quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Vazio


Que me desculpem os críticos de arte que defendem a iniciativa do curador desta Bienal em deixar um andar do prédio vazio. Que me desculpem os blogueiros que já falaram sobre esse tema (a foto acima foi tirada de um blog que discute exatemente a mesma coisa, aliás dou crédito: http://www.lucianotrigo.blogspot.com), pode não haver nada de novo em falar sobre isso.
O Luciano - autor do blog citado aí em cima - defende a idéia do andar vazio na Bienal. Defende com argumentos, está bem informado, reflete a questão. Quem quiser dá uma passada pelo blog dele, vale a pena. Ele parece estar realmente próximo da discussão e coloca o fato sob um ponto de vista bem elaborado.
Queria falar sobre o vazio aqui na posição de leigo, ou quase leigo. Minha arte é o Teatro. Fui poucas vezes à Bienal. Minhas referências de arte contemporânea geralmente se dilatam na medida em que um projeto teatral pede novas referências. Uma arte alimentando a outra. Por isso não posso dizer que minha opinião é embasada no contexto de artistas, curadores, críticos - mas sim de público, mesmo. E público quase leigo.
Entendo a crítica de manter um andar vazio na Bienal. Mas acho uma pena. Ainda mais em se tratando de um país tão carente de arte e cultura, me parece quase um esnobismo, uma ação voltada para o próprio umbigo que vira as costas - e deixa o vazio - para o público e a sociedade. Sim, talvez a arte produzida já não comunique mais ou não esteja sintonizada com os valores desta sociedade, mas que ela possa ao menos criticar isso, questionar a referência apresentada, confrontar suas espectativas e valores com as representações.
Não consigo conceber uma mostra de literatura com livros em branco. Nem um festival de teatro onde os atores não entrem em cena, deixando o palco vazio. Ou uma mostra de cinema que exiba películas em branco. Mesmo no contexto de crítica ou denúncia.
Não consigo conceber uma Bienal - mesmo no contexto da crítica ou denúncia - que deixe um andar vazio. Que fizessem um catálogo mostrando o que gostariam de fazer e o que foi realizado. Com espaços vazios onde deveriam estar artistas e obras.
Acho essa iniciativa mais uma forma de afastar o público da arte. Mais uma forma de fazer com que o leigo acredite que a arte contemporânea é qualquer coisa mesmo. Mais uma maneira de demonstrar que no quesito formação de público, aproximação da arte e do cidadão ou mesmo de uma "ação pedagógica" (longe de ser paternalista ou algo assim) dane-se o visitante.
A "Bravo" enalteceu o aspecto positivo da Bienal, justamente tentando apontar característas contrárias ao que citei acima ("Uma Bienal para Você" - no link da bravo online, a matéria:
Mas se Arte exige coerência e é a etapa final de um processo filosófico e político, no que diz respeito à uma visão de mundo e de realidade, como lidar com essa incoerência?
"Uma Bienal para mim". Meio-vazia. Eu mereço meia-bienal.
Não dá para fazer uma visita monitorada ao prédio em outro momento, e ter uma bienal inteira para mim?

terça-feira, 28 de outubro de 2008

O teatro. E o Teatro.


Aí está ele. Nossa melhor definição de "palco italiano".
Fugimos dele. Queremos a arena, o espaço alternativo, os galpões, a proximidade não estratificada socialmente com o público.
Fugimos dele porque achamos que é velho, ultrapassado talvez.
Porque cheira a Ibsen e Tchekov, porque cheira a ópera do final do século XIX.
Porque é habitado por fantasmas que cantam à noite, porque tem lugares mais baratos porque a visão é prejudicada, porque ao invés de campanhia tem como sinais as luzes que enfraquecem e voltam, em resistência.

O teatro municipal e o Teatro. O edifício e a Arte.
Mas tem um momento onde tudo se encontra. O palco italiano não é a única forma de dizer o que se quer dizer. Mas pode ser uma das formas, ainda hoje. E não precisamos fugir.

