Oito horas da manhã. O interfone toca. Acordo, assustado, e atendo. Não tenho o costume de receber visitas nesse horário, em dias normais ainda não levantei sequer. Caminho até a cozinha e atendo.
"Tem um senhor aqui embaixo querendo subir."
"Quem é?"
O porteiro pergunta para a pessoa e não consigo ouvir a resposta. Ele pergunta de novo, como quem não entendeu o nome. Ouço ele repetir a pergunta umas três vezes.
"Deixa eu falar com ele."
"Alô?", falo ao interfone, já consciente da mania dos porteiros em transformar Gláucia em Cássia, Thiago em Danilo, Luís em Juarez.
"Bom dia. Estou incomodando?"
"Quem é?"
"O Osama. Posso subir?"
"Osama?"
"Podemos conversar aí em cima?"
"Eu não conheço nenhum Osama."
"Eu preferia não conversar na presença do seu porteiro."
O porteiro parece tomar o interfone das mãos do visitante, pelos ruídos. É ele quem retoma a conversa.
"O senhor conhece?"
"Não que eu me lembre."
"Ele quer subir."
"Espera. Eu vou descer."
O tempo do elevador me deixa tirar duas ramelas do olho e só. Nem sei por que não ignoro simplesmente e volto a dormir, mas desço. Quando chego na portaria vejo um senhor de uns sessenta anos, pela barba já grisalha, magro e usando um turbante branco. Tem uma grande mochila nas gostas e uma AK-47 a tiracolo.
"Quem é você?" pergunto. Ele apenas faz um sinal de silêncio com o indicador entre os lábios e me pede para subir com um levantar de olhos. O porteiro, sem entender nada, levanta-se da sua cadeira e parece começar a ir ao encontro do estranho visitante, de forma automática, sem saber ao certo o que irá fazer.
"Tudo bem", digo olhando o porteiro, e caminho até o elevador, abrindo a porta e indicando ao visitante que entre.
Subimos. Os vinte segundos que o elevador demora parecem uma eternidade. Durante a "viagem" o visitante não fala nada, apenas conserva um sorriso enigmático nos lábios.
"Entre", digo a ele, abrindo a porta do apartamento.
"Você tem café?" são as primeiras palavras do visitante, em português castiço.
"Posso fazer."
"Bem forte, por favor", ele diz, completando: "não durmo há dias."
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