sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Natal com Franz Kafka

"ANDRÉ
Acabou de ler “A Metamorfose” pela décima vez?

BETO
Não enche.

ANDRÉ
Sabe que eu acho que isso te faz mal?

BETO
Você me faz mal, André.

ANDRÉ
Daqui a pouco você reza para o Kafka.

BETO
Por que está falando isso?

ANDRÉ
Você reza já? Putz. Está pior do que eu pensava.

BETO
Eu te falei da vela?

ANDRÉ
Vela?

BETO
É. Toda vez que alguém me diz que vai para Praga eu peço para acender uma vela no
túmulo do Kafka.

ANDRÉ
Mas ele não era judeu?

BETO
Era. E daí?

ANDRÉ
Deixam acender velas em cemitérios ju-deus?

BETO
Não sei.

ANDRÉ
Acho que não.

BETO
Mas a Heloísa me disse que acendeu uma vela para mim quando ela foi lá.

ANDRÉ
Para ele.

BETO
É, para ele. Quer dizer, para mim, eu que pedi. Você entendeu.

ANDRÉ
E ela acendeu.

BETO
Disse que sim.

ANDRÉ
Acho que ela mentiu.

BETO
Você acha?

ANDRÉ
Vela em cemitério judeu? Acho que isso não existe.

BETO
Você é judeu?

ANDRÉ
Não.

BETO
Então você está supondo.

ANDRÉ
Tudo bem, não vem ao caso mesmo. Va-mos acreditar que a sua vela estava lá."

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

alguma coisa está errada ou de como evitar lugares perigosos



Segunda-feira, cerca de 14h e lá estava eu entrando na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Ainda pensei em dar uma espiada nos livros da parte de baixo, mas acabei decidindo subir logo para o mezanino e ver a parte de teatro. Mais uns quinze segundos e começa uma confusão ali dentro: primeiro a senhora chorando, depois a mulher pedindo pelo resgate e a frase "ele está com um traumatismo craniano" até a entrada dos policiais. Do meu ângulo, não conseguia ver o outro lado, escondido pelas prateleiras. Apenas imaginava o rapaz caído, imaginava o agressor sendo convencido a entregar sua arma (um facão? um taco de golfe? um taco de beisebol?), imaginava.
Só depois descobri, pela Folha Online, que o sujeito não conhecia o rapaz, que não havia motivação pessoal alguma: ele simplesmente entrou na loja com um taco de beisebol (sim, era isso mesmo) e escolheu aleatoriamente uma pessoa olhando os livros e pronto. Se eu tivesse mais tempo sobrando, certamente começaria olhando os livros de baixo. E poderia não estar escrevendo isso agora.

Alguém disse que a Praça Roosevelt é perigosa, depois do que aconteceu com o Bortolotto. A versão mais crível é a de que ele tentou reagir ao assalto. O rapaz da Livraria Cultura nem viu de onde partiu a pancada. Talvez um lugar onde ao menos temos a chance de não reagir seja mais seguro. De repente, uma livraria no centro da Paulista às 14h vira palco de uma situação mais bizarra que um bar às 5h30. Tudo isso no eixo Paulista-Consolação, muito, muito longe de outros lugares onde o bicho pega mesmo... Onde estamos seguros? Que idiotice pensar em "segurança" como uma garantia da nossa classe média em poder andar por aí. O que espanta é a loucura. A gratuidade.

Por via das dúvidas:

- Nunca entre em uma livraria desacompanhado às 14h;
- Desconfie de quem andar portando tacos de beisebol fora de um estádio destinado a esse esporte;
- Comece sua vida a qualquer loja sempre do andar mais alto para o mais baixo, jamais o oposto;
- Cuidado com metáforas e citações, como "Atire no Dramaturgo": as pessoas levam ao pé da letra;
- Sempre que ouvir alguém chorando corra no sentido oposto;

A outra opção é continuar vivendo com a aceitação do acaso. Nada é certo, nada é lógico necessariamente, nada é definitivo. Dizer sim à vida, com tudo o que ela tem de horrível e de Belo, é o único jeito.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Levando Ibsen para passear...



Vamos dar uma volta por aí nos próximos 4 anos?

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Sentindo-se velho

"Nossa! Você tem o Em Busca de um Teatro Pobre do Grotowski? Como você conseguiu?"
"Comprei, ué."
"Num sebo?"
"Não, na época."

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O semestre se encaminha para o final...

...levando o ano junto e nem por isso aprendemos a evitar alguns erros.
Nessas horas percebemos como as promessas de ano novo - que todo mundo faz, mesmo que não explicite nem assuma - são ilusórias...

Mas tudo bem. Mais uns dias e teremos um ano novinho em folha, tudo recomeça, seremos pessoas diferentes e o mundo será melhor.

Obviamente foi irônico, só para não restar dúvidas.

Em tempo:

Mário Bortolotto está respirando sem ajuda de aparelhos. Um alívio. Uma vida que fica fora de perigo e um dramaturgo razoável (não, não é genial, duvido que ele mesmo ache isso) que se salva de ser heroicizado... Com todo respeito, 2010 com toda a obra do Bortolotto em cartaz pela cidade, homenagens, etc seria terrível... Deixa o cara vivo, na dele, fazendo o teatro dele, que tudo bem. Sem matar ninguém nem colocar no altar, por favor.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

OZ



Último dia de "OZ", hoje.
Trabalhar livremente a partir do material de "O Mágico de Oz", sem a preocupação em ser fiel à história nem a contá-la em detalhes foi muito prazeiroso. E a trilha resgata um pouco da adolescência - não da Dorothy, minha, afinal ela não ouvia Pink Floyd - e dá um sabor de "volta para a casa" no sentido de um reencontro com o próprio passado...
Afinal, "não há lugar como o nosso lar"...

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Atiraram no Dramaturgo

É no mínimo irônico lembrar que o blog do Mário Bortolotto chama-se "Atire no Dramaturgo". Teria algum psicopata de plantão acessado o site e levado a sério o "convite" ao ato? Não. Longe de um roteiro B de filme americano de ação (apesar de assim ter sido descrita a tentativa de assalto ao Parlapatões, por uma das atrizes presentes) o que aconteceu foi apenas mais uma página da vida em São Paulo.
Na periferia e mesmo no centro coisas assim acontecem todos os dias. Piores. Virou manchete por ser o Bortolotto. Por ser a Prça Roosevelt, por ser Parlapatões. Mas o que assusta nisso tudo?

Primeiro porque talvez exista um lado romântico - meu pelo menos - em achar que o teatro só seja "palco" para a violência no sentido literal, dela debatida e discutida em cena. Gente sendo baleada dentro de um teatro - ainda que seja no bar do teatro, mesmo assim - é algo estranho. Quererem assaltar um teatro é algo estranho.

É triste ver a Praça Roosevelt, tão cantada pelo seu renascimento de uns dez ou quinze anos para cá, com a chegada dos teatros e da revitalização, ser palco - de novo o palco - para coisas assim.

Mário Bortolotto tem jeito truculento. Às 5h30 devia estar nada sóbrio. Parece que enfrentou os assaltantes com frases como "Vocês não vão assaltar ninguém" e "Vai atirar? Atira!"... Para falar a verdade nunca fui muito fã dele.

Mas respeito seu trabalho. Pelo menos é coerente. Persiste. Traça um caminho próprio. A total escassez de dramaturgos faz com que muita gente passe a mão na cabeça do primeiro que escreve uma peça e conhece um jornalista. Ele certamente não estava nesse grupo.

Mário, fique bem, logo.
E por via das dúvidas, muda o nome do blog.