a coisa mais árida da vida é a morte, a secura que ela traz em tudo.
deve ser por isso que a gente chora, para pelo menos uma gota d´água lembrar que ainda tem vida por aí.
"Gregor rastejou um pouco mais e colocou a cabeça o mais perto possível da porta, para que seus olhares se encontrassem. Será que ele não passava de um animal, embora a música o emocionasse tanto? Parecia que ela lhe abria um caminho rumo a um alimento desconhecido pelo qual ele tanto ansiava."
sábado, 31 de julho de 2010
terça-feira, 27 de julho de 2010
O coração

O coração é um órgão muscular oco que bombeia o sangue de forma que circule pelo corpo. Apesar de não fazer parte do cérebro, ele muitas vezes rouba para si as funções que deveriam ser próprias daquele e geralmente as executa de maneira menos competente, em especial quando associadas com os órgãos da visão e sexuais. Entretanto, nem sempre esta conjunção é maléfica já que o oposto - o domínio exclusivo do cérebro - costuma conferir uma vida vegetativa ao indivíduo.
O coração é um músculo ímpar no organismo humano, pois tem a agressividade de quem bate durante toda a existência. Porém, é engano pensar que quantidade e intensidade sejam proporcionais, uma vez que os golpes que ele sofre, mesmo em menor número, não são menos destrutivos que suas batidas diárias.
O coração sofre obstruções de todos os tipos, entupimentos, arritmias, paradas momentâneas, sopros, fraquezas, sangramentos, dores agudas, apertos. Mas ele é feito para sobreviver.
Estava eu com meu coração moído que nem conta no banco Itaú tem quando chega a notícia de outro coração que logo sairá da cama do hospital. E ele reage.
O coração é um órgão muscular oco, que bombeia o sangue para o corpo e que mesmo cheio de cicatrizes e pancadas sobrevive. Talvez baqueado mas ali. Como um Escort velho que nos leva ainda.
Ele nos leva ainda. Nos leva ainda. Nos leva ainda.
"A melhor vingança é viver bem." (Cyro del Nero)
P.S.: Na imagem do Klimt, um coração visto por dentro
domingo, 18 de julho de 2010
Da Cama do Hospital
Ele estava lá, do alto dos seus oitenta anos.
Me pareceu bem, para alguém que espera uma cirurgia de ponte de safena na terça-feira. E me pareceu que depois de tudo, os mal entendidos não valem muita coisa. E pela primeira vez em muito tempo realmente me pareceu que a vida filtra tudo e o que importa mesmo persiste. Não, não se iluda: as pessoas são a única coisa que importa, realmente.
Penso que um leito de hospital é o altar da reflexão forçada. Quanto mais longa a vida mais densa fica essa reflexão, especialmente quando ela corre risco. Não um acidente. Não o inesperado. Mas a consciência de que alguma coisa começa a falhar. O coração certamente não foi pensado para aguentar tanto, de tantos lados. Como músculo, ele sobrevive, o que não o mata o torna mais forte talvez, o exercita, mas nesse exercício de sobre-vida alguns escolhem que ele bata mais, outros, menos. Não sei.
A vida é grande demais. Nossa humanidade deveria constituir-se em não disfarçar nossa incapacidade de viver com uma vida que pulsa de fora para dentro; nosso desamor com desapego; nossa fragilidade com palavras bonitas e racionalidade. Odeio as palavras. Elas não resistem a um abraço, a um aperto de mão, nem à troca de calor entre dois corpos calados. Mas nossa vida insiste em fazer esse tipo de substituição.
Força velho amigo. Volto terça para usar as palavras, espero, para escrever sobre a sua cirurgia bem sucedida, já que sua recuperação deve demorar um pouco para meu abraço e meus cumprimentos por uma vida nova.
Me pareceu bem, para alguém que espera uma cirurgia de ponte de safena na terça-feira. E me pareceu que depois de tudo, os mal entendidos não valem muita coisa. E pela primeira vez em muito tempo realmente me pareceu que a vida filtra tudo e o que importa mesmo persiste. Não, não se iluda: as pessoas são a única coisa que importa, realmente.
Penso que um leito de hospital é o altar da reflexão forçada. Quanto mais longa a vida mais densa fica essa reflexão, especialmente quando ela corre risco. Não um acidente. Não o inesperado. Mas a consciência de que alguma coisa começa a falhar. O coração certamente não foi pensado para aguentar tanto, de tantos lados. Como músculo, ele sobrevive, o que não o mata o torna mais forte talvez, o exercita, mas nesse exercício de sobre-vida alguns escolhem que ele bata mais, outros, menos. Não sei.
A vida é grande demais. Nossa humanidade deveria constituir-se em não disfarçar nossa incapacidade de viver com uma vida que pulsa de fora para dentro; nosso desamor com desapego; nossa fragilidade com palavras bonitas e racionalidade. Odeio as palavras. Elas não resistem a um abraço, a um aperto de mão, nem à troca de calor entre dois corpos calados. Mas nossa vida insiste em fazer esse tipo de substituição.
Força velho amigo. Volto terça para usar as palavras, espero, para escrever sobre a sua cirurgia bem sucedida, já que sua recuperação deve demorar um pouco para meu abraço e meus cumprimentos por uma vida nova.
quinta-feira, 8 de julho de 2010
21 motivos para deixar a cidade grande

