao paciente a consciência tranquila de que ele é responsável por sua própria vida". Consciência tranquila. Necessidade de salvar-se si mesmo. Será isso?

Strindberg escreveu a "Sonata" quando as dores do câncer no fígado apareciam. Talvez achasse que seria sua última obra. Não foi, mas foi a última obra-prima. Há uma saída? Os ecos de um misticismo oriental e do espiritualismo europeu do início do século XX estão ali. Assim como um sentido de transcendência. Nunca fácil, nunca com a dor ausente.

Estilos e épocas ligam-se não pela estética, mas pelo "fundo falso": existe saída? Andrade alerta para os descaminhos, Strindberg ainda crê em um caminho, mesmo que tortuoso, talvez Joaquim lesse a Sonata com prazer mesmo que com olhar equivocado.

Mas esquecendo de você que lê: e eu? Onde eu entro nisso tudo? Caminho de Veredas e Sonatas, por que escolher isso tudo? Porque acho que ainda deve haver um caminho perdido e se escapar dos Joaquins, Dolores, Geraldos, Conceições, Pedros, Hummels, Johanssons, Bengtssons, Múmias e afins ainda posso encontrar uma Adele que não morra ao final, uma Artuliana que não morra ao final e reinventar a história.

Uma história que independe de uma Adele ou de uma Artuliana, mas que abra uma porta, uma janela, uma saída para o limbo em que essas personagens - tanto do Vereda quanto da Sonata - vivem.

Sem tiros, sem Budas, sem mortes ao final.

Perdão. Perdão para todos os irmãos presentes e os irmãos ausentes.
Perdoar-se. A si mesmo. Talvez essa seja a Vereda da Salvação.

Claro que com gosto de despedida e de memória, ainda mais ali. Um sentido simbólico que se completa com a outra Vereda, dias 01,02 e 03. Talvez um sentido de renovação.

Na foto, a leiteira anda por um caminho - uma vereda? - tortuoso de velas, observada pela Múmia, ao fundo.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

"A Bronca do Antunes"



Na foto, Carolina Costa em "A Sonata dos Espectros", clicada pela Eli.

Uma das coisas mais geniais do Facebook é "A Bronca do Antunes". Dá para imaginar ele gritando, chacoalhando as mãos e soltando as pérolas como "é o vagalume!", "vai comprar eletrodomésticos!" e outros bichos...

Dá vontade as vezes de ter a clareza chula de através de um comentário tosco desses conseguir passar a indignação com certas coisas que se faz no palco.
Listando:

- Como diria Beth Lopes, teatro não é lugar de se "ser feliz". É sofrido! Claro que a gente gosta, mas tem um lado que não é parque de diversão não: é dedicação, estudo, horas e horas focadas naquele trabalho quando se poderia estar em qualquer outro lugar fazendo qualquer outra coisa, especialmente quando se precisa ter a humildade de saber-se EM FORMAÇÃO;

- Texto - a pessoa reclama que tem pouco texto mas não decora nem o que tem, não estuda a proposta para poder propor, acha que tudo ou é "prêmio" ou "castigo". Dá vontade de fazer só peça sem texto, principalmente em se tratando de escola. Será um problema de ego ou de falta de compreensão mesmo?

- Preguiça máxima de quem delega a responsabilidade total para o diretor, no melhor estilo "se a peça for boa o mérito é dos atores, se for ruim a culpa é do diretor." Proponha alguma coisa! Seja co-criador, não seja chato!

Desabafo sobre a total falta de sensibilidade artística de alguns. Pelo menos se houvesse humildade em se colocar como alguém em processo de aprendizagem, ou ao menos de curiosidade, ok.

Carolina Costa e a "Sonata" não tem nada a ver com isso, só achei a foto boa mesmo.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009



Vá assistir "AquiFora", com a Cia. OPOVOEMPÉ.
Até o final de outubro, 16h, saindo da Galeria Olido, no Centro, às terças e quartas.

Lembre-se das sondas Voyager 1 e 2:

"As duas sondas carregam consigo um disco (e a respectiva agulha) de cobre revestido a ouro, contendo uma apresentação para outras civilizações, com 115 imagens (onde estão incluídas imagens de pescadores portugueses e a Grande Muralha da China, entre outras), 35 sons naturais (vento, pássaros, água ...) e saudações em 55 línguas, incluíndo Português. Foram também incluídos excertos de música étnica, de obras de Beethoven e Mozart e "Johnny B. Goode" de Chuck Berry."

domingo, 4 de outubro de 2009

Mais sobre o Trágico



Estava eu discutindo com um amigo há dias atrás sobre relações.
Ele tem uma postura um tanto quanto niilista da coisa enquanto que eu vivo fases que não posso chamar de "românticas" porque hoje em dia traduzir este adjetivo como "emo" não é muito difícil. E me desculpem os "emos" mas ser "emo" é um tanto quanto patético.

Ontem me veio na cabeça a idéia de que se o herói trágico enfrenta o destino mas no fundo possui a consciência de que vai se dar mal, de que esta é uma luta inglória, meu amigo na realidade possui uma concepção trágica do amor.

Coisas como "esperando o próximo erro".
Sabe que o pessimismo dele acabou se tornando mais substancioso?
Será que ainda dá tempo de cultivar uma concepção trágica das relações?

