
Que me desculpem os críticos de arte que defendem a iniciativa do curador desta Bienal em deixar um andar do prédio vazio. Que me desculpem os blogueiros que já falaram sobre esse tema (a foto acima foi tirada de um blog que discute exatemente a mesma coisa, aliás dou crédito: http://www.lucianotrigo.blogspot.com), pode não haver nada de novo em falar sobre isso.
O Luciano - autor do blog citado aí em cima - defende a idéia do andar vazio na Bienal. Defende com argumentos, está bem informado, reflete a questão. Quem quiser dá uma passada pelo blog dele, vale a pena. Ele parece estar realmente próximo da discussão e coloca o fato sob um ponto de vista bem elaborado.
Queria falar sobre o vazio aqui na posição de leigo, ou quase leigo. Minha arte é o Teatro. Fui poucas vezes à Bienal. Minhas referências de arte contemporânea geralmente se dilatam na medida em que um projeto teatral pede novas referências. Uma arte alimentando a outra. Por isso não posso dizer que minha opinião é embasada no contexto de artistas, curadores, críticos - mas sim de público, mesmo. E público quase leigo.
Entendo a crítica de manter um andar vazio na Bienal. Mas acho uma pena. Ainda mais em se tratando de um país tão carente de arte e cultura, me parece quase um esnobismo, uma ação voltada para o próprio umbigo que vira as costas - e deixa o vazio - para o público e a sociedade. Sim, talvez a arte produzida já não comunique mais ou não esteja sintonizada com os valores desta sociedade, mas que ela possa ao menos criticar isso, questionar a referência apresentada, confrontar suas espectativas e valores com as representações.
Não consigo conceber uma mostra de literatura com livros em branco. Nem um festival de teatro onde os atores não entrem em cena, deixando o palco vazio. Ou uma mostra de cinema que exiba películas em branco. Mesmo no contexto de crítica ou denúncia.
Não consigo conceber uma Bienal - mesmo no contexto da crítica ou denúncia - que deixe um andar vazio. Que fizessem um catálogo mostrando o que gostariam de fazer e o que foi realizado. Com espaços vazios onde deveriam estar artistas e obras.
Acho essa iniciativa mais uma forma de afastar o público da arte. Mais uma forma de fazer com que o leigo acredite que a arte contemporânea é qualquer coisa mesmo. Mais uma maneira de demonstrar que no quesito formação de público, aproximação da arte e do cidadão ou mesmo de uma "ação pedagógica" (longe de ser paternalista ou algo assim) dane-se o visitante.
A "Bravo" enalteceu o aspecto positivo da Bienal, justamente tentando apontar característas contrárias ao que citei acima ("Uma Bienal para Você" - no link da bravo online, a matéria:
Mas se Arte exige coerência e é a etapa final de um processo filosófico e político, no que diz respeito à uma visão de mundo e de realidade, como lidar com essa incoerência?
"Uma Bienal para mim". Meio-vazia. Eu mereço meia-bienal.
Não dá para fazer uma visita monitorada ao prédio em outro momento, e ter uma bienal inteira para mim?




