quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A Vereda da Salvação



Fui ontem assistir o "Vereda da Salvação" na São Judas, TCC orientado pela Ju Jardim. Esta foto não tem nada a ver com o "Vereda"; é uma das tiradas pela Eli no ensaio da Sonata dos Espectros.
Stridberg e Jorge Andrade têm pouco a ver, claro. Mas fiquei pensando muito no porquê montar alguns textos, por que Vereda, por que Sonata. Aliás estou montando o "Vereda" no Macunaíma também e é sempre curioso perceber como outro grupo (ia escrever coletivo mas acho que essa palavra ficou muito "na moda", dá uma certa preguiça) leu o mesmo texto.
Existe uma saída?

Jorge Andrade faz um retrato da exclusão e do fanatismo. Da dor de quem já não tem mais nada a perder. De uma "Vereda da Salvação" que não leva à salvação mas ao aniquilamento. Mas há salvação? Salvação de quê?
Hoje relembrava uma frase sobre o processo de análise: "a função da terapia é devolver ao paciente a consciência tranquila de que ele é responsável por sua própria vida". Consciência tranquila. Necessidade de salvar-se si mesmo. Será isso?

Strindberg escreveu a "Sonata" quando as dores do câncer no fígado apareciam. Talvez achasse que seria sua última obra. Não foi, mas foi a última obra-prima. Há uma saída? Os ecos de um misticismo oriental e do espiritualismo europeu do início do século XX estão ali. Assim como um sentido de transcendência. Nunca fácil, nunca com a dor ausente.

Estilos e épocas ligam-se não pela estética, mas pelo "fundo falso": existe saída? Andrade alerta para os descaminhos, Strindberg ainda crê em um caminho, mesmo que tortuoso, talvez Joaquim lesse a Sonata com prazer mesmo que com olhar equivocado.

Mas esquecendo de você que lê: e eu? Onde eu entro nisso tudo? Caminho de Veredas e Sonatas, por que escolher isso tudo? Porque acho que ainda deve haver um caminho perdido e se escapar dos Joaquins, Dolores, Geraldos, Conceições, Pedros, Hummels, Johanssons, Bengtssons, Múmias e afins ainda posso encontrar uma Adele que não morra ao final, uma Artuliana que não morra ao final e reinventar a história.

Uma história que independe de uma Adele ou de uma Artuliana, mas que abra uma porta, uma janela, uma saída para o limbo em que essas personagens - tanto do Vereda quanto da Sonata - vivem.

Sem tiros, sem Budas, sem mortes ao final.

Perdão. Perdão para todos os irmãos presentes e os irmãos ausentes.
Perdoar-se. A si mesmo. Talvez essa seja a Vereda da Salvação.

Claro que com gosto de despedida e de memória, ainda mais ali. Um sentido simbólico que se completa com a outra Vereda, dias 01,02 e 03. Talvez um sentido de renovação.

Na foto, a leiteira anda por um caminho - uma vereda? - tortuoso de velas, observada pela Múmia, ao fundo.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

"A Bronca do Antunes"



Na foto, Carolina Costa em "A Sonata dos Espectros", clicada pela Eli.

Uma das coisas mais geniais do Facebook é "A Bronca do Antunes". Dá para imaginar ele gritando, chacoalhando as mãos e soltando as pérolas como "é o vagalume!", "vai comprar eletrodomésticos!" e outros bichos...

Dá vontade as vezes de ter a clareza chula de através de um comentário tosco desses conseguir passar a indignação com certas coisas que se faz no palco.
Listando:

- Como diria Beth Lopes, teatro não é lugar de se "ser feliz". É sofrido! Claro que a gente gosta, mas tem um lado que não é parque de diversão não: é dedicação, estudo, horas e horas focadas naquele trabalho quando se poderia estar em qualquer outro lugar fazendo qualquer outra coisa, especialmente quando se precisa ter a humildade de saber-se EM FORMAÇÃO;

- Texto - a pessoa reclama que tem pouco texto mas não decora nem o que tem, não estuda a proposta para poder propor, acha que tudo ou é "prêmio" ou "castigo". Dá vontade de fazer só peça sem texto, principalmente em se tratando de escola. Será um problema de ego ou de falta de compreensão mesmo?

- Preguiça máxima de quem delega a responsabilidade total para o diretor, no melhor estilo "se a peça for boa o mérito é dos atores, se for ruim a culpa é do diretor." Proponha alguma coisa! Seja co-criador, não seja chato!

Desabafo sobre a total falta de sensibilidade artística de alguns. Pelo menos se houvesse humildade em se colocar como alguém em processo de aprendizagem, ou ao menos de curiosidade, ok.

Carolina Costa e a "Sonata" não tem nada a ver com isso, só achei a foto boa mesmo.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009



Vá assistir "AquiFora", com a Cia. OPOVOEMPÉ.
Até o final de outubro, 16h, saindo da Galeria Olido, no Centro, às terças e quartas.