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Eros e Tanatos

Estava assistindo "Café Filosófico" com o Luiz Felipe Pondé, filósofo e meu ex-professor de Filosofia na FAAP (sim, cursei Cinema por dois anos em parcas eras, na época em que a FAAP ainda não havia se tornado um bunker da classe AAA) e o assunto era justamente o Trágico.

O herói trágico subverte pela coragem, única qualidade que resta em um mundo onde sabe-se que o destino irá prevalecer ao final. Ou seja, a luta contra ele é inglória. A Tragédia como oposto da Utopia.

Entretanto, vale a pena enfrentar esta luta, mesmo que perdida desde o início. Lembrei-me do texto de Camus sobre Sísifo, aquele que foi condenado a levar, eternidade à fora, uma pedra até o topo de uma montanha, para vê-la cair rolando e começar tudo de novo.

A condição do herói é justamente esta: lutar a luta perdida do destino.

Mas o destino nos impõe esta luta: um conflito eterno entre Eros e Tanatos, a pulsão de vida e de morte.

No final das contas é a catarse: só nos resta dizer sim à vida, com todos os seus elementos de dor e prazer...

sábado, 26 de setembro de 2009

Antes da Tempestade

Ele sabia que a calmaria não iria durar muito.
Os céus começavam a encher-se de nuvens negras - cumulus nimbus, diria o velho - no prenúncio de uma nova tempestade. Não, não parecia uma daquelas tormentas para as quais se pode estar preparado. Olhou as próprias roupas e não sentiu-se nem um pouco protegido; antes, imaginou-se encharcado, coisa que aconteceria, com certeza, em poucos minutos, horas se tivesse um pouco de sorte.
Sem abrigo à vista. Sem proteção.

O velho não estava lá. Como todo bom filósofo de plantão, o grande filho da puta deveria estar em algum lugar por perto, bem resguardado, observando o cataclisma se formar de algum ponto privilegiado. Ver o circo pegar fogo de camarote.

Talvez coloque uma moeda no chapéu, ao fim do espetáculo.

Olhou mais uma vez o céu e mandou tudo à merda.

Foda-se. Que a chuva comece de uma vez.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Citando Lélia Campos citando Gikovate


"O bebê nasce chorando porque dói mesmo, não resta a menor dúvida de que nascer é uma transição pra pior! A criança se sente desamparada, e essa dor é amenizada com a atenção e cuidados da mãe, que passa ser “aquela pessoa especial cuja a simples presença já parece trazer boas-novas”.
Pois é, aí começam nossos problemas amorosos... que piora com a formação da individualidade. Porque nesse momento o desejo do aconchego (colo da mãe) passa a “brigar” com a individualidade (o brincar), que pressupõe descer do colo da mãe, ou seja, abrir mão do aconchego, da paz, em prol de um desejo individual.

Eu nem preciso dizer, que essas questões se repetem, se repetem ao longo de nossa vida adulta, só mudando os interlocutores, que substituímos por nossos parceiros amorosos.

Mas sem essa de “Amar a si próprio pra depois amor o outro”. Segundo o autor, e que eu concordo plenamente, costumamos confundir auto-estima, com amor. Mais um erro! “Auto-estima é um juízo de valor, e não um sentimento. O sentimento amoroso, em sua versão original é visceral, automático, relacionado com a simbiose uterina”

AMOR TEM OBJETO!!!!!! Quem ama, ama alguém (ou alguma coisa vai...)"

Reflexões de Lélia no blog "Meu Olhar" (dá uma olhada, o link está listado aí do lado)

Aprendendo com a Lélia:
1 - AMOR TEM OBJETO
2 - AUTO-ESTIMA NÃO É SENTIMENTO (NO MÁXIMO, EM EXCESSO, VIRA NARCISISMO)
3 - "Dar-se valor" não pode chegar ao extremo de se fechar para o que é externo

Medo de sofrer ainda mais?
Da rejeição?

Bem-vindo (tem hífen ainda?) ao mundo. A má notícia: para conseguir a felicidade precisa-se correr esses riscos todos. Senão você fica entricheirado e não vive.

Como diria o Zorba (o grego): "Você vai ter paz suficiente quando estiver morto, viver é meter-se em problemas."

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Rehab ou cata-palavras


Se a Amy Winehouse é imortal como parece, há esperança para a humanidade.
Sem contato nenhum com a vida saudável e adequada a um ser humano normal, nada parece abalar a moça.
É impossível ter certeza se acabou ou não para ela.
Cada vez que achamos que existe a iminência da notícia de morte, mais ela desafia os limites humamos.
Pare de esperar seu nome no obituário.
Sinto, penso e acredito que ela é imortal.
Está bem, muito bem e deve continuar assim pelo visto.
Desculpem-me os descréditos, mas apesar das crises e problemas ela parece seguir adiante: não tem raiva, nem mágoa, nem nada em relação à vida.
Só aceitem o fato de que não vai adiantar o Rehab.

domingo, 20 de setembro de 2009

Atum

O atum é um peixe que vive dentro de latas.
Dizem que ele também surge cru, fatiado, em restaurantes japoneses, mas quanto à isso há controvérsias. O atum real, do qual não temos dúvidas quanto à existência, atende pelo nome de Gomes da Costa ou Coqueiro. Destes existem registros amplos e inegáveis, testemunhas oculares e ampla divulgação na mídia impressa e afins.

