
Hoje eu estava indo para a USP e me lembrei dessa imagem do Escher, das escadarias que levam a lugar nenhum. Acho que as vezes a vida acadêmica fica um pouco assim: isso não é uma crítica à Universidade como um todo, ou ao menos no que ela potencialmente é, mas sim ao uso prático que se faz dela, ou melhor, como, na vida real, a coisa se concretiza.
Eu passei cinco anos ali. Ok, cinco dos melhores anos da minha vida, um privilégio você poder contar com ensino público de qualidade, gratuito, no meio da Cidade Universitária, discutindo e fazendo teatro o dia todo. Um luxo mesmo. Eu que achava a discussão sobre cotas na Universidade apenas "politicagem", depois de um tempo pensando sobre isso - e convivendo com gente que não pôde ter as mesmas oportunidades - hoje acho uma discussão necessária e urgente sim.
Mas enfim...
Você fica anos ali e se não toma cuidado, fica um pouco ilhado. Literalmente ilhado. Chega cedo, assiste aulas, almoça - no começo o "bandejão" é uma delícia, depois o salitre fala mais alto e você parte para os quilos ou os salgados ou dogão mesmo - assiste aulas, ensaia, vai embora - ou mora no CRUSP. Um curso de oficialmente quatro anos, que você normalmente termina em cinco, se deixar viram seis, sete, as vezes mais. Conheci gente que devia estar lá há uns 10 anos, pelo menos.
Aí você se forma. E se não começou a estabelecer vínculos com o mundo real, cortar o cordão umbilical é sofrido. Talvez outros quatro anos. Aliás, se não tomou cuidado, sai de lá achando que realmente o teatro mundial será mudado pela dua ação genial e ímpar. Ou pelo menos o teatro brasileiro. Ou o paulista, vai. Do seu bairro? Da sua rua? Com o tempo, o teatro não mudou, nem o seu você conseguiu mudar. Não amigo, você não é tão genial assim. Pode ser muito bom, o que já serve.
Mas essa adolescência uspiana prolongada faz mal às vezes.
Amigos, colegas, alunos e ex-alunos, professores, vestibulandos e simpatizantes... Que nossa passagem pelos portões da USP, da ECA especificamente, alimentem nosso teatro e não façam da nossa vida teatral um eterno primeiro de abril.
Amém.
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