segunda-feira, 18 de agosto de 2008

"Eu estava dormindo, enquanto os outros sofriam? Estarei dormindo agora? Amanhã, quando estiver pensando que acordei, o que direi do dia de hoje?"


A citação aí do título é do Esperando Godot.

Tudo porque, de tão enfiado em sala de ensaio, aulas e apresentação no final de semana, descubro meio envergonhado, chegando em casa ontem, que o Caymmi morreu e que o Cultura Artística pegou fogo.


Pulemos o Caymmi. Não, nunca fui muito fã dele, apesar de respeitar sua importância na nossa música. Mas do Caymmi tive sempre a mesma imagem desde criança: um velhinho baiano deitado em uma rede, que já havia nascido muito, muito velhinho, no estilo Roberto Marinho e Dercy Gonçalves. Gente que você vê numa foto da década de 50 já grisalha. "Deus esqueceu o Caymmi aqui, ele não morre mais" - era o pensamento que tinha, assim como o Marinho e a Dercy. Mas Deus não esquece não.

Cultura Artística. Terrível ver um teatro incendiado. Ano passado eu estava em cartaz no Julia Bergman, quando pegou fogo. A sala onde estávamos apresentando não foi afetada. Sorte nossa, mas o resto do prédio ficou bem danificado. Triste. E de novo, assim como no ano passado, suspeita recai sobre os balões.
A última vez que eu estive no Cultura foi para assistir "O Avarento", com o Paulo Autran.
Por isso ele aí na imagem. Infelizmente, Deus também não esqueceu o Autran aqui.
Enfim, eu fui ver a peça. E passei uma vergonha considerável ali.
Me lembro que cheguei, sentei no meu lugar e ao ouvir a tradicional gravação do "desliguem os celulares", comentei com a moça sentada ao meu lado: "eu não entendo como ainda precisam lembrar as pessoas de desligarem os celulares antes da peça!"

Minutos depois eu, que nem me lembro do toque do meu, eu, que sempre deixo no padrão vibratório, eu, que acabara de fazer um comentário desses para a moça sentada ao lado - e que concordou comigo, olha só - eu OUÇO O MEU CELULAR TOCAR.
Tosco. Eu esquecera o bicho no sonoro porque estava com ele em casa e não mudei o toque depois.

Justo na última peça do Autran.
Hoje eu olho essa foto e penso que era o que ele gostaria de ter feito comigo no dia.
Desculpa, Paulo...
Enfim... Que o Cultura renasça das cinzas, o mais rápido possível.
A gente pode criticar o repertório como "teatro comercial" muitas vezes, ou o preço dos ingressos. Mas é um teatro.
Mirem seus balões nos bancos, nas igrejas que profanam o espaço sagrado dos antigos teatros ou cinemas, mirem seus balões para a Câmara ou para a Assembléia Legislativa.
Ou mirem para a puta que os pariu. Melhor, não mirem para lugar nenhum.

Um comentário:

Leco Vilela disse...

Oq eu achei mais "tchan" nessa história toda é que a borda do teatro não caiu, oq manteve a obra do Di Cavalcanti inteira...é como se o fogo tivesse começado bem no meio e se arrastado e não quisesse sair daquelas paredes...