quarta-feira, 30 de abril de 2008

A girafa pegando fogo


Esse quadro sempre me gerou um incômodo. Por causa da girafa ao fundo em chamas.
Eu não sei muito bem o porquê, mas ele me incomoda. Como se alguma coisa estivesse errada.
Quem botou fogo na girafa? Será que ela se incendiou, como aquele monge budista em protesto contra a guerra do Vietnã? Eu não sei. Mas incomoda.
As imagens têm esse poder, muitas vezes. De nos incomodar. De traduzir para o consciente questões profundas que não são entendidas de forma racional, mas sentidas. Elas revelam alguma coisa de inesperado, de irracional muitas vezes, mas que são mensagens profundas que vão além. Como os mitos.
E a girafa pegando fogo.
Cadê o extintor de incêndio, meu Deus do céu!
Alguém faça alguma coisa!
E aparece uma pergunta: e se ela quis atear fogo no próprio corpo?
"- Girafa, não faça isso!
- Mas eu quero.
- Você está enganada, girafa...
- Não acho..."
A sorte é que esses animais possuem o pescoço longo, ou seja: aguentam o fogo durante muito tempo antes de ser tarde demais. E como são animais adoráveis, eu peço licença ao Dali para me colocar ao lado do quadro com um extintor de incêndio quando a dita cuja se arrepender ou quando precisar de uma mão amiga.
Continuo achando a girafa mais forte que o fogo.

terça-feira, 29 de abril de 2008

"... I have a dream today"


E lá o vem o Martin Luther King discursando de novo, alternando sua fala com o Gandhi.
Duas figuras emblemáticas no sentido da defesa de um ideal, de um sonho, da crença em algo maior do que eles mesmos. A não-violência, a emancipação do homem, a liberdade, a igualdade social. Dois Quixotes.

Sem querer ser monotemático nesses últimos dias, coloquei aí a foto que a Kedma disponibilizou no seu álbum pós-viagem, quentinha, saída do yahoomail. Esse foi o palco que nos recebeu.

Mas a questão não é sobre a peça, hoje. Não diretamente.

O teatro é uma atividade difícil. Esse papo de "qualquer um faz" é relativo.
Sim, qualquer um pode fazer teatro, dependendo do âmbito em que ele acontece. Mas qualquer um não pode ser ator profissional.
Porque levar a coisa como profissão envolve outras questões: questões técnicas, de disponibilidade, etc... Envolve ao mesmo tempo um profundo amor pelo que se faz e uma profunda necessidade de dizer alguma coisa, não para satisfazer seu ego, mas, ainda que sem qualquer prepotência, a convicção de que aquilo precisa ser dito. Por você e pelos outros.
Você não é um emissor em busca de um receptor.
Você é um canal.

Me lembrei de duas histórias contada pelo Barba...

"'Cada vez que os alicerces começarem a tremer sob seus pés, cada vez que não estiver seguro da estabilidade de suas experiências passadas - me aconselhava Grotowski - regresse às suas origens.' Estávamos sentados no restaurante de uma estação ferroviária polonesa, há um quarto de século. E acrescentou:
'É o que aconselhava também Stanislavski: regresse às suas origens, regresse ao seu primeiro dia de teatro'."

(...)

"Jacek Wojsczerowicz era velho, pequeno, jamais foi bonito. Tinha o rosto devastado pelas rugas e uma calvície avançada. Era polonês e ator. Depois de um enfarte, os médicos lhe ordenaram que não atuasse mais. Continuou. Veio um segundo enfarte. Os médicos lhe previram uma morte próxima se continuasse aparecendo no palco. Persistiu: duas vezes por semana, vestido com uma pesada armadura, arrastando o passo como se um segredo bem guardado o oprimisse, era Ricardo III. Dois dias antes, começava a preparar-se para a estréia, alimentando-se somente de caldo e bebendo água. Caminhava de cima para baixo na sua casa, sem deter-se jamais, como se para reafirmar a seu próprio corpo: 'conseguiremos!'
No dia do espetáculo, jejuava como um religioso que se prepara para a cerimônia. Porém, só pensava em alicerçar seu estômago para a fadiga do espetáculo. Às três horas da tarde, saía de sua casa e se dirigia para o teatro com passo obstinado, murmurando as palavras de seu texto. As pessoas que o viam passar acreditavam que estava bêbado ou louco. Depois, vestia-se com sua armadura. Chegava, então, o momento em que seu olhar vagava além de seus companheiros ou dos espectadores, como se para espiar a morte.
'Compreende? Não atuo para o público. Atuo para Deus.'
Em Varsóvia, na Escola de Teatro, onde vivi meu primeiro dia de aprendizagem, pensava que só os doentes do coração deveriam ser atores."