Teatro é bom quando se tem amigos. É possível fazer amigos no Teatro, mas é perigoso querer fazer Teatro com amigos, no sentido de inverter a ordem das coisas. Tenho excelentes amigos que fiz no Teatro e que hoje não trabalham mais comigo. Porque percebemos que nossa praia era outra e, longe de desconsiderar o trabalho de um ou de outro, descobrimos que o melhor lugar para desenvolver nossa amizade não era no palco.

Tenho excelentes pessoas a minha volta que trabalham muito bem comigo em cena. Mas que não saímos para tomar cerveja. E a parceria é boa. Talvez nossa amizade flua mais em sala de ensaio que fora dela. Tudo bem também. Melhor, talvez - pensando no Teatro. Como se o Teatro fosse uma família. Tem irmãos, primos, tios, pais, mães, etc. Naquele almoço de família, nem sempre é com a sua mãe ou com seu irmão que o assunto corre melhor. E a conversa é mais interessante as vezes com os primos distantes que com aqueles que você vê todo dia.

O problema não é o palco italiano. Ele foi usado tanto por Stanislavski quanto por Brecht. Por Copeau e por Bob Wilson. O problema é que pensamos e o que queremos fazer com ele. Não necessariamente ele guarda uma visão de mundo. Não é o processo colaborativo nem o espaço alternativo que farão do trabalho algo renovador. É em como encaramos o Teatro.

Para que estamos ali?
O Teatro é necessário?
Eu sou necessário para ele?

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

parte dois, primeiro ato

Sexta-feira, primeira parte da segunda etapa da prova - concurso para Orientador de Arte Dramática.

Lá estamos nós. Dos cento e poucos inscritos, restam trinta e oito. E desses, oito não aparecem e quatro - pelo que consta - chegam atrasados e não podem entrar. Pelo vidro da porta vemos colegas esbaforidos chegando menos de cinco minutos atrasados e serem barrados. Não sei o quanto cada um ali apostou nisso, pôs suas fichas na possibilidade de uma nova carreira, mas é frustrante. No mínimo. E apesar das justificativas todas, da necessidade de não abrir precedentes, etc, fica aquele gostinho das "pequenas autoridades" no ar...
Entre o "jeitinho" e a exceção possível e humana, deve haver um caminho... Um meio termo possível.

Não, minha voz não se levantou. Menos por covardia que pela certeza da inutilidade do gesto. Traria apenas a sensação de que quis cometer um ato de heroísmo. Exibição.
Mas ficou ecoando aqui.

Prova interessante - um tanto subjetiva, não dá para saber se se foi bem ou não.
Perfil? Que perfil, se não se sabe ao certo as atribuições e o que se espera desse cargo?
Sabe-se lá. Tomara que não esperem gritos. Esse falhou.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Uma questão metafísica - o sentido da vida

("eu acho que algumas vezes eu busco o sentido nos lugares errados...")

Enfim, estava eu numa aula falando sobre Dialética e para explicar, busquei seu contraponto, a metafísica. Uma prega que não existem  valores ou coisas imutáveis e que a essência do universo e da realidade é a transformação. A outra diz que existem coisas perenes, que sempre foram e sempre serão - Deus, por exemplo.

As implicações políticas são claras: assumir valores perenes pode servir para a estagnação, para justificar diferenças sociais e econômicas, preconceitos, rótulos e interesses de um determinado grupo, classe ou pessoa. Por isso a birra dos marxistas com a religião. Até aí, tudo certo. A religião - não é de hoje - sempre foi usada como forma de dominação. Pena.

