
Faz quase um ano, o elenco não é 100% o mesmo hoje mas às vésperas de estrear o "Quixote" em São Paulo, vale lembrar dessa foto. Eu me lembro exatamente do dia, da camiseta laranja que destacava do resto do povo em preto - "I see orange people" - e das apresentações.
A peça era o "Hamlet-Zero" e ainda estava na fase "ensaios abertos".
Várias surge a discussão sobre a arte falar ou não da nossa própria vida. Depois de algum tempo eu encontrei uma resposta, pelo menos a minha resposta. Eu me lembro que na época em que estava na ECA virou moda o "depoimento pessoal". E alguma coisa me incomodava, e eu não sabia explicar porque, naquelas cenas "minha vida sofrida de jovem classe média de 20 anos". Eu olhava alguns trabalhos e percebia que fazia um grande sentido para quem executava, mas não chegava em mim.
Quando comecei a deixar que coisas que me tocassem de verdade constituíssem materia-prima para as minhas peças, notei que naturalmente algo diverso aconteceu - não era o "depoimento pessoal", direto, em primeira pessoa, aquele ato de exposição que pode até ser corajoso, mas que deixa o teatro à margem do seu umbigo ou do psicodrama. Talvez existam pessoas que façam isso bem, não é uma crítica necessariamente, mas para mim não serve.
É como se as lembranças ou os fatos tivessem que ter uma tradução cênica que os oculta, que deixa no "subtexto" o depoimento e leva para a cena imagens, símbolos, sonoridades que têm afinidade com o fato real mas que se universalizam por não se limitarem a narrá-lo. Em alguns casos, quem me conhece percebe a inspiração por detrás da cena, embora ela não precise disso para ser assistida. Como uma peça inspirada em um livro, mas que oferece pontes para o público que não o leu. Quem não conhece a obra assimila a peça de uma forma, mas assimila. Quem conhece, percebe outras conexões. Como o "Quixote" talvez.
Saber que "O Grito" do Munch foi inspirado no caminho que ele fazia atravessando uma ponte onde se ouviam os gritos dos internos de um manicômio, ou que a "Monalisa" foi estruturada sobre as feições do próprio Da Vinci em um auto-retrato, ou que "Alice" foi o nome usado pelo Lewis Carrol porque é a sonoridade de "L.C." (suas iniciais) não deixa as obras necessariamente melhores, é só curiosidade.
No anonimato de diretor então deixo a minha vida pessoal como curiosidade inútil, na esperança de que as minhas questões possam voltar à tona como universais. Quem quiser me ver reclamando da vida que venha conversar comigo, não ver as minhas peças - essa é a esperança, não? "Amigos" e "público", cada um no seu lugar.
Agora, os amigos, por favor. Assistam de qualquer jeito.
Boa segunda-feira.












