quarta-feira, 7 de maio de 2008

Cidade Submersa


Às vezes eu imagino uma cidade submersa onde moram os sonhos que naufragaram, como um tesouro em um galeão perdido no meio do mar. O país secreto das coisas perdidas. Nesta cidade submersa, como uma Pasárgada, somos esperados um dia, e na porta de entrada seremos recebidos com honras militares. Ao entrar na cidade submersa - que daqui em diante será assim chamada com letras maiúsculas, pois não é qualquer cidade, é um lugar concreto e único - nossos passos em falso serão perdoados e seremos recompensados pela dor que sofremos em nossa vida anterior à esse momento.
A Cidade Submersa disfarçou-se em cena de aquário, com escafandrista e polvos e pedras cheias de limo, e fez com que não acreditássemos nela. Rimos daquela imagem pueril, sem saber que na realidade é uma versão em escala reduzida de um lugar mágico. Na Cidade Submersa as sereias brincam nuas e seu canto não é perigoso, pois não pode ser ouvido embaixo d´água. Lá existem peixes maravilhosos que não se escondem nem fogem do observador, e tudo é de um azul cristalino. As moedas de ouro dos galeões espanhóis brilham refletindo a luz do sol, ainda que este esteja distante. Como que por milagre, as correntes marinhas conduzem nossos passos para onde quisermos, sem que precisemos fazer esforço algum, e os peixes elétricos massageiam nossas costas, e golfinhos brincam com o visitante.
Mas de repente volto os olhos para o que escrevi e nada disso faz mais sentido e eu me pergunto por que pensar nessas coisas, e a Cidade Submersa de novo vira um aquário sem graça, provavelmente sobre uma mesa de escritório ou no descanso de tela de um computador.
E eu sou, no máximo, água salgada. Que não vem do mar.
A vida têm estado um pouco chata nos últimos dias, confesso.

2 comentários:

Lélia Campos disse...

Ahh René, René... você exige demais de você!!! Vá até a janela, vai ver um pombo correio vindo em sua direção com um bilhete pra entregar-se. O que diz o bilhete? Não vou dizer, você deve saber.

Leco Vilela disse...

Isso me lembrou algo...seria Caio Fernando? Doce de mais, Clarice? Fantástico de mais... talvez, não deixa de ser contemporaneo não é?...o importante é que fica visivel pra quem lê, eu pelo menos vi um filme. =)