
A Esfinge aparece em muitas culturas com algumas variações, mas sempre carrega a característica de que não a compreendemos plenamente. Ela é a guardiã de algo, uma prova antes que um rito de passagem possa ser concluído, um obstáculo a ser superado. Nos testa e nos ensina ao mesmo tempo. Pelo menos eu leio assim. E me deparei com essa imagem de novo, hoje, depois de ter me deparado com algumas "esfinges" esta semana.
Essas "esfinges" podem ser pessoas ou situações que se impõem. Podem ser partes de você mesmo que precisa conhecer, aprender a lidar ou superar. E de repente, sem que você espere, sua vida fica parecida com o museu do Cairo, como se em cada esquina estivesse um bichinho lindo desses olhando para você ao virar a rua. E tudo bem, você sobrevive, vai. Sem exageros.
Mas esses bichos são tinhosos. Eles aparecem de forma inesperada, agem de forma inesperada, e desde que a imbecil da esfinge de Tebas gastou aquele enigma simples com o Édipo sobre as idades do homem, as questões levantadas agora são muito mais complexas... "Decifra-me ou devoro-te" é mais perigoso hoje, porque ela não devora simplesmente, mas vai te comendo por dentro se você não tomar cuidado.
Quando você não sabe se o dinheiro vai dar até o final do mês ou se vai conseguir pagar aquela dívida, isso é aterrador. Um problema real. Mas quando mexem no seu sonho, isso é mais perigoso: ao tocarem naquilo que é imaterial, estão mexendo com as suas escolhas mais essenciais, naquilo que define você como pessoa. Estão tirando o seu direito de almejar algo maior, algo além, estão destruindo justamente aquilo que quando tudo mais dá errado te oferece combustível para seguir em frente. É a guerra tecnológica das esfinges de hoje. Nada de sangue, de pedaços humanos estilhaçados, de palitar os dentes com os pobres cidadãos de Tebas. É de dentro para fora que começa o banquete delas...
Bom, resistamos...
O herói nunca morre no meio do quinto ato...
(Foto: Montagem de "Peer Gynt" - provavelmente do Bob Wilson - chegada de Peer no Cairo, final do IV ato)
4 comentários:
Fala Renildo bizantino...eu e a Perla estamos nos perguntando quando vc ia divulgar o blog secreto...rs..abs Wil
Sempre pensei na esfinge atual de uma forma invertida "devora-me ou te decifro". Não pelos valores invertidos ou coisa do tipo, mas mais pela necessidade humana constante - atenção - mas mesmo assim não deixa de comer por dentro, de consumir aos poucos e vai botando em cheque cada parte de você que sempre esteve "supostamente" concluida, mas a Esfinge é como Itaca não?...é um pergunta, um questionamento, agente é devorado pra ser regurgitado algo diferente. agente se perde pra se encontrar...
Nenhuma esfinge vai nos fazer parar. Edipo que somos. Tomara que com um final menos trágico.
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