domingo, 29 de junho de 2008

Witkin e afins


Uma foto do Joel-Peter Witkin.
A arte um tanto bizarra deste fotógrafo têm sido inspiração para alguns trabalhos. Sem querer tornar o macabro em fetiche, o diálogo entre sagrado e profano que ele constrói é no mínimo intrigante. Como se só depois de encarar o que existe de podre e imperfeito fosse possível alguma transcendência. Ou como se ela estivesse já embutida no seu extremo oposto.
Para olhar sem preconceitos, com calma e reflexão, antes de negar.
A imagem dele que mais me chamou a atenção foi "Woman Once a Bird". No google é um dos primeiros resultados quando se coloca o nome do autor. Maiores explicações sobre ela não darei aqui, os curiosos façam isso, como uma provocação e surpresa para exemplificar o que disse no primeiro parágrafo. Leiam sobre ela. Sobre o processo de criação e a referência à História da Arte. Vale a pena. Mesmo que seja para negar, depois. Em um segundo momento.

Chocar por chocar é bobagem. Mas quando há um discurso, quando existe algo consciente e propositado, é muito melhor uma obra que nos incomoda do que aquela que simplesmente serve a um entendimento de "Belo" como "bonito". Quando eu escuto comentários do tipo "não gostei de tal peça, de tal filme" e a pessoa, ao ser indagada sobre o porquê, diz "porque me fez mal" ou algo do tipo, traduzo imediatamente como algo extremamente positivo... Se concordamos com Brecht, ao dizer que inaugurar um novo olhar sobre as coisas - que tire a nossa visão de mundo do "cômodo" - é a tarefa mais importante da Arte, a verdadeira noção de "política", então os preconceitos devem ser extirpados.
"Olhos Recém-Nascidos", talvez.
Não ingênuos, mas desprovidos de preconceitos.
Tudo isso por causa do Witkin?
Não, acho que por causa de tudo.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Aqui jaz... niguém


PEER
Será que não há ninguém, ninguém na terra inteira, ninguém na escuridão, ninguém no céu?

Ah, acho que morri muito antes do que o meu corpo!

Quero subir até os picos mais altos e escarpados, quero olhar uma vez mais para o sol nascente e contemplar a terra prometida!

E então, que a neve caia e se amontoe sobre mim, e que se escreva por cima:

“Aqui jaz – ninguém.” E depois... depois, venha lá o que tiver que vir!


"Peer Gynt", V ato.



O herói nunca morre no meio do V ato. E estamos chegando ao final dele. Passamos do meio. As pessoas têm mania de acusarem umas as outras de "carentes". Como se o oposto disso fosse a capacidade de se virar bem sozinho, sem ajuda nem suporte dos outros, como se o heroísmo solitário do sacrifício tivesse que ser louvado o tempo todo.

Temos que ser fortes. E forte é aquele que aprendeu a sofrer sozinho, que aprendeu a abrir mão, a não necessitar das coisas, que aprendeu a prescindir de toda a humanidade. Os outros são "carentes". Aqueles que infelizmente fizeram um pacto com o desejo de compartilhar qualquer coisa que seja externa a eles mesmos.

"Peer Gynt" de Ibsen. Uma aventura, com alunos. Mas sempre uma aventura.
"Basta-te a ti mesmo"; "Sê tu mesmo" - os lemas de Peer e dos Trolls.
Que o levaram, ao final do V ato, à fala aí de cima.
Dias 04, 05 e 06 de julho completa-se um encontro.
Com o egoísta, individualista, bruto, bêbado e arrogante - e amoroso, carente, solitário e humano Peer Gynt.

Até o final do V ato.

terça-feira, 24 de junho de 2008

anotações sobre Jeff


Há muito tenho mania de anotar as coisas.
Não por obrigação. Talvez por uma compulsão. Talvez por acreditar que as coisas se fixam melhor quando não dependem só da escuta, ou só da visão. Talvez por achar que escrever ou rabiscar gera uma postura ativa que dialoga com o que estamos apreendendo.
Acho que escrever aqui agora é um pouco isso - anotações, no caso a esmo.
Esta imagem é de uma moleskine - um dos meus objetos de desejo - com anotações da letra de "Lilac Wine" supostamente feitas pelo Jeff Buckley.
A música foi interpretada pela primeira vez até onde sei pela Nina Simone. E Jeff costumava agregar o repertório da Nina ao seu.
Já nem me lembro se postei sobre "Lilac Wine" aqui. Acho que sim. Mas estou com preguiça de verificar. Aí está a letra:
I lost myself on a cool damp night
Gave myself in that misty light
Was hypnotized by a strange delight
Under a lilac treeI made wine from the lilac tree
Put my heart in its recipeIt makes me see what I want to see…
And be what I want to be
When I think more than
I want to think
Do things much
I never should DO
I drink much more than
I ought to drink
Because it brings me back you...
Lilac wine is sweet and heady, like my love
Lilac wine,
I feel unsteady, like my love
Listen to me…
I cannot see clearly
Isn't that she coming to me nearly here?
Lilac wine is sweet and heady, where's my love?
Lilac wine I feel unsteady,where's my love?
Listen to me, why is everything so hazy?
Isn't that she, or am I just going crazy, dear?
Lilac wine,
I feel unready for my love...
Não entendeu, ok, está em inglês. Sem desculpa. A tradução está aqui: http://letras.terra.com.br/jeff-buckley/683714/
Baixem "Lilac Wine" na versão do Jeff. Vale a pena. Quem não gostar dessa música é um insensível ou um mal caráter.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

O Grito


Queria ter o poder de um grito.

