segunda-feira, 28 de julho de 2008

Foto de elenco


Faz quase um ano, o elenco não é 100% o mesmo hoje mas às vésperas de estrear o "Quixote" em São Paulo, vale lembrar dessa foto. Eu me lembro exatamente do dia, da camiseta laranja que destacava do resto do povo em preto - "I see orange people" - e das apresentações.
A peça era o "Hamlet-Zero" e ainda estava na fase "ensaios abertos".
Várias surge a discussão sobre a arte falar ou não da nossa própria vida. Depois de algum tempo eu encontrei uma resposta, pelo menos a minha resposta. Eu me lembro que na época em que estava na ECA virou moda o "depoimento pessoal". E alguma coisa me incomodava, e eu não sabia explicar porque, naquelas cenas "minha vida sofrida de jovem classe média de 20 anos". Eu olhava alguns trabalhos e percebia que fazia um grande sentido para quem executava, mas não chegava em mim.
Quando comecei a deixar que coisas que me tocassem de verdade constituíssem materia-prima para as minhas peças, notei que naturalmente algo diverso aconteceu - não era o "depoimento pessoal", direto, em primeira pessoa, aquele ato de exposição que pode até ser corajoso, mas que deixa o teatro à margem do seu umbigo ou do psicodrama. Talvez existam pessoas que façam isso bem, não é uma crítica necessariamente, mas para mim não serve.
É como se as lembranças ou os fatos tivessem que ter uma tradução cênica que os oculta, que deixa no "subtexto" o depoimento e leva para a cena imagens, símbolos, sonoridades que têm afinidade com o fato real mas que se universalizam por não se limitarem a narrá-lo. Em alguns casos, quem me conhece percebe a inspiração por detrás da cena, embora ela não precise disso para ser assistida. Como uma peça inspirada em um livro, mas que oferece pontes para o público que não o leu. Quem não conhece a obra assimila a peça de uma forma, mas assimila. Quem conhece, percebe outras conexões. Como o "Quixote" talvez.
Saber que "O Grito" do Munch foi inspirado no caminho que ele fazia atravessando uma ponte onde se ouviam os gritos dos internos de um manicômio, ou que a "Monalisa" foi estruturada sobre as feições do próprio Da Vinci em um auto-retrato, ou que "Alice" foi o nome usado pelo Lewis Carrol porque é a sonoridade de "L.C." (suas iniciais) não deixa as obras necessariamente melhores, é só curiosidade.
No anonimato de diretor então deixo a minha vida pessoal como curiosidade inútil, na esperança de que as minhas questões possam voltar à tona como universais. Quem quiser me ver reclamando da vida que venha conversar comigo, não ver as minhas peças - essa é a esperança, não? "Amigos" e "público", cada um no seu lugar.
Agora, os amigos, por favor. Assistam de qualquer jeito.
Boa segunda-feira.

sábado, 26 de julho de 2008

Kazuo Ohno ou remexendo programas antigos


Achei minha pasta com programas de peças.

Remexendo nela, coisas antigas que nem lembrava mais que tinha visto e guardado programas. Um dos mais lindos é o da última passagem do Kazuo Ohno por essas bandas - era 1996 e ele ainda dançava. Espetáculo no SESC Anchieta, com direito à Antunes Filho emocionado na platéia e aplausos de dez minutos contatos no relógio.

E eu abracei o Kazuo e ele autografou o programa.

Eu que não sou de tietagem não resisti.

Foi provavelmente o que vi de mais puro em arte.

Não havia bandeiras, nem frases de efeito, nem conteúdo "político", mas um ser humano de mais de 90 anos reiterando sua paixão pela dança e pelo estar vivo.

Um tributo à vida em sua plenitude.

VIDA. De verdade.

Como um sonho levado às últimas consequências. Kazuo lembrou a todos, naquele dia, que a VIDA é possível. Como diria Clarice, que o "jogo da minha vida maior" é possível, não apenas o de aceitar ser um dado marcado - obrigações, expectativas, auto-imagem, orgulho, falta de fé em si e no mundo. O espaço do sonho. Aqui e agora, no palco que é qualquer superfície que aguente o peso do próprio corpo e da alma.

Como dançar a vida como Kazuo Ohno?

