
Há algum tempo atrás alguém usou o seguinte termo para definir o teatro, discorrendo sobre a idéia de o quanto ele consome uma pessoa em relação à vida pessoal, dedicação, etc.: "o teatro é uma amante muito ciumenta, ele exige exclusividade". Na época eu concordei, porque parecia óbvio demais o quanto é necessária essa dedicação. Só havia me esquecido de um ponto: pouco mais que um adolescente, ainda sem ter que pagar contas e outros bichos, era muito fácil elencar o teatro como principal - e talvez única - fonte de preocupações.
A próxima fase é a da relativização. As contas aparecem, os colegas fazem trabalhos comerciais e você já não crucifica ninguém por querer fazer televisão, por ter que largar um ensaio por causa de um trabalho remunerado ou por chegar atrasado / faltar por causa de um teste. Houve de alguns amigos mais radicais que "quanto menos ensaio melhor", que "em dois meses a gente monta uma peça" e recebe umas duas ou três propostas para montar um infantil. "Mas eu nunca me interessei por teatro infantil!"... "Tudo bem, a gente escreve um texto falando de meio-ambiente, ensaia na casa de alguém e depois vende pro SESC..." Nesse ponto você começa a olhar para trás e pensar se não era melhor a postura grotowiskiana do passado...
Depois vem o meio-termo. Existe - ou deve existir - uma postura de coerência sobre o porquê fazer teatro e uma ética pessoal sobre a que vincular sua imagem, seu tempo, etc. Sinceramente o "pagando bem que mal tem" não tem cabimento mesmo... Você lembra da atriz que fez campanha política para um cidadão que certamente não era seu candidato, além de ser um renomado canalha; do provocador que fez campanha para os discípulos de Omar Cardoso; do ator politizado fazendo Sandy e Júnior na Globo, e se pergunta se um MÍNIMO de coerência não é VITAL... Mesmo com as contas. Isso mesmo, MESMO COM AS CONTAS...
Aí você começa a viver a realidade. O tempo todo a vida é um jogo onde as regras são voláteis, as vezes, mas que tem princípios que não mudam. Fazer teatro é uma escolha e não me venham com a demagogia de dizer que é uma profissão como qualquer outra. Pelo contrário: no momento em que se tornar uma profissão como qualquer outra ele perde justamente o que tem de mais bonito - a capacidade de ser uma das poucas atividades que lidam com o subjetivo, com o sonho, com o "ser outro"... Não há mística nenhuma nisso. Mas um comprometimento com o lado menos pragmático da vida. Alguém quem tem que acalentar esse universo.
5 comentários:
Gostei! Beijos.
No momento estou pensativa ou melhor tocada pelo seu texto. Adorei, obrigada!
Por isso te escolhi como diretor, amigo...
Rapaz, ESTOU TE AVISANDO QUE, DECLARADA A FONTE, UTILIZAREI ESSE SEU TEXTO PARA UMA AULA SOBRE TEATRO QUE DAREI. EXCELENTE!
Eu sempre disse que me casei com "a professora", porque é ela que paga as minhas contas, fiz da "atriz" a minha puta, a vida toda foi assim. Foda é que uma hora a gente tem que sair de cima do muro e assumir as coisas como de fato são. O desabafo po[ético] me fez acreditar em qualquer coisa que eu suponha sobre você...
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