segunda-feira, 21 de abril de 2008

Sábado e a Senhora


A Clarice está aí em baixo mas eu ainda não havia comentado do "Senhora dos Afogados", que vi no sábado.

Depois de anos, um Nelson Rodrigues do Antunes. Comprei ingresso na terça e só consegui a fileira L, lá atrás. No começo, achei uma pena não poder ter escolhido lugares melhores. Mas eis que vem o sábado e a primeira conclusão é: o melhor do trabalho do Antunes, que ele faz com maestria mesmo, são as composições de cena, as imagens, as movimentações do coro. E o lugar no fundo da platéia se transforma no melhor lugar para ver isso.

A limpeza cênica é maravilhosa. A aridez do palco, a luz discreta, branca, ampliando a sensação do espaço vazio, imenso, povoado apenas pelos atores que se movimentam e poucos elementos de cena.

O Lee Taylor é bom ator. Faz o Misael. Mas fica uma sensação de que o Antunes busca nele a reencarnação do Luis Melo de treze anos atrás. O Melo conseguia dar à linguagem pedida pelo Antunes organicidade, parece que brincava com aquilo, que levava o próprio Antunes 70% a sério. Que tinha uma opinião sobre aqui. O Lee realiza bem o que a Antunes quer. Bom ator, mesmo. Mas parece um pouco uma melancólica versão genérica do Melo. O que não é pouco, ainda assim.

Linguagem ou auto-citação? Elementos que já vimos em "Macunaíma" sempre lá. Bem trabalhados, mas ficam as vezes no limite entre "linguagem pessoal" e "carta na manga". É crueldade demais dizer isso? Não sei. Estou sendo chato com o Antunes? Talvez. Detalhe: eu gosto dele.

No trabalho vocal que Antunes quer desenvolver percebemos a busca de uma alternativa estilizada de abandono do Naturalismo. É consciente e intencional. Quer a tirar a peça do "trágico" simplesmente, e insere elementos cômicos, jocosos, etc...
Mas exagera. Não sei se é gosto pessoal, mas exagera.
Tropeça em um artificialismo que passa da medida, no mal sentido.
E a esperança de que aos poucos nos acostumemos esbarra na voz de D. Eduarda, com um sotaque estrangeiro carregado demais. Sem trair a proposta, parece que nesse ponto as coisas poderiam estar um tom abaixo. A menos que o elenco fosse o mesmo do "Vereda da Salvação", por exemplo. Técnica intencional, não realista, tragicômica.
Mas que poderia ser um pouco mais humanizada.
Só um pouco mais.

No final, a sensação de que assistimos uma encenação acima da média, de um diretor que sabe muito. Provavelmente quem mais domina o palco italiano no Brasil. Mas falta um pouco de humanidade. Não no sentido Realista, mas "orgânico" (palavra péssima, mas quem assistiu vai entender o contexto dela aqui).

Mas uma noite boa.
Andando até o metrô, uma chuva fina.
E eu prefiro a estação Marechal que a Santa Cecília, sempre.

Um comentário:

Ferdi disse...

Sei do que você está falando.
Mas discordo, não é que discordo é que gosto da questão trêmula da Eduarda, parece tão, desumana.