Como já foi dito anteriormente aqui, peixes em geral nos tornam mais inteligentes. Assim sendo, o atum não poderia deixar de constar como uma das mais importantes fontes de neurônios adjacentes do ser humano. Uma lata de atum produz cerca de 10 milhões de neurônios imediatamente após o consumo. Quando em óleo comestível há estudos que comprovam a elevação deste número em 12,83%, com a inconveniência deles serem apenas temporários, ou seja, possuem uma ação benéfica nas sinapses de cerca de 32 horas em média. Depois, são eliminados nas fezes (83%) e na urina (17%). O neurônio lipo-solúvel do atum em óleo comestível, entretanto, pode criar uma relação mais duradoura com o cérebro se consumido a cada 32 horas, onde estudos comprovaram que ao longo de um mês a concentração permanente ganha fôlego, aumentando em 25%.

Já o salmão, seu suposto rival entre os crus, são saudosos ao paladar, o que por si só estimula a glândula pineal. Mas a alta concentração de recordações que são produzidas pela degustação pode causar efeitos colaterais graves, especialmente quando da evocação da Vila Madalena.

Por isso, no momento, a OMS recomenda o atum.
Em lata.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Hoje


Me parece que, mesmo que gostemos da chuva, têm dias em que ela nutre uma sensação um pouco depressiva. Ainda mais quando temos frio junto. Claro que tudo isso pode ser diluído por outras variáveis, mas no caso "standart" é um risco grande recair na sensação de vazio. Talvez o mundo - o planeta mesmo - sofra de bipolaridade: assim como em um mesmo dia temos as várias estações, elas podem também trazer várias sensações junto com elas. Hoje a sensação predominante - dentro e fora - é de outono, mas outono sem sol. Porque quando há sol, pelo menos as folhas caídas no chão cumprem um papel decorativo e menos filosófico: hoje se elas estivessem por aí significariam apenas morte. Antes do renascimento, inevitável. Um pouco antes.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Baphomet


Esta imagem é classicamente relacionada com a figura do demônio.
Entretanto, na tradição ocultista, Baphomet agregava outros sentidos que, por irem de encontro ao imaginário judaico-cristão geraram essa leitura. Segundo Eliphas Levy, mestre francês do começo do século XX, as características que podemos perceber na imagem são:
- Um bode que traz na fronte o signo do pentagrama, com a ponta para cima, o que é suficiente para fazer dele um símbolo de luz. O bode em diferentes mitologias - mas principalmente na grega - mais do ser simplesmente um animal "lascivo", representa o impulso de vida e é um dos mais sagrados no que diz respeito aos ritos;
- Com as mãos, ele faz o sinal do ocultismo ("Solve et Coagula") que nos lembra que "aquilo que está em cima é igual ao que está embaixo";
- O facho da inteligência que brilha entre seus chifres é a luz mágica do equilíbrio universal;
- A cabeça horrenda do animal exprime o horror do pecado;
- O caduceu, que está no lugar do órgão gerador, representa a vida eterna;
- O ventre coberto de escamas é a água;
- O círculo que está em cima é a atmosfera;
- As penas que vêm depois são o emblema do volátil;
- A humanidade é representada pelos seios e os braços andróginos desta esfinge das ciências ocultas;

Em resumo, o terrível Baphomet não é senão um hieróglifo inocente e até piedoso.
O Baphomet dos Templários, cujo nome deve ser soletrado cabalisticamente em sentido inverso, se compõe de três abreviações, Tem ohp ab, Templi omnium hominium pacis abbas, o pai do templo, paz universal dos homens...

As aparências enganam.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Vida pós Orkut

Aliviando a vida virtual para cuidar mais da real.
Orkut além de divulgação das peças, não serve para muita coisa. No início ok, você achava amigos de anos atrás, trocava duas ou três mensagens e pronto. A maioria volta para o passado.
Blog ainda pode perdurar um pouco, mas também não sei até que ponto vale escrever aqui. Tenho escrito para mim mesmo, sem publicar.
E-mails são necessários, mas mesmo eles de vez em quando se enchem de lixo - spam, corrente, além dos e-mails anônimos de todo gênero.
E é tão fácil identificar um IP hoje em dia... Imagina se todos nos déssemos ao trabalho de ir atrás de quem manda essas coisas... A Delegacia Virtual da Polícia Civil ia ficar lotada de boletins de ocorrência...
Em todos os casos, fica-se ainda com o risco da má interpretação do que se escreve, quando não se tem a pessoa na frente - já tratamos disso em outro post. E a gente se conforma com o simulacro e com a imperfeição, ao invés de tentar um outro tipo de vida. Ok, é possível as duas coisas caminhando juntas, o virtual como ferramenta mesmo. Mas eu acho melhor tentar mudar na dose mesmo.
Já vinha adotando a prática de não adicionar quem não conheço, não abrir e-mail de remetente desconhecido, não clicar em links suspeitos, não perder tempo na net em casa já que o dia todo passo na frente do computador.

Enfim, se a gente fizer as contas perdemos muito tempo nisso. É uma ferramenta, mas não substitui a vida de verdade. Por via das dúvidas, vamos aliviar.
Isso explica a futura média baixa de posts por aqui...

sábado, 25 de julho de 2009

Romper o pacto de mediocridade com a vida.


Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como viver, vivi uma outra?

O que eu era antes não me era bom. Mas era desse não-bom que eu havia organizado o melhor: a esperança. De meu próprio mal eu havia criado um bem futuro.

Terei que ter a coragem de usar um coração desprotegido e de ir falando para o nada e para o ninguém? Assim como uma criança pensa para o nada. E ser esmagado pelo acaso.

Para que eu continue humano meu sacrifício será o de esquecer? Agora saberei reconhecer na face comum de algumas pessoas que – que elas esqueceram. E nem sabem mais que esqueceram o que esqueceram.

Estou tão assustado que só poderei aceitar que me perdi se imaginar que alguém está me dando a mão.

Clarice Lispector

A vida des-imaginada é menos azul.

Liniers Macanudo

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Macanudo de novembro

Tirinha do Macanudo no dia do meu aniversário do ano passado.
Melhor visualizada no blog dele que está nos meus favoridos aí do lado (em 16 de novembro de 2008).

Se isto não é um sinal eu não sei o que é.
Que tarô que nada. Que horóscopo que nada.
Leiam Macanudo todos os dias.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

o que eu vi

Não sei o que vi ou o que fazer com o que vi. De um verde translúcido, olhos. Não verdes, mas através da cor. Olhos de cais noturnos, cheio de adeus, olhos de docas mansas que criam trilhos de luzes que brilham longe dos olhos meus. Nos olhos de mistério que vi, navios e naufrágios, todos naufrágios meus.
Olhos oblíquos? Olhos de cigana dissimulada? Olhos. Que se agigantaram para além da obviedade da beleza dos verdes e azuis e se desenharam no espaço, um espaço imaginado de sonho. E de novo sonho de naufrágios e navios perdidos e sereias que choram no fundo do mar e tesouros dos quais só temos o mapa, mas caminhos impossíveis de trilhar.
Olhos vistos através do verde, não verdes, porque verde é o mar. E nele, a imensidão.
Olhos de Iara que canta - e como não seguir o canto? - ainda que remeta ao fundo do oceano.
Não sei o que fazer com o que vi porque o que vimos nunca é retratado - nem para outro, nem na nossa memória, nem na fotografia. Se o outro não há, se a memória é incerta e se a foto não houve, resta o que? Resta algo para além da memória que, como a arte, não é registro, mas tradução de algo. Tradução de memória, de sensação, de dor e de gozo, tradução de fome e de sede, tradução de cansaço e de insônia, tradução de angústia e de prazer, de espera e de realização, de amor.
Tradução. Não vivemos o mundo, traduzimos o mundo. Não sei como usar letras ou formas ou sons, apenas tateio na tentativa de devolver a impressão daquilo que vi, na esperança de que o eco de tudo, voltando para mim mesmo, eternize o objeto observado. Olhos.
E que se dane a maré, a raiva das ondas, a escrita na areia que a água apagou, que se dane o sol que não veio, o frio que dominou tudo, que se dane a praia distante de brilho de faróis solitários, e que se dane toda a racionalidade do mundo.

E pronto: que se dane Macchu Picchu, tão longe da praia e para onde faço questão de nunca ir. Que se dane inclusive se a grafia está correta ou não, que se dane o Google.

Ninguém pode me tirar as páginas traduzidas escritas dentro de mim.

Obrigado Vinícius, pela possibilidade de extrair do seu poema um pouco de inspiração.
Desculpem-me os incas.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Cânticos ou o dia em que o homem pisou na Lua


Cânticos (Cecília Meireles) - fragmentos

Não sejas o de hoje.

Não suspires por ontens...

Não queiras ser o de amanhã.

Faze-te sem limites no tempo.

Vê a tua vida em todas as origens.

Em todas as existências.

Em todas as mortes.

E sabe que serás assim para sempre.

Não queiras marcar a tua passagem.

Ela prossegue:

É a passagem que se continua.

É a tua eternidade...

É a eternidade.

És tu.

(...)

Não digas onde acaba o dia.

Onde começa a noite.

(...)

Não digas onde começa a Terra,

Onde termina o céu.

Não digas até onde és tu.

Não digas desde onde é Deus.

Não fales palavras vãs.

Desfaze-te da vaidade triste de falar.

Pensa, completamente silencioso.

Até a glória de ficar silencioso,

Sem pensar.

(...)

Adormece o teu corpo com a música da vida.

Encanta-te.

Esquece-te.

Tem por volúpia a dispersão.

Não queiras ser tu.

Queres ser a alma infinita de tudo.

Troca o teu curto sonho humano

Pelo sonho imortal.

O único.

Vence a miséria de ter medo.

Troca-te pelo Desconhecido.

Não vês, então, que ele é maior?

Não vês que ele não tem fim?

Não vês que ele és tu mesmo?

Tu que andas esquecido de ti?

(...)

Esse teu corpo é um fardo.

É uma grande montanha abafando-te.

Não te deixando sentir o vento livre

Do Infinito.

Quebra o teu corpo em cavernas

Para dentro de ti rugir

A força livre do ar.

Destrói mais essa prisão de pedra.

(...)

Sê o grande sopro

Que circula...

(...)

Tu tens um medo:

Acabar.