Se não houver sonhadores, os sonhos não terão mais sentido de existir.
E se não houver sonhos, a realidade passa a não fazer sentido.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

A volta


Fiquei feliz em ver o "Quixote" de novo.
Mesmo com problemas, mesmo com questões.
Chegar em São Paulo é reencontrar a "vida real", com a correria, as obrigações, etc.
Mas guardo a sensação do domingo aqui. Ver algo que foi construído com paixão tomar corpo de novo. Acho que às vezes a gente vive coisas que te relembram o rumo que precisa tomar.

O "Quixote" é isso para mim.


A Aline disse, na véspera da primeira estréia, que a peça é "uma vitória sobre todos os monstros que lutam contra nós". Cada vez que assisto a peça, acho que ela é uma vitória. Sobre um monstro que sufoca. Acho que ela é um ritual de esperança e de crença na humanidade. Como se fosse uma oração não a um deus, mas ao humano que existe dentro de nós no que ele tem de melhor.

Com essa peça cheguei a uma conclusão que resume o meu amor pelo teatro. Você pode ouvir críticas, "filtrar" o que serve e o que não serve, mas a resposta que deve ser conquistada é:
"Esse trabalho me representa?"
Isso tem que estar acima de tudo.
O "Quixote" me representa.
Muito.


Obrigado, companheiros de sonho.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Quixote


Domingo ele volta, em Pouso Alegre.
Bom final de semana para todos.
Até segunda.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

O girassol em Fernando Pessoa




Esta foto parece mentira, mas não é.
A Vanja tirou a foto quando viajou pela Europa, acho que a imagem vem direto da Holanda.
Parece mentira, mas não. É real mesmo. Não procurem efeito de photoshop. Tudo, até onde o horizonte alcança, é um imenso campo de girassóis.

Hoje por acaso me deparei com o Fernando Pessoa, no meio de uma conversa. E com um poema que desconhecia e que me fez lembrar da imagem acima:

"O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível
Faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo
Gostar bem de ir vendo tudo.

Mesmo a ausência dela
É uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela
Que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte
Como as árvores altas.

Mas se a vejo tremo,
Não sei o que é feito do que sinto
Na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim
Como um girassol com a cara dela no meio."

Hoje de manhã saí do metrô e o céu estava azul.
E as coisas foram simples, e boas.
Como um imenso campo de girassóis.

E na contagem regressiva para apresentar o "Quixote" em Pouso Alegre relembro que toda a peça é uma grande declaração de amor. Amor a muitas coisas, que mesmo quando ausentes estão junto comigo.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Terremotos e afins


Houve um terremoto hoje aqui.
Nem sei como estou escrevendo agora.
Os abalos sísmicos deveriam ter dado uma pane geral nas comunicações.
Mas graças aos Céus, sobrevivi e posso escrever isso...

Disseram que no Butantã o pessoal sentiu. Coisa de 5,2 na escala Richter.
Aqui nas imediações dos Campos Elíseos, tem que ser muito mentiroso para dizer que percebeu alguma coisa... Nesse meio tempo, entre um terremoto, as águas de março em abril e provavelmente um novo dilúvio que deve ser anunciado nos próximos meses, nada de muito especial. Ao menos em se tratando de meteorologia.

Parece que a mídia precisa desesperadamente de assunto. E o caso da menina? Agora a irmã da madrasta (ou do pai?) surge como cúmplice também. Uma espécie de Big Brother soturno. Realmente, não é estranho fazerem piadas de humor negro com o caso. A coisa fica tão badalada que o fato em si se distancia do plano humano e vira mídia. Nem parece real. Vira play station. Vira página da web e Jornal Nacional... Um "terremoto" que ninguém sente de verdade.

Quando o Oliver Stone fez o "Assassinos por Natureza", a sensação foi um pouco essa. É tanta violência que anestesia, é tanto sensacionalismo que distancia, parece. Desgasta. Invade o privado, torna a dor íntima algo público, destrói a humanidade da coisa. A gente reage como tem que reagir, comenta o óbvio, ouve o óbvio, e segue para a próxima notícia. O regime da Ivete Sangalo, a aposentadoria do Romário, o Serra fazendo campanha no Nordeste, a Hillary e o Obama, a namorada nova do Ronaldo, o Lula com a Dilma à tira colo, o Fagundes na novela, e por aí vai...

Nesse meio tempo, contagem regressiva para o "Quixote" em Pouso Alegre - domingo próximo.
Será bom ver a peça novamente acontecendo. E a experiência de viajar para outra cidade levando um trabalho une vários elementos: mostrar o espetáculo para um público completamente diferente, sair da cidade, estar com o grupo em um contexto de trabalho mas que ao mesmo tempo tem seu lado divertido. Enfim, espero que tudo dê certo e seja realmente uma festa. A gente merece...

Dá a ligeira impressão que o teatro, que é arte, fica mais real que esse mundo midiático.
Será que é impressão minha? Acho que estou ficando alienado.

(foto: a imagem de alguém meio torto, deve ser pelos 5,2 Richter)

terça-feira, 22 de abril de 2008

Num Domingo Qualquer


Segunda-feira com cara de domingo, então foi uma coincidência ter visto (de novo) esse filme ontem. "Num Domingo Qualquer", do Oliver Stone. A fala do Pacino, bem no estilo "discurso motivacional americano", está aí, livremente traduzida:
"Eu não sei muito bem o que dizer, na verdade...
Três minutos para a maior batalha da nossa vida profissional. Tudo acontece hoje.
Nós precisamos nos curar, como um time, ou afundamos: centímetro a centímetro, jogada a
jogada, até o final.
Nós estamos no inferno agora, cavalheiros, acreditem. Nós podemos ficar aqui, afundados na
merda, ou nós podemos encontrar nosso caminho de volta, até a luz.
Podemos escalar o nosso inferno. Um centímetro por vez.
Eu não posso fazer isso por vocês, estou muito velho.
Eu olho essas caras jovens e penso: eu fiz todas as escolhas erradas que um homem da minha
idade pode fazer: eu desperdicei todo o meu dinheiro, acreditem. Eu afastei de mim todos os que
me amaram. E finalmente, eu mal posso encarar o sujeito que eu vejo no espelho.
Quando envelhecemos, as coisas são tiradas de nós. Isso é parte da vida.
Mas você aprende, quando começa a perder as coisas, que a vida é um jogo onde os centímetros
contam. Como no futebol.
Nos dois jogos, no futebol e na vida, a margem de erro é muito pequena. Um centímetro a mais
ou a menos e você não consegue.
(...)
Em qualquer luta, o sujeito que vence é aquele que está disposto a morrer."
Tá. E daí?
Sei lá. Acho que estou sentindo falta das parcerias, por isso a fala me chamou a atenção. Sem esse papo norte-americano de "lembre-se do Álamo" ou do heroísmo dos times de basquete e futebol que os filmes mostram. Mas parcerias. O lance de olhar no olho e ver um companheiro de luta, qualquer luta. Gente dividindo um sonho. Parece piegas, mas eu faço um trabalho que é coletivo.
Quando eu era pequeno, gostava de brincar sozinho com bonequinhos. Soldadinhos, super-heróis de plástico, playmobil (mais ou menos nessa ordem cronológica). Eu ficava inventando bases secretas, armando cenas com eles, e depois de tudo "pronto" era o trabalho de guardar na caixa de brinquedos.
Na biografia do Flávio Rangel, ele conta que na primeira peça que dirigiu ele pensou em toda a movimentação com soldadinhos de chumbo, porque o Adolfo Celli fazia isso. E eu me vi, com sete, oitos anos, brincando com meus bonequinhos.
Bom, hoje os bonequinhos são gente em escala real e não se brinca com eles. Espera-se deles que tenham parceria, que tenham propostas, que dividam um sonho e que não queiram apenas ser manipulados.
Chega de brincar sozinho.
Acho que o Pacino tem razão.
É muito mais fácil encontrar a saída do inferno em um time do que sozinho.
Mas o teu companheiro te dá motivação.
Não te carrega no colo, nem espera que você carregue ele.
Aos poucos vamos reagrupando o time.