Às vezes me pergunto se determinadas escolhas que fazemos não nos engolem e acabam resumindo nossa identidade - que deveria por definição ser algo mais complexo - a uma determinada faceta da nossa personalidade.
Fulano começa a fazer curso de teatro e um mês depois tatua as máscaras da comédia e da tragédia no corpo. Outro resolve virar vegetariano e passa a mandar e-mails e postar fotos na internet sobre a crueldade com que os animais são mortos para saciar a indústria alimentícia. A menina ou o cara se descobrem gays e de repente parecem viver para provar para todo hetero que o bissexualismo é a orientação sexual do futuro. Feministas que dedicam sua existência questionando a sociedade machista. Homens que querem provar diariamente a superioridade masculina e como biologicamente a mulher deve ser submissa e aceitar o papel "polinizador" do macho. Petistas que votariam até no Maluf se ele passasse a ser do PT, Malufistas que continuariam a votar nele se fosse para o PT. Radicalismos, seja à esquerda ou à direita. Eu só "sou" alguma coisa se estiver carregando uma bandeira.
A discussão da hora é o politicamente correto. Para banir os preconceitos de toda a espécie, de repente, nadamos até a margem oposta e ficamos em uma torre de vigilância para acusar o primeiro ato que soe preconceituoso. Ao invés de focar as preocupações em coibir e punir o estupro, por exemplo, gastamos nossa energia condenando a piada sobre o assunto. Uma linha tênue e complicada, essa do politicamente correto...
Longe de querer pregar o desrespeito ou o preconceito, como prever, nos dias de hoje, o limite entre uma piada e uma ofensa?
Existe gente que acredita nesses estereótipos? Claro que sim. Mas em contextos específicos brincar com eles revela justamente que as pessoas não os levam a sério. Tenho amigo gay que faz piada de gay, amigo negro que faz piada de negro, amigo evangélico que faz piada de evangélico, amigo gordo que faz piada de gordo, amigo corintiano que faz piada com corintiano e por aí vai. Quando todos eles fazem piadas com os outros de uma forma tranquila, me parece que o "preconceito" se esvazia e todos se igualam no que o ser humano tem de comum: somos todos ridículos. Justamente porque precisamos dessas "bandeiras"...
Me parece que nos levamos, muitas vezes, à sério demais. Como se o juiz de futebol fosse parar o jogo e abrir um processo contra uma arquibancada inteira que xinga sua mãe.