quarta-feira, 9 de abril de 2008

E enquanto isso, Shiva dança


"Shiva é a divindidade hindu que cria e destrói em uma dança perpétua. Deus da destruição e da renovação. As cobras que Shiva usa como colares e braceletes simbolizam o seu triunfo sobre a morte, sua imortalidade. O filete de água que se vê jorrar de seus cabelos é o rio Ganges: conta uma lenda que o Ganges era um rio revolto que corria na morada dos deuses. Os homens pediram para que o rio corresse também na terra. Porém, o impacto da queda d'água seria muito violento. Para resolver o problema, Shiva permitiu que o rio escorresse suavemente para a terra pelos seus longos cabelos."
E daí?
Bom, o Antunes foi quem pela primeira vez vi referir-se a Shiva como uma metáfora do ator, do próprio fazer teatral. Em contraponto, inclusive, a Dióniso. Abandonando a referência do mito grego e se aproximando do hindu, Antunes quis reforçar o caráter não-maniqueísta (já presente no mito de Dióniso sim, mas que no hinduísmo fica muito mais evidente). A dança de Shiva sustenta o mundo, portanto sustenta esse "mundo concentrado" que é o palco.
Destruição e renovação.
As personagens perpetuam-se nos atores. Ao fazer Hécuba, a atriz passa a fazer parte, naquele momento, de uma dinastia sem nome de atores que através dos séculos deram corpo àquela personagem. Uma linha invisível que começa no século V a.C. e chega aos dias de hoje. Dinastia sem nome, que some e reaparece, mantendo viva a idéia. Ninguém se lembra do nome da maioria dessas pessoas; mesmo das que lembramos com o passar do tempo sumirão também. Mas é Hécuba que persiste. Mesmo que façamos um espetáculo onde o texto seja desconstruído, a personagem mesclada com depoimentos pessoais, o ator em cena presente como elemento de fricção entre a ficção e a realidade, ainda assim é o espírito de Hécuba o provocador dessa alquimia, a pedra de toque da cena. A dança continua.
Qual o sentido de continuar?
Na dança talvez reencontrar a criança. Não mais Shiva, mas quem sabe o próprio Krishna em sua forma de criança azulada, brincando.
A primeira vez em que entrei no Teatro Municipal de São Paulo, fui de terno.
A primeira vez que vi Kazuo Ohno não conseguia falar depois.
A primeira vez que entrei em uma sala de aula como professor entrei tentando parecer que tudo estava sob controle, mas sentia o suor escorrendo por entre as costas e era frio.
A primeira vez que me estreei um espetáculo no Centro Cultural, com a sala Jardel Filho lotada, me escondi assim que o espetáculo acabou e chorei sozinho depois de meses de ensaio, por ver aquilo concretizado.
Confissões da perplexidade quando acontecem momentos em que a dança se revela.
Por que temos que ser seguros o tempo todo sobre tudo o que acontece? Por que temos que ter sempre uma opinião categórica sobre tudo a todo momento?
A radicalidade do artista precisa estar de braços dados com um olhar de criança sobre o mundo.
Se tiver muita sorte, uma criança azul.

3 comentários:

Aline Baba disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Aline Baba disse...

"Tudo isso por nada! Por Hécuba!
O que é Hécuba pra ele, ou ele pra Hécuba, Pra que chore assim por ela?"

Ahhh, nem Hamlet sabia de tudo. Hécuba é tudo, pra todos nós.

menino azul disse...

O menino azul estará no Teatro Arthur Azevedo, na Moóca, em junho e julho. Direção da Bia Borin, comigo no palco. A peça é adaptação da Cecília Meireles e chama "O menino e o burrinho", que você ficou de ver no CCSP um ano e meio atrás. Ainda vive... Adoraria revê-lo! Beijos, saudades, Lívia.