Não vês que acabas todo o dia.

Que morres no amor.

Na tristeza.

Na dúvida.

No desejo.

Que te renovas todo o dia.

No amor.

Na tristeza.

Na dúvida.

No desejo.

Que és sempre outro.

Que és sempre o mesmo.

Que morrerás por idades imensas.

Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.

(...)

Não ames como os homens amam.

Não ames com amor.

Ama sem amor.

Ama sem querer.

Ama sem sentir.

Ama como se fosses outro.

Como se fosses amar.

Sem esperar.

Por não esperar.

Tão separado do que ama, em ti,

Que não te inquiete

Se o amor leva à felicidade,

Se leva à morte,

Se leva a algum destino.

Se te leva.

E se vai, ele mesmo...

(...)

Os teus ouvidos estão enganados.

E os teus olhos.

E as tuas mãos.

E a tua boca anda mentindo

Enganada pelos teus sentidos.

Faze silêncio no teu corpo.

E escuta-te.

Há uma verdade silenciosa dentro de ti.

A verdade sem palavras.

Que procuras inutilmente,

Há tanto tempo,

Pelo teu corpo, que enlouqueceu.

(...)

Este é o caminho de todos que virão.

Para te louvarem.

Para não te verem.

Para te cobrirem de maldição.

Os teus braços são muito curtos.

E é larguíssimo este caminho.

Com eles não poderás impedir

Que passem, os que terão de passar,

Nem que fiques de pé,

Na mais alta montanha,

Com os teus braços em cruz.

(...)

Vê: formaram-se sobre todas as águas

Todas as nuvens.

Os ventos virão de todos os nortes.

Os dilúvios cairão sobre os mundos.

Tu não morrerás.

Não há nuvens que te escureçam.

Não há ventos que te desfaçam.

Não há águas que te afoguem.

Tu és a própria nuvem.

O próprio vento.

A própria chuva sem fim...

(...)

Não fales as palavras dos homens.

(...)

Faze a tua palavra perfeita.

(...)

Sê o que o ouvido nunca esquece.

Repete-te para sempre.

Em todos os corações.

em todos os mundos.

(...)

Renova-te.

Renasce em ti mesmo.

Multiplica os teus olhos, para verem mais.

Multiplica os teus braços para semeares tudo.

Destrói os olhos que tiverem visto.

Cria outros, para as visões novas.

Destrói os braços que tiverem semeado,

Para se esquecerem de colher.

Sê sempre o mesmo.

Sempre outro.

Mas sempre alto.

Sempre longe.

E dentro de tudo.

(...)

Eles te virão oferecer o ouro da Terra.

E tu dirás que não.

A beleza.

e tu dirás que não.

O amor.

E tu dirás que não, para sempre.

Eles te oferecerão o ouro d'além da Terra.

E tu dirás sempre o mesmo.

Porque tens o segredo de tudo.

E sabes que o único bem é o teu.

(...)

Não queiras ser.

Não ambiciones.

Não marques limites ao teu caminho.

A Eternidade é muito longa.

E dentro dela tu te moves, eterno.

Sê o que vem e o que vai.

Sem forma.

Sem termo.

Como uma grande luz difusa.

Filha de nenhum sol.

(...)

Tu ouvirás esta linguagem,

Simples,

Serena,

Difícil.

Terás um encanto triste.

Como os que vão morrer,

Sabendo o dia...

Mas intimamente

Quererás esta morte,

Sentindo-a maior que a vida.

(...)

Perguntarão pela tua alma.

A alma que é ternura,

Bondade,

Tristeza,

Amor.

Mas tu mostrarás a curva do teu vôo

Livre, por entre os mundos...

E eles compreenderão que a alma pesa.

Que é um segundo corpo,

E mais amargo,

Porque não se pode mostrar,

Porque ninguém pode ver...

(...)

Quando os homens na terra sofrerem

Sofrimento do corpo,

Sofrimento da alma,

Tu não sofrerás.

Quando os olhos chorarem

E as mãos se quebrarem de angústia

E a voz se acabar no rogo e na ameaça,

Quando os homens viverem,

Tu não viverás.

Quando os homens morrerem na vida,

Quando os homens nascerem na morte,

Na vida e na morte nunca mais

Nunca mais tu não morrerás.

(...)

Não tem mais lar o que mora em tudo.

Não há mais dádivas

Para o que não tem mãos.

Não há mundos nem caminhos

Para o que é maior que os caminhos

E os mundos.

Não há mais nada além de ti.

Porque te dispersaste...

Circulas em todas as vidas

Pairas sobre todas as coisas

e todos te sentem

Sentem-te como a si mesmos

E não sabem falar de ti.

(...)

Não digas que és dono.

(...)

Deixa os escravos rugirem,

Querendo.

Inutiliza o gesto possuidor das mãos.

Sê a árvore que floresce

Que frutifica

E se dispersa no chão.

Deixa os famintos despojarem-te.

Nos teus ramos serenos

Há florações eternas

E todas as bocas se fartarão.

(...)

O teu começo vem de muito longe.

O teu fim termina no teu começo.

Contempla-te em redor.

Compara.

Tudo é o mesmo.

Tudo é sem mudança.

Só as cores e as linhas mudaram.

Que importa as cores, para o Senhor da Luz?

