domingo, 1 de agosto de 2010

Cyro del Nero ou A Falha Trágica



Quando minha mãe morreu, lembro-me do Cyro dizer: "a melhor vingança é viver bem". Não sabíamos se haveria um padre no velório e ele sugeriu, na ausência de um sacerdote, que alguém lesse a Carta de Paulo aos Coríntios. O padre veio e em meio à dor pensei que no final das contas a leitura da Carta seria melhor.

Cyro me enganou. Passou por uma cirurgia delicada, aos 78 anos. Teve que voltar para a sala de cirurgia meia hora depois de ir para o quarto. Ficou por lá mais não sei quantas horas. Uma terça-feira tensa. Achei que não fosse suportar. Suportou. Nos primeiros dias de UTI, sedado ou semi-sedado, com alucinações vindas da anestesia (duas em um único dia), foi melhorando aos poucos. Uma semana após a operação, ele em seu último dia de UTI (no dia seguinte foi para o quarto) e apesar do cansaço e abatimento naturais, me parecia bem.

Cyro fênix. Refazendo-se. Como escrevi no livro que lhe dei, El Libro de los Seres Imaginarios, do Borges. Ele era o ser imaginário da página 37, "El ave Fenix".

Na sexta faleceu, de madrugada. Me enganou. Como o Lawrence Olivier de quem ele gostava tanto, me convenceu de que estava bem.

Todo herói grego tem sua "falha trágica". O excesso que ao final das contas humaniza. O herói sabendo ou não disso trai a si mesmo e revela seu lado mais frágil.

O que mais me comove no Cyro não é sua erudição, a admiração pela sua experiência e pela sua vida, sua obra ou sua força criadora. É a falha trágica. A emoção que sempre esteve escondida na sua pinta de lorde inglês. Mais Brás e menos Alemanha. Inúmeros exemplos me vêm à cabeça, mas fico com a frase de cima: "a melhor vingança é viver bem."

Vinguei-me da vida que me levou o Cyro, depois de voltar da cerimônia no Cemitério Primaveras em Guarulhos, vendo o "Dzi Croquettes" no Reserva Cultural.

Ele teria dado uma gargalhada.

Um grande beijo mestre querido.

3 comentários:

Amélie disse...

Tem gotinhas de água me lembrando que a vida existe nesse minuto. Qua ela possa sempre se manifestar tão rica e emocionante, emocionada, como nos seus textos.
Sinto saudade.

michelle gabriel disse...

Sim, René, ele teria dado uma grande gargalhada !!!

Michelle Gabriel

Amélie disse...

Oi René. Saudades de vc (já disse isso antes).

mais uma vez, como não sei seu e-mail uso seu blog como contato.

definição do dia:

a chave da comédia é TIMING
a razão das tragédias é BAD TIMING

T. Hardy escreveu : "...the man to love rarely coincides with the hour for loving".

A vida é assim, tudo é no tempo dela, não no nosso. Amar, crescer, voar, morrer, tudo é imperiosamente ditado por essa força maior que nós, a vida. E a gente sempre teimando com ela, querendo sempre controlar, mudar, fugir, sei lá! Não, não sou partidária do Zeca Pagodinho (deixa a vida me levar e tal), mas que não dá pra fugir ou controlar a A VIDA, o legal é mergulhar nela, com tudo, abrir os olhos e o coração pra tudo o que ela traz, sem pressa, sem lentidão - trilhando um caminho prório mas vendo onde se pisa a aceitando as curvas, as subidas, descidas, finitudes....

ah, mais difícil é por em prática!
Abração pra vc!