segunda-feira, 29 de junho de 2009

Um Ícaro

Dizem que Ícaro voou alto demais e o calor do Sol derreteu a cera que colava as penas da sua asa e por fim caiu no mar. Eu não entendo muito do mito de Ícaro e corro o risco de chover no molhado, mas enfim...

Ontem me lembrei dele. E me veio a questão da superação.

Não sei se Ícaro se satisfez com seu vôo. Não sei se olhar o Sol tão de perto pode bem valer uma queda - ao menos um instante em que, secretamente, ele esteve em comunhão tão profunda com a grandiosidade da luz como nenhum mortal jamais esteve. Como o primeiro homem na Lua, que olhou a Terra de um ângulo jamais visto, ele olhou o Sol de uma perspectiva que o irmana ao astro rei na divindade: voando como um deus, não observando como um homem de pés no chão.

Mas gosto de pensar o mito de Ícaro de outra forma:

Ícaro subiu aos céus, tão alto que o Sol derreteu a cera de suas asas.
Ele não morreu na queda, todavia. Mergulhou em águas profundas e envergonhou-se pela derrota. Preferiu fazer-se de morto e desaparecer. Até hoje vive em projetos secretos, buscando conseguir ele mesmo - sem apoio de Dédalus, seu pai - novas asas que o levem para além do Sol.
É ele quem entra, secretamente, em nossas mentes, quando dormimos ou quando pensamos projetos inviáveis e grandiosos.

Com as penas que restaram de suas asas queimadas faz cócegas no nosso cérebro para que ele ria do impossível.

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