
Aí está a Madame Perle.
Lembrei dela e da peça ontem. Não sei bem porquê.
Lembrei da Madame Perle em uma conversa sem ligação aparente com ela - a personagem que mais marcou, na peça toda, ao menos para mim.
Ah sim: estou falando do "Les Ephemeres", do Theatre du Soleil. Espetáculo que a Ariane Mnouchkine trouxe para cá no ano passado.
Seis horas e tanto. Eu assisti na versão "veja em duas partes", dois dias diferentes.
Ariane, por ser uma diretora conhecida, gerou muita expectativa. Muita gente queria ver experimentações estéticas como na "Oréstia" ou em outros trabalhos da companhia. E ao se deparar com uma pesquisa de Naturalismo, se decepcionou.
E ouvi besteiras por aí como "é uma mistura de tok-stock com novela das oito". Como se fosse fácil fazer Naturalismo - bem feito. Como se tudo aquilo que não se diferencia completamente desse registro fosse ruim.
Na realidade, acho que não temos repertório para compreender o Realismo ou o Naturalismo. Achamos fácil e televisivo, e o preconceito não deixa perceber a intensidade diferente, a sensibilidade, a elaboração e o timing de um elenco coeso e experiente.
E chega a Perle. Personagem construído à partir de uma máscara de Commedia Dell´Arte. Perle nasceu Pantalonna. Depois se adequou à forma da peça e foi uma das quebras desse suposto Naturalismo. Uma velha verossímil, não verídica, feita por uma atriz de uns 30 anos.
Doente. Meio louca. Acha que vai para a Mesopotâmia. Se caga na cama do hospital.
E uma Juliana Carneiro, em cena, como a médica que se comove com a situação da interna e resolve ser a presença que estará com ela provavelmente em seus últimos dias de vida.
Me lembrei de tantas e tantas pessoas que passaram pela minha vida e que, na velhice, sofreram essa deteriorização do corpo, da saúde, da consciência. Um ponto forte do espetáculo, que ao invés de cair no dramalhão ou no sentimentalismo - estes sim, próprios de uma linguagem televisiva - o tempo todo dialoga com o humor e o inusitado.
Falar de efemeridade em um espetáculo de quase sete horas.
Com cenários que se movem, criando e desconstruindo cenas e situações.
Histórias que se entrecruzam, aparentemente sem muita importância mas, como em Tchekov, acabam revelando uma camada mais profunda de humanidade.
Grandioso e pequeno.
Ao final, as luzes da arquibancada iluminam apenas o público. Como se fossemos nós, depois de tudo, os verdadeiros protagonistas. Como se as nossas pequenas tragédias estivessem ali, camufladas, escondidas, mas presentes. Ecoando no palco. Na platéia. No caminho para casa.
Dois dias intensos. De uma vivência intensa.
Como diria Aline no "Digitando": foi efêmero, mas ficou.
Sentimentos. Sensações. Antes, durante e depois.
Pena dos imbecis e críticos idiotas que esperavam mais do isso: a vida que nos toca e que se deixa tocar.
Saudades desses dias.
Vontade de ir para a Mesopotâmia.
2 comentários:
Lembrando sempre que é mesopotâmico o Código de Hamurabi.
falando nisso, como anda Macondo?
Postar um comentário