Dentro das cores a luz é a mesma.

Que importa as linhas, para o Senhor do Ritmo?

Dentro das linhas o ritmo é igual.

Os outros vêem com os olhos ensombrados.

Que o mundo perturbou,

Com as novas formas.

Com as novas tintas.

Tu verás com os teus olhos.

Em sabedoria.

E verás muito além.

(...)

Não busques para lá.

O que é, és tu.

Está em ti.

Em tudo.

A gota esteve na nuvem.

Na seiva.

No sangue.

Na terra.

E no rio que se coalhou em mundo.

Tu tiveste um destino assim.

Faze-te à imagem do mar.

Dá-te à sede das praias

Dá-te à boca azul do céu

Mas foge de novo à terra.

Mas não toques nas estrelas.

Volve de novo a ti.

Retoma-te.

(...)

Não faças de ti

Um sonho a realizar.

Vai.

Sem caminho marcado.

Tu és o de todos os caminhos.

Sê apenas uma presença.

Invisível presença silenciosa.

Todas as coisas esperam a luz,

Sem dizerem que a esperam.

Sem saberem que existe.

Todas as coisas esperarão por ti,

Sem te falarem.

Sem lhes falares.

(...)

Sê o que renuncia

Altamente:

Sem tristeza da tua renúncia!

Sem orgulho da tua renúncia!

Abre a tua alma nas tuas mãos

E abre as tuas mãos sobre o infinito.

E não deixes ficar de ti

Nem esse último gesto!

(...)

O que tu viste amargo,

Doloroso,

Difícil,

O que tu viste breve,

O que tu viste inútil

Foi o que viram os teus olhos humanos,

Esquecidos...

enganados...

No momento da tua renúncia

Estende sobre a vida

Os teus olhos

E tu verás o que vias:

Mas tu verás melhor...

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Chocolate e peixe

Alguém coloca na net: "Saúde é um estado de completo bem estar físico, social e mental" segundo a OMC. A conclusão óbvia é a de que ninguém é saudável. Ou essa pessoa saudável deve ser muito chata. Ou flutua ao invés de andar. Mas deve ter uma pele meio verde.
Se você vir alguém verde, é porque a pessoa é bem saudável.

Hoje eu voltei a comer peixe depois de alguns dias sem - na realidade comi o atum da torta de atum que fiz, aliás estou acertando, caso a Rebeca do rebecaervas leia isso - na esperança de que o cérebro volte a funcionar bem.
Nossos órgãos deveriam ser como peças de carro - quando algo não anda bem, uma mecânica rápida resolve e pronto. Come peixe, as idéias se aclaram. A unha do pé quer cair, troca-se a peça. E pronto. Sem médicos, tratamentos, ou coisas assim - apenas um toque mágico alimentar ou coisa que o valha e tudo se resolveria.
Para males do coração um chocolate e nosso ânimo revigorado. Dor de cabeça, três copos d´água e a hidratação nivelaria tudo. Três ovos de codorna por dia aumentaria a potência sexual - sem falar nas cascas de melancia, recém eleitas uma espécie de Viagra natural. Anemia, um copo de fígado batido com agrião e adeus. Um pedaço de goiabada cascão para o fígado. Gripe suco de limão sem açúcar. Um copo e pronto. Vapt-vupf, como a Falecida do Antunes.
E claro, para desanuviar a mente, peixe. Peixe peixe mesmo, acho que atum em lata não resolve.

Ao menos assim eu comi o tal peixe. Não sei se os efeitos já começaram no cérebro, pois como diz Rosana "o neurótico constrói castelos no ar, o psicótico mora neles e o psicólogo cobra aluguel." Estou longe de cobrar o aluguel, mas devo estar entre o construtor e o locatário sem dúvida.
Talvez eu pense demais em coisas que não deveria, mas é inevitável as vezes. Por exemplo, acabo de perceber que resisto a colocar crase conscientemente por achar que o erro da ausência é menor que o emprego inadequado. Boa frase: "o erro da ausência é menor que o emprego inadequado". Escrevo e duvido dela. Emprego inadequado? Deu vontade de colocar crase.
A ausência é pior do que passar sem peixe. Ao menos de algumas coisas. Seria necessário muito chocolate para consertar.



quinta-feira, 16 de julho de 2009

Amor e restos humanos


Ele estava parado em frente à rua.
Passou um caminhão anunciando frutas. Do outro lado da calçada, um cego também passava.
Se fosse um conto de Clarice Lispector alguma epifania ocorreria. Talvez o cego precisasse estar mascando chicletes. Mas como ele não mascava - aparentemente - tudo continuou igual.
A temperatura fria igual, o dia acabando igual, as pessoas passando iguais, o telefone chamando sem ninguém atender igual, ele parado igual.
Até o cego prosseguia seu caminho. Mas ele igual.

Depois silêncio. Talvez a terra pudesse ser desabitada.
Talvez a solução para a vida fosse presentear todos os cegos com chicletes.
Ou dar sapatos novos às meninas que abraçadas aos livros enfrentam o frio da madrugada para ir à escola. Ou espalhar ratos ruivos mortos pelas calçadas de Ipanema. Ou namorar búfalos pelas grades do zoológico. Ou comer a primeira barata que aparecer em casa.

