Ele estava lá, do alto dos seus oitenta anos.
Me pareceu bem, para alguém que espera uma cirurgia de ponte de safena na terça-feira. E me pareceu que depois de tudo, os mal entendidos não valem muita coisa. E pela primeira vez em muito tempo realmente me pareceu que a vida filtra tudo e o que importa mesmo persiste. Não, não se iluda: as pessoas são a única coisa que importa, realmente.
Penso que um leito de hospital é o altar da reflexão forçada. Quanto mais longa a vida mais densa fica essa reflexão, especialmente quando ela corre risco. Não um acidente. Não o inesperado. Mas a consciência de que alguma coisa começa a falhar. O coração certamente não foi pensado para aguentar tanto, de tantos lados. Como músculo, ele sobrevive, o que não o mata o torna mais forte talvez, o exercita, mas nesse exercício de sobre-vida alguns escolhem que ele bata mais, outros, menos. Não sei.
A vida é grande demais. Nossa humanidade deveria constituir-se em não disfarçar nossa incapacidade de viver com uma vida que pulsa de fora para dentro; nosso desamor com desapego; nossa fragilidade com palavras bonitas e racionalidade. Odeio as palavras. Elas não resistem a um abraço, a um aperto de mão, nem à troca de calor entre dois corpos calados. Mas nossa vida insiste em fazer esse tipo de substituição.
Força velho amigo. Volto terça para usar as palavras, espero, para escrever sobre a sua cirurgia bem sucedida, já que sua recuperação deve demorar um pouco para meu abraço e meus cumprimentos por uma vida nova.
2 comentários:
Ai René, nem sei de quem vc fala, mas através desas mesmas palavras que nem sempre conseguem traduzir aquilo não dito, mas sentido, vc conseguiu me fazer refletir por aqui
(Continuando meu comentário cortado...)
Você, que odeia as palavras mas consegue extrair delas mais do que o simples texto, mais do que o simples pensamento expresso, consegue sempre me fazer pensar.
...
Já que estamos no plano virtual, espero que "sinta" o abraço que te escrevo.
(Espero que a cirurgia tenha corrido bem)
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