
Às vezes eu imagino uma cidade submersa onde moram os sonhos que naufragaram, como um tesouro em um galeão perdido no meio do mar. O país secreto das coisas perdidas. Nesta cidade submersa, como uma Pasárgada, somos esperados um dia, e na porta de entrada seremos recebidos com honras militares. Ao entrar na cidade submersa - que daqui em diante será assim chamada com letras maiúsculas, pois não é qualquer cidade, é um lugar concreto e único - nossos passos em falso serão perdoados e seremos recompensados pela dor que sofremos em nossa vida anterior à esse momento.
A Cidade Submersa disfarçou-se em cena de aquário, com escafandrista e polvos e pedras cheias de limo, e fez com que não acreditássemos nela. Rimos daquela imagem pueril, sem saber que na realidade é uma versão em escala reduzida de um lugar mágico. Na Cidade Submersa as sereias brincam nuas e seu canto não é perigoso, pois não pode ser ouvido embaixo d´água. Lá existem peixes maravilhosos que não se escondem nem fogem do observador, e tudo é de um azul cristalino. As moedas de ouro dos galeões espanhóis brilham refletindo a luz do sol, ainda que este esteja distante. Como que por milagre, as correntes marinhas conduzem nossos passos para onde quisermos, sem que precisemos fazer esforço algum, e os peixes elétricos massageiam nossas costas, e golfinhos brincam com o visitante.
Mas de repente volto os olhos para o que escrevi e nada disso faz mais sentido e eu me pergunto por que pensar nessas coisas, e a Cidade Submersa de novo vira um aquário sem graça, provavelmente sobre uma mesa de escritório ou no descanso de tela de um computador.
E eu sou, no máximo, água salgada. Que não vem do mar.
A vida têm estado um pouco chata nos últimos dias, confesso.
2 comentários:
Ahh René, René... você exige demais de você!!! Vá até a janela, vai ver um pombo correio vindo em sua direção com um bilhete pra entregar-se. O que diz o bilhete? Não vou dizer, você deve saber.
Isso me lembrou algo...seria Caio Fernando? Doce de mais, Clarice? Fantástico de mais... talvez, não deixa de ser contemporaneo não é?...o importante é que fica visivel pra quem lê, eu pelo menos vi um filme. =)
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