Mas a questão que se coloca é a seguinte.
Vamos assumir que as coisas não possuem um sentido. Que a realidade não precisa e não tem um sentido maior mesmo, e que tudo isso aqui é obra do acaso. Possível? Sim, cientificamente falando é possível, ou pelo menos, para alguém que possui informações científicas que ficam no plano do leigo, parece até provável. Um olhar racional sobre a vida, dialético, desprovido de metafísica.

O problema não é lógico, é ontológico.
O que chamamos de "vida", em suas diversas formas, possui por definição o desejo de se perpetuar e o desejo de sobrevivência. A barata corre. O fungo se multiplica. O vírus hiberna na tumba do faraó para mil anos depois ajudar a difundir a idéia de "maldição". Sobrevivência. O instinto sexual se associa ao prazer para estimular a espécie a copular. Insetos não deixam de fazer sexo mesmo sabendo que a fêmea matará o macho depois - se não "sabem", devem desconfiar pelo menos... E por aí vai. 

Se a "vida" não faz sentido, porquê esse instindo em preservá-la? Os seres vivos, mero acaso da natureza, poderiam apenas surgir e desaparecer, sem luta ou desejo de seguir adiante, sem colocar um valor especial à consciência, deixando-se voltar ao nada, simplesmente. Que o Homem tenha medo da morte e não deseje, ok. Mas a barata aqui na cozinha sair correndo quando eu acendo a luz e o fungo que um dia cresceu na madeira debaixo da pia por causa do vazamento querer se espalhar pela casa é um pouco estranho.

Pensando nas baratas, eu gostaria mesmo que a vida não tivesse sentido e que elas não ligassem quando a gente pisa ou aplica detefon. Mas esse instinto de sobrevivência que faz a vida lutar a todo custo para prosseguir - não apenas o indivíduo, mas a espécie - me parece as vezes muito incoerente com a simples ausência de sentido...

Mas tudo bem. Deixemos a metafísica associada às baratas com o Kafka.
Boa quarta-feira. 

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Sobrenatural parte 2

Não, esta imagem não suscita nada de sobrenatural mesmo.
Mas olhe com atenção. A velhinha à esquerda, não parece com aquela que te pediu para ajudá-la a atravessar a rua porque não enxergava direito?
O policial que segura o cacetete, com tantos outros que direcionam o seu olhar justamente para quem não parece oferecer risco - no caso, o camarada lendo - ao invés de inibir o delito iminente?
O sujeito de mala que cruza com a mulher boazuda - com certeza olhará para trás depois que ela passar por ele. Até a campanha "Vá ao Teatro" aparece aí. A diferença é que o homem de chapeu parece interessado.

Mas existe um componente interessante nisso tudo, o quanto não damos mais bola para o cotidiano. Os pequenos momentos que passam por nós, que de tão naturais não são dignos de atenção. Os pequenos encontros, especialmente os possíveis que não saem do universo do "quase", pela falta de atenção que damos. A falta de atenção.

Já se falou muito sobre "efeito borboleta" e coisas assim. E acho que esses dias eu mesmo citei o Garcia Márquez aqui, com o "é a vida, mais do que a morte, a que não tem limites". Pois esse é componente sobrenatural. Acho que foi Santo Agostinho que disse que o "sobrenatural não é o que é contra a natureza, mas sim contra o que conhecemos da natureza", ou algo assim.

E os fantasmas e espíritos e alienígenas e energias e deuses se transformam na brisa e no movimento do vento e das borboletas que não paramos para enxergar mas que nos tocam, de alguma forma.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Piazentin e o sobrenatural


