quinta-feira, 3 de abril de 2008

...mas o herói nunca morre no meio do quinto ato.


Bem, o herói nunca morre no meio do quinto ato.
Depois da tempestade vem a bonança. No caso, hoje, uma quase tempestade mesmo, bem no exato momento de sair de casa e dar aula de História do Teatro. "Roswita e o ressurgimento do teatro no Ocidente". Que diabos isso interessa para alguém?
Roswita teve a grande iluminação de, em meio a um contexto completamente teocêntrico e crítico ao teatro (detalhe: ela era monja), perceber a qualidade da obra de Terêncio e Plauto e quase mil anos depois reassumi-lo dentro da oficialidade do Estado.
Pense naquela época uma mulher, religiosa ainda por cima, defendendo idéias como essa. Altamente revolucionária. Heloísa Helena seria no máximo liberal, perto dela. Sério mesmo.
Mas o mais interessante é pensar que entrando na Idade Média, teremos os trovadores e o começo da noção de "amor" que temos hoje. A partir de Roswita o amor a Deus, único permitido para o teatro (não vamos exigir demais dela, claro que as peças eram religiosas) aos poucos se abre para a perspectiva do indivíduo em relação a outro, não mais uma união associada à família ou à Igreja.
Boa parte da dramaturgia fala de relacionamentos. Roswita redescobre a dramaturgia, os trovadores iniciam o que para nós se tornou o amor romântico, e por aí vai. Aquele trecho do Campbell um pouco mais abaixo é justamente de um capítulo que ele fala do amor no Poder do Mito. O passo seguinte ao de Roswita. Não basta amar a Deus, deve-se amar alguém de carne e osso também. Em homenagem aos que vieram depois dela, lembrei do Musset:

"Todos os homens são falsos, mentirosos, inconstantes, faladores, hipócritas, orgulhosos e covardes, desprezíveis e sensuais; todas as mulheres são pérfidas, artificiosas e vaidosas, curiosas e depravadas; o mundo não passa de um cocho sem fundo onde os animais mais desformes rastejam e se torcem, sobre montanhas de lama; mas há no mundo uma coisa sã e sublime, a união de dois destes seres tão imperfeitos e tão repugnantes. Não raro somos enganados no amor; não raro somos feridos e muitas vezes desventurados; mas amamos, e quando o dia da morte se aproxima, podemos olhar para trás e dizer: sofri muitas vezes, enganei-me algumas, mas amei. Fui eu que vivi, não um ser fictício, criado pelo meu orgulho e pelo meu tédio."

Não sei se esse tipo de coisa aliena, mas eu acredito que pelo contrário, gera combustível para tentar mudar alguma coisa.

Confuso isso? Deve ser o efeito do quibe no organismo. Voltando a pé do Eldorado, ouvindo a trilha do Peer Gynt no mp3 e pensando nessas coisas.

Mas o herói não morre no meio do quinto ato, se chegou a tanto...

(Foto: "Quixote", cena final. Aline Baba, Octávio Da Matta e Mariana Vianna
by Mariana Nogueira)



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