- Você sabia que o Fábio Júnior vem sempre nesse bar?
- Como assim?
- É, toda vez que ele fica deprimido ele vem pra cá, carregando uma pilha de discos que ele gravou e fica sentado ali naquele cato, abraçado com os discos.
- Mas ele gravou disco suficiente para fazer uma pilha?
- Acho que sim. Se bem que podem ter uns repetidos.
- Vai ver que encalhou.
- Ele é mesmo pai da Cléo Perez?
- Cléo Pires.
- Não era com a Glória Perez que ele foi casado?
- Glória Pires.
- Ah. Mas a Cléo Pires é filha dele mesmo?
- Claro que é! Quem você queria que fosse filha dele?
- Sei lá. A Sandy Júnior.
- É sério que ele vem sempre aqui?
- Quase sempre.
- Melhor a gente ir embora.
- Então vamos.
- Vamos.
(Eles não se movem. Entra um homem com uma pilha de discos embaixo do braço.)
- Boa noite, seu Fábio.
(O homem não responde.)
"Gregor rastejou um pouco mais e colocou a cabeça o mais perto possível da porta, para que seus olhares se encontrassem. Será que ele não passava de um animal, embora a música o emocionasse tanto? Parecia que ela lhe abria um caminho rumo a um alimento desconhecido pelo qual ele tanto ansiava."
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Texto, discurso, futebol e vôlei.
Voltar a ensaiar depois de uma pausa de um mês é sempre uma redescoberta. E um reencontro com vários problemas que vem e vão.
O texto. Mesmo quando ele é um elemento fundamental, ele é "um" elemento fundamental. Não é ele que justifica - sozinho - o meu "estar em cena". Senão é apenas um discurso, com o ator se escondendo por detrás dele, quando talvez o ideal fosse o oposto: deixe o texto ficar atrás de você.
Às vezes tenho a impressão de que montar um espetáculo é inventar um jogo onde todos estão, antes de qualquer coisa, criando juntos as regras, para depois conseguirem jogar bem. Entender as regras do jogo é o fundamental, o resto é "treino".
O complicado é entrar em um campo de futebol querendo jogar vôlei...
Mas nem tudo está perdido: as bolas são redondas, em ambos os casos. Lembrar sempre: "pé" diferente de "mão", "pé" diferente de "mão"...
O texto. Mesmo quando ele é um elemento fundamental, ele é "um" elemento fundamental. Não é ele que justifica - sozinho - o meu "estar em cena". Senão é apenas um discurso, com o ator se escondendo por detrás dele, quando talvez o ideal fosse o oposto: deixe o texto ficar atrás de você.
Às vezes tenho a impressão de que montar um espetáculo é inventar um jogo onde todos estão, antes de qualquer coisa, criando juntos as regras, para depois conseguirem jogar bem. Entender as regras do jogo é o fundamental, o resto é "treino".
O complicado é entrar em um campo de futebol querendo jogar vôlei...
Mas nem tudo está perdido: as bolas são redondas, em ambos os casos. Lembrar sempre: "pé" diferente de "mão", "pé" diferente de "mão"...
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Marcha para Zenturo no CCSP

Que coisa boa uma noite de estréia lotada!
Estava todo mundo lá. Se procurasse com calma, acho que o Bin Laden e o Belquior deviam estar também. Só não sei se eles pagam meia ou se tinham convites.
O resultado da parceria do XIX com o Espanca é belo.
Questões? Algumas, mas nada que tire o mérito da montagem. E sempre emocionante ver o trabalho do Lubi - mesma geração né - indo para frente.
Uma montagem de "sucesso" pode ser um acaso de sorte.
Mas depois do Hysteria o XIX mais que provou que está aí pra ficar.
Muita merda sempre!
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Quando a avó começou a encolher
Quando eu tinha nove anos comecei a perceber que a minha avó estava encolhendo. Foi numa tarde de abril. Acho que era abril porque era sempre em abril que ela passava férias conosco, desde que o meu avô morreu. Ela sempre aparecia uma semana antes da data e ficava lá até o final do mês. Na tarde da minha memória minha avó voltou do cemitério e parou do lado da porta do meu quarto. Acho que ela já não estava triste. Só me olhou e deu um sorriso. No batente dessa porta ela marcava a minha altura, para ver se eu tinha crescido na vez seguinte em que fosse em casa. O que ela não sabia é que eu também media a altura dela, reparando na diferença entre a marca que ela fazia no batente e o topo da sua cabeça.
No começo eu achei que era porque o cabelo estivesse ficando branco, o que poderia dificultar uma análise que era completamente visual. Mas depois percebi que ela ia, aos poucos, se nivelando com as marcas que tinha feito para mim. Inclusive com as mais antigas.
Uma vez estava jantando com minha mãe na cozinha, dias depois da avó ter voltado para a casa dela. Comíamos em silêncio quando eu falei:
- A vó está diminuindo.
