terça-feira, 8 de abril de 2008

Antes, durante e depois da tempestade


- Tenha paciência, amigo!

- Só quando o mar tiver!

- Mas não se esqueça de quem traz a bordo!

- Acha que essas ondas estão preocupadas com o prestígio do rei?

Vão já para os camarotes, aqui vocês só vão ajudar a tempestade!


(Shakespeare, "A Tempestade", ato I cena 1)



Chove por aqui. Um lugar chamado "Pouso Alegre". Lembrar de naufrágios em uma cidade com esse nome é no mínimo irônico. Mas as vezes é necessário recolhermos as velas para poder passar pela tempestade.


Talvez até ir para os camarotes, lá embaixo, até que a chuva passe.

Próspero foi abandonado, já em alto mar, em um barquinho minúsculo, com poucos instrumentos - até para que não pudesse voltar - junto com sua filha Miranda, banido de Milão. Deixou para trás o ducado querido, o poder e seus livros muito amados. À esmo, pelos mares, acabou chegando em uma ilha semi-deserta, abandonado à própria sorte.


Ulisses enfrentou tempestades, monstros e a ironia dos deuses tentando voltar a Ítaca. Em determinado momento, Atena manda que mergulhe no mar revolto e deixe tudo para trás. Saber desistir daquilo que precisa ser deixado para trás. Saber não desistir daquilo que precisa ser valorizado. Não ouvir o canto das sereias. Não ouvir o canto das sereias jamais, já que elas desencaminham as escolhas. Enfrentar a tempestade.


O espelho lança as perguntas todos os dias:


"quem é você?"

"que mentiras contou para você mesmo?"

"o sacrifício é mesmo necessário?"

"você consegue carregar isso sozinho?"

"você precisa carregar isso sozinho?"

"é errado lutar pelas coisas?"

Na faculdade, quando a gente fazia o tal do energético, a única regra era "não parar". Você sente cansaço, desespero, perde o fôlego. Tem raiva e quer mandar a merda a pessoa que, de fora, descansada, fica gritando para você "não parar".


Mas de repente descobre que o corpo pode mais.

E se surpreende com isso.

E a tempestade passa.



2 comentários:

Aline Baba disse...

Só Pouso Alegre para deixar a tempestade passar incólume.

Kedma Franza disse...

Conhece um hino assim, ó: "Mesmo na tempestade podeis andar, sem ter medo da escuridão..."?

Foi cantado no velório do meu pai pelo coral da IPVMariana. Vira e mexe me vem à mente em situações difíceis.