Dentre as coisas que mais me chamavam a atenção na aurora da minha vida, na minha infância querida que os anos não trazem mais está tudo o que pode ser ligado ao sobrenatural. Eu achava o máximo as histórias de fantasmas, civilizações perdidas, mistérios do além e afins.
Eu lia "Kripta", colecionei "As Ciências Proibidas", lia tudo do Papus, tive uns três baralhos de tarot diferentes, fiz a "brincadeira do copo" (oui-ja, e deu certo!), tive sonhos premunitórios e no quesito esquisitices só não vi fantasmas nem seres extra-terrestres.
Ficava pensando se há algo depois da morte, no sentido da vida e nas possibilidades de contato com o além. Aos doze anos mais ou menos escrevia em um bloco considerações sobre as pirâmides do Egito, a reencarnação e a possibilidade quase certa dos ETs. terem feito os moais da ilha de Páscoa e o Stonehenge. Fui em um Centro Espírita, frequentei a Igreja Presbiteriana e vi gente receber santo.
Bom, depois de um tempo dá uma certa preguiça. Por um lado porque a vida cotidiana e pé no chão começa a exigir outras coisas de você. Por outro, porque existe uma certa humildade, acho, numa postura um pouco agnóstica - se existe algo "sobrenatural", por definição você não compreende mesmo, já que nem a natureza a gente consegue compreender, quanto mais o que está acima dela... Então, cuidemos daquilo que podemos tentar entender e vamos torcer para que o que está acima de nós tenha paciência com a nossa humana ignorância.
Outra coisa que dá preguiça é aquela aura de misticismo que cerca quase tudo o que poderia ser estudado e discutido com mais seriedade. Ou a suposta seriedade de pensamentos que partem de uma lógica até razoável mas resumem tudo a um ponto de vista superficial e tolo, no estilo "O Segredo" (quero uma Ferrari... quero uma Ferrari... quero uma Ferrari... Opa, olha ela na minha porta!)... Uma roupagem holística para um tipo de preocupação capitalista e consumista ao extremo. Parece que o velho xamã que fazia truques para encantar sua tribo ainda está escondidinho, pronto para saltar e dar um show em troca do assombro e se possível de doações dos fiéis, palestras pagas a peso de ouro, prestígio, etc...
Depois escrevo mais sobre isso.
Não, não vi fantasma essa noite.
Por que resolvi falar sobre isso? Sei lá.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Tango e afins


... aí eu chego no restaurante: o começo de uma noite boa, e bem engraçada pela situação inusitada...


no meio da conversa, que termina no assunto Filosofia, voltam as lembranças da FFLCH e dos três semestres em que teimei, com 18 anos, a fazer o curso que deveria ser proibido a qualquer um com menos de 40 anos.


Aos 18, aos vinte e poucos anos, você finge que tem idéias pronfundas sobre a vida, o mundo, etc... Você pode ter bom senso, sim, mas desculpe-me, ainda está na fase do "ouvi o galo cantar e achei razoável repetir". Isso não é uma acusação às tantas pessoas inteligentes e sensíveis que conheço dessa faixa etária, mas bancar uma faculdade de Filosofia na adolescência - ou recém saído dela - é no mínimo um desperdício.

Da mesma forma quando entrei em Artes Cênicas, aos 24 anos, percebi que naquele momento estaria aproveitando bem mais o curso do que com 17, 18... Que dirá Filosofia.

Há exceções, claro que há... Mas fica mais fácil o equilíbrio entre o ideal e o possível, a utopia e o concretizável, entre o sonho e a realidade, quando se viveu um pouco mais, quando se passou por um punhado a mais de problemas, quando se teve que pagar as próprias contas no final do mês, quando se vivenciou perdas e conquistas na prática mesmo. E quando os arroubos juvenis de genialidade e crença de que se vai "fazer a diferença" vão sendo substituídos pelo simples prazer de querer fazer seu trabalho bem feito, o melhor possível, tendo a noção de que o mundo é vasto, é grande, de que tem muita gente dentro dele e de que ser "o melhor", "o mais isso", "o mais aquilo" é preocupação ingênua. E aquele chavão de que devemos querer superar a nós a mesmos é bem próximo da realidade sim...


