("eu acho que algumas vezes eu busco o sentido nos lugares errados...")Enfim, estava eu numa aula falando sobre Dialética e para explicar, busquei seu contraponto, a metafísica. Uma prega que não existem valores ou coisas imutáveis e que a essência do universo e da realidade é a transformação. A outra diz que existem coisas perenes, que sempre foram e sempre serão - Deus, por exemplo.
As implicações políticas são claras: assumir valores perenes pode servir para a estagnação, para justificar diferenças sociais e econômicas, preconceitos, rótulos e interesses de um determinado grupo, classe ou pessoa. Por isso a birra dos marxistas com a religião. Até aí, tudo certo. A religião - não é de hoje - sempre foi usada como forma de dominação. Pena.
Mas a questão que se coloca é a seguinte.
Vamos assumir que as coisas não possuem um sentido. Que a realidade não precisa e não tem um sentido maior mesmo, e que tudo isso aqui é obra do acaso. Possível? Sim, cientificamente falando é possível, ou pelo menos, para alguém que possui informações científicas que ficam no plano do leigo, parece até provável. Um olhar racional sobre a vida, dialético, desprovido de metafísica.
O problema não é lógico, é ontológico.
O que chamamos de "vida", em suas diversas formas, possui por definição o desejo de se perpetuar e o desejo de sobrevivência. A barata corre. O fungo se multiplica. O vírus hiberna na tumba do faraó para mil anos depois ajudar a difundir a idéia de "maldição". Sobrevivência. O instinto sexual se associa ao prazer para estimular a espécie a copular. Insetos não deixam de fazer sexo mesmo sabendo que a fêmea matará o macho depois - se não "sabem", devem desconfiar pelo menos... E por aí vai.
Se a "vida" não faz sentido, porquê esse instindo em preservá-la? Os seres vivos, mero acaso da natureza, poderiam apenas surgir e desaparecer, sem luta ou desejo de seguir adiante, sem colocar um valor especial à consciência, deixando-se voltar ao nada, simplesmente. Que o Homem tenha medo da morte e não deseje, ok. Mas a barata aqui na cozinha sair correndo quando eu acendo a luz e o fungo que um dia cresceu na madeira debaixo da pia por causa do vazamento querer se espalhar pela casa é um pouco estranho.
Pensando nas baratas, eu gostaria mesmo que a vida não tivesse sentido e que elas não ligassem quando a gente pisa ou aplica detefon. Mas esse instinto de sobrevivência que faz a vida lutar a todo custo para prosseguir - não apenas o indivíduo, mas a espécie - me parece as vezes muito incoerente com a simples ausência de sentido...
Mas tudo bem. Deixemos a metafísica associada às baratas com o Kafka.
Boa quarta-feira.
2 comentários:
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" O verdadeiro sentido da vida é essa intensidade sem sentido.", essa frase não é minha, é de um amigo em comum, tenho pensado muito nela ultimamente, claro, dentro de um contexto.
você entende.
às vezes parece até que não, talvez qdo vc pensa muito, mas qdo essa intensidade vem, aí vc entende, ou não?
Uma questão de simplesmente existir com a sua verdade, ser "fiel" a sua intensidade, esse seria o sentido sem "sentido".
e um brinde a dialética!!!
beijo, mas não posso negar q às vezes tbm me pego achando q procuro os "sentidos" nos lugares errados.
E é pra ter sentido?
Bah, com sentido nem teria tanta graça, vai!
Ah e às vezes, penso mesmo se o Gregor virou realmente uma barata ou se virou Nathalia Dezoti.
Ai, ai.
Dia ruim!
Beijo em você.
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