quarta-feira, 4 de junho de 2008

"Os sonhos são o raio infinito da memória"


Estação de trem de Ribeirão Pires.
Aí começou a viagem de hoje. Uma viagem curta, município próximo, com carinha de cidade do interior. Montagem de luz, correria, o elenco se desdobrando para chegar em plena sexta, dia "útil". E pela primeira vez, este ano, "Jardim de Polvos", em versão palco italiano para o Festival.
Mais "desafio" que "dever cumprindo", sabíamos disso. Mas ficou o gosto de dever cumprido, ao menos de uma etapa que se cumpre.
A semana começa com "Jardim". Sexta, "Macondo" na Mostra do Macunaíma. Quinta que vem de mala e cuia para Mogi Guaçu com "Quixote". Diretor-caixeiro-viajante. Correria boa.
A pesquisa no teatro é tão instigante que às vezes nos esquecemos do prazer mais simples e óbvio: apresentar. Apresentar um espetáculo não é um exercício de egocentrismo, não é exibicionismo: é antes de tudo uma tentativa de comunicação. Lembro do Grotowski:
"Nunca monto um espetáculo para mostrar aos outros o que já sei. Só depois da peça estar pronta é que talvez terei aprendido algo"
Apresentar é dividir com outras pessoas o resultado de uma viagem interna. Não para ensinar-lhes alguma coisa, mas para repartir questões, impressões, para compartilhar seu espanto perante o mundo, na expectativa de que isso repercuta, preferencialmente de que gere outras questões, outras impressões, etc... etc...
Eu realmente acredito que em todo o espetáculo, potencialmente o espírito do teatro "baixe", ao menos em um momento, e que naquele instante volte a existir a comunhão original da época em que o mito e a arte andavam de mãos dadas. Em que o teatro realmente era o que qualquer cerimônia, missa, culto ou rito gostaria, hoje, de ser.
A cumplicidade silenciosa, a respiração conjunta, a emoção do humano que celebra o que tem de melhor ou aponta o que há de pior.
Teatro. Celebração do humano.
Vivemos em uma era da informação imediata, rápida, supercial - consequentemente. Prezamos pela variedade, não pela profundidade. O teatro é o contra-fluxo disso. Tem que ser. Com todo respeito às novas tecnologias, às experiências multimídias e afins, que podem certamente gerar novas possibilidades, esse contato humano direto, esse tempo REAL do ator em cena e do expectador na platéia, esse jogo do contador de histórias arquetípico que senta-se à luz da fogueira precisa continuar existindo, na pele de seus descendentes, os atores.
Com a mesma alegria do menino em seu primeiro dia de teatro eu digo: que delícia apresentar.
Sem ignorar a necessidade da pesquisa e dos meses de ensaio eu digo: que delícia apresentar.
Sem ter falsas ilusões de que o trabalho mostrado esteja pronto, sem nem de longe defender que os processos se atropelem eu digo: que delícia apresentar.

2 comentários:

Edu disse...

Realmente, faço das minhas as suas palavras: "...que delícia apresentar".

Aline Baba disse...

isso está me cheirando a ejaculação precoce com o Hamlet-Zero! hahahahahahahahahah