Outra coisa: é muito estimulante conhecer pessoas que voltaram à faculdade aos 40, 50 anos... Essa disposição de se re-inventar, de aproveitar esse momento da vida adulta para voltar a estudar, como um investimento em si próprio, não como a busca - muitas vezes precoce - de definir uma carreira, uma profissão para "a vida toda". Quem sabe, aos 35, eu não engrosso a fileira dos "tiozinhos"?


"Beeeeeeeeeeeeem capaz", como diriam no Sul.

domingo, 12 de outubro de 2008

y cuando me pierdo en la ciudad

Te vi... contabas margaritas del mantel
Ya se que te trate bastante mal,
no se si eras un angel o un rubi
O simplemente te vi.

Te vi, saliste entre la gente a saludar
Los astros salieron otra vez,
la llave de mandala se quebro
O simplemente te vi.

Todo lo que diga esta de mas,
las luces siempre encienden en el alma
y cuando me pierdo en la ciudad,
tu ya sabras comprender
Solo un rato no mas, tendria que llorar o salir a matar.
Te vi, te vi, te vi... yo no buscaba nadie y te vi.

Te vi... fumabas unos chinos en Madrid
Yo se que hay cosas que te ayudan a vivir
no hacias otra cosa que escribir
Y yo simplemente te vi.
Me fui... me voy, de vez en cuando a algun lugar
A nadie le hace gracia este pais...
Tenias un vestido y un amor... yo simplemente te vi.

Todo lo que diga esta de mas,
las luces siempre encienden en el alma
y cuando me pierdo en la ciudad,
tu ya sabes comprender... solo un rato no mas,
tendria que llorar o salir a matar...
Te vi, te vi, te vi... Yo no buscaba nadie y te vi.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Lear


Lendo o Digitando hoje relembro o quanto podemos passar por cima de trabalhos feitos em âmbito escolar só porque precisamos fazer as considerações de sempre: atores em formação, tempo escasso, limitações na criação artística pela estrutura, tempo, etc... Ao mesmo tempo, nos esquecemos - se não tomamos cuidado - dos aspectos positivos, que muitas vezes pesam mais na balança do que o lado ruim.
Desde que entrei no Teatro Escola Macunaíma (2003, contando a primeira turma de montagem) foram 23. Com erros e acertos, mas se contar, sendo bem exigente, pelo menos metade dessas foram muito legais de ter feito.
Esse semestre tem o Lear. Faz tempo que queria trabalhar com esse texto. E encontrei uma turma que comprou a idéia, bastante empenhada. Claro que para ajudar estreamos logo no começo da Mostra. Mas nada pode ser perfeito. O jeito é encarar ué. E fazer com prazer.
E sim, apesar dos pesares, dá prazer trabalhar.
Pelo menos na maior parte do tempo.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Ontem, hoje, sempre


Caminhei à noite, depois do meu compromisso com o príncipe da Dinamarca, no frio, em direção à vida que continua passeando pelo mundo. Não, o mundo não parou de dar suas voltas, nem a primavera deixou de vir - ainda que com ares de inverno - pelo contrário: nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.

Em meio às transformações o frio e uma garoa fininha cobriam os passos. Fiz uso de um taxi e me deparei com uma personagem: sujeito de olhos esbugalhados e jeito de sapo, falando gratuitamente sobre sua vida pregressa - com ênfase na parte sexual, digamos. Fingindo interesse sobre as peripécias de alcova do meu condutor-sapo, fui observando o caminho até chegar no destino. Uma festa de aniversário quase secreta.

E no meio de uma mistura de comemoração, frio e comédia stand-up, entra uma luz em forma de dragão rascunhado, reduzido a apenas uma linha.


O problema da frase da Clarice: "somos moços ainda, podemos perder algum tempo sem perder a vida inteira" é o risco de repeti-la até tornar-se velho mesmo. A vida não pára, o mundo não pára, o tempo não pára. Mesmo para os moços.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Keep Walking


Uma das coisas meio bobas que eu gosto é colecionar cartões da Johnnie Walker. E olha que eu nem gosto muito de destilados. Se eu tomasse uma dose da citada bebida para cada cartão guardado, estaria com cirrose. Ou pelo menos com muitas ressacas a mais que o normal. Até hoje não entendo como a campanha de uma bebida é "keep walking". Será algo do tipo "deu duro, tome um Dreyer"? Porque o que eu mais imagino é o camarada aí de cima não conseguir mais andar em linha reta, uma vez que a toda vicissitude da vida ele sente-se convidado a mais uma dose. Tem frases memoráveis, mesmo que a gente não se atenha ao fato contraditório do bonequinho caindo de bêbado tentando ir à frente. Enfim, aceitemos o desejo do produto e tomemos a sério a mensagem do Keep Walking.
Nesses dias de Elmo não tenho pensado muito nas tais vicissitudes até porque aos poucos elas vão perdendo o sentido. Mas claro que elas existem. Agora, sinceramente existem problemas que simplesmente dão no saco. Eles te enchem tanto que chega uma hora que a vontade é mandar a merda. E pronto. Ok, as contas continuam aí para ser pagas, não é isso que vai fazer algo mudar, mas existem coisas que a gente cria. E pode, sim, mudar.
Uma vez escrevi no espelho: "eu preciso mesmo passar por isso?", como uma lembrança de que existem coisas que podemos transformar na nossa vida. Meu momento auto-ajuda foi presenteado com um bilhete da Jucilene, que limpa a casa uma vez por semana, tentando "responder" à minha pergunta. Achei engraçado e ridículo da minha parte ter deixado o papel lá no espelho e não ter escondido da Jucilene a tempo.
Tá, não precisamos deixar no espelho. Mas podemos nos perguntar - só a nós mesmos, sem testemunhas: "precisamos mesmo passar por isso?" Medos, inseguranças, decepções, covardias... Tudo em prol de mantermos uma boa "capa" de pessoas inteligentes, razoáveis e equilibradas?
Cuidado com o quê? O único cuidado que não deveria nunca ser descuidado é o cuidado com os outros. Quando isso derrapa, aí podemos ser tragados pelo nosso egoísmo. E achar legítimo. Fora isso, "se não somos donos de nada que deixamos, que importância tem o momento de deixar?"
É isso aí. Mesmo sem Johnnie Walker, temos que tocar o barco. Ir adiante.
"... é a vida, mais do que a morte, a que não tem limites"
G.G.Marquez, O Amor nos Tempos do Cólera

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Você sabia que uns 70% dos brinquedos agora são à pilha?


A maioria esmagadora dos brinquedos agora é à pilha.
Bonecas que choram, fazem "cocô de verdade", cachorros que gemem quando você faz carinho, robôs que acompanham sua vida, etc. Dá-lhe Energizer, Duracell e afins.
Crianças, não comam as pilhas, por favor.

Já imagino a filha falando: "Pai, me dá a boneca que faz cocô?" (R$ 500,00)
"Brinca com a sua irmãzinha querida, ela também faz e é de graça."

Esse aí em cima é o Elmo.
Ele é um boneco (by Vila Sésamo) que ri. Só isso.
Você acha bobo. Mas depois de uns segundos vendo ele se estropiar no chão, batendo as pernas e rolando, você começa a rir também.

E é bom rir.
Parafraseando o Beckett: "A gente ri, com vontade, e aos poucos vai ficando feliz de verdade." Algo como um "Anti-Fim de Partida".
Porque ter um blog não é só querer postar textos inteligentes mostrando como a humanidade é podre e a vida não vale a pena.

Vale a pena sim. Vale a pena olhar para os outros e tratá-los de forma com que a gente gosta de ser tratado. E falar bobagem. E se divertir. E ter o melhor final de semana em muito tempo e dizer isso. Ser um pouco Elmo.

Ah, passei na primeira fase do concurso... Quem sabe não largo tudo, compro um boneco Elmo e vou pra Bauru?