"Preciso conter a ebulição que toma conta de mim - o beijo dado do útero do cosmo."
Kazuo Ohno

sexta-feira, 25 de julho de 2008

"O Corpo" ou a última sexta a tarde livre até o final do ano

Sexta-feira. "O Corpo".
Gostei da idéia, um universo meio mórbido e ao mesmo tempo com ressonâncias políticas atuais - a descoberta real das ossadas de presos políticos da época da ditadura na década de 90 - o elenco, encabeçado pelo Leonardo Medeiros e a Rejane Arruda, a direção do Rubens Rewald e sua parceira Rossana Foglia.
O filme é muito bem cuidado. Montagem, trilha, fotografia. O elenco não decepciona e mesmo a Chris Couto, conhecida antes como VJ que como atriz, está bem. Participações do Luis Baccelli, Petrin e Louise Cardoso também somam muito.

O corpo humano é bonito. Mesmo quando é feio. Existe uma beleza na fisicalidade da existência pura e simples e, lembrando o Witkin, o universo meio mórbido comentado acima fascina e ao mesmo tempo assusta. As imagens que o filme traz, em vários momentos, alcançam esse dualismo. Entretanto alguma coisa se perdeu pelo caminho.

A idéia do roteiro parece soar um pouco intrincada demais, não no sentido de tornar-se menos inteligível, mas algo que tende a um plano um pouco conceitual demais. O conflito das personagens, o drama - principalmente do médico vivido por Leo Medeiros - parece cair para o segundo plano em nome de um bom roteiro. E o roteiro já seria bom sem tanta necessidade de mostrar-se fragmentado, descontínuo temporalmente, etc.

Agora, justiça seja feita. Que bom poder assistir a um filme nacional e criticar detalhes e minúcias. Já foi o tempo em que a gente precisava passar a mão na cabeça de qualquer um que fizesse um filme no Brasil. A produção melhorou muito nos últimos anos e, gostando ou não desse ou daquele filme, nosso cinema têm mostrado qualidade.

Falta só isso:
os incentivos começarem a atender um número maior de produções;
deixarem o Brasil descobrir que não é só no Rio e em São Paulo que existe Cinema;
darem chance da gente perceber que os dez ou quinze atores que fazem a maioria dos filmes não são os únicos do país...

E por aí vai.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Anastasis


A ficção é um retrato em preto e branco da realidade. Tudo o que você assiste no cinema, na televisão, no teatro, tudo o que você lê nos livros e duvida - no estilo "que absurdo, como alguém pode fazer isso na vida real - é possível sim, o ser humano é mestre em ir além. Para bem e para mal. O que deveria durar morre, o que deveria passar logo permanece.


Ontem andei e vi pessoas pela rua. Vi os bolivanos que vendiam bugigangas ao lado do metrô. Vi um cachorro estranho. Vi uma moça que se equilibrava em um salto. Vi lugares que fazia tempo que não vi e vi o tempo que passou e deixou os lugares iguais mas a vida diferente. Vi quatro casais diferentes se encontrando de quatro formas diferentes no meio da rua, vi uma mãe carregando um menino de um jeito inusitado ao atravessar a rua, vi a lua no final da tarde, vi a minha imagem refletida nos vidros e espelhos das fachadas. Vi os olhos da moça de cabelo comprido, vi um prato de comida pela metade, vi a correria de um dia "útil".


E o que me deixou triste foi o que não pude ver mais.

Estave ali, eu sei, esteve ali.

Mas não vi mais.


Ai fim do dia, brindemos ao Dr. Stockman.

Como diriam os pescadores, melhor rodar o dourado que apoitar.


(A foto é uma homenagem a coisas que sumiram no fundo branco. Até um gato, que um dia caiu da janela.)

terça-feira, 22 de julho de 2008

Um Inimigo do Povo

"Mrs. Stockmann
Vamos esperar que não sejam os lobos que te expulsem daqui, Thomas.

Dr. Stockmann.
Você está louca, Katherine? Me expulsar! Agora - quando eu sou o homem mais forte dessa cidade!

Mrs. Stockmann.
O mais forte, agora?

Dr. Stockmann.
Sim, e eu vou levar isso adiante, até provar que sou não apenas o mais forte da cidade mas do mundo inteiro.

Morten.
Certo!

Dr. Stockmann (lowering his voice).
Sim! Não falem nada sobre isso ainda, mas eu fiz uma grande descoberta.

Mrs. Stockmann.
Outra?

Dr. Stockmann.
Sim. (confidencialmente:) É essa, deixem que eu conte: que o homem mais forte do mundo é aquele que permanece mais sozinho."

