Na mesma época em que minha avó começou a encolher, percebi que meu pai sempre se mantinha distanciado do assunto, tanto quanto minha mãe.
Quando ela já estava tão pequena que tivemos que trocar a cama do quarto de visitas por uma caixa de sapatos, ele simplesmente não aparecia. Como se se escondesse pela casa. Uma noite em que a avó estava conosco, dei boa noite à ela, fechando a tampa da caixa listrada da Adidas e sai do quarto para chorar. A avó não comentava nada sobre o fato de estar do tamanho de um filhote de boxer (seu rosto lembrava um boxer, por isso sempre imaginava que ela era um filhote especificamente dessa raça). A mãe havia me pedido - na verdade não havia me pedido, mas eu percebi desde a sopa que não se devia tocar no assunto - para jamais comentar algo a respeito com ela. Então eu chorava no corredor de casa, sem saber exatamente o porquê de me sentir triste, mas achava que havia um motivo. E chorava sentada no corredor, com a porta do quarto de hóspedes e a tampa da caixa fechados para ela não ouvir. Acho que meu medo era o dela ficar tão pequena que desaparecesse, ou ficasse microscópica, o que daria no mesmo.
De repente eu senti alguma coisa batendo em mim. E ouvi um "desculpe" vindo do nada. Aí a porta do quarto do pai se abriu sozinha e se fechou em seguida.
Minha avó encolhendo e meu pai invisível. Aí eu percebi que ele não estava "se ausentando", ele estava lá, só que não conseguia ver mais meu pai!
Corri até a estante de livros e achei uma história em quadrinhos do meu irmão: "O Homem Invisível". Folheei e compreendi o mais grave: ele estava andando nu pela casa. É, porque as roupas não ficam invisíveis. Só a pessoa. Então ele estava nu, ou seja: ele QUERIA estar invisível, senão podia ter se vestido da cabeça aos pés, com luvas, cachecol e chapéu, e óculos escuros. Seria estranho, mas seria visível.
Comecei a chorar mais forte. Se a avó estava encolhendo, o pai invisível, o que aconteceria depois? A mãe começar a levitar? Eu começar a ficar gigante? Meu irmão ganhar asas de pássaro - ou pior ainda, de morcego?
Deitei na cama e solucei baixinho. Acho que ouvi uma voz dizendo "calma, está tudo bem", mas nunca soube se era meu pai invisível ou um sonho. Só acordei no outro dia e fiquei dentro do quarto com medo da caixa da Adidas e da voz sem corpo do pai.
2 comentários:
Isso! Como já disse, pouco ou muito a escrever, mas com qualidade. Gostei muito. Continue...continue.
quero saber o que é isso, to gostando.
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