
"O Flávio não era o intelectual sonhador que fica imaginando coisas, mas era nitidamente um executor que criava. E você via a obra executada com muita velocidade e muita perfeição. A maior parte não eram peças. Eram romances. Livros que nós já tínhamos em casa e, muitas vezes, lamentavelmente, eram livros meus. O estêncil, nessa ocasião, soltava muita tinta azul. Então a máquina ficava suja e os meus livros ficavam imundos. Sempre nesse sistema louco, deixava para o último dia. Ele pegava uma mesinha de cozinha e levava para a sala de visitas. Colocava o cinzeiro ao lado, três maços de cigarro. Colocava o disco e um peso na vitrola automática, para enganar a vitrola, de tal maneira que, quando o braço da vitrola chegava ao fim, começava de novo. Passava a noite ouvindo o mesmo disco, sem parar. Era sempre o tema básico da peça que ia ser ensaiada no dia seguinte. Sentava-se à máquina e batia o estêncil direto. Ele não fazia rascunho de coisa nenhuma. Ia relendo e datilografando, em forma final, no estêncil. Fumando. Até as sete da manhã, dez, doze horas seguidas. Mamãe deixava uma garrafa de café. Ele tomava durante a noite, fumava os três maços de cigarro. De manhã, você entrava na sala e dava para cortar o ar com uma faca. E tinha um envelope sobre a mesa. Por volta das oito horas da manhã chegava o menino da televisão, levava para a televisão. E o Flávio desmaiava até o meio-dia."
(depoimento de Mário Rangel para José Rubens Siqueira em "Viver de Teatro", biografia de Flávio Rangel)
Estava eu mexendo esses dias no texto de Cyrano de Bergerac para uma futura montagem quando me lembrei que o Flávio Rangel dirigiu essa peça - uma das últimas da sua carreira, interrompida precocemente aos cincoenta e poucos anos - com o Antônio Fagundes no papel principal. Fui reler uns trechos da biografia dele escrita pelo Zé Rubens e me lembrei desse trecho. E percebi que guardadas as devidas proporções, cá estou eu repetindo a vigília do Flávio. Não temos os três maços de cigarro, a vitrola da lugar ao Windows Media Player e o trabalho é sobre a peça mesmo, sem a pressão de um outro dever a ser cumprido de véspera. O café está aqui, infelizmente não é minha mãe quem deixa também.
Tenho dormido as 8h, 9h da manhã. Sem sono. Fuso horário de Atenas, só pode ser.
Mas trabalhar sobre esse texto tem sido bom. Muito bom. Sabe-se lá se será montado semestre que vem, espero que sim, mesmo no contexto de uma escola de formação é sempre bom buscar as coisas que fazem sentido para si mesmo. E acredito que também fará, para muita gente.
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