Cartas dentro de uma garrafa atiradas ao mar. Quem lê?
Se alguém lê, por que a maré teima em não trazer nada de volta?
Ele não tem respostas. Nem chicletes. Nem sapatos, nem ratos, nem tempo de ir ao zoológico ou estômago para comer baratas.

Estão plantando girassóis na Marginal. Talvez seja um bom começo.
Deviam ser ser artificiais. Pelo menos não morreriam.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Κύριε Ιησού Χριστέ, Υιέ του Θεού, ελέησόν με


1999:

Entrei na livraria.
Especializada em material religioso da Igreja Ortodoxa Grega.
Não sei como nem porquê, comecei a conversar com o senhor que atendia.
Ele me contou sobre a "prece do coração", uma oração curta que deve ser repetida várias vezes - como um mantra - e que é simplesmente isso:

"Κύριε Ιησού Χριστέ, ελέησόν με"

Ou, como ele me disse: "Lord Jesus Christ, have mercy upon me" (Senhor Jesus Cristo, tenha piedade de mim"

Há uma versão mais longa, que é

"Κύριε Ιησού Χριστέ, Υιέ του Θεού, ελέησόν με τον αμαρτωλόν"

(Senhor Jesus Cristo, filho de Deus, tenha piedade de mim, o pecador)

2009:

E hoje houve uma pequena Epifania.
Qual o sentido desta prece chamar-se "prece do coração"?
Ele havia me dito: "Esta prece é repetida várias vezes, até que realmente entre em sua mente. E da mente, ela vai para o coração.
Mas a Epifania foi a seguinte: não interessa o conteúdo religioso no sentido direto.
Qual o sentido mais concreto de "pecado", desprovido da questão moral e que aproxima o cristianismo primitivo das religiões orientais?

"Pecador" é aquele trai a sua alma. Que se desvia da vontade de sua alma.
Você acha que quer algo, mas na realidade é ignorante de sua vontade - a vida o convida para algo e você se desvia.

Só pecamos contra nós mesmos.

O que a sua alma deseja?



samsara


"samsara" ou "as pessoas deveriam ser a coisa mais importante que podemos guardar"

não, não vou tirar você do ar.
mesmo que não visite com frequência ou registre sistematicamente as pequenas mazelas do dia a dia. fica aí. guardado.
não se escreve uma história à lápis, passando a borracha depois da linha terminada.

"acenda as lamparinas do seu destino", foi o que me disseram.

o escuro não se descreve. só quem caminha sem luz consegue entender a escuridão. não se discute sobre qual noite é mais densa, sobre qual solidão é mais sofrida. a menos que se esteja lá.

há um longo caminho a ser percorrido. registrado ou não. comentado ou não. apenas há.

e esta foi a música que, traduzida, virou texto na peça de hoje:

Isto está ficando melhor?
Ou você sente o mesmo?
Isto facilitaria as coisas
Se você achasse alguém para culpar?

Você diz
Um amor, uma vida
É o que uma pessoa necessita à noite
Um amor, temos que compartilhá-lo
Ele te abandona, querida
Se você não cuida dele

Eu te desapontei?
Ou deixei um gosto ruim em sua boca?
Você age como quem nunca teve um amor
E quer que eu continue sem nenhum

Bem, é tarde demais
Esta noite
Para arrastar o passado à tona
Nós somos um, mas não somos iguais
Temos que carregar um ao outro
Carregar um ao outro
Um...

Veio aqui pra obter perdão?
Veio aqui pra ressuscitar os mortos?
Veio dar uma de Jesus
Para os leprosos da sua cabeça?

Eu te pedi demais?
Mais do que devia?
Você não me deu nada
E isso agora é tudo o que tive
Nós somos um, mas não somos iguais
Bem, nós ferimos um ao outro
E estamos fazendo de novo

Você diz
Que o amor é um templo, que o amor é a lei maior
Que o amor é um templo, que o amor é a lei maior
Você me pede para entrar, mas depois você me faz rastejar
Não posso me agarrar ao que você tem
Quando tudo que você tem é dor

Um amor, um sangue
Uma vida você teve para fazer o quê deveria.
Uma vida com um ao outro: Irmãs, irmãos
Uma vida, mas não somos iguais
Nós temos que nos carregar um ao outro
Carregar um ao outro
Um

nunca gostei muito de U2 mas hoje a "One" fez algum sentido.
para os companheiros de feriado, obrigado por fazer esses dias terem algum sentido.

domingo, 5 de julho de 2009

...


Mesmo quando tudo pede

Um pouco mais de calma

Até quando o corpo pede

Um pouco mais de alma

A vida não pára...


Enquanto o tempo

Acelera e pede pressa

Eu me recuso faço hora

Vou na valsa

A vida é tão rara...


Enquanto todo mundo

Espera a cura do mal

E a loucura finge

Que isso tudo é normal

Eu finjo ter paciência...


O mundo vai girando

Cada vez mais veloz

A gente espera do mundo

E o mundo espera de nós

Um pouco mais de paciência...


Será que é tempo

Que lhe falta prá perceber?

Será que temos esse tempo

Prá perder?

E quem quer saber?

A vida é tão rara

Tão rara...


Lenine, Paciência

quinta-feira, 2 de julho de 2009

" - Contemplo a palidez lunar.
- Hein?
- Pálida de cansaço de subir aos céus e contemplar a nossa espécie."

