Quando eu tinha nove anos comecei a perceber que a minha avó estava encolhendo. Foi numa tarde de abril. Acho que era abril porque era sempre em abril que ela passava férias conosco, desde que o meu avô morreu. Ela sempre aparecia uma semana antes da data e ficava lá até o final do mês. Na tarde da minha memória minha avó voltou do cemitério e parou do lado da porta do meu quarto. Acho que ela já não estava triste. Só me olhou e deu um sorriso. No batente dessa porta ela marcava a minha altura, para ver se eu tinha crescido na vez seguinte em que fosse em casa. O que ela não sabia é que eu também media a altura dela, reparando na diferença entre a marca que ela fazia no batente e o topo da sua cabeça.
No começo eu achei que era porque o cabelo estivesse ficando branco, o que poderia dificultar uma análise que era completamente visual. Mas depois percebi que ela ia, aos poucos, se nivelando com as marcas que tinha feito para mim. Inclusive com as mais antigas.
Uma vez estava jantando com minha mãe na cozinha, dias depois da avó ter voltado para a casa dela. Comíamos em silêncio quando eu falei:
- A vó está diminuindo.
Minha mãe parou o movimento da colher até a boca no ar - a sopa ainda pingou lentamente no prato - me olhou e disse:
- Tome a sua sopa, Francine.
Minha mãe nunca me chamou de Francine antes que eu completasse quinze anos. Não assim, no dia a dia. Informalmente. Eu era sempre a Fran, só Fran. Não sei se eu gostava de ser chamada assim, porque na escola eu era a Framboesa, a “Fran” de chocolate, quando queriam me elogiar falavam que eu era “frantástica”. Mas o fato é que ela só me chamava de Francine quando estava brava comigo.
- Mas é verdade!
- Francine, chega.
“Francine chega” era algo bem rude. Ela me olhou, fixando os olhos em mim como quem dizia “não fale mais nada senão eu jogo esse prato de sopa na sua cara enquanto ele ainda está bem quente para além da humilhação você ter uma queimadura do segundo, terceiro grau se possível” e só desviou os olhos de mim quando eu já estava convencida de que era melhor ficar quieta, o que demorou uns sete segundos que pareceram a eternidade. Abaixamos as cabeças ao mesmo tempo e começamos a tomar nossas sopas com as colheres ritmadas. Alguém que entrasse na cozinha naquela hora iria achar que era uma cena combinada.
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