Minha mãe parou o movimento da colher até a boca no ar - a sopa ainda pingou lentamente no prato - me olhou e disse:
- Tome a sua sopa, Francine.
Minha mãe nunca me chamou de Francine antes que eu completasse quinze anos. Não assim, no dia a dia. Informalmente. Eu era sempre a Fran, só Fran. Não sei se eu gostava de ser chamada assim, porque na escola eu era a Framboesa, a “Fran” de chocolate, quando queriam me elogiar falavam que eu era “frantástica”. Mas o fato é que ela só me chamava de Francine quando estava brava comigo.
- Mas é verdade!
- Francine, chega.
“Francine chega” era algo bem rude. Ela me olhou, fixando os olhos em mim como quem dizia “não fale mais nada senão eu jogo esse prato de sopa na sua cara enquanto ele ainda está bem quente para além da humilhação você ter uma queimadura do segundo, terceiro grau se possível” e só desviou os olhos de mim quando eu já estava convencida de que era melhor ficar quieta, o que demorou uns sete segundos que pareceram a eternidade. Abaixamos as cabeças ao mesmo tempo e começamos a tomar nossas sopas com as colheres ritmadas. Alguém que entrasse na cozinha naquela hora iria achar que era uma cena combinada.
No começo eu achei que era porque o cabelo estivesse ficando branco, o que poderia dificultar uma análise que era completamente visual. Mas depois percebi que ela ia, aos poucos, se nivelando com as marcas que tinha feito para mim. Inclusive com as mais antigas.
Uma vez estava jantando com minha mãe na cozinha, dias depois da avó ter voltado para a casa dela. Comíamos em silêncio quando eu falei:
- A vó está diminuindo.
Minha mãe parou o movimento da colher até a boca no ar - a sopa ainda pingou lentamente no prato - me olhou e disse:
- Tome a sua sopa, Francine.
Minha mãe nunca me chamou de Francine antes que eu completasse quinze anos. Não assim, no dia a dia. Informalmente. Eu era sempre a Fran, só Fran. Não sei se eu gostava de ser chamada assim, porque na escola eu era a Framboesa, a “Fran” de chocolate, quando queriam me elogiar falavam que eu era “frantástica”. Mas o fato é que ela só me chamava de Francine quando estava brava comigo.
- Mas é verdade!
- Francine, chega.
“Francine chega” era algo bem rude. Ela me olhou, fixando os olhos em mim como quem dizia “não fale mais nada senão eu jogo esse prato de sopa na sua cara enquanto ele ainda está bem quente para além da humilhação você ter uma queimadura do segundo, terceiro grau se possível” e só desviou os olhos de mim quando eu já estava convencida de que era melhor ficar quieta, o que demorou uns sete segundos que pareceram a eternidade. Abaixamos as cabeças ao mesmo tempo e começamos a tomar nossas sopas com as colheres ritmadas. Alguém que entrasse na cozinha naquela hora iria achar que era uma cena combinada.
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Posts em número decrescente
Quando eu criei esse blog eu tinha o projeto secreto de escrever um post por dia e para tentar chegar a 365 no ano, contando claro omissões que me faziam escrever mais de um por dia, às vezes. Hoje eu olho na página inicial e vejo que o número de vezes que publiquei alguma coisa só decaiu... Vamos refletir sobre isso?
Opção 1 - Tenho menos tempo.
Mentira.
Opção 2 - Tenho menos assunto.
Pode ser que sim. O que não significa que os assuntos postados antes eram de interesse geral da Nação.
Opção 3 - Passei a levar essa história de blog menos a sério.
Isso sim. Pelo menos não levo a sério o "desafio" de escrever 365 posts por ano.
Opção 4 - O Facebook dominou minha atenção.
Sem dúvida é um ponto a ser considerado.
Fazendo um apanhado das opções acima e considerando como elas se entrecruzam, resta analisar que o presente post é sobre a ausência crescente de posts. Mesmo com tempo, não levar tão a sério o próprio blog e ter menos assunto faz com que o Facebook seja mais atrativo, muitas vezes.
Opção 1 - Tenho menos tempo.
Mentira.
Opção 2 - Tenho menos assunto.
Pode ser que sim. O que não significa que os assuntos postados antes eram de interesse geral da Nação.
Opção 3 - Passei a levar essa história de blog menos a sério.
Isso sim. Pelo menos não levo a sério o "desafio" de escrever 365 posts por ano.
Opção 4 - O Facebook dominou minha atenção.
Sem dúvida é um ponto a ser considerado.
Fazendo um apanhado das opções acima e considerando como elas se entrecruzam, resta analisar que o presente post é sobre a ausência crescente de posts. Mesmo com tempo, não levar tão a sério o próprio blog e ter menos assunto faz com que o Facebook seja mais atrativo, muitas vezes.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Resta pouco a dizer

E começou a temporada teatral 2011. Sesc Consolação, "Resta Pouco a Dizer".