Lembre-se das sondas Voyager 1 e 2:

"As duas sondas carregam consigo um disco (e a respectiva agulha) de cobre revestido a ouro, contendo uma apresentação para outras civilizações, com 115 imagens (onde estão incluídas imagens de pescadores portugueses e a Grande Muralha da China, entre outras), 35 sons naturais (vento, pássaros, água ...) e saudações em 55 línguas, incluíndo Português. Foram também incluídos excertos de música étnica, de obras de Beethoven e Mozart e "Johnny B. Goode" de Chuck Berry."

domingo, 4 de outubro de 2009

Mais sobre o Trágico



Estava eu discutindo com um amigo há dias atrás sobre relações.
Ele tem uma postura um tanto quanto niilista da coisa enquanto que eu vivo fases que não posso chamar de "românticas" porque hoje em dia traduzir este adjetivo como "emo" não é muito difícil. E me desculpem os "emos" mas ser "emo" é um tanto quanto patético.

Ontem me veio na cabeça a idéia de que se o herói trágico enfrenta o destino mas no fundo possui a consciência de que vai se dar mal, de que esta é uma luta inglória, meu amigo na realidade possui uma concepção trágica do amor.

Coisas como "esperando o próximo erro".
Sabe que o pessimismo dele acabou se tornando mais substancioso?
Será que ainda dá tempo de cultivar uma concepção trágica das relações?

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Eros e Tanatos

Estava assistindo "Café Filosófico" com o Luiz Felipe Pondé, filósofo e meu ex-professor de Filosofia na FAAP (sim, cursei Cinema por dois anos em parcas eras, na época em que a FAAP ainda não havia se tornado um bunker da classe AAA) e o assunto era justamente o Trágico.

O herói trágico subverte pela coragem, única qualidade que resta em um mundo onde sabe-se que o destino irá prevalecer ao final. Ou seja, a luta contra ele é inglória. A Tragédia como oposto da Utopia.

Entretanto, vale a pena enfrentar esta luta, mesmo que perdida desde o início. Lembrei-me do texto de Camus sobre Sísifo, aquele que foi condenado a levar, eternidade à fora, uma pedra até o topo de uma montanha, para vê-la cair rolando e começar tudo de novo.

A condição do herói é justamente esta: lutar a luta perdida do destino.

Mas o destino nos impõe esta luta: um conflito eterno entre Eros e Tanatos, a pulsão de vida e de morte.

No final das contas é a catarse: só nos resta dizer sim à vida, com todos os seus elementos de dor e prazer...

sábado, 26 de setembro de 2009

Antes da Tempestade

Ele sabia que a calmaria não iria durar muito.
Os céus começavam a encher-se de nuvens negras - cumulus nimbus, diria o velho - no prenúncio de uma nova tempestade. Não, não parecia uma daquelas tormentas para as quais se pode estar preparado. Olhou as próprias roupas e não sentiu-se nem um pouco protegido; antes, imaginou-se encharcado, coisa que aconteceria, com certeza, em poucos minutos, horas se tivesse um pouco de sorte.
Sem abrigo à vista. Sem proteção.

O velho não estava lá. Como todo bom filósofo de plantão, o grande filho da puta deveria estar em algum lugar por perto, bem resguardado, observando o cataclisma se formar de algum ponto privilegiado. Ver o circo pegar fogo de camarote.

Talvez coloque uma moeda no chapéu, ao fim do espetáculo.

Olhou mais uma vez o céu e mandou tudo à merda.

Foda-se. Que a chuva comece de uma vez.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Citando Lélia Campos citando Gikovate


"O bebê nasce chorando porque dói mesmo, não resta a menor dúvida de que nascer é uma transição pra pior! A criança se sente desamparada, e essa dor é amenizada com a atenção e cuidados da mãe, que passa ser “aquela pessoa especial cuja a simples presença já parece trazer boas-novas”.
Pois é, aí começam nossos problemas amorosos... que piora com a formação da individualidade. Porque nesse momento o desejo do aconchego (colo da mãe) passa a “brigar” com a individualidade (o brincar), que pressupõe descer do colo da mãe, ou seja, abrir mão do aconchego, da paz, em prol de um desejo individual.

Eu nem preciso dizer, que essas questões se repetem, se repetem ao longo de nossa vida adulta, só mudando os interlocutores, que substituímos por nossos parceiros amorosos.

Mas sem essa de “Amar a si próprio pra depois amor o outro”. Segundo o autor, e que eu concordo plenamente, costumamos confundir auto-estima, com amor. Mais um erro! “Auto-estima é um juízo de valor, e não um sentimento. O sentimento amoroso, em sua versão original é visceral, automático, relacionado com a simbiose uterina”

AMOR TEM OBJETO!!!!!! Quem ama, ama alguém (ou alguma coisa vai...)"

Reflexões de Lélia no blog "Meu Olhar" (dá uma olhada, o link está listado aí do lado)

Aprendendo com a Lélia:
1 - AMOR TEM OBJETO
2 - AUTO-ESTIMA NÃO É SENTIMENTO (NO MÁXIMO, EM EXCESSO, VIRA NARCISISMO)
3 - "Dar-se valor" não pode chegar ao extremo de se fechar para o que é externo

Medo de sofrer ainda mais?
Da rejeição?

Bem-vindo (tem hífen ainda?) ao mundo. A má notícia: para conseguir a felicidade precisa-se correr esses riscos todos. Senão você fica entricheirado e não vive.

Como diria o Zorba (o grego): "Você vai ter paz suficiente quando estiver morto, viver é meter-se em problemas."