Provavelmente a frase mais conhecida de Dostoiévski seja “se Deus não existe, tudo é permitido”, de Os Irmãos Karamázov. Dizem que foi inspiração até para o Nelson Rodrigues e seu “o mineiro só é solidário no câncer”, em Bonitinha, mas Ordinária.
Vem o Sartre anos depois e manda uma bomba: “o Homem está condenado a ser livre”. Juntando as idéias todas, podemos pensar no seguinte: se não há um “legislador” acima de nós pesando nossas ações, nem uma “missão” ou “destino” pré-definido, cabe a nós mesmos legislar sobre a nossa vida e fazer nossas próprias escolhas. O sentido da vida é construído e mantido por nós. Sem prêmio nem castigo, a liberdade requer responsabilidade.
Liberdade exige responsabilidade. Ou seja, não é simplesmente um direito, é um dever também. Uma outra frase de traseira de caminhão, adesivo de janela, blog e site de auto-ajuda nos lembra: “A liberdade se conquista”.
Quis dizer tudo isso não para filosofar sobre a vida nem levantar a bandeira do Existencialismo. Não creio nem descreio na metafísica do mundo e não é sobre tema tão abragente que me deu vontade de escrever. Apenas relacionei tudo isso com o trabalho em teatro.
Das máximas do teatro do nosso tempo: processo colaborativo, criação coletiva, ator criador...
Eu por exemplo entendo criação coletiva e processo colaborativo como duas coisas distintas, ainda que relacionadas. “Criação Coletiva” me parece um modelo nascido na década de 1960, onde um coletivo de pessoas criavam um produto final fruto da colaboração de todos, sem muita distinção entre as funções. “Processo Colaborativo”, para mim, é um desenvolvimento desse modelo, onde ainda persistem as funções: existe um diretor, um dramaturgo, existem atores – e a palavra final sobre a criação, embora esta reflita sobre a interferência de todos, é daquele a quem compete sua especificidade: por exemplo, atores e diretor podem opiniar sobre o texto e sugerir coisas, mas existe uma versão definitiva a ser redigida e a conclusão deste é da competência do dramaturgo.
A questão das “competências” é fundamental. Diferentes olhares são positivos e bem vindos, mas existe alguém que realmente se interessa sobre aquela especificidade, que norteia seu olhar mais vertical, não generalizante, sobre aquele foco, que detém conhecimento técnico, histórico e prático naquela área, que é guiado não somente pelo “gosto pessoal”. Em resumo, que é mais competente naquele assunto. Não acredito que uma decisão, em arte, por ser “democrática”, é necessariamente a melhor. Não acredito em decidir “criação” por voto. Posso dar um norte como diretor a respeito da concepção de um trabalho, para definir uma linha estética, mas determinadas questões relacionadas à cenografia, figurinos, iluminação chegam a um nível em que é o cenógrafo, o figurinista e o iluminador que dão – e devem dar – a palavra final. Da mesma forma, posso pedir algo a um ator e ele me mostrar um caminho outro, vindo da sua própria idiossincrasia como pessoa, que me revele algo muito melhor do que eu havia concebido. E através da prática, do corpo vivo em cena, é ao ator que compete a palavra final sobre a composição do seu “estar-em-cena”.
A colaboração em um processo de criação não é somente um direito, é um dever, que envolve estudo, reflexão, muita prática. Dou minha opinião sobre algum ponto do trabalho a ser desenvolvido porque refleti sobre aquilo, não simplesmente porque “gosto”, porque “acho legal”, ou pior ainda, porque é “minha idéia”. Dou minha opinião porque acredito que é o mais coerente, o mais adequado, a escolha que dará maior contribuição ao trabalho. Dar uma opinião é responsabilidade, não exercício de um direito sagrado. Se eu não sou competente ou ignoro o assunto, a melhor contribuição é ficar calado.
Ator criador não é aquele que simplesmente quer fazer aquilo que mais lhe agrada. É aquele que se joga, que testa, que não coloca barreiras, que se doa muito para, retornando desse espaço árido e sofrido, propor algo que valha à pena.
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Do direito sagrado de dar minha opinião à responsabilidade em só abrir a boca quando tiver algo que valha a pena dizer...
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Sobre o calor e outros bichos

- Já reparou como as pessoas hoje não usam mais relógio?
- Como assim?
- É, está virando obsoleto, quase todo mundo vê as horas no celular.
- Entendi. E aí toda a vez que quer consultar as horas tem que tirar do bolso, ou da mochila, da bolsa... Muito prático.