Bem, janeiro é um mês meio ingrato, mas vamos lá. Beckett sempre traz um pouco de curiosidade, no mínimo... Mas ao final resta realmente pouco a dizer.
É louvável, na minha opinião, uma visão menos "tradicional" de Beckett. O espetáculo associou à linguagem árida do autor uma estética "clean", provavelmente influência das artes plásticas e "leu" Beckett na fronteira com a performance. Justo. Havia humor. Justo. Nada pior do que um Beckett extremamente levado a sério, sisudo.
Mas apesar dessa apropriação do autor, da liberdade em tentar "lê-lo" de forma pessoal, o tédio veio. Na corda bamba entre o silêncio e o tédio, ele acabou prevalecendo. E nada menos Beckettiano que o tédio. Aliás nada menos teatral.
A insistência na repetição das performances de autoria dos próprios diretores intermeando as peças já começa a dar sinais de alerta na primeira delas, logo no início do espetáculo. Idéias interessantes que se esgarçam, não têm mais para onde ir e só dilatam a sensação de tempo.
Não é uma "Catástrofe" (nome da primeira das peças de Beckett utilizadas pela montagem) total, vale como uma referência outra do que se faz tradicionalmente. ]
Mas longe de ser imperdível. Vá com paciência. Não vá sem culpa.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Desejos de ano novo

Nesses primeiros dias de ano estava me recordando de algumas coisas que aconteceram na minha vida nos últimos anos. Aquele balanço rápido que todo mundo faz (ou acho que faz) no ano novo...
Uma das passagens mais significativas foi minha viagem para a Grécia em 2004.
Tudo tinha sido planejado para estar lá no final daquele ano, o que me daria tempo para trabalhar, estudar o grego e guardar dinheiro até a viagem. De repente, um e-mail do Attis Theatre (onde iria estagiar) me pede para estar lá em setembro. E a vida adiantava os planos e me dava uma rasteira. Em meio à expectativa positiva, incertezas quanto à como me manteria lá (não, não tive nenhuma bolsa da USP, apoio de consulado ou "paitrocínio"), como me comunicaria (o grego moderno não é das línguas mais fáceis) e tudo mais...
Eis que encontro um e-mail antigo, que o Cyro me enviou nesse período.
"Querido René
Em 1957 fui para Santos com amigos para tomar o navio ANA C para Lisboa. Meu terninho marron era da Renner e eu paguei só a primeira parcela e estava indo para a Europa não sabia por quanto tempo.
Entrei no navio com um branco em meu futuro. Mas com uma imortalidade na cabeça.
No navio fiquei “noivo” de uma alemã, mãe de meus primeiros cinco filhos. Como você já sabe casamo-nos em Atenas depois de 3 meses.
No navio havia um balcão de café e eu não tinha uma moeda. Em Portugal o amigo grego diretor de teatro me perguntou para onde eu queria ir e eu respondi pra Grécia. Ele me convidou para sua casa em Tessalônica. Ele já tinha um convidado, o Bruno, ator de um espetáculo que havíamos feito: Anfitrião de Plauto.
Eu era imortal.
Contei isso para o Vendramini e chegamos a seguinte conclusão: eram outros tempos.
Mas não sei. São outros tempos, mas naqueles tempos poucos fizeram o que fiz, quase ninguém.
Ainda disse ao Vendramini que se há qualquer possibilidade de você não agarrar essa chance pelos cabelos (como com a estátua OPORTUNIDADE da velha Grécia, aquela que tinha cabelos na frente e as costas completamente lisas) ...eu te mato.
Um professor de grego moderno você não conseguiu. Está aprendendo grego de gravação em cassetes. Está querendo se calçar antes de ir: Salário, mestrado, bolsas, implicações acadêmicas etc... São outros tempos. Mas eu acho que ainda há gente neste mundo on the road. Eu acho que te falta uma loucura. Você se questiona demais, afinal é só entrar no avião. Com grego sem grego, com salário ou sem salário, com bolsa ou sem bolsa, mas imortal. Você acredita mesmo que vão te deixar morrer de fome? Você não consegue sonhar com a impossibilidade de morrer ou passar mal?
Quando perguntaram a ele – RINGO _ como é que tinham feito tudo, ele respondeu:
Sempre dissemos SIM.
...)
Acho que é isso. O resto ninguém sabe o que será, mas será tão milagroso como tudo o mais.
Eu te mato, italiano!!!
Abraço do Cyro."
Ele tinha razão.
Que em 2011 possamos ser mais imortais.
E acreditar no maravilhoso da vida, mesmo quando ela quebra com os nossos cronogramas. E que a nossa loucura seja fértil. Sempre.
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