quinta-feira, 5 de junho de 2008

O coronel Aureliano Buendía promoveu 32 revoluções armadas e perdeu todas


"Em vez de se dirigir ao castanheiro,
o Coronel Aureliano Buendía foi também para a porta da rua
e se misturou com os curiosos que contemplavam o desfile.
Viu uma mulher vestida de ouro no cangote de um elefante.
Viu um dromedário triste.
Viu um urso vestido de holandesa
que marcava o compasso da música
com uma concha e uma caçarola.
Viu os palhaços virando cambalhotas no final do desfile
e viu outra vez a cara da sua solidão miserável,
quando tudo acabou de passar
e não ficou senão o luminoso espaço na rua
e o ar cheio de tanajuras
e um quantos curiosos próximos
ao precipício da incerteza.
Então foi para o castanheiro,
pensando no circo
e enquanto urinava
tentou continuar
pensando no circo,
mas já não
encontrou
a lembrança.
Meteu a cabeça
entre os ombros,
como um frango,
e ficou imóvel
com a testa
apoiada
no tronco
do castanheiro.

A família não soube de nada até o dia seguinte,
às onze da manhã,
quando Santa Sofia
de La Piedad
foi jogar o lixo
no quintal
e lhe chamou a atenção
o fato
de estarem
baixando
os urubus."

(Gabriel Garcia Márquez, Cem Anos de Solidão)

O Coronel Aureliano Buendía promoveu trinta e duas revoluções armadas e perdeu todas. Escapou de um pelotão de fuzilamento e de emboscadas, para morrer urinando com a testa apoiada em um castanheiro.

Assisti "O Sonho de Cassandra" do Woody Allen. Também a mesma sensação: os ritmos da vida não acompanham os nossos planos. Não se está nunca pronto para a vida - que em seus dois extremos, o Amor e a Morte, sempre nos surpreendem. Aliás são esses os extremos: o contrário da Morte não é a Vida, mas o Amor, que é a Vida em estado pleno de vida. Para eles não há a menor preparação.

"O sujeito se aborrece tanto para depois ser fuzilado por meia dúzia de maricas sem poder fazer nada." Este poderia ser o fim irônico do Coronel. Não. Foi mais irônico ainda. Mijando em um castanheiro. Morreu de pé, urinando.

Woody Allen faz algo parecido. A ironia que nos mostra despreparados. Que nos pega despreparados.

32 Revoluções Armadas. Perdeu todas. De novo o anti-herói.
Falei de morte, me desobrigo de falar de amor - a ironia aí é maior porque o sujeito sobrevive para ruminá-la. Pelo menos na maior parte das vezes.

Enfim, "O Sonho de Cassandra" vale a pena.
Fica a sensação de que o Woody Allen mesmo quando não está em seus melhores dias é sempre acima da média. Dos últimos, ainda prefiro o "Match Point".
Mas fica a sugestão.

Assim como fica a sugestão de leitura do "Cem Anos de Solidão" - olha que hoje em dia na internet você encontra a árvore genealógica dos Buendía, coisa que há um tempo atrás tinha que ser feita à mão para o sujeito não se confundir com tantos Aurelianos e Arcádios e Remédios e Amarantas e por aí vai... Hoje você coloca no google "arvore genealogica cem anos de solidão" pronto. Maravilhas da tecnologia.

Questão de gosto e de qualidade. Melhor livro do Garcia Márquez, sem dúvida.
É o que eu mais gosto? Não. Ainda prefiro "O Amor nos Tempos do Cólera".

Qual a relação entre tudo o que eu escrevi? Não sei, acho que uma relação meio forçada para falar sobre o destino - aquela parte do livre arbítrio, ok, de novo esse papo - que tentamos traçar e as leis desconhecidas da natureza e do mundo. Ou seja, filosofia meio barata à 1h30 só para movimentar um pouco o blog que estava falando há dois dias do "Jardim de Polvos".

Então falo de "Macondo", peça que estréia sexta e fica até domingo no Macunaíma, com alunos do PA3 da tarde. Uma tentativa de tocar, ainda que de leve, no universo de "Cem Anos de Solidão".

Boa noite - ou bom dia?


2 comentários:

Anônimo disse...

Olá! Eu assisti sua peça, está de parabéns. Já conhecia o livro, vcs fizeram um ótimo trabalho com ele! :)

Lélia Campos disse...

Amoooooo esse texto, já devo ter lhe dito!! Que pena que perdi de ver, pra variar... rs... Mas nesse fim de semana seria mesmo impossível! Um beijo, querido