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Pensamentos difusos ou voltando das férias de uma semana


1 - Maringá é longe. Contando o trajeto até o real destino (Porto 18), mais três horas depois de Maringá). Uns mil quilômetros. Coisa de oito horas de viagem. Tempo de sobra para pensar na vida, mais uma natureza ao seu redor com direito à pesca, rio, sinal nulo no celular, quebra completa da rotina de São Paulo. Uma lua maravilhosa e um céu que de novo nos lembra que sim, existem estrelas. E horizonte. E você não é melhor do que eu só porque está cansado de saber disso. Depois de trabalhar um semestre todo sem ter um dia inteiro livre, eu tinha me esquecido, sim.
2 - A pesca vale a pena mesmo quando você não sabe pescar ou acabou de "aprender" ou a época não é própria e você não pegou nada. O ritual de acordar cedo, colocar um barco na água do rio Paraná e ficar horas ali no meio da água esperando por um peixe que tenha a dignidade de se deixar pescar é algo epifânico. De verdade. Mesmo sem evocar Guimarães Rosa, a gente se sente um pouco comungando com outro um mundo. De terra, água, pé no chão, de sem-tempo, de planta e de sol.
3 - Só hoje no caminho de volta que eu prestei atenção, pela primeira vez, na letra todinha do "Yesterday" dos Beatles. Não vou colocar aqui, é muito fácil fazer uma busca no google e pegar a tradução. Vai lá. É daquelas coisas que estão tão coladas no nosso imaginário que a gente nem se dá conta do que ela realmente fala. Voltando para São Paulo então foi um baque.
4 - E agora a Lei Rouanet quer que especifiquemos um "autor" para um projeto que gira em torno de uma obra de domínio público trabalhada em um espetáculo sem texto. Não sei se ligo para o Cervantes ou se faço coro com a Aline no "Digitando" e mando eles lerem com cuidado a coisa. Será que no Ministério da Cultura o povo precisa ser alfabetizado de novo?
5 - Como o tópico anterior dá a pista, estréio o "Quixote" no dia 09 de agosto. Estréio não, estreamos. Em São Paulo, finalmente. Para uma temporada aos sábados e domingos, no Denoy de Oliveira. Mais informações semana que vem, aqui, no orkut, no site da companhia, etc... E espero que na imprensa em geral também, óbvio...
6 - A luz cortada voltou de vez. Ufa.
7 - Preciso ser mais organizado com contas, documentos e afins.
8 - Leituras dos últimos dias: "A Casa de Rosmer" e "O Pato Selvagem" para ver se tenho uma luz sobre a pesquisa do Ibsen (de repente isso vira uma tese de doutorado se, de acordo com o item anterior, eu achar todos os documentos que preciso para me inscrever...) e "Água Viva". Quanto mais leio Clarice, mesmo adorando o que leio, mais gosto do "G.H.". Me desculpem os entusiastas de "Uma Aprendizagem", "Água Viva" e "A Hora da Estrela". Acho que isso rende um trabalho ainda esse ano.
9 - Morreu a Dercy Gonçalves. Eu achava que ela tinha sido esquecida aqui, que não morria mais. Mais falando sério, por que alguma rede de televisão não aproveita a chance de fazer uma homenagem decente mostrando os trabalhos antigos dela, como uma retrospectiva inclusive de outros tantos que ajudaram a formar o nosso teatro e televisão? A mulher não era só uma velha louca que falava palavrões. Bem ou mal, uma parte da nossa história estava ali.
10 - Na parada da estrada vejo o menino que perdeu um braço, depois de ser socorrido pelos bombeiros - ele ficou preso nas ferragens de um caminhão. Por pouco não morre. Claro que na periferia. Claro que pobre. Sobreviveu. É coincidência ou essas coisas só acontecem em locais menos favorecidos? O menino que provavelmente nunca lerá Ibsen ou Clarice. Se é que vai aprender a ler. Mas sem demagogia, é preciso acreditar que Ibsen e Clarice possam fazer alguma coisa, ainda que indiretamente, por ele. E por tantos outros. Não sei como. Mas eu ainda tenho a esperança, como o moço da peça que usa pijama e um escorredor de macarrão na cabeça, de que transformar uma única pessoa que seja - mas verdadeiramente - pode ser mais forte que mover uma multidão por um instante apenas, se for por raiva ou cegueira. Isso é sério.
(Foto: uma imagem da lua, que uma dia esteve no antigo fotolog, na falta de fotos fresquinhas da viagem ainda não encaminhadas para mim)

domingo, 13 de julho de 2008

Quando Despertarmos de entre os Mortos

Fac-símile de anotações de Ibsen para "Quando Despertarmos de entre os Mortos".
Sabe que toda a vez que eu leio Ibsen eu penso na crítica de ele ser um escritor "burguês". Ok, ele não fala de temas sociais, não tem uma arte com uma ligação política tão forte como o Brecht por exemplo mas será que dá para reduzir sua obra a isso?

Se nos lembramos do Brecht e da noção de política como proporcionar um novo olhar sobre a realidade, mesmo no âmbito pessoal, se possibilitamos um olhar revelador sobre as crises humanas mais íntimas, estamos sim fazendo política. Até porque se não há uma transformação no indivídio, a "massa" vira "massa de manobra" e só.

Os conflitos de Ibsen, por mais "sala de estar" que possam ser, revelam profundas crises humanas, transformações e revelações absurdamentes radicais para a sua época. Esse é um primeiro ponto. Ele foi, sim, profundamente político para seu contexto. Por que não hoje?
Será que "política" é só levantar bandeiras sobre questões sociais, só denunciar os desmandos do mundo? Os desmandos da alma individual não estão por detrás de tudo isso?

Leia um Ibsen. Não só o "Casa de Bonecas". Leia "Quando Despertarmos de entre os Mortos". Ou "John Gabriel Borkmann", ou o "Peer Gynt".

Quando despertarmos de entre os mortos desse gesso todo que a nossa forma de ver o mundo se transformou - até a nossa forma de "revolucionar" ficou repetitiva e ultrapassada - quem sabe poderemos olhar para a tradição, olha para os clássicos com um olhar novo que não negue, mas transforme.

E vivam os Quixotes, Hamlets, Édipos etc... Ontem e hoje. (Re)Lidos com responsabilidade e contextualizados para nossa época. O que eles nos dizem hoje? Certamente muita coisa.

sábado, 12 de julho de 2008

Wild is the Wind ou sobre os posts anteriores


Uma vez uma pessoa perdeu o pai e disse "Deus é mau ou ele não existe."
Achei um pouco egoísta, mas respeitei. Não tinha acontecido algo tão terrível comigo.
Quando minha mãe morreu Deus não passou a existir ou deixar de existir. E eu percebi que não precisava sofrer na própria pele algo terrível para me questionar sobre isso. O mundo está cheio de dor, injustiça e falta de sentido para pensarmos à vontade sobre se tudo isso faz ou não sentido.
A questão é: quando falo em "desistência", seu contrário não seria a "insistência".
Mas a "resistência". Existe uma ligeira diferença.
Percebe?
Enquanto isso toca "Wild is the Wind". Escolha: David Bowie, Nina Simone ou Cat Power.
Ah, tem a versão do Jeff Buckley também.
Qualquer um que não fique ao menos tocado por essa música é um facínora.
Pronto.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Como não podia deixar de ser...


... as coisas não têm um sentido.
Me desculpem, mas não têm.
Algo como o "salto no abismo da fé" ou "assinar uma carta branca para Deus". Essa é a vida.
Infelizmente agir "certo" ou "errado" é simplesmente estar em paz ou não com a própria consciência, não há um caminho exato para a felicidade ou a desgraça. Não há prêmio ou castigo - senão aqueles provocados pelo seu próprio caráter.
Qualquer um que tenha experimentado a sensação de ter perdido o manual de instrução sabe o que eu digo. A sensação de não saber o que fazer, como fazer, porquê fazer. E o mais fácil pode ser sucumbir ao estado de marionete consciente. Como se a revolta secreta dos fracos fosse aceitar a correnteza que os leva olhando com raiva para o rio. Eu sei que estou sendo levado, pelo menos não me debato mais e o meio sorriso desencantado no rosto é meu protesto silencioso.
Bem. Aí está a marionete. Pés, mãos, cabeça articulados. Ela é presa por cordas. Existe uma tesoura. Se cortar as cordas, o que acontece? Terá a marionete forças para seguir sem um condutor?
Quando a água pinga na madeira ela cria bolor e apodrece.
Se nem o condutor faz sentido, melhor o risco de cair.
Ou não?

terça-feira, 8 de julho de 2008

Ninguém se lembra do Léon Werth


"A Léon Werth


Peço desculpa às crianças por ter dedicado este livro a uma pessoa crescida.

Tenho uma boa desculpa: essa pessoa crescida é o melhor amigo que tenho no mundo.

Tenho ainda uma outra desculpa: essa pessoa crescida é capaz de compreender tudo, mesmo os livros para crianças. Tenho uma terceira desculpa: essa pessoa crescida vive na França, onde passa fome e frio. E precisa ser consolada. Se todas estas desculpas não forem suficientes, quero então dedicar este livro à criança que essa pessoa crescida um dia foi.

Todas as pessoas crescidas começaram por ser crianças. (Embora poucas se recordem disso.)

Por isso, corrijo a minha dedicatória:


A Léon Werth

quando ainda era uma criança.

Antoine de Saint-Exupéry"


A melhor coisa do livro que virou livro de misses não é o "tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas" nem a história dele desenhar um chapéu que na verdade era uma cobra que engoliu um elefante.


É a dedicatória ao amigo distante que um dia foi uma criança e a lembrança de que todos começamos por aí. Quem sabe uma esperança de que não matemos a criança dentro de nós.


Parece piegas mas a "vida de gente grande" atropela as coisas, como um trator.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

"Troll, basta-te a ti mesmo!"

"PEER
Deixa essa história de príncipe pra lá e vamos ao que interessa. Por bem ou por mal, a Rainha quis falsear a minha vista, e fazer uma incisão na minha córnea para transformar-me num troll. E eu, o que fiz? Resisti, jurei que nunca deixaria de ser quem eu era! Renunciei a tudo – ao amor, ao poder, às honrarias – para continuar a ser eu próprio, para ser fiel a mim mesmo. Pois bem, é isso que deve confirmar sob juramento no tribunal –
VELHA
Ah, mas isso eu não posso fazer.
PEER
Como assim? (...)
VELHA
Ao deixar o palácio, Vossa Senhoria partiu com a nossa divisa gravada dentro de si.
PEER
Qual divisa?
VELHA
Aquela frase cortante e definitiva, que distingue os homens dos trolls: “Basta-te a ti próprio!”
(...) Desde então adotou esse lema, com todo o empenho da sua alma.
PEER
Eu? Peer Gynt?!
VELHA (Chorando)
Ah, que ingrato! Você viveu sempre como um troll, embora não contasse o segredo a ninguém. Foi a nossa divisa que lhe abriu os caminhos na vida, foi ela que lhe deu riqueza, poder e opulência. (...)"

Final das apresentações do Peer Gynt ontem.
Na foto, "as inglesinhas" com Peer, em um dos seus vislumbres de grandeza.
Cada vez mais os links que a peça possui ficam claros, assim como a crítica ao individualismo da época (da época?)...
Parabéns e obrigado a todos.
Que a gente consiga não viver como um Troll...

sábado, 5 de julho de 2008

Lázaro


A profunda influência da redenção em nossas vidas.

O perdão dos pecados, a transcendência, a ressurreição.

Muita gente criticou por exemplo o caráter redencionista de alguns textos Românticos e mesmo Realistas, no teatro.


Coisas como Ibsen.


O acerto de contas com as personagens que surgem do passado. O acerto de contas com o passado. Que quase sempre leva a uma redenção final, ainda que esta não seja necessariamente uma forma de começar de novo. Às vezes é um fim. O encontro da situação limite final.


A questão é que se a gente pudesse pegar essa referência cristã descolando-a de uma sistema de crenças e assumí-la como uma espécie de mitologia ocidental da qual fazemos parte tudo seria mais fácil de assimilar ou negar, sem o peso de uma "religião institucionalizada". Os renascentistas fizeram arte à partir disso. Se acreditavam ou não naquilo, não importa - a potência mítica e de comunicação que este universo possui foi um trampolim para grandes obras.


A imagem acima por exemplo é uma pintura de Caravaggio sobre a Ressurreição de Lázaro.
O sujeito estava morto à dias e foi ressuscitado assim, na lata. Imagine você destruído ali, a lepra comendo solta o que sobrou da sua carcaça e alguém diz "levanta e anda" e você... Sai da cova, feliz e contente.
Não, não virei evangélico nem me converti aos Gideões Internacionais. Mas se a gente pegar isso tudo num nível simbólico, temos um exemplo maravilhoso da "ressurreição", "reinventar-se". Como se houvesse um "Cristo interno", nossa própria capacidade de auto-salvação.
Salvação - o que quer que seja - está ligada a essa capacidade. De reencontrar o caminho para a luz. O que quer que ela seja. Não com alguém fora de nós mesmos. Ou até com coadjuvantes importantes nesse processo. Mas que não dão a "benção final" nele.
Lázaro diz o "dá-me tua mão" segurando uma na outra.
Anastasis.
Pronto, agora posso colocar no orkut "tenho um lado espiritual independente de religiões".

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Fragments

Eu não assisto peças para não gostar delas.
Também não entro no teatro aplaudindo antes. Não entro aplaudindo nem vaiando antes da peça começar. E fui ao SESC Santana para ver o Beckett do Peter Brook.
Gosto da simplicidade, como quem assiste quase um ensaio, não um espetáculo nos moldes tradicionais de uma produção teatral. Gosto de despojamento do espaço vazio, da ausência de chapéus coco e maquiagem pálida, gosto dos atores de diferentes nacionalidades.
Se disser do que não gosto conto a peça para quem ainda não viu - ela estreou hoje - e como esse blog é extremamente visitado (coisa de duas ou três pessoas por dia, num bom dia) não decepcionarei vocês. Ok, isso foi uma piada.

Prestem atenção em "Rockaby" (cadeira de balanço, a segunda peça curta).
Eu vi a Sophia Micopoulo fazendo a mesma cena, dirigida pelo Terzopoulos. Maravilhosa.
Foi bom reencontrar o texto. Ver outra leitura dele. Relembrar momentos.
Acho que isso estalebece uma relação afetiva com o "Rockaby". Mas mesmo assim, acho que é o melhor momento da peça do Brook.

Nesse meio tempo contagem regressiva para "Peer Gynt" amanhã (hoje).
Reflexões com os Imaginários sobre Hamlet, processos e afins.
Papo com Juliana Jardim sobre Brook e outras coisas.
No meio, a lembrança de um sonho:

O sujeito entra em uma caverna. Anda dentro dela e encontra um buraco no chão, com uma escada daquelas verticais, de ferro. Vai descendo por ela até o final, onde está totalmente escuro e, ao largar a escada, há uma espécie de lago onde ele nada. Tudo escuro. Ele quer voltar mas não encontra mais a escada com a mão.

O que isso tem a ver com o Beckett?
Não sei. Tem?

Até outro dia (amanhã?) depois da estréia do Peer.
Acho bom dormir um pouco. Ou coisa parecida.

terça-feira, 1 de julho de 2008

"... porque a vida sem ternura não é lá grande coisa. Às vezes sou feliz na minha ternura, às vezes me engano, o que é mais comum."


Assito "O Meu Pé de Laranja Lima" encenado por alunos, ex-alunos meus.
Me lembro de ter lido esse livro quando criança. José Mauro de Vasconcelos. Que deve ter feito surgir uma geração depressiva tanto quanto o Goethe inaugurou uma onda de suicídios com o "Werther". É triste que dói. E tinha mais. Tinha "O Veleiro de Cristal", "Doidão", "Rosinha, minha Canoa". Alguns da "Coleção Vagalume". Outros não. Todos muito, muito tristes.
Vendo a peça me lembro do livro e me lembro da infância. Que eu ainda quero crer não há muito tempo atrás. Nunca tive uma árvore no quintal para subir - aliás nunca tive quintal - muito menos conversei com ela. Nem apanhei tanto quanto o Zezé, coitado... Mas cada um tem suas lembranças, e a vida da gente guarda sempre coisas bonitas e coisas tristes, com saudade ou revolta, que ficam por aí, dentro.
Ao final, vem o depoimento sobre a "ternura da vida".
Ternura da vida era o português meio carrancudo dar figurinhas para a criança.
Ternura da vida era a mãe fazer serão para comprar um terninho para o filho.
Ternura da vida era o pai pobre se envergonhar disso quando o filho não ganha presente de natal.
Ternura da vida era o filho trabalhar de engraxate para comprar um maço de cigarro de presente para o pai.
E hoje, o que é, aqui e agora, ternura da vida?
Palavra que liga-se com "carinho, leveza e meiguice".
"... a vida sem ternura não é lá grande coisa. Às vezes sou feliz na minha ternura, às vezes me engano, o que é mais comum."
Mesmo se enganando, a vida sem ternura não é lá grande coisa.
Já dizia o Zé Mauro.