
A ficção é um retrato em preto e branco da realidade. Tudo o que você assiste no cinema, na televisão, no teatro, tudo o que você lê nos livros e duvida - no estilo "que absurdo, como alguém pode fazer isso na vida real - é possível sim, o ser humano é mestre em ir além. Para bem e para mal. O que deveria durar morre, o que deveria passar logo permanece.
Ontem andei e vi pessoas pela rua. Vi os bolivanos que vendiam bugigangas ao lado do metrô. Vi um cachorro estranho. Vi uma moça que se equilibrava em um salto. Vi lugares que fazia tempo que não vi e vi o tempo que passou e deixou os lugares iguais mas a vida diferente. Vi quatro casais diferentes se encontrando de quatro formas diferentes no meio da rua, vi uma mãe carregando um menino de um jeito inusitado ao atravessar a rua, vi a lua no final da tarde, vi a minha imagem refletida nos vidros e espelhos das fachadas. Vi os olhos da moça de cabelo comprido, vi um prato de comida pela metade, vi a correria de um dia "útil".
E o que me deixou triste foi o que não pude ver mais.
Estave ali, eu sei, esteve ali.
Mas não vi mais.
Ai fim do dia, brindemos ao Dr. Stockman.
Como diriam os pescadores, melhor rodar o dourado que apoitar.
(A foto é uma homenagem a coisas que sumiram no fundo branco. Até um gato, que um dia caiu da janela.)
Um comentário:
Todo dia eu vejo uma cena na rua ou escuto uma história de amigo (devidamente aumentada em pontos) que merece o comentário: "se eu colocasse isso num filme iam dizer que é absurdo". Somos mesmo uns absurdos. Para escrever algo que não pareça realismo fantástico ou um filme do Almodovar tenho que limpar, e não criar. É isso aí.
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