Um grito que ecoasse realmente para além - para além da incomunicabilidade, para além das incompreensões, para além da distância e da dificuldade.

Queria ter o poder de um grito que cruzasse a cidade.

Que cruzasse ruas, que entrasse pelas janelas, que passasse por debaixo das portas.

Que fosse tão concreto em sua potência que próprio ato de gritar fosse auto-explicativo, que não precisasse de palavras, de teorias ou filosofias. Um grito em estado puro, que purificasse à um só tempo aquele que grita e aquele que ouve.

O que grita e o que ouve unidos por segundo - na tênue mas sagrada união de uma manifestação de ser, de estar no mundo - simplesmente por uma expressão pura.

Um grito que substituísse o pensamento, que substituísse a ação e a inação pensadas. Que transformasse o segundo anterior a ele e o segundo posterior a ele em um silêncio abissal, de Terra desabitada.


Eu queria ter o poder de um grito que fosse como a tradução de tigre aprisionado, de dor aprisionada, de saudade aprisionada, de vitória aprisionada.

Um grito que não fosse violência, mas ruptura. Que devolvesse a quem grita e a quem escuta o grito a capacidade simples da escuta humana.

Grito de Munch. Grito de Mãe Coragem, ensurdecedor na sua mudez.


Mas eu não grito. Ou grito para dentro por saber que para fora ele não sai. E ele ecoa dentro de mim, e se multiplica, e se perde, ricocheteando o som em camadas de alma, de sangue e de pele.


E o resto é silêncio.

domingo, 22 de junho de 2008

terça-feira, 17 de junho de 2008

Dia 17 de junho


Reflexões. Deixando as coisas se assentarem aqui dentro.
Gosto de pensar no Quixote como um presente para um público ideal.
Como se esse público ideal estivesse sentado na platéia - tanto faz pensá-lo no coletivo ou como uma única pessoa - e para ele fosse dedicado tudo o que acontecerá nessa hora de peça.
Pensemos o público ideal como uma única pessoa.
Que essa pessoa sente-se e olhe para o espetáculo como quem olha dentro de nós, que o fazemos.
Que entenda que cada segundo ali possui um sentido maior, possui uma história que tentamos traduzir em imagens, como um filtro que tirasse aquele momento do nível do "depoimento pessoal" e tentasse universalizá-lo mais. E que saiba conversar com a peça como quem conversa com um amigo.
Que você, público ideal, receba esse presente como quem recebe uma flor - ela é efêmera e morre logo, mas em toda a sua plenitude dos poucos instantes de vida lhe está sendo oferecida. Cuide dela com os olhos. Cuide dela aspirando até não poder mais seu aroma. Quando ele tiver se dissipado, ainda sobrará a memória.
Sente-se confortavelmente. Não tenha pressa. Desligue o celular. Observe o espetáculo como quem senta de frente a um amigo para falar da vida. Deixe que os pensamentos fluam como resposta às coisas que a cena estimular em você. Faça do seu silêncio não apenas uma convenção de respeito, mas um ato de cumplicidade, um silêncio preenchido.
Abra o seu presente com os olhos do coração. Não pense se serve, se a cor lhe agrada, se o estilo é o seu. Viva o momento simples de receber. A gratidão por ser especial. Receba. Deixe a análise crítica para depois.
Está aqui o seu presente. Sempre.
A cada dia que ele é apresentado, você existe ali, o público ideal.
Que faz com que o desejo de oferecer tudo isso transborde para o público real.
E oferecemos o seu presente, mesmo que você não esteja presente para recebê-lo.
(Foto: Quixote observa a roda girar. É só uma roda, mas ele vê um moinho. É só uma roda, roda de bicicleta. Mas é um moinho.)

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Segunda-feira


Todas as vezes que volto de viagem depois de uma apresentação é como voltar à realidade.

Chegada em Mogi Guaçu.
Você marca com o técnico do teatro às 14h. Ele não está lá, aparentemente.
De repente ele aparece, mas não é o mesmo que havia falado com você pelo telefone.
A montagem será feita com andaime, não com escada. Pé direito alto. Você explica tudo o que precisa, e depois ele diz: "Alguém aí afina luz? Porque eu não subo no andaime."
Pergunta em monólogo interno: ele não sobe porque não é trabalho dele (como, se é técnico de luz?) ou porque tem medo?

Dá-lhe subir andaime. Na truculência.
Dia dos namorados, jogos de futebol, morte do Jamelão, tudo passa em branco.
Com mais coisa na cabeça para se preocupar.

A gente ganha pouco mas se diverte. Muito. Faz da dificuldade motivo de risada.
Falta de tradição, de profissionalismo, que merecia quebrar o pau? Pode ser, mas entre engrossar o coro dos insatisfeitos ou interromper a ação, é necessário fazer. Fazer.
É preciso passar por cima das dificuldades sim. E estou plenamente convencido de que esta peça tem alguma coisa. Mesmo com todos os revezes, na hora que acontece (e olha que até o som desta vez estava com problemas, as caixas chiavam) comunica algo.
Comunica sim. Ao menos aos dispostos a captarem.

Volto para São Paulo, retomo a vida cotidiana.

(Foto: despedida de Mogi Guaçu, domingo)