- Você que é um escravo do tempo.
- Ah sim. Será que a gente vive na mesma cidade?
- Além do mais, com esse calor, a gente sua embaixo da pulseira.
- Bom, a gente sua embaixo de muita coisa e nem por isso tira tudo.
(...)
- Aqui está parecendo o Sahara.
- Com a diferença de que no Sahara esfria à noite.
(...)
- Uma atriz amiga minha comentou sobre a peça que ela faz sublinhando a proeza que é usar um sobretudo em cena nesse calor.
- Uma atriz amiga minha comentou sobre uma peça que fazia em que ela se molhava inteira num frio desgraçado.
- Um ator que eu conheço reclamou que na peça que ele está ensaiando tem muito texto para decorar.
- Um aluno de uma das turmas que eu dou aula reclamou que tem pouco texto.
- Essa gente de teatro nunca está satisfeita ou é impressão?
- Dá tempo de prestar Medicina?
(...)
- Por que eu não posso trabalhar de bermuda se as mulheres aqui podem usar saia?
- Sua perna é peluda.
- Entendi. A outra saída é depilar, então?
(...)
- Seu banheiro fica pronto até sexta mais ou menos.
- Xi, mas sexta é feriado.
- Hum... É, no feriado a gente não trabalha.
- Então semana que vem. Segunda, mais ou menos?
- Xi... Tem um outro cano aqui que é da coluna do prédio, está podre, olha... Se deixar assim daqui a pouco você tem que quebrar tudo de novo.
- Entendi. Nesse meio tempo eu compro mais areia para o gato e uso eu mesmo uma caixinha. Maravilha.
(...)
- Está difícil dormir nesse calor.
- Deixa a janela aberta.
- Entra claridade.
- A porta.
- E o barulho da rua?
- Já pensou em se matar?
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
16/11/2009
São quase dez horas e portanto, tecnicamente, ainda tenho duas horas e quarenta e cinco minutos com minha idade atual antes de completar aniversário.
Não sei se o dia do aniversário realmente é diferente dos outros, acho que quem faz com que ele seja diferente são as pessoas se lembram disso, e/ou as que não se lembram disso.
Eu fico com o Vinícius, de novo.
E o Soneto de Aniversário:
Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.
Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.
Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.
E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.
Não sei se o dia do aniversário realmente é diferente dos outros, acho que quem faz com que ele seja diferente são as pessoas se lembram disso, e/ou as que não se lembram disso.
Eu fico com o Vinícius, de novo.
E o Soneto de Aniversário:
Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.
Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.
Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.
E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
A Vereda da Salvação

Fui ontem assistir o "Vereda da Salvação" na São Judas, TCC orientado pela Ju Jardim. Esta foto não tem nada a ver com o "Vereda"; é uma das tiradas pela Eli no ensaio da Sonata dos Espectros.
Stridberg e Jorge Andrade têm pouco a ver, claro. Mas fiquei pensando muito no porquê montar alguns textos, por que Vereda, por que Sonata. Aliás estou montando o "Vereda" no Macunaíma também e é sempre curioso perceber como outro grupo (ia escrever coletivo mas acho que essa palavra ficou muito "na moda", dá uma certa preguiça) leu o mesmo texto.
Existe uma saída?
Jorge Andrade faz um retrato da exclusão e do fanatismo. Da dor de quem já não tem mais nada a perder. De uma "Vereda da Salvação" que não leva à salvação mas ao aniquilamento. Mas há salvação? Salvação de quê?
Hoje relembrava uma frase sobre o processo de análise: "a função da terapia é devolver ao paciente a consciência tranquila de que ele é responsável por sua própria vida". Consciência tranquila. Necessidade de salvar-se si mesmo. Será isso?
Strindberg escreveu a "Sonata" quando as dores do câncer no fígado apareciam. Talvez achasse que seria sua última obra. Não foi, mas foi a última obra-prima. Há uma saída? Os ecos de um misticismo oriental e do espiritualismo europeu do início do século XX estão ali. Assim como um sentido de transcendência. Nunca fácil, nunca com a dor ausente.
Estilos e épocas ligam-se não pela estética, mas pelo "fundo falso": existe saída? Andrade alerta para os descaminhos, Strindberg ainda crê em um caminho, mesmo que tortuoso, talvez Joaquim lesse a Sonata com prazer mesmo que com olhar equivocado.
Mas esquecendo de você que lê: e eu? Onde eu entro nisso tudo? Caminho de Veredas e Sonatas, por que escolher isso tudo? Porque acho que ainda deve haver um caminho perdido e se escapar dos Joaquins, Dolores, Geraldos, Conceições, Pedros, Hummels, Johanssons, Bengtssons, Múmias e afins ainda posso encontrar uma Adele que não morra ao final, uma Artuliana que não morra ao final e reinventar a história.
Uma história que independe de uma Adele ou de uma Artuliana, mas que abra uma porta, uma janela, uma saída para o limbo em que essas personagens - tanto do Vereda quanto da Sonata - vivem.
Sem tiros, sem Budas, sem mortes ao final.
Perdão. Perdão para todos os irmãos presentes e os irmãos ausentes.
Perdoar-se. A si mesmo. Talvez essa seja a Vereda da Salvação.
Claro que com gosto de despedida e de memória, ainda mais ali. Um sentido simbólico que se completa com a outra Vereda, dias 01,02 e 03. Talvez um sentido de renovação.
Na foto, a leiteira anda por um caminho - uma vereda? - tortuoso de velas, observada pela Múmia, ao fundo.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
"A Bronca do Antunes"

Na foto, Carolina Costa em "A Sonata dos Espectros", clicada pela Eli.
Uma das coisas mais geniais do Facebook é "A Bronca do Antunes". Dá para imaginar ele gritando, chacoalhando as mãos e soltando as pérolas como "é o vagalume!", "vai comprar eletrodomésticos!" e outros bichos...
Dá vontade as vezes de ter a clareza chula de através de um comentário tosco desses conseguir passar a indignação com certas coisas que se faz no palco.
Listando:
- Como diria Beth Lopes, teatro não é lugar de se "ser feliz". É sofrido! Claro que a gente gosta, mas tem um lado que não é parque de diversão não: é dedicação, estudo, horas e horas focadas naquele trabalho quando se poderia estar em qualquer outro lugar fazendo qualquer outra coisa, especialmente quando se precisa ter a humildade de saber-se EM FORMAÇÃO;
- Texto - a pessoa reclama que tem pouco texto mas não decora nem o que tem, não estuda a proposta para poder propor, acha que tudo ou é "prêmio" ou "castigo". Dá vontade de fazer só peça sem texto, principalmente em se tratando de escola. Será um problema de ego ou de falta de compreensão mesmo?
- Preguiça máxima de quem delega a responsabilidade total para o diretor, no melhor estilo "se a peça for boa o mérito é dos atores, se for ruim a culpa é do diretor." Proponha alguma coisa! Seja co-criador, não seja chato!
Desabafo sobre a total falta de sensibilidade artística de alguns. Pelo menos se houvesse humildade em se colocar como alguém em processo de aprendizagem, ou ao menos de curiosidade, ok.
Carolina Costa e a "Sonata" não tem nada a ver com isso, só achei a foto boa mesmo.
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Vá assistir "AquiFora", com a Cia. OPOVOEMPÉ.
Até o final de outubro, 16h, saindo da Galeria Olido, no Centro, às terças e quartas.
Lembre-se das sondas Voyager 1 e 2:
"As duas sondas carregam consigo um disco (e a respectiva agulha) de cobre revestido a ouro, contendo uma apresentação para outras civilizações, com 115 imagens (onde estão incluídas imagens de pescadores portugueses e a Grande Muralha da China, entre outras), 35 sons naturais (vento, pássaros, água ...) e saudações em 55 línguas, incluíndo Português. Foram também incluídos excertos de música étnica, de obras de Beethoven e Mozart e "Johnny B. Goode" de Chuck Berry."
domingo, 4 de outubro de 2009
Mais sobre o Trágico

Estava eu discutindo com um amigo há dias atrás sobre relações.
Ele tem uma postura um tanto quanto niilista da coisa enquanto que eu vivo fases que não posso chamar de "românticas" porque hoje em dia traduzir este adjetivo como "emo" não é muito difícil. E me desculpem os "emos" mas ser "emo" é um tanto quanto patético.
Ontem me veio na cabeça a idéia de que se o herói trágico enfrenta o destino mas no fundo possui a consciência de que vai se dar mal, de que esta é uma luta inglória, meu amigo na realidade possui uma concepção trágica do amor.
Coisas como "esperando o próximo erro".
Sabe que o pessimismo dele acabou se tornando mais substancioso?
Será que ainda dá tempo de cultivar uma concepção trágica das relações?
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