terça-feira, 6 de maio de 2008

Pessoa


"Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas
O natural é o agradável só por ser natural.
Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno
(...)
Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno."
(Quando está frio - fragmento - Alberto Caeiro)
"Ela continua tão bonita de cabelo e boca como dantes,
E eu continuo como dantes, sozinho no campo.
(...)
Como o campo é grande e o amor pequeno.
(...)
Estou a escutar a minha voz como se fosse de outra pessoa,
E a minha voz fala dela como se ela é que falasse.
Tem o cabelo de um louro amarelo de trigo ao sol claro,
E a boca quando fala diz coisas que não há nas palavras.
Sorri, e os dentes são limpos como as pedras do rio."
(O Pastor amoroso - fragmento - Alberto Caeiro)
Existiu um momento ao fim do processo com o Esperando Godot no ano passado em que muita gente do grupo estava passando por dificuldades, quase todo mundo estava com uma energia pesada, triste, e tenho quase certeza de que a peça não tinha nada a ver com isso. Eram crises pessoais, desencontros, descaminhos. Que casaram com um texto que pode ser entendido com amargura. Ou não. Mas que naquele momento nos tirava ainda mais do eixo.
Hoje há o frio. Há chuva. Há desencontros e descaminhos. E assim como naquela época, com o Beckett, existe o Pessoa que faz lembrar de uma única coisa que ainda justifica não a nossa sobrevivência mais imediata - trabalhar, acordar, locomover-se - mas a nossa sobrevivência maior, a sobrevivência da poesia na vida:
Quando os autores de tragédias bebiam na fonte do mito para escrever suas peças eles "traduziam" o universo terrível e violento da Mitologia em um formato estético, onde a Arte "filtrava" a violência em um efeito não só aterrorizante, mas catártico.
É para isto que serve a Arte: não como um lugar de egocentrismo, nem um divã para resolver seus problemas, mas uma porta aberta para o Mundo, para traduzir seu sofrimento, seus desejos e suas questões em algo maior.
A possibilidade de devolver ao mundo algo Belo.

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