
Fui ontem assistir o "Vereda da Salvação" na São Judas, TCC orientado pela Ju Jardim. Esta foto não tem nada a ver com o "Vereda"; é uma das tiradas pela Eli no ensaio da Sonata dos Espectros.
Stridberg e Jorge Andrade têm pouco a ver, claro. Mas fiquei pensando muito no porquê montar alguns textos, por que Vereda, por que Sonata. Aliás estou montando o "Vereda" no Macunaíma também e é sempre curioso perceber como outro grupo (ia escrever coletivo mas acho que essa palavra ficou muito "na moda", dá uma certa preguiça) leu o mesmo texto.
Existe uma saída?
Jorge Andrade faz um retrato da exclusão e do fanatismo. Da dor de quem já não tem mais nada a perder. De uma "Vereda da Salvação" que não leva à salvação mas ao aniquilamento. Mas há salvação? Salvação de quê?
Hoje relembrava uma frase sobre o processo de análise: "a função da terapia é devolver ao paciente a consciência tranquila de que ele é responsável por sua própria vida". Consciência tranquila. Necessidade de salvar-se si mesmo. Será isso?
Strindberg escreveu a "Sonata" quando as dores do câncer no fígado apareciam. Talvez achasse que seria sua última obra. Não foi, mas foi a última obra-prima. Há uma saída? Os ecos de um misticismo oriental e do espiritualismo europeu do início do século XX estão ali. Assim como um sentido de transcendência. Nunca fácil, nunca com a dor ausente.
Estilos e épocas ligam-se não pela estética, mas pelo "fundo falso": existe saída? Andrade alerta para os descaminhos, Strindberg ainda crê em um caminho, mesmo que tortuoso, talvez Joaquim lesse a Sonata com prazer mesmo que com olhar equivocado.
Mas esquecendo de você que lê: e eu? Onde eu entro nisso tudo? Caminho de Veredas e Sonatas, por que escolher isso tudo? Porque acho que ainda deve haver um caminho perdido e se escapar dos Joaquins, Dolores, Geraldos, Conceições, Pedros, Hummels, Johanssons, Bengtssons, Múmias e afins ainda posso encontrar uma Adele que não morra ao final, uma Artuliana que não morra ao final e reinventar a história.
Uma história que independe de uma Adele ou de uma Artuliana, mas que abra uma porta, uma janela, uma saída para o limbo em que essas personagens - tanto do Vereda quanto da Sonata - vivem.
Sem tiros, sem Budas, sem mortes ao final.
Perdão. Perdão para todos os irmãos presentes e os irmãos ausentes.
Perdoar-se. A si mesmo. Talvez essa seja a Vereda da Salvação.
Claro que com gosto de despedida e de memória, ainda mais ali. Um sentido simbólico que se completa com a outra Vereda, dias 01,02 e 03. Talvez um sentido de renovação.
Na foto, a leiteira anda por um caminho - uma vereda? - tortuoso de velas, observada pela Múmia, ao fundo.