Samuel Beckett, Esperando Godot

Ó tu, vida superior,
Ó tu, morte suprema.
Tomo refúgio em ti.

Permite-me acender minha lâmpada escura em teu fogo!
Possa a marca da tua glória, em minha fronte, remover para sempre minha vergonha.
Teus pés são o fogo transformador
Que transmutará minha escória em ouro.
Que tudo que é obscuro dentro de mim exploda em chamas.
E que o véu do erro seja rasgado em pedaçoes.

Rabindranath Tagore, Invocação

terça-feira, 30 de junho de 2009

Pina Bausch

Não creio.
Estava agora pela manhã falando sobre ir na apresentação da Pina Bausch que acontecerá (aconteceria) em breve por essas bandas e agora vem a notícia de que ela morreu, hoje.

Me assusta esse equilíbrio precário da vida.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Um Ícaro

Dizem que Ícaro voou alto demais e o calor do Sol derreteu a cera que colava as penas da sua asa e por fim caiu no mar. Eu não entendo muito do mito de Ícaro e corro o risco de chover no molhado, mas enfim...

Ontem me lembrei dele. E me veio a questão da superação.

Não sei se Ícaro se satisfez com seu vôo. Não sei se olhar o Sol tão de perto pode bem valer uma queda - ao menos um instante em que, secretamente, ele esteve em comunhão tão profunda com a grandiosidade da luz como nenhum mortal jamais esteve. Como o primeiro homem na Lua, que olhou a Terra de um ângulo jamais visto, ele olhou o Sol de uma perspectiva que o irmana ao astro rei na divindade: voando como um deus, não observando como um homem de pés no chão.

Mas gosto de pensar o mito de Ícaro de outra forma:

Ícaro subiu aos céus, tão alto que o Sol derreteu a cera de suas asas.
Ele não morreu na queda, todavia. Mergulhou em águas profundas e envergonhou-se pela derrota. Preferiu fazer-se de morto e desaparecer. Até hoje vive em projetos secretos, buscando conseguir ele mesmo - sem apoio de Dédalus, seu pai - novas asas que o levem para além do Sol.
É ele quem entra, secretamente, em nossas mentes, quando dormimos ou quando pensamos projetos inviáveis e grandiosos.

Com as penas que restaram de suas asas queimadas faz cócegas no nosso cérebro para que ele ria do impossível.

sábado, 27 de junho de 2009

No mesmo dia que o Michael


Farah Fawcett morreu no mesmo dia que o Michael.
Só por isso essa foto não inundou os jornais ontem.

O moleque de 11 anos do post abaixo ficou triste pela morte do Jacko, os moleques de 11 anos de hoje prefeririam essa imagem ao invés da do Rei do Pop, mesmo que fosse numa manchete-obituário.

Descanse em paz, eterna pantera!

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Descanse em paz, Jacko


Tudo bem... Concordo que nos últimos 20 anos mais ou menos ele foi ficando cada vez mais estranho. Tanto fisicamente quanto psicologicamente - uma coisa refletia a outra, constantemente. Mudou de negro para branco, de branco para sei lá o que. Quase um extra-terrestre. Esquisito, recluso, supostamente pedófilo, cheio de manias, traumas, excentricidades.
"Rei do Pop" e outros rótulos. Dono de "Neverland". Uma espécie de alienígena terráqueo.

Mesmo assim eu fui fã desse camarada aos 11 anos. Até hoje me orgulho em lembrar que enquanto as meninas ouviam Menudo, eu ouvia Michael Jackson - Michael Jackson MESMO, negão, cheirando à Jackson Five ainda, da época do "Off the Wall" e de "Thriller". Isso tudo no vinil, voltando o braço do toca discos bem no ponto onde o Vincent Price mandava o "Darkness falls across the land the midnight hour is close at hand creatures crawl in search of blood to terrorize y'alls neighborhood"... Ou no solo de guitarra do Eddie Van Halen em "Beat it"...

Eu vi ele começar a usar luva e revelar o cabelo queimado depois de um acidente gravando um comercial da Pepsi - acho que foi isso - e tentei gostar de Pepsi por causa dele. Passei um dos maiores ridículos da minha vida - só percebo isso hoje - tentando fazer aquela andadinha para trás em uma festa, aos 13 anos mais ou menos.

Colei poster do cara na parede do quarto. Lembro até hoje que comprava esses posteres e o que eu mais queria era o "Thriller", enorme, com o Michael cercado pelos mortos vivos. Alto bom gosto para decorar a parede do quarto (os posteres do Michael só foram substituídos anos mais tarde por fotos da Luma de Oliveira quando foi eleita Miss Playboy no mundo todo - mas essas foram tiradas logo, para não deixar o quarto com ar de borracharia).

Depois do álbum "Bad" começou a papagaiada. Acho que no começo dos anos 90 ele começou a surtar de vez. Talvez o maior exemplo da nossa época de como o sucesso pode literalmente deformar um cara.

Deixando de lado tudo isso, confesso que foi muito estranho saber que ele tinha morrido. Tem um cara de 35 anos que leva isso na boa, faz piada, comenta meio rindo com as pessoas que obviamente não estavam acreditando.

Mas tem um moleque de 11 aqui dentro profundamente triste também.