
Nesses primeiros dias de ano estava me recordando de algumas coisas que aconteceram na minha vida nos últimos anos. Aquele balanço rápido que todo mundo faz (ou acho que faz) no ano novo...
Uma das passagens mais significativas foi minha viagem para a Grécia em 2004.
Tudo tinha sido planejado para estar lá no final daquele ano, o que me daria tempo para trabalhar, estudar o grego e guardar dinheiro até a viagem. De repente, um e-mail do Attis Theatre (onde iria estagiar) me pede para estar lá em setembro. E a vida adiantava os planos e me dava uma rasteira. Em meio à expectativa positiva, incertezas quanto à como me manteria lá (não, não tive nenhuma bolsa da USP, apoio de consulado ou "paitrocínio"), como me comunicaria (o grego moderno não é das línguas mais fáceis) e tudo mais...
Eis que encontro um e-mail antigo, que o Cyro me enviou nesse período.
"Querido René
Em 1957 fui para Santos com amigos para tomar o navio ANA C para Lisboa. Meu terninho marron era da Renner e eu paguei só a primeira parcela e estava indo para a Europa não sabia por quanto tempo.
Entrei no navio com um branco em meu futuro. Mas com uma imortalidade na cabeça.
No navio fiquei “noivo” de uma alemã, mãe de meus primeiros cinco filhos. Como você já sabe casamo-nos em Atenas depois de 3 meses.
No navio havia um balcão de café e eu não tinha uma moeda. Em Portugal o amigo grego diretor de teatro me perguntou para onde eu queria ir e eu respondi pra Grécia. Ele me convidou para sua casa em Tessalônica. Ele já tinha um convidado, o Bruno, ator de um espetáculo que havíamos feito: Anfitrião de Plauto.
Eu era imortal.
Contei isso para o Vendramini e chegamos a seguinte conclusão: eram outros tempos.
Mas não sei. São outros tempos, mas naqueles tempos poucos fizeram o que fiz, quase ninguém.
Ainda disse ao Vendramini que se há qualquer possibilidade de você não agarrar essa chance pelos cabelos (como com a estátua OPORTUNIDADE da velha Grécia, aquela que tinha cabelos na frente e as costas completamente lisas) ...eu te mato.
Um professor de grego moderno você não conseguiu. Está aprendendo grego de gravação em cassetes. Está querendo se calçar antes de ir: Salário, mestrado, bolsas, implicações acadêmicas etc... São outros tempos. Mas eu acho que ainda há gente neste mundo on the road. Eu acho que te falta uma loucura. Você se questiona demais, afinal é só entrar no avião. Com grego sem grego, com salário ou sem salário, com bolsa ou sem bolsa, mas imortal. Você acredita mesmo que vão te deixar morrer de fome? Você não consegue sonhar com a impossibilidade de morrer ou passar mal?
Quando perguntaram a ele – RINGO _ como é que tinham feito tudo, ele respondeu:
Sempre dissemos SIM.
...)
Acho que é isso. O resto ninguém sabe o que será, mas será tão milagroso como tudo o mais.
Eu te mato, italiano!!!
Abraço do Cyro."
Ele tinha razão.
Que em 2011 possamos ser mais imortais.
E acreditar no maravilhoso da vida, mesmo quando ela quebra com os nossos cronogramas. E que a nossa loucura seja fértil. Sempre.
2 comentários:
isso é que é amigo. pra quê servem aqueles que recomendam cautela, além de colaborar para a nossa mediocridade? saudades.
.que bonito isso. então que sejamos imortais.
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