quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Vazio


Que me desculpem os críticos de arte que defendem a iniciativa do curador desta Bienal em deixar um andar do prédio vazio. Que me desculpem os blogueiros que já falaram sobre esse tema (a foto acima foi tirada de um blog que discute exatemente a mesma coisa, aliás dou crédito: http://www.lucianotrigo.blogspot.com), pode não haver nada de novo em falar sobre isso.
O Luciano - autor do blog citado aí em cima - defende a idéia do andar vazio na Bienal. Defende com argumentos, está bem informado, reflete a questão. Quem quiser dá uma passada pelo blog dele, vale a pena. Ele parece estar realmente próximo da discussão e coloca o fato sob um ponto de vista bem elaborado.
Queria falar sobre o vazio aqui na posição de leigo, ou quase leigo. Minha arte é o Teatro. Fui poucas vezes à Bienal. Minhas referências de arte contemporânea geralmente se dilatam na medida em que um projeto teatral pede novas referências. Uma arte alimentando a outra. Por isso não posso dizer que minha opinião é embasada no contexto de artistas, curadores, críticos - mas sim de público, mesmo. E público quase leigo.
Entendo a crítica de manter um andar vazio na Bienal. Mas acho uma pena. Ainda mais em se tratando de um país tão carente de arte e cultura, me parece quase um esnobismo, uma ação voltada para o próprio umbigo que vira as costas - e deixa o vazio - para o público e a sociedade. Sim, talvez a arte produzida já não comunique mais ou não esteja sintonizada com os valores desta sociedade, mas que ela possa ao menos criticar isso, questionar a referência apresentada, confrontar suas espectativas e valores com as representações.
Não consigo conceber uma mostra de literatura com livros em branco. Nem um festival de teatro onde os atores não entrem em cena, deixando o palco vazio. Ou uma mostra de cinema que exiba películas em branco. Mesmo no contexto de crítica ou denúncia.
Não consigo conceber uma Bienal - mesmo no contexto da crítica ou denúncia - que deixe um andar vazio. Que fizessem um catálogo mostrando o que gostariam de fazer e o que foi realizado. Com espaços vazios onde deveriam estar artistas e obras.
Acho essa iniciativa mais uma forma de afastar o público da arte. Mais uma forma de fazer com que o leigo acredite que a arte contemporânea é qualquer coisa mesmo. Mais uma maneira de demonstrar que no quesito formação de público, aproximação da arte e do cidadão ou mesmo de uma "ação pedagógica" (longe de ser paternalista ou algo assim) dane-se o visitante.
A "Bravo" enalteceu o aspecto positivo da Bienal, justamente tentando apontar característas contrárias ao que citei acima ("Uma Bienal para Você" - no link da bravo online, a matéria:
Mas se Arte exige coerência e é a etapa final de um processo filosófico e político, no que diz respeito à uma visão de mundo e de realidade, como lidar com essa incoerência?
"Uma Bienal para mim". Meio-vazia. Eu mereço meia-bienal.
Não dá para fazer uma visita monitorada ao prédio em outro momento, e ter uma bienal inteira para mim?

terça-feira, 28 de outubro de 2008

O teatro. E o Teatro.


Aí está ele. Nossa melhor definição de "palco italiano".
Fugimos dele. Queremos a arena, o espaço alternativo, os galpões, a proximidade não estratificada socialmente com o público.
Fugimos dele porque achamos que é velho, ultrapassado talvez.
Porque cheira a Ibsen e Tchekov, porque cheira a ópera do final do século XIX.
Porque é habitado por fantasmas que cantam à noite, porque tem lugares mais baratos porque a visão é prejudicada, porque ao invés de campanhia tem como sinais as luzes que enfraquecem e voltam, em resistência.

O teatro municipal e o Teatro. O edifício e a Arte.
Mas tem um momento onde tudo se encontra. O palco italiano não é a única forma de dizer o que se quer dizer. Mas pode ser uma das formas, ainda hoje. E não precisamos fugir.

Teatro é bom quando se tem amigos. É possível fazer amigos no Teatro, mas é perigoso querer fazer Teatro com amigos, no sentido de inverter a ordem das coisas. Tenho excelentes amigos que fiz no Teatro e que hoje não trabalham mais comigo. Porque percebemos que nossa praia era outra e, longe de desconsiderar o trabalho de um ou de outro, descobrimos que o melhor lugar para desenvolver nossa amizade não era no palco.

Tenho excelentes pessoas a minha volta que trabalham muito bem comigo em cena. Mas que não saímos para tomar cerveja. E a parceria é boa. Talvez nossa amizade flua mais em sala de ensaio que fora dela. Tudo bem também. Melhor, talvez - pensando no Teatro. Como se o Teatro fosse uma família. Tem irmãos, primos, tios, pais, mães, etc. Naquele almoço de família, nem sempre é com a sua mãe ou com seu irmão que o assunto corre melhor. E a conversa é mais interessante as vezes com os primos distantes que com aqueles que você vê todo dia.

O problema não é o palco italiano. Ele foi usado tanto por Stanislavski quanto por Brecht. Por Copeau e por Bob Wilson. O problema é que pensamos e o que queremos fazer com ele. Não necessariamente ele guarda uma visão de mundo. Não é o processo colaborativo nem o espaço alternativo que farão do trabalho algo renovador. É em como encaramos o Teatro.

Para que estamos ali?
O Teatro é necessário?
Eu sou necessário para ele?

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

parte dois, primeiro ato

Sexta-feira, primeira parte da segunda etapa da prova - concurso para Orientador de Arte Dramática.

Lá estamos nós. Dos cento e poucos inscritos, restam trinta e oito. E desses, oito não aparecem e quatro - pelo que consta - chegam atrasados e não podem entrar. Pelo vidro da porta vemos colegas esbaforidos chegando menos de cinco minutos atrasados e serem barrados. Não sei o quanto cada um ali apostou nisso, pôs suas fichas na possibilidade de uma nova carreira, mas é frustrante. No mínimo. E apesar das justificativas todas, da necessidade de não abrir precedentes, etc, fica aquele gostinho das "pequenas autoridades" no ar...
Entre o "jeitinho" e a exceção possível e humana, deve haver um caminho... Um meio termo possível.

Não, minha voz não se levantou. Menos por covardia que pela certeza da inutilidade do gesto. Traria apenas a sensação de que quis cometer um ato de heroísmo. Exibição.
Mas ficou ecoando aqui.

Prova interessante - um tanto subjetiva, não dá para saber se se foi bem ou não.
Perfil? Que perfil, se não se sabe ao certo as atribuições e o que se espera desse cargo?
Sabe-se lá. Tomara que não esperem gritos. Esse falhou.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Uma questão metafísica - o sentido da vida

("eu acho que algumas vezes eu busco o sentido nos lugares errados...")

Enfim, estava eu numa aula falando sobre Dialética e para explicar, busquei seu contraponto, a metafísica. Uma prega que não existem  valores ou coisas imutáveis e que a essência do universo e da realidade é a transformação. A outra diz que existem coisas perenes, que sempre foram e sempre serão - Deus, por exemplo.

As implicações políticas são claras: assumir valores perenes pode servir para a estagnação, para justificar diferenças sociais e econômicas, preconceitos, rótulos e interesses de um determinado grupo, classe ou pessoa. Por isso a birra dos marxistas com a religião. Até aí, tudo certo. A religião - não é de hoje - sempre foi usada como forma de dominação. Pena.

Mas a questão que se coloca é a seguinte.
Vamos assumir que as coisas não possuem um sentido. Que a realidade não precisa e não tem um sentido maior mesmo, e que tudo isso aqui é obra do acaso. Possível? Sim, cientificamente falando é possível, ou pelo menos, para alguém que possui informações científicas que ficam no plano do leigo, parece até provável. Um olhar racional sobre a vida, dialético, desprovido de metafísica.

O problema não é lógico, é ontológico.
O que chamamos de "vida", em suas diversas formas, possui por definição o desejo de se perpetuar e o desejo de sobrevivência. A barata corre. O fungo se multiplica. O vírus hiberna na tumba do faraó para mil anos depois ajudar a difundir a idéia de "maldição". Sobrevivência. O instinto sexual se associa ao prazer para estimular a espécie a copular. Insetos não deixam de fazer sexo mesmo sabendo que a fêmea matará o macho depois - se não "sabem", devem desconfiar pelo menos... E por aí vai. 

Se a "vida" não faz sentido, porquê esse instindo em preservá-la? Os seres vivos, mero acaso da natureza, poderiam apenas surgir e desaparecer, sem luta ou desejo de seguir adiante, sem colocar um valor especial à consciência, deixando-se voltar ao nada, simplesmente. Que o Homem tenha medo da morte e não deseje, ok. Mas a barata aqui na cozinha sair correndo quando eu acendo a luz e o fungo que um dia cresceu na madeira debaixo da pia por causa do vazamento querer se espalhar pela casa é um pouco estranho.

Pensando nas baratas, eu gostaria mesmo que a vida não tivesse sentido e que elas não ligassem quando a gente pisa ou aplica detefon. Mas esse instinto de sobrevivência que faz a vida lutar a todo custo para prosseguir - não apenas o indivíduo, mas a espécie - me parece as vezes muito incoerente com a simples ausência de sentido...

Mas tudo bem. Deixemos a metafísica associada às baratas com o Kafka.
Boa quarta-feira. 

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Sobrenatural parte 2

Não, esta imagem não suscita nada de sobrenatural mesmo.
Mas olhe com atenção. A velhinha à esquerda, não parece com aquela que te pediu para ajudá-la a atravessar a rua porque não enxergava direito?
O policial que segura o cacetete, com tantos outros que direcionam o seu olhar justamente para quem não parece oferecer risco - no caso, o camarada lendo - ao invés de inibir o delito iminente?
O sujeito de mala que cruza com a mulher boazuda - com certeza olhará para trás depois que ela passar por ele. Até a campanha "Vá ao Teatro" aparece aí. A diferença é que o homem de chapeu parece interessado.

Mas existe um componente interessante nisso tudo, o quanto não damos mais bola para o cotidiano. Os pequenos momentos que passam por nós, que de tão naturais não são dignos de atenção. Os pequenos encontros, especialmente os possíveis que não saem do universo do "quase", pela falta de atenção que damos. A falta de atenção.

Já se falou muito sobre "efeito borboleta" e coisas assim. E acho que esses dias eu mesmo citei o Garcia Márquez aqui, com o "é a vida, mais do que a morte, a que não tem limites". Pois esse é componente sobrenatural. Acho que foi Santo Agostinho que disse que o "sobrenatural não é o que é contra a natureza, mas sim contra o que conhecemos da natureza", ou algo assim.

E os fantasmas e espíritos e alienígenas e energias e deuses se transformam na brisa e no movimento do vento e das borboletas que não paramos para enxergar mas que nos tocam, de alguma forma.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Piazentin e o sobrenatural


Dentre as coisas que mais me chamavam a atenção na aurora da minha vida, na minha infância querida que os anos não trazem mais está tudo o que pode ser ligado ao sobrenatural. Eu achava o máximo as histórias de fantasmas, civilizações perdidas, mistérios do além e afins.
Eu lia "Kripta", colecionei "As Ciências Proibidas", lia tudo do Papus, tive uns três baralhos de tarot diferentes, fiz a "brincadeira do copo" (oui-ja, e deu certo!), tive sonhos premunitórios e no quesito esquisitices só não vi fantasmas nem seres extra-terrestres.
Ficava pensando se há algo depois da morte, no sentido da vida e nas possibilidades de contato com o além. Aos doze anos mais ou menos escrevia em um bloco considerações sobre as pirâmides do Egito, a reencarnação e a possibilidade quase certa dos ETs. terem feito os moais da ilha de Páscoa e o Stonehenge. Fui em um Centro Espírita, frequentei a Igreja Presbiteriana e vi gente receber santo.
Bom, depois de um tempo dá uma certa preguiça. Por um lado porque a vida cotidiana e pé no chão começa a exigir outras coisas de você. Por outro, porque existe uma certa humildade, acho, numa postura um pouco agnóstica - se existe algo "sobrenatural", por definição você não compreende mesmo, já que nem a natureza a gente consegue compreender, quanto mais o que está acima dela... Então, cuidemos daquilo que podemos tentar entender e vamos torcer para que o que está acima de nós tenha paciência com a nossa humana ignorância.
Outra coisa que dá preguiça é aquela aura de misticismo que cerca quase tudo o que poderia ser estudado e discutido com mais seriedade. Ou a suposta seriedade de pensamentos que partem de uma lógica até razoável mas resumem tudo a um ponto de vista superficial e tolo, no estilo "O Segredo" (quero uma Ferrari... quero uma Ferrari... quero uma Ferrari... Opa, olha ela na minha porta!)... Uma roupagem holística para um tipo de preocupação capitalista e consumista ao extremo. Parece que o velho xamã que fazia truques para encantar sua tribo ainda está escondidinho, pronto para saltar e dar um show em troca do assombro e se possível de doações dos fiéis, palestras pagas a peso de ouro, prestígio, etc...
Depois escrevo mais sobre isso.
Não, não vi fantasma essa noite.
Por que resolvi falar sobre isso? Sei lá.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Tango e afins


... aí eu chego no restaurante: o começo de uma noite boa, e bem engraçada pela situação inusitada...


no meio da conversa, que termina no assunto Filosofia, voltam as lembranças da FFLCH e dos três semestres em que teimei, com 18 anos, a fazer o curso que deveria ser proibido a qualquer um com menos de 40 anos.


Aos 18, aos vinte e poucos anos, você finge que tem idéias pronfundas sobre a vida, o mundo, etc... Você pode ter bom senso, sim, mas desculpe-me, ainda está na fase do "ouvi o galo cantar e achei razoável repetir". Isso não é uma acusação às tantas pessoas inteligentes e sensíveis que conheço dessa faixa etária, mas bancar uma faculdade de Filosofia na adolescência - ou recém saído dela - é no mínimo um desperdício.

Da mesma forma quando entrei em Artes Cênicas, aos 24 anos, percebi que naquele momento estaria aproveitando bem mais o curso do que com 17, 18... Que dirá Filosofia.

Há exceções, claro que há... Mas fica mais fácil o equilíbrio entre o ideal e o possível, a utopia e o concretizável, entre o sonho e a realidade, quando se viveu um pouco mais, quando se passou por um punhado a mais de problemas, quando se teve que pagar as próprias contas no final do mês, quando se vivenciou perdas e conquistas na prática mesmo. E quando os arroubos juvenis de genialidade e crença de que se vai "fazer a diferença" vão sendo substituídos pelo simples prazer de querer fazer seu trabalho bem feito, o melhor possível, tendo a noção de que o mundo é vasto, é grande, de que tem muita gente dentro dele e de que ser "o melhor", "o mais isso", "o mais aquilo" é preocupação ingênua. E aquele chavão de que devemos querer superar a nós a mesmos é bem próximo da realidade sim...


Outra coisa: é muito estimulante conhecer pessoas que voltaram à faculdade aos 40, 50 anos... Essa disposição de se re-inventar, de aproveitar esse momento da vida adulta para voltar a estudar, como um investimento em si próprio, não como a busca - muitas vezes precoce - de definir uma carreira, uma profissão para "a vida toda". Quem sabe, aos 35, eu não engrosso a fileira dos "tiozinhos"?


"Beeeeeeeeeeeeem capaz", como diriam no Sul.