segunda-feira, 21 de julho de 2008

Pensamentos difusos ou voltando das férias de uma semana


1 - Maringá é longe. Contando o trajeto até o real destino (Porto 18), mais três horas depois de Maringá). Uns mil quilômetros. Coisa de oito horas de viagem. Tempo de sobra para pensar na vida, mais uma natureza ao seu redor com direito à pesca, rio, sinal nulo no celular, quebra completa da rotina de São Paulo. Uma lua maravilhosa e um céu que de novo nos lembra que sim, existem estrelas. E horizonte. E você não é melhor do que eu só porque está cansado de saber disso. Depois de trabalhar um semestre todo sem ter um dia inteiro livre, eu tinha me esquecido, sim.
2 - A pesca vale a pena mesmo quando você não sabe pescar ou acabou de "aprender" ou a época não é própria e você não pegou nada. O ritual de acordar cedo, colocar um barco na água do rio Paraná e ficar horas ali no meio da água esperando por um peixe que tenha a dignidade de se deixar pescar é algo epifânico. De verdade. Mesmo sem evocar Guimarães Rosa, a gente se sente um pouco comungando com outro um mundo. De terra, água, pé no chão, de sem-tempo, de planta e de sol.
3 - Só hoje no caminho de volta que eu prestei atenção, pela primeira vez, na letra todinha do "Yesterday" dos Beatles. Não vou colocar aqui, é muito fácil fazer uma busca no google e pegar a tradução. Vai lá. É daquelas coisas que estão tão coladas no nosso imaginário que a gente nem se dá conta do que ela realmente fala. Voltando para São Paulo então foi um baque.
4 - E agora a Lei Rouanet quer que especifiquemos um "autor" para um projeto que gira em torno de uma obra de domínio público trabalhada em um espetáculo sem texto. Não sei se ligo para o Cervantes ou se faço coro com a Aline no "Digitando" e mando eles lerem com cuidado a coisa. Será que no Ministério da Cultura o povo precisa ser alfabetizado de novo?
5 - Como o tópico anterior dá a pista, estréio o "Quixote" no dia 09 de agosto. Estréio não, estreamos. Em São Paulo, finalmente. Para uma temporada aos sábados e domingos, no Denoy de Oliveira. Mais informações semana que vem, aqui, no orkut, no site da companhia, etc... E espero que na imprensa em geral também, óbvio...
6 - A luz cortada voltou de vez. Ufa.
7 - Preciso ser mais organizado com contas, documentos e afins.
8 - Leituras dos últimos dias: "A Casa de Rosmer" e "O Pato Selvagem" para ver se tenho uma luz sobre a pesquisa do Ibsen (de repente isso vira uma tese de doutorado se, de acordo com o item anterior, eu achar todos os documentos que preciso para me inscrever...) e "Água Viva". Quanto mais leio Clarice, mesmo adorando o que leio, mais gosto do "G.H.". Me desculpem os entusiastas de "Uma Aprendizagem", "Água Viva" e "A Hora da Estrela". Acho que isso rende um trabalho ainda esse ano.
9 - Morreu a Dercy Gonçalves. Eu achava que ela tinha sido esquecida aqui, que não morria mais. Mais falando sério, por que alguma rede de televisão não aproveita a chance de fazer uma homenagem decente mostrando os trabalhos antigos dela, como uma retrospectiva inclusive de outros tantos que ajudaram a formar o nosso teatro e televisão? A mulher não era só uma velha louca que falava palavrões. Bem ou mal, uma parte da nossa história estava ali.
10 - Na parada da estrada vejo o menino que perdeu um braço, depois de ser socorrido pelos bombeiros - ele ficou preso nas ferragens de um caminhão. Por pouco não morre. Claro que na periferia. Claro que pobre. Sobreviveu. É coincidência ou essas coisas só acontecem em locais menos favorecidos? O menino que provavelmente nunca lerá Ibsen ou Clarice. Se é que vai aprender a ler. Mas sem demagogia, é preciso acreditar que Ibsen e Clarice possam fazer alguma coisa, ainda que indiretamente, por ele. E por tantos outros. Não sei como. Mas eu ainda tenho a esperança, como o moço da peça que usa pijama e um escorredor de macarrão na cabeça, de que transformar uma única pessoa que seja - mas verdadeiramente - pode ser mais forte que mover uma multidão por um instante apenas, se for por raiva ou cegueira. Isso é sério.
(Foto: uma imagem da lua, que uma dia esteve no antigo fotolog, na falta de fotos fresquinhas da viagem ainda não encaminhadas para mim)

2 comentários:

Aline Baba disse...

Até eu fiquei com inveja da pescaria...
Um celular com sinal zero e a não-internet faraim toda diferença na minha vida pós susto de Ecad e Rouanet..

bom...

day after day

Leco Vilela disse...

Bom, eu não sou fã de Beatles, nunca pulei de felicidade pra assistir um musical, mas adimito batendo no peito "Across into the Universe" é um dos filmes mais lindos que eu já assisti, seja pela direção de arte e fotografia, seja pelo "não-material" que pra mim fica presente no filme todo!... enfim, aproveita que a luz voltou e assiste ;)