segunda-feira, 23 de junho de 2008

O Grito


Queria ter o poder de um grito.

Um grito que ecoasse realmente para além - para além da incomunicabilidade, para além das incompreensões, para além da distância e da dificuldade.

Queria ter o poder de um grito que cruzasse a cidade.

Que cruzasse ruas, que entrasse pelas janelas, que passasse por debaixo das portas.

Que fosse tão concreto em sua potência que próprio ato de gritar fosse auto-explicativo, que não precisasse de palavras, de teorias ou filosofias. Um grito em estado puro, que purificasse à um só tempo aquele que grita e aquele que ouve.

O que grita e o que ouve unidos por segundo - na tênue mas sagrada união de uma manifestação de ser, de estar no mundo - simplesmente por uma expressão pura.

Um grito que substituísse o pensamento, que substituísse a ação e a inação pensadas. Que transformasse o segundo anterior a ele e o segundo posterior a ele em um silêncio abissal, de Terra desabitada.


Eu queria ter o poder de um grito que fosse como a tradução de tigre aprisionado, de dor aprisionada, de saudade aprisionada, de vitória aprisionada.

Um grito que não fosse violência, mas ruptura. Que devolvesse a quem grita e a quem escuta o grito a capacidade simples da escuta humana.

Grito de Munch. Grito de Mãe Coragem, ensurdecedor na sua mudez.


Mas eu não grito. Ou grito para dentro por saber que para fora ele não sai. E ele ecoa dentro de mim, e se multiplica, e se perde, ricocheteando o som em camadas de alma, de sangue e de pele.


E o resto é silêncio.

Um comentário:

Leco Vilela disse...

"...agora só nos resta o eco eterno"

é o fim de um texto que eu escrevi a muito tempo atrás. Achei que cabia!

ps: da uma pulinho no meu blog Velho Marujo, tem um mensão a você lá!