terça-feira, 27 de setembro de 2011

Alice



... e então ela olhou para os lados e viu a velha casa com os móveis cobertos por panos brancos e o barulho que mais se ouvia era o do plástico bolha estourando com as passadas despreocupadas dos homens que carregavam coisas com o cuidado medido na proporção exata de quem não quer quebrar nada mas ao mesmo tempo não tem nenhum amor por aquilo que carrega. E tudo foi se esvaziando, esvaziando, esvaziando até não sobras coisa alguma e ela chorou em um canto perto de uma janela sem cortinas e na sua imaginação as lágrimas formaram uma poça d´água onde ela boiou sem destino por muito, muito tempo. No fim, uma mão pousou no seu ombro e a tirou desses pensamentos. E tudo estava seco e vazio. E ela saiu de lá. Quase conseguiu ver um coelho passando pelas escadas, mas ele foi rápido demais para que isso acontecesse.

sábado, 10 de setembro de 2011

Vovó Mafalda Coletivo Teatral - Primeiro Manifesto



Primeiro Manifesto

O Vovó Mafalda Coletivo Teatral propõe o retorno da Arte ao seu estado único de ação agregadora de estímulos, símbolos e leituras do real que por si só pretende recriar a sensação primeira do homem primitivo ao sair de sua caverna e gritar: "salve o dia", mesmo antes de haver uma linguagem articulada;

Nosso bom selvagem hoje é o homem da metrópole, o homem coisificado, que deve despertar de seu estado de insônia sonambulesca urbana e rever o rosto do palhaço-travestido no espelho - o pancake branco, sua verdadeira face escondida pelo falso glamour das cidades;

A Arte do Teatro só reencontrará sua chama original pela desconstrução até daquilo que já se desconstruiu; nem o pós dramático nos serve - ele precisa ser desfigurado: só com uma torta na cara Lehmann reencontra seu estar-no-mundo;

O palco é a Vida, e a Vida precisa ser resignificada para que de novo faça sentido entre os quatro lados do picadeiro-peça-manifesto-show da Pólis moderna. Nosso nariz vermelho não é do clown folhetinesco, açucarado, bestializado em sua ingenuidade imbecil, mas da comicidade do grotesco animal, das víceras do riso original artaudiano, do silêncio tribal pós banquete antropofágico onde os inimigos eram devorados - suas qualidades digeridas e seus defeitos defecados.

Só Vovó Mafalda nos une. A vovomafaldificação da Arte é urgente, necessária e plural.

Trabalhadores da Cultura, Mafaldifiquem-vos!

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O Ministério da Saúde adverte: você é maior que apenas um militante de carteirinha (de qualquer coisa)...

Às vezes me pergunto se determinadas escolhas que fazemos não nos engolem e acabam resumindo nossa identidade - que deveria por definição ser algo mais complexo - a uma determinada faceta da nossa personalidade.
Fulano começa a fazer curso de teatro e um mês depois tatua as máscaras da comédia e da tragédia no corpo. Outro resolve virar vegetariano e passa a mandar e-mails e postar fotos na internet sobre a crueldade com que os animais são mortos para saciar a indústria alimentícia. A menina ou o cara se descobrem gays e de repente parecem viver para provar para todo hetero que o bissexualismo é a orientação sexual do futuro. Feministas que dedicam sua existência questionando a sociedade machista. Homens que querem provar diariamente a superioridade masculina e como biologicamente a mulher deve ser submissa e aceitar o papel "polinizador" do macho. Petistas que votariam até no Maluf se ele passasse a ser do PT, Malufistas que continuariam a votar nele se fosse para o PT. Radicalismos, seja à esquerda ou à direita. Eu só "sou" alguma coisa se estiver carregando uma bandeira.

A discussão da hora é o politicamente correto. Para banir os preconceitos de toda a espécie, de repente, nadamos até a margem oposta e ficamos em uma torre de vigilância para acusar o primeiro ato que soe preconceituoso. Ao invés de focar as preocupações em coibir e punir o estupro, por exemplo, gastamos nossa energia condenando a piada sobre o assunto. Uma linha tênue e complicada, essa do politicamente correto...
Longe de querer pregar o desrespeito ou o preconceito, como prever, nos dias de hoje, o limite entre uma piada e uma ofensa?

Existe gente que acredita nesses estereótipos? Claro que sim. Mas em contextos específicos brincar com eles revela justamente que as pessoas não os levam a sério. Tenho amigo gay que faz piada de gay, amigo negro que faz piada de negro, amigo evangélico que faz piada de evangélico, amigo gordo que faz piada de gordo, amigo corintiano que faz piada com corintiano e por aí vai. Quando todos eles fazem piadas com os outros de uma forma tranquila, me parece que o "preconceito" se esvazia e todos se igualam no que o ser humano tem de comum: somos todos ridículos. Justamente porque precisamos dessas "bandeiras"...

Me parece que nos levamos, muitas vezes, à sério demais. Como se o juiz de futebol fosse parar o jogo e abrir um processo contra uma arquibancada inteira que xinga sua mãe.