
Ele estava parado em frente à rua.
Passou um caminhão anunciando frutas. Do outro lado da calçada, um cego também passava.
Se fosse um conto de Clarice Lispector alguma epifania ocorreria. Talvez o cego precisasse estar mascando chicletes. Mas como ele não mascava - aparentemente - tudo continuou igual.
A temperatura fria igual, o dia acabando igual, as pessoas passando iguais, o telefone chamando sem ninguém atender igual, ele parado igual.
Até o cego prosseguia seu caminho. Mas ele igual.
Depois silêncio. Talvez a terra pudesse ser desabitada.
Talvez a solução para a vida fosse presentear todos os cegos com chicletes.
Ou dar sapatos novos às meninas que abraçadas aos livros enfrentam o frio da madrugada para ir à escola. Ou espalhar ratos ruivos mortos pelas calçadas de Ipanema. Ou namorar búfalos pelas grades do zoológico. Ou comer a primeira barata que aparecer em casa.
Cartas dentro de uma garrafa atiradas ao mar. Quem lê?
Se alguém lê, por que a maré teima em não trazer nada de volta?
Ele não tem respostas. Nem chicletes. Nem sapatos, nem ratos, nem tempo de ir ao zoológico ou estômago para comer baratas.
Estão plantando girassóis na Marginal. Talvez seja um bom começo.
Deviam ser ser artificiais. Pelo menos não morreriam.
3 comentários:
Intertexto total, hein garoto?
É, as vezes a vida é assim, um intertexto. Aos 35 agradeço o "garoto", Dan.
Estaciono e não consigo dar um passo pra qualquer sentido.
Tropeço em meus próprios erros e resolvo andar apenas quando passa o caminhão de frutas.. O cego do outro lado sabe que estou indo e então, estende a mão para ganhar um chiclete e dar um tom mais clariceano a toda essa correria.
Estão plantando girassóis na Marginal. E eu prefiro que eles sejam de verdade... assim, quando morrem dão espaço pro novo surgir. Não ficam velhos e empoeirados, como os artificiais.
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