segunda-feira, 14 de abril de 2008

Ícaro - parte 2


Mais reverberações de Ícaro e outros fragmentos soltos, que se colaram a elas...
" - E aí eu estava assim, como se diz?
Com o meu sentimento a dois centímetros do chão.
Como se fala em português?
Eu não aguento mais...
Eu não aguento mais..."
(Ícaro)
" - Didi.
- Hum.
- Eu não posso mais continuar assim.
- Pode sim.
- E se a gente se separasse. Acho que seria melhor pros dois.
- Amanhã a gente se enforca. Se Godot não vier.
- E se ele vier?
- Aí seremos salvos."
(Godot)
"A minha única salvação é a alegria.
Uma alegria atonal dentro do it essencial.
Não faz sentido? Pois tem que fazer. Porque é cruel demais saber que a vida é única e que não temos como garantia senão a fé em trevas - porque é cruel demais, então respondo com a pureza de uma alegria indomável.
Recuso-me a ficar triste.
Sejamos alegres. Quem não tiver medo de ficar alegre e experimentar uma só vez sequer a alegria doida e profunda terá o melhor de nossa verdade.
Eu estou - apesar de tudo oh apesar de tudo - estou sendo alegre neste instante - já que passa se eu não fixá-lo com palavras. Estou sendo alegre neste mesmo instante porque me recuso a ser vencida: entao eu amo. Como resposta. Amor impessoal, amor it, é alegria - mesmo o amor que não dá certo, mesmo o amor que termina. E a minha própria morte e a dos que amamos tem que ser alegre, não sei ainda como, mas tem que ser.
Viver é isto: a alegria do it. E conformar-me não como vencida mas num allegro com brio.
(...)
E eis que depois de uma tarde de "quem sou eu" e de acordar à uma hora da madrugada ainda em desespero - eis que às três horas da madrugada acordei e me encontrei. Fui ao encontro de mim. Calma, alegre, plenitude sem fulminação.
Simplesmente eu sou eu.
E você é você.
É vasto, vai durar.
O que te escrevo é um "isto".
Não vai parar: continua."
(Clarice Lispector, Água Viva)
É bom quando podemos ver alguma coisa que reverbera. Como um "sopro". Oxigênio. É isso.
E depois de "não aguentar mais", alguma coisa se renova. O tal "anti-herói" que o Daniele citou no programa, aquela figura quixotesta que também cumpre um destino muitas vezes trágico como o herói grego, mas que caminha em direção a ele com um sorriso no rosto, ou que ri do próprio tropeção - aquela figura se depara conosco e mostra que carrega uma bandeira na mão: a bandeira desse país desconhecido e sem fronteiras que é o país dos tontos, dos bestas, que deve ser o país dos palhaços.
Destino? Isso existe? Será? De repente o destino é só a parte do livre-arbítrio que não percebemos. As escolhas que fazemos a todo o momento e que interferem - tecem mesmo - o nosso futuro sem que a gente perceba. São as pequenas escolhas, não as grandes, as que mudam a nossa vida sem que a gente saiba disso na maior parte das vezes. Aquele papo da borboleta bater as asas e um tufão acontecer do outro lado do mundo soa exagerado, mas simbolicamente é um fato.
Escolhas simples como ir ou não comprar pão. Sair de casa ou ficar. Esperar ou ir embora. Hoje ou amanhã. Chegar antes ou nem ir. Sorrir ou virar de costas. Comer peixe ou frango. Ir por esta ou aquela rua. Etc.
Imponderável.
Escolhas simples. Mas contaminam o outro, contaminam você mesmo, interferem na ordem das coisas. E o "destino" vai sendo criado e nos deixa com a ilusão de que é algo à parte de nós mesmos, como se deixássemos de ser agentes e virássemos platéia da nossa vida.
Aí veio um sopro, ontem.
Porque no final, mesmo o Augusto mexendo só o dedinho, ainda assim é esse o dedinho que fará ele sair de lá.
E se não fosse o dedinho do Augusto, a porta não ia abrir no final e o Aldo não ia embora, nunca.
" - Você consegue, Augusto. Claro que consegue."

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