As 21 coisas que mais fazem você pensar em desistir de morar em uma cidade grande:
1 - A violência que consegue parecer relativa de tanto que nos acostumamos com ela.
2 - A miséria social que consegue parecer relativa de tanto que nos acostumamos com ela.
3 - O trânsito que parece normal de tanto que nos acostumamos a ele.
4 - A poluição que parece normal de tanto que nos acostumamos a ela.
5 - O custo de vida que parece normal de tanto que nos acostumamos a ele.
6 - A falta de tempo para as pessoas que gostamos de tanto que nos acostumamos a trocar relações reais por intermediadas pelo celular e a internet.
7 - A existência de cinemas, teatro, bares e restaurantes que você acaba nem frequentando por falta de dinheiro ou tempo mas que evoca como motivo para querer ficar numa cidade grande.
8 - A chuva que quando cai para tudo, mesmo não sendo Manaus.
9 - As obras públicas que andam na correria ou param de repente, ao sabor das eleições.
10 - O stress que emana das pessoas.
11 - A competividade que emana de qualquer atividade profissional.
12 - A perda de qualquer noção de tradição.
13 - O consumismo que emana em qualquer esquina.
14 - As leis de fundo moralista que servem para agradar as classes "formadoras de opinião": lei anti-fumo, psiu, etc., que não levam em conta as opções individuais nem a realidade específica de cada região ou estabelecimento.
15 - A corrupção da máquina pública.
16 - A truculência da polícia.
17 - A perda cada vez maior das relações mais próximas nos bairros, como a falência dos mercadinhos engolidos pelas grandes redes de supermercados.
18 - A falência do sistema de saúde.
19 - A superlotação dos transportes públicos.
20 - O acesso à arte e cultura cada vez mais restrito aos guetos de quem produz.
21 - As políticas de acesso à arte e à cultura assistencialistas ou manipuladas.
Quem aumenta a lista?
terça-feira, 6 de julho de 2010
"Você gosta dos heróis tortos, não?"

Ontem terminaram as apresentações do "Cyrano de Bergerac" no Macunaíma.
Com todas as ressalvas de uma montagem de um curso técnico, fica uma sensação de gratidão por ter trabalhado um universo que na minha opinião vale a pena ser discutido. Esses tais "heróis tortos", como alguém comentou após a sessão comigo.
Não vou me estender sobre isso porque quando comentei do "Quixote" (que Cyrano, no texto, chama de "meu irmão")já falei do anti-herói e sua humanidade, nada muito original mesmo.
Mas em época de Copa do Mundo, vale lembrar que não é a simples derrota que faz um anti-herói que se preze. Se fosse assim, o Dunga seria um exemplo. E não é que brigaram comigo por causa do Dunga esses dias? Tenha santa paciência. Tem coisas que não vão para frente só porque nos convenceram de que apesar de tudo deve-se sempre estar de acordo. Qualquer idéia que não contenha em si uma auto-crítica (religião, política, pátria, time, o que for) só nos mantém na ignorância. Pelo amor do Cristo!
Será que vivemos em um tempo onde a noção de "nobreza" se perdeu? "Nobreza" não no sentido elitista do termo, mas de grandeza de aspirações, de idéias, de sonhos... Coisa que o Dunga não tem, certamente. Ele é só turrão, como o nome tirado dos sete anões sugere - na verdade um misto de Zangado com Soneca. Mas falar do Dunga também não vale a pena. Que ingenuidade nossa engolir qualquer coisa que nos é colocada no prato!
Hoje foi um dia triste, a Copa deu seu último suspiro para mim com o Uruguai saindo. Mas foi um jogo de Copa do Mundo mesmo. Coisa que o Brasil só teve nos primeiros 45 minutos do jogo derradeiro. O Dunga não é anti-herói. É pastiche de protagonista. E o Felipe Mello é vilão de quermesse. E não adianta viver de glória do passado. Não somos melhores que ninguém antes que o jogo acabe.
Anti-herói foi o Suárez do Uruguai, que tirou a bola do gol, consciente da expulsão, sem ser desleal - pagou o preço e deu ao seu time a última chance. E deu certo. Esse sim é o Cyrano uruguaio, o Quixote uruguaio. Melhor que nossos heróis por excelência - Kaká, principalmente - que tem como álibi o currículo e não o que produzem aqui e agora em campo.
Ops, aqui e agora não, já devem estar vendo o final da Copa pela televisão.
Acho que para eles a Copa nem acabou, devem estar rindo e comendo pipoca enquanto as pessoas ingênuas brigam por causa desse bando de milionários...
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