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

USP, TUSP, POLI e afins

A classe artística vive com pires na mão. Uma pena.

Hoje prestei o concurso na USP para "Orientador de Arte Dramática". Trabalho vinculado ao TUSP, não necessariamente em São Paulo. Vagas em Bauru e Piracicaba também.

Chego lá e encontro todo mundo, quase literalmente: ex-colegas de ECA, colegas do Macunaíma, ex-alunos do Macunaíma e da São Judas, amigos, amigos de amigos, etc. A classe artística é uma pequena cidade do interior. A diferença é que é uma cidade de desempregados ou semi-desempregados ("autônomo" no meio teatral é meio isso, no final das contas).

Toda vez que aparece um edital, um concurso ou uma lei de incentivo vamos todos. Querendo uma luz no fim do túnel. Gente com competência, adaptando-se, mutando-se, buscando dignidade e condições de trabalho, sempre. Auto-produzindo-se.

É bom e triste o encontro. Ao mesmo tempo.

E vamos lá, prova de 50 questões de múltipla escolha, quatro horas de duração, na Poli.

Tem algo menos teatral que a Poli? Acho que muitos ali - incluindo eu - nunca haviam pisado na Politécnica.

Antes, um café. E passam graduandos de camiseta da seleção brasileira, bermudão, chinelo.

Meu Deus. Se eu passar em Letras, vou ter paciência? Vamos lá, vamos lá.

Terminadas as múltiplas escolhas, saio logo. Não tenho paciência de ficar considerando mil possibilidades, chego até a usar a lei das probalidades nas duas últimas dúvidas que restavam - se deu muito "E" e "D", com certeza essa é "B" - questões sobre leis... Termino a prova e entrego no prazo mínimo de uma hora. Assino a lista de presença e me vou. Fico esperando Laura e Renata, companheiras de Macunaíma e de carona saírem.



Ontem me rendi ao "Shakespeare Apaixonado" e revi o filme. Bom. Deixando de lado o purismo e a chatice, longe de conferir a ele o Oscar - tá, como se o Oscar fosse alguma coisa séria... - é um divertimento gostoso. A reconstituição do teatro elizabetano, o lado ficcional da figura de Shakespeare como personagem e o clima do filme são muito bons... Se eu não fosse um sujeito muito truculento diria que é quase emocionante o voto de fé no teatro e na arte que em muitos momentos exala da produção. Mas como sou um sujeito duro e frio, vou dizer que é piegas e superficial. Mas no todo, um filme bem feito sim.


(meu computador agora desliga sozinho. hoje é domingo e posto o rascunho salvo de sexta)

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

"Fazendo as sinapses"

... aí você ouve uma coisa um dia. Percebe outra, dias depois. Vai tendo, aos poucos, uma visão clara do que acontece em algum âmbito da sua vida, vai juntando os pedaços. Você percebe algo que poderia estar na sua frente mas que não se dava conta dele antes. E a sinapse se faz.

A realidade não precisa ser um quebra-cabeça onde só a percebemos depois de juntarmos as peças. Ela é, está aí, as vezes quem olha para o mundo como um quebra cabeças o faz porque quer montar um quadro diferente do que é, na esperança de novas peças surgirem ou das mesmas se modificarem, revelando novos encaixes. Mas a realidade está aí. Anterior à nossa vontade de desomntá-la em pedaços para juntar na esperança de que voltem diferentes.

E depois do quadro montado, olhamos a figura. É a mesma, é a mesma. Não adianta o nosso esforço em querer ver algo diferente. Se nos dá montanhas, nuvens, mar é isso: montanhas, nuvem, mar. Podemos apenas olhá-lo de forma diferente, mas é ele.

Não mudamos o que vemos. Podemos olhar de forma diferente.
E podemos virar a cabeça e aproveitar